Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > SALA DE AULA

Imagem da mídia e a mitologia construída 

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

SALA DE AULA

Fábio Davidson (*)

O jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva escreve em um dos seus livros sobre o fenômeno da falecida princesa inglesa: "Diana viveu e morreu pela mídia. Nada mais justo do que a homenagem que esta lhe prestou. Os mitos desaparecem cedo. A velhice estraga as melhores imagens. Diana foi salva pela morte da aspereza do tempo. A imprensa poderá lembrá-la a cada data importante. O mito continuará a render com a passagem dos anos, a exemplo de Ayrton Senna. Mas este, ao contrário de Diana, tinha competência pessoal, a não ser que fosse apenas o usuário do melhor carro. Sabe-se que não é verdade. Jura-se".

Tablóides ingleses como o Mirror ou o Sun são exemplos de formadores de mitos e/ou exploradores dos mesmos. Porém também a chamada "imprensa séria" rende-se às matérias divulgadas pelos tablóides, mesmo que destaque que determinada matéria foi primeiramente divulgada nestes (mas não deixa de divulgá-la…). Foi o que constatou uma matéria veiculada pelo Instituto Gutenberg em 1997:


"Os leitores dos sérios e compenetrados grandes jornais do Brasil têm uma assinatura especial dos fofoqueiros tablóides da Inglaterra. Toda baixaria cometida pela imprensa marrom inglesa, sobretudo com a princesa Diana, é imediatamente alardeada aqui. ?Di e namorado consultam vidente, informa jornal?, estampou o Estadão (14/8) em manchete de seis colunas na página A18. O subtítulo era um primor do pastiche: ?Pelo sorriso na saída, a princesa parece ter gostado do que ouviu, conclui o Daily Mail?. A fofoca fica por conta dos tablóides. Os jornais sérios apenas noticiam a notícia da fofoca. A Folha, o Globo e o JB não ficam atrás".


Mas de onde surgiram os mitos? Em uma primeira análise, podemos nos lembrar dos deuses, semideuses, heróis e criaturas do mundo animal, usados para explicar por que o mundo é do jeito que é, principalmente aqueles fenômenos que eram mais complicados de entender. Na Grécia Antiga a mitologia aproximava-se da religião e influenciou toda uma região geográfica. Mais próximo dos nossos tempos, mesmo guardadas as devidas proporções à mitologia grega, podemos ver a formação de mitos no oeste americano do século 19. As histórias de "faroeste", com seus cowboys, índios, foras-da-lei e xerifes, foram (e ainda são) apresentadas no cinema e na televisão, fazendo de seus personagens e até dos atores que os interpretam, verdadeiros mitos.

Jornalismo & faturamento

Cabe aqui uma reflexão. Qual seria a diferença entre mito e ídolo? Acredito que o mito seja muito maior do que o ídolo, pois este último é objeto de paixão, veneração, por uma parcela (seus fãs), enquanto o mito transcende o local, com um alcance muito maior da sociedade.
Porém uma coisa é muito clara. Os meios de comunicação de massa têm um papel muito grande na formação dos mitos. Um exemplo mundial é o caso da princesa Diana. O jornalista Juremir acredita que Diana "foi resultado de uma boa estratégia de relações públicas para eliminar a imagem de frívola de uma princesa apática". Neste caso a mídia não só "fez" a imagem de Diana, como também, ao torná-la pública, passou a "alimentar-se" de tudo o que ela fazia. Sua morte foi o ápice do relacionamento imprensa ? público. Mesmo sem conhecê-la pessoalmente, pessoas no mundo todo choraram o trágico acidente que vitimou a (ex) princesa e até colocaram a culpa na mesma imprensa que diariamente dissecava o dia-a-dia de Lady Di aos ingleses e ao resto do mundo.

A opinião pública só vai dar destaque àquilo que é "colocado" na mídia. Os acontecimentos do cotidiano, que em nossa família, por exemplo, não dariam repercussão, podem ser transformados em "primeira página" quando acontecem com as personalidades (fabricadas ou não). Aliás, lembro-me aqui da famosa reportagem de Joel Silveira, "A 1.002? noite na Avenida Paulista", publicada originalmente no jornal Diretrizes em 1945, a respeito do casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Júnior (maior magnata da época), mesmo sem conseguir entrar na festa. O fechamento da matéria é esplêndido, quando o jornalista dá espaço para um humilde casamento de uma funcionária de uma das fábricas de Matarazzo com um torneiro mecânico. O contraponto entre pompa e circunstância de um e a simplicidade de outro. A pergunta da mãe da noiva ao repórter (que o levou a fazer esta "segunda" matéria) foi: "Moço, será que só a filha do Matarazzo tem o direito de ver o seu casamento noticiado pelos jornais? Gente pobre também não casa?"

Assistimos muitas vezes ao faturamento falar mais alto do que o verdadeiro jornalismo. Mas de quem seria a culpa? Daqueles que fabricam e superdimensionam fatos (mídia em geral e/ou seus profissionais) ou daqueles que consomem sem o mínimo "filtro" de bom senso e ainda tornam estes fatos centro das discussões na família, trabalho etc?

Exemplos de vida

Além do fenômeno "Diana", é clara a influência na mídia na formação e manutenção de personalidades como JFK, Marilyn Monroe, Michael Jackson, Tancredo Neves, Ayrton Senna e até, por que não, Mamonas Assassinas. Nota-se que os meios de comunicação são responsáveis pelo surgimento, ápice e, caso seja "necessário", pelo declínio, ostracismo e malhação dos seus "pupilos". O Brasil já viveu três experiências com o programa Big Brother, onde houve uma aparente tentativa na formação de mitos, porém estes não chegaram nem perto, duraram poucas semanas após o término do programa, só retornando à mídia com notas mínimas (ou sem roupa…).

Um exemplo da ação inescrupulosa da mídia está em um filme de 1951, A montanha dos sete abutres, estrelado por Kirk Douglas e que foi baseado no livro Trapped!, de Robert K. Murray e Roger W. Brucker, este inspirado em um acontecimento real. Em 30 de janeiro de 1925, no Estado de