Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >   TV BRASILEIRA / HISTÓRIA

Ignácio de Loyola Brandão

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

INTERNET & PRIVACIDADE

“Breves assuntos do cotidiano”, copyright O Estado de S. Paulo, 16/01/04

“Anos 70. Eu era editor da revista Planeta. Uma tarde, uma mulher se apresentou, queria discutir alguns temas comigo. Vamos ver o que ela tem a dizer, reclamei enfastiado. Ela começou a falar e duas horas depois eu queria que continuasse. Era uma mulher fascinante, de grande cultura, inteligente, ligada em tudo e dominava como ninguém o mundo dos universos paralelos, civilizações desaparecidas, seres extraterrenos, parapsicologia e etc. Ela terminou sendo a mais assídua colaboradora na revista. Saí de lá, ela continuou. É dona Elsie Dubugras que agora em março faz 100 anos. E todos os dias vai à redação trabalhar.

Dia desses, liguei a televisão e Marília Gabriela estava entrevistando José Celso Martinez Corrêa, o homem do Oficina. Cabelos brancos, barba branca enorme caindo sobre o peito, o Zé Celso me impressionou pela postura. Porque ele interpreta o Antônio Conselheiro, de Canudos, e tornou-se realmente o Conselheiro. Tenho uma admiração enorme pelo Zé. Não por ser um amigo de infância, um dos poucos daquela época que mantêm ligação comigo. Minha admiração é pelo sonho do Zé que nunca se extingue. Que não cede. Não cai.

Não é destruído por nada. Um sonho cheio de fantasia, imaginação, idealismo, pureza, amor ao teatro. Sonho de ferro, se sonhos de ferro existem. Quero seguir pela vida como ele, acreditando no que faço, sofrendo pelo que faço, amando o que faço, mesmo sob pressão, mesmo sendo traído por amigos, como fui recentemente.

A certa altura, o Zé, que tem por São Paulo a mesma paixão que eu, disse:

?Acontece que esta é uma cidade feia. Ao longo de sua história, os homens que nos governaram nos destruíram. Também nós ajudamos. Mais do que feia, São Paulo é uma cidade embrutecida e que terminou cruel. Vivemos nesta cidade e vivemos com dor, sem conviver com a beleza, a calma, o prazer.?

Esta é uma reflexão para estas comemorações: o embrutecimento da cidade.

Porque agora fica todo mundo louvando, elogiando, todo mundo vaselina, sem atentar para aquilo em que São Paulo se transformou, um monstrengo disforme, talvez a mais feia das capitais brasileiras. É muito triste!

Mudo de assunto: encontrei um amigo deprimido. Estava terminando de ler em uma revista de grande circulação a entrevista do editor da Playboy, o americano Hugh Heffner, e estava abismado como o homem não têm nada a dizer, é oco e vazio e parece não ter entendido os tempos, a história, as mudanças do mundo nestes 50 anos de Playboy. O mundo foi um agito só, teve os Beatles, Mary Quant, o Vietnã, Elvis Presley, Brigitte Bardot, Woodstock, Joan Baez, Cuba, a queda do Muro de Berlim, a globalização e o homem continua a falar de mulheres peladas aos 77 anos.

Mas, essa não era a questão principal. O que irritava meu amigo era o tempo que ele perde em deletar e-mails inúteis e descobrir que nada menos de 16 mensagens diziam respeito às gêmeas filhas do apresentador Gugu Liberato, aquele que em seu programa falsifica informações jornalísticas. Os 16 e-mails ocupavam espaço para dizer que as meninas passam bem. Ótimo, mas que interesse eu tenho no Gugu e em suas filhas?, perguntava o homem. Nenhum.

Ou, no máximo, dizia ele, basta saber que as meninas nasceram ainda que não soubesse o que fazer com tal informação.

Outros e-mails propunham: você precisa emagrecer 15 quilos. Além da ordem peremptória vinham as indicações do que fazer. Claro, inscrever-se em uma clínica, um spa, algo semelhante. Mas quem disse a esse senhor que preciso emagrecer 15 quilos? , questionava o amigo, perplexo. Ele viu fotos? Onde?

Logo ele, um low-profile que nunca teve uma foto publicada em parte nenhuma.

Adianta deletar tais e-mails?

