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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > LULA PRESIDENTE / ELEIÇÕES 2002

Ilimar Franco e Ricardo Galhardo

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

LULA PRESIDENTE / ELEIÇÕES 2002

“Na Globo, Lula e Serra fazem o último debate”, copyright O Globo, 25/10/02

“Enquanto o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, participava de cinco reuniões preparatórias para o debate de hoje à noite na Rede Globo, o petista Luiz Inácio Lula da Silva passava a maior parte do dia ontem gravando para o horário eleitoral gratuito ao lado de colaboradores e funcionários de seu comitê de campanha. No fim da tarde, Lula se reuniu com assessores para revisar pontos que serão abordados no debate, que começa às 21h40m.

Duas das sessões promovidas por Serra – uma delas realizada ontem à tarde e outra no início da noite de anteontem – foram de simulação do debate tal como ele vai ocorrer no estúdio da emissora no Rio, respondendo a perguntas de eleitores indecisos. Os tucanos preferiam um debate em que os candidatos fizessem perguntas um para o outro. Mas chegaram à conclusão de que as regras vão permitir o exercício do contraditório e a comparação entre os dois candidatos.

– É uma pena que vamos ter apenas um debate, mas é melhor que nenhum. Poderemos comparar idéias e propostas, face a face. O debate não serve só para avaliar problemas ou para que candidatos façam afirmações que não podem ser discutidas- disse Serra.

Durante a simulação do debate, os publicitários Nizan Guanaes e Nelson Biondi e a coordenadora de eventos Bia Aydar deram conselhos ao candidato sobre a melhor postura e como ele deveria se movimentar no estúdio. A principal recomendação foi a que Serra procurasse ser o mais natural possível e passasse para os eleitores uma imagem de tranqüilidade. O candidato também teve reuniões temáticas: a realizada ontem à tarde foi ao ar livre porque Serra pediu para tomar sol.

Sentados em cadeiras que foram levadas para um jardim que fica na frente do prédio da produtora Teleimage, participaram dessa reunião sete assessores e a mulher do candidato, Mônica Serra. Esses encontros temáticos foram subsidiados por 20 relatórios preparados pela assessoria e que abordam os temas que podem ser levantados no debate.

A assessoria do tucano informou que Serra não fará ataques pessoais, não aplicará pegadinhas e nem qualquer acusação contra a honra de Lula. Mesmo que o tucano seja eventualmente duro contra seu adversário, o planejamento de sua presença no debate não estabelece como prioridade desconstruir Lula ou apontar seus defeitos.

Depois de ter atacado o governo petista gaúcho na propaganda eleitoral para o segundo turno, os tucanos chegaram à conclusão de que Lula não está sendo atingido por críticas.

– As críticas que tiverem de ser feitas estarão dentro dos comentários e das respostas do candidato – afirmou o publicitário Nelson Biondi.

A estratégia do núcleo de marketing da campanha prevê que o debate deve servir para que o candidato consolide uma imagem positiva junto ao eleitorado e preserve o eleitorado que conquistou no primeiro turno, 19,7 milhões de votos, e os cerca de dez milhões que as pesquisas mostram que foram agregados por Serra no segundo turno.

Lula mostra mais descontração

Já o petista Luiz Inácio Lula da Silva só começou a se preparar para o debate por volta das 17h de ontem. De manhã, o petista gravou cenas para o horário eleitoral gratuito no estúdio de uma produtora, na Vila Mariana. Da produtora, ele foi diretamente para um hotel, também na Vila Mariana, onde almoçou com o comando da campanha.

No apartamento, Lula demonstrava mais descontração do que nos debates anteriores. Os motivos são a liderança folgada mostrada pelas pesquisas de opinião e o formato do programa, que reduz a chance de embate direto entre os candidatos.

Lula se limitou a repassar números – considerados seu ponto fraco – e a responder a algumas perguntas sobre os 20 temas sugeridos pela emissora. Participaram da preparação o publicitário Duda Mendonça; o presidente do PT, José Dirceu; o coordenador do programa de governo, Antonio Palocci; e os integrantes da coordenação da campanha Luiz Gushiken, José Graziano e Gilberto Carvalho.

– Temos que levar a campanha até o último minuto respeitando o adversário. Mas nós acreditamos que não há nada novo que se possa fazer – disse Palocci. (colaborou: Flávio Freire)”

“Indecisos guardados a sete chaves”, copyright O Globo, 25/10/02

“O recrutamento dos 50 eleitores indecisos que farão as perguntas para Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra no debate de hoje na Rede Globo foi digno de Big Brother. Eles foram selecionados pelo Ibope e pela PricewaterhouseCoopers em todo o país, sem interferência da emissora. Precisavam saber ler e escrever, não ser filiados a partidos nem ter parentesco ou amizade com os candidatos. Através de técnicas de pesquisa, foram eliminados aqueles com propensão ao exibicionismo e interessados em fama.

Os escolhidos estão hospedados num hotel do Rio sem telefone no quarto e sem celular. Se quiserem falar com algum parente, terão que fazê-lo na presença de um auditor, fora do quarto.

