Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > AGÊNCIA DE NOTÍCIAS

Hora de redefinir os papéis

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS

Adalberto Wodianer Marcondes (*)

As agências de notícias nasceram praticamente junto com os jornais para realizar coberturas à distância para veículos que, normalmente, não poderiam enviar ou manter correspondentes em diversos lugares do mundo. Podemos dizer que o primeiro correspondente estrangeiro que pisou no Brasil foi Pero Vaz de Caminha, autor da famosa primeira carta. As agências tiveram, até o final do século 20, um papel determinante na circulação de informações por todo o planeta. Seus correspondentes cobriram conflitos, eventos esportivos ou culturais, criaram vínculos entre países e foram uma forte alavanca da globalização do conhecimento.

No entanto, neste século 21, qual é a função de uma agência de notícias? Muitas estão buscando na comunicação corporativa novos modelos e mercados. Grandes agências estão cada vez mais se afastando de seus clientes tradicionais, os jornais, a mídia impressa, para dedicarem-se a mercados mais restritos e promissores, onde a informação tem um valor maior do que aquele que pode ser pago por mídias em crise. Jornais e revistas não representam mais o centro das atenções quando se trata de agência de notícias.

O caminho empresarial distancia as agências de notícias de suas funções originais, que eraM dar sustentação editorial a clientes jornais e revistas. Estes clientes tradicionais vivem hoje uma profunda crise financeira e de gestão. Por isto deixam de ser interessantes do ponto de vista econômico para as agências de notícias. No entanto, talvez o melhor caminho para as agências não seja abandonar simplesmente estes clientes à própria sorte, mas ampliar seu leque de responsabilidades em relação a estes clientes.

Isto significa ampliar a oferta de serviços para as empresas editoriais, saindo do puro fornecimento de conteúdo e passando a atuar de forma mais abrangente, com oferta de cursos, consultorias, análises setoriais e formação de profissionais para a gestão de empresas jornalísticas. Desta maneira as agências deixam de ser simples agências de notícias e passam a desempenhar o papel de agências de mídia.

Multiplicando o saber de gestão das empresas jornalísticas podemos garantir mais do que simplesmente o cliente, que estará mais apto a comprar serviços editoriais da própria agência, mas também estaremos ampliando o potencial de desenvolvimento alavancado por uma rede de mídias competentes e distribuidoras de conhecimento.

A comunicação e a transmissão de conhecimento para a sociedade está na base dos processos de transformação que podem oferecer ganhos qualitativos para a sociedade. No entanto, este processo está sofrendo de excessiva concentração na televisão e em poucos diários e revistas de grande tiragem. As mídias regionais, jornais e emissoras de rádio, padecem de males múltiplos, na maioria das vezes relacionados à pouca experiência na gestão de meios de comunicação e à crônica falta de recursos.

Essas mídias, no caso brasileiro, eram até o final da última década o principal mercado das agências de notícias. Agora, em crise, estão sendo abandonadas em função de outros mercados mais atraentes do ponto de vista financeiro. As agências de notícias estão abandonando seu mercado e possivelmente muitos jornais vão quebrar nos próximos meses ou anos.

A gestão das empresas de comunicação em geral precisa ser reformulada. As agências, transformadas em agências de mídia, podem ser centrais de formação, debate e planejamento de um novo modelo de gestão para empresas jornalísticas. Além disto, podem ser foco de um novo modelo de relacionamento com as agências de publicidade, que são as empresas encarregadas de irrigar o mercado editorial com recursos.

Não podemos chegar ainda à idéia de uma incubadora de mídias, mas podemos aspirar uma estrutura empresarial capaz de oferecer os recursos de conhecimento necessários para que centenas de empresas jornalísticas em todo o Brasil possam se reestruturar dentro de padrões modernos de gestão empresarial e com conteúdos editoriais que agreguem conhecimento e valor às suas comunidades.

Uma agência de mídia deve ser mais do que uma agência de notícias. Deve estar antecipando tendências e mercados e atuando no fortalecimento não apenas editorial, mas também profissional e de gestão de seus clientes. Deve ser a vanguarda na transformação do modelo arcaico de gestão familiar da imprensa brasileira para um modelo empresarial competente, forte e com grande capacidade editorial e jornalística.

(*) Jornalista, diretor da agência Envolverde <www.envolverde.com.br>, editor do projeto de comunicação ambiental da ONU Terramérica e coordenador da Ecomídias ? Associação Brasileira de Mídias Ambientais

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