Acima de tudo, no entanto, meu amigo estava preocupado. Tinha recebido um e-mail em inglês, da Irlanda, dizendo que determinado banco descobrira uma conta de 20 milhões de dólares inativa. Pesquisaram e chegaram à conclusão que o homem que tinha aberto a conta morrera há alguns anos. E que nenhum herdeiro solicitara resgate. O e-mail propunha ao meu amigo que se apresentasse ao banco como herdeiro, segundo um processo que estava montado e ele poderia receber os 20 milhões. Só que deveria deixar com o emissário do e-mail 15 milhões de dólares. Parece muito, mas pense, dizia a desconhecida alma bondosa, que você estará pondo a mão em 5 milhões sem o mínimo trabalho. O amigo assustou-se, sem saber que tipo de golpe era esse e deletou, imediatamente, a mensagem, ficando com uma dúvida que considera agradável: Teria ele chutado 5 milhões de dólares? Que coragem! E se fosse uma grande tramóia e ele acabasse na prisão? Consolou-se e costuma repetir com orgulho: sou o homem que desprezou 5 milhões de dólares.”

“Fardas e pijamas no maravilhoso mundo virtual”, copyright O Estado de S. Paulo, 14/01/04

“Os militares contribuíram para o crescimento da internet brasileira no ano passado. E da forma mais simples e direta que se possa imaginar: acessando. Entre todos os usuários da web, são eles, os militares, que detêm a liderança em tempo de permanência na rede e na quantidade de páginas visitadas mensalmente.

A diferença é grande. O pessoal da caserna chega a ficar 58% mais tempo conectado à internet do que um professor universitário ou um estudante em período integral. Aliás, em 2003 dedicaram mais tempo à internet do que qualquer outro usuário.

De acordo com os relatórios de audiência do Ibope NetRatings (www.ibope.com.br), o internauta brasileiro terminou o ano com um tempo médio mensal de conexão da ordem de 23 horas e 30 minutos. Significa dizer que um dia inteiro do mês foi gasto com a internet. E utilizou esse tempo para consultar ou bisbilhotar 750 páginas diferentes.

Um estudante em período integral, que representa a maior parcela de usuários da internet brasileira (18,8% do total), ficou conectado 26 horas e 18 minutos e navegou por 875 páginas diferentes. Números que não se distanciam muito da média brasileira.

Já os usuários que ocupam funções ou tarefas militares gastaram 41 horas e 30 minutos navegando em 1.186 páginas diferentes no mesmo período, um recorde não apenas de tempo de conexão, mas também de sites visitados.

Navegaram mais porque passaram mais tempo conectado ou passaram mais tempo conectado porque consultaram mais páginas? Infelizmente não dá para saber a resposta.

Mas antes que alguém relacione tamanha disposição militar para as atividades do mouse a uma suposta monotonia dos quartéis, é preciso esclarecer: os números do Ibope NetRatings medem exclusivamente a audiência doméstica da web. Logo, os militares não estavam ?de serviço? e não tiveram a produtividade comprometida pelas maravilhas do mundo virtual. A não ser que na outra ponta estivesse presente um outro militar. Mas isso seria apenas especulação.

Na parte de baixo da tabela, outra curiosidade: pilotos e comissários de bordo são os internautas que passam menos tempo livre navegando pela internet. Em novembro, de acordo com o mesmo Ibope NetRating, esses profissionais ficaram ?apenas? 10 horas e 40 minutos online e visitaram em média 243 páginas diferentes na internet.

Na comparação entre as faixas etárias, os números revelam um empate técnico entre a turma dos 21 aos 24 anos e entre os 25 e 34 anos, ambos com cerca de 28 horas e 30 minutos de navegação mensal. Mas os ligeiramente mais jovens parecem mais rápidos ou mais dispersivos no ambiente digital, pois com o mesmo tempo conseguiram acessar 25% mais páginas diferentes do que o pessoal mais velhinho.

Surpreendente mesmo foi o desempenho online do pessoal da terceira idade: homens com mais de 65 anos passaram 35 horas e 18 minutos por mês conectados à internet, a melhor performance na web brasileira por faixa etária. Em situação completamente oposta, as mulheres acima de 65 anos dedicaram apenas 8 horas e 36 minutos por mês diante do computador – o segundo menor tempo por faixa etária, à frente apenas da garotada dos 6 anos aos 11 anos, que dispensaram em novembro 7 horas e 30 minutos de sua preciosa atenção ao universo web.

Uma outra comparação, que não chega a surpreender: os usuários casados gastam mais dinheiro no mundo virtual do que os solteiros. Proporcionam mais negócios online e aproveitam melhor as vantagens da internet em relação aos shoppings reais, segundo a mesma Nielsen NetRatings, embora com números específicos para o mercado americano (www.nielsen-netratings.com).