Todos esses cuidados são para que eles não possam ser influenciados. A Price está acompanhando todo o processo, desde a seleção dos eleitores, escolhidos a partir dos indecisos ouvidos pelo Ibope em pesquisas em vários estados. O papel da empresa é comprovar que a Rede Globo não teve contato algum com os eleitores e que não sabia quem eram até ontem, dia da elaboração das perguntas, atestando que a emissora não tentou influenciá-los, limitando-se a explicar as regras. Os eleitores assinarão uma declaração dizendo que não são ligados a partidos nem participaram de campanhas.

Jornalistas selecionarão as melhores perguntas

Não haverá pergunta de candidato para candidato. Antes do debate, os jornalistas William Bonner, Carlos Henrique Schroder, Ali Kamel, Franklin Martins e Míriam Leitão selecionarão uma pergunta feita previamente por cada um dos eleitores indecisos a partir de temas como saúde, educaçccedil;ão e emprego. Cada um deles recebe de volta sua pergunta selecionada antes da entrada no estúdio. O mesmo grupo de jornalistas selecionará as 20 melhores perguntas, sem o conhecimento dos eleitores. Dessas, 16 serão sorteadas para serem respondidas, quatro em cada um dos quatro blocos do programa. Se o eleitor improvisar ou mudar a pergunta, o som de seu microfone será cortado.

O candidato previamente sorteado tem dois minutos para responder à pergunta. O outro candidato tem um minuto para comentar a resposta. O primeiro a responder tem mais um minuto de tréplica.

Além dos 50 indecisos, mais cem pessoas estarão na arena onde será realizado o último encontro entre Lula e Serra, mediado por William Bonner: 50 convidados da Rede Globo, 15 convidados e dez assessores de cada um dos candidatos. Os candidatos terão total liberdade para se movimentar. Pela primeira vez, será usada uma câmera com plano geral, que permite focalizar todo o ambiente.

Negociação com candidatos começou no primeiro turno

As negociações para a realização desse último debate entre os candidatos começaram a ser feitas pela Rede Globo em abril, com os quatro principais candidatos à Presidência. Uma nova reunião foi feita em 23 de agosto, confirmando o compromisso. No dia 14, representantes dos candidatos ao segundo turno assinaram, em São Paulo, um documento confirmando a presença deles no encontro.”

“Imagens e inclusão social”, copyright Jornal do Brasil, 29/10/02

“A criação de imagens brasileiras vai estar entre os desafios mais urgentes da política cultural do novo governo e é importante que se entenda de saída o que quer dizer isso.

Importante porque a expressão imagens brasileiras, ao contrário do que muitos possam imaginar, não quer dizer belas imagens do Pão de Açúcar ou do Pantanal. Remete até a imagens que podem ser muito feias. Mas que exprimem visões do Brasil por brasileiros e auxiliam a sociedade a enxergar melhor o seu país.

Para que tais imagens sejam feitas e cheguem aos espectadores, é necessário que existam tanto meios de produção quanto instâncias de reprodução para elas. Ambos estão em falta no país – e para resolver essa escassez é preciso uma política vigorosa mas sensata para o setor.

Não é tarefa fácil, porque existem muitas forças antagônicas em questão. E também porque esse é um jogo disputado em vários tabuleiros que aparentemente guardam pouca relação entre si: os tabuleiros do cinema, da televisão aberta, da TV por assinatura, das novas midia eletrônicas, entre vários outros. Para que uma ação seja eficiente, é necessário que todos esses campos de batalha sejam entendidos e harmonizados.

Uma providência urgente, por exemplo, é a regulamentação do artigo 221 da Constituição, garantindo a aterrissagem de uma produção regionalizada e plural à TV aberta. Outra, a revisão da lei do cabo, francamente insípida, que permite que mais de 200 canais estrangeiros releguem a produção local a menos de 1% das grades, e – absurdo dos absurdos – todos tenham prejuízo com isso: operadoras (entrando em estado concordatário), redes estrangeiras, produtores brasileiros e acima de tudo o público, que paga para financiar essas perdas às custas de seu próprio empobrecimento cultural.

A política do novo governo para o audiovisual vai ter uma oportunidade de ouro de acertar o passo entre o Ministério da Cultura e a Agencia Nacional de Cinema – que por enquanto responde à Presidência da República. Quando isso acontecer, os atuais mecanismos de financiamento dessas imagens – em particular as leis de incentivo fiscal – poderão ser aprimorados de modo a promover tão democraticamente quanto possível o aparecimento do Brasil nas telas brasileiras.

Até isso, que parece consensual, esconde grandes complicadores. Não são poucos, no novo governo, os que defendem a presença maior do Estado na decisão dos projetos a serem desenvolvidos pelas empresas privadas, sustentando que recursos decorrentes de renúncia fiscal pertencem tanto aos contribuintes quanto às empresas que os aplicam. Nas TVs, por outro lado, a liberdade de dispor das grades também se contrapõe ao compromisso social com a utilização de frequências que, também elas, constituem bem público.

São questões delicadas, cada uma das quais admite várias versões, todas verdadeiras. Alinhavá-las constituirá um bom primeiro passo para a compreensão da complexidade do problema que os arquitetos da política cultural de Lula terão pela frente. A inclusão social que essa política defende está umbilicalmente ligada ao direito do brasileiro de produzir e consumir suas próprias imagens. O desafio consiste em criar mecanismos consistentes para que isso seja feito.”

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