Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > b)

Hora de trocar o espetáculo

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

GRAMPOS, DENUNCISMO, FUROR POLÍTICO

A Editora Três, que edita IstoÉ, foi acusada de participar das mamatas na Sudam, a mesma instituição que encheu as burras da família Barbalho, no Pará. A contestação da editora foi pífia e não dissipou as suspeitas [veja remissão abaixo]. Sequer foi publicada na edição seguinte da sua principal publicação (IstoÉ, n? 1663). Os acusadores comportam-se com a mesma leviandade e arrogância dos acusados e isto é muito ruim para quem deseja obter transparência. À justiça não interessa a probidade de denunciantes, mas se é para liquidar a corrupção conviria que todas as suspeitas fossem esclarecidas.

Agora, uma perícia da Polícia Federal e da Comissão de Ética do Senado na última arapongagem divulgada pela IstoÉ indica que não houve a tal conversa entre o deputado estadual amazonense Mário Frota e o empresário David Benayon a respeito de propinas. Aparentemente, alguém imitou a voz do deputado. Jader Barbalho, o acusado, deve lavrar um ponto nesta questão, o primeiro em muito tempo [veja remissão abaixo para detalhes sobre o caso].

Confirma-se o que este Observador vem dizendo sobre o "jornalismo fiteiro" e que outros denominaram "epidemia de grampos": a denúncia inconsistente desmoraliza o denunciador e dá alento ao denunciado. Pior: ajuda a criar um clima de banalização que neutraliza e amortece acusações posteriores. Mesmo quando fundamentadas.

A comercialização e distribuição de fitas com gravações ilegais, assim como sua transcrição sem o amparo de investigações mais profundas, acabou ricocheteando na própria imprensa convertida em mero veículo de interesses contrariados, em geral escusos. A indústria de grampos só prosperou porque havia clientes dispostos a comprá-los. Denúncias como a do "Dossiê Cayman" só puderam ser fabricadas (a um custo altíssimo) porque havia a certeza de que o investimento traria enorme margem de lucro: a mídia publicaria tudo com o maior destaque e o menor empenho investigativo. A repercussão no mercado financeiro, se foi vantajosa para os autores e mentores da falcatrua, também deve ter sido para aqueles que sabiam como e quando a "bomba" seria publicada.

O frenesi fiteiro e o delírio denuncista compõem um dos capítulos menos edificantes da história do jornalismo brasileiro contemporâneo. Comprometeu a lisura da imprensa, maculou sua credibilidade e, sobretudo, permitiu caronas desabonadoras que contaminaram outros poderes e instituições. Não foram poucos os que na ânsia de se beneficiarem dos holofotes da mídia ? ou por vaidade ou por messianismo político ? acabaram extrapolando suas funções e ajudando a criar um clima de paranóia extremamente pernicioso ao Estado de Direito.

O depoimento do ex-presidente do Banco Central Chico Lopes (O Globo, domingo, 12/8, pág. 33) contém detalhes novos sobre o que aconteceu com os bancos Marka e FonteCidam, mas o que interessa a este Observatório é a afirmação de que os procuradores do Ministério Público entraram em sua casa em busca de documentos acompanhados por um cinegrafista. Se fosse um fotógrafo seria compreensível (para reproduzir imediatamente todos os papéis), mas a presença do cameraman denota motivações exibicionistas e mediáticas. Que, na ocasião, nada acrescentaram àquela incursão e, neste momento, só a prejudicam.

Os mesmos ingredientes aparecem no episódio de 19 de fevereiro, a mãe de todos os grampos. A gravação da conversa entre o senador ACM e membros do Ministério Público federal, em Brasília, não foi clandestina porque o parlamentar baiano não apenas sabia que estava sendo gravado como queria que assim fosse. Sua intenção era ser "arapongado" porque um discurso no Senado ? mesmo envolto em clima de suspense e expectativa ? jamais teria a mesma repercussão.

"Grampo" é palavra mágica que mesmeriza a maioria dos jornalistas brasileiros, sepulta cautelas e escrúpulos. Os principais veículos do país transcreveriam o teor das fitas, simultaneamente e na íntegra. O que não aconteceria com um pronunciamento no Senado. Tratando-se de denúncia falada não exigiria a exibição de provas ou documentos. E como ACM adivinhava que os interlocutores queriam acusações para depois ir atrás das provas ? como tem sido a praxe ? estava certo do sucesso da operação.

Só não contava com a sua própria paranóia e incontinência verbal. Acabou denunciando-se, o resto é conhecido. Mas o desgaste do Ministério Público no episódio ainda não foi suficientemente avaliado: em primeiro lugar porque alienou um patrimônio público ? as informações contidas no grampo ? a uma empresa comercial (a editora do semanário escolhido para divulgá-las com exclusividade). Mas principalmente porque atrelou um poder novo ? o MP ? até então envolvido por uma aura de simpatia e credibilidade, aos velhos mecanismos do caudilhismo político associado à panfletagem jornalística.

Além da eliminação de Jader Barbalho do Senado ? favas contadas ?, a imprensa brasileira tem diante dela pelo menos duas magnas tarefas:
a)
conduzir-se com isenção e equilíbrio num pleito presidencial que promete ser renhido; e,
b)
engajar-se nas iniciativas saneadoras ora em curso na Câmara Federal e Tribunais de Contas.

Se o espetáculo é inevitável, conviria que mudasse de estilo.


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