Solteiros navegam mais e em um número maior de endereços. Casados são mais comportados e raramente dão uma escapadinha – freqüentam sempre os mesmos sites, em geral, relacionados às atividades familiares. Seis entre os dez endereços mais visitados no ano passado tinham a família como tema central.

Entre os itens mais comprados por essa fatia dos usuários aparecem utensílios para a própria casa, incluindo artigos de jardinagem, remédios, brinquedos e cartuchos para videogames.

Já os solteiros concentram suas atenções na rede em sites de entretenimento e serviços financeiros. Também compram softwares e preferem games de computadores e CDs de música. Sites de encontros estão entre os preferidos dos singles – sete entre os dez endereços mais visitados por eles promovem e estimulam variadas formas de relacionamentos. Nem um pouco diferente do que ocorre no mundo real, não é mesmo?”

 

TV BRASILEIRA / HISTÓRIA

“Falha técnica quase adiou a estréia da televisão”, copyright Folha de S. Paulo, 13/01/04

“Estava tudo programado para a noite de estréia: festa no Jockey Club, presença do governador e até mesmo missa celebrada pelo bispo. Só não esperavam que uma das duas únicas câmeras existentes no Brasil quebrasse poucas horas antes de ter início a primeira transmissão da TV brasileira, em 18 de setembro de 1950.

?Foi o maior pânico. O técnico que veio dos EUA para acompanhar a estréia pediu que cancelassem a transmissão. O risco de acabar em um tremendo fiasco era grande, mas o diretor Cassiano Gabus Mendes disse que não, que tinha de continuar de qualquer jeito?, conta a atriz Vida Alves, 75, que presenciou a cena dos bastidores da TV Tupi.

E foi assim, de improviso, com uma só câmera, que o programa de variedades ?TV na Taba? entrou ao vivo no ar, e deu-se início às transmissões da TV brasileira.

Apresentado por Homero Silva, ?TV na Taba? contou com a participação de Lima Duarte, Hebe Camargo, Mazzaropi, Ciccilo, Lia Aguiar, Vadeco, Ivon Cury, Lolita Rodrigues, Wilma Bentivegna, Aurélio Campos, do jogador Baltazar e da orquestra de George Henri.

?Ninguém tinha a menor idéia do que seria uma transmissão de TV até então, muito menos o que era o conceito ?ao vivo?. A gente achava que daria para espiar as atrizes nos camarotes?, lembra a animada Vida, que hoje preside o Museu da TV Brasileira.

Grávida de oito meses, Vida não protagonizou o primeiro programa porque ?seria muito deselegante aparecer com aquele barrigão naquela época?. Mas também não deixou de comparecer na TV Tupi no dia. ?Fiz questão, sabia que presenciaria um momento histórico?, diz ela, que um ano mais tarde protagonizaria, junto com o ator Walter Forster (1917-1996), o primeiro beijo na TV brasileira, na novela ?Sua Vida me Pertence?, de 1951.

Todo o equipamento, fabricado pela RCA, havia sido importado dos EUA por Assis Chateaubriand, dono do grupo Diário Associados e da TV Tupi. Quando o material chegou a Santos, em 25 de março, uma comitiva das rádios Tupi e Difusora foi ao porto receber a parafernália, trazendo-a para um desfile no centro da capital.

Depois dos EUA, Inglaterra e França, o Brasil seria o quarto país do mundo a ter uma transmissora de televisão. ?Era a grande sensação, estávamos na vanguarda, e o Brasil todo ficou curioso em relação à novidade.?

A transmissão aconteceu de um estúdio montado na avenida Alfonso Bovero, onde funciona atualmente a MTV. Uma outra antena de retransmissão foi instalada no prédio Altino Arantes (onde hoje fica o Banespa, no centro de São Paulo).

Como não havia aparelhos de televisão, Chateaubriand mandou importar 200 televisores e os espalhou em lugares públicos para que as pessoas pudessem acompanhar a transmissão. O Jockey Club e o saguão do prédio da Diários Associados, na rua Sete de Abril, foram alguns dos locais escolhidos para se instalar os aparelhos públicos.

Mas o maior problema ainda estava por vir. ?Quando acabou a transmissão, que durou pouco mais de uma hora, o Cassiano perguntou: ?E amanhã, o que a gente vai passar??. Esse era o problema, ninguém havia pensado no dia seguinte?, lembra Vida, aos risos. A solução foi buscar, em universidades e bibliotecas, filmes educativos para as transmissões, que passaram a acontecer diariamente das 18h às 23h.”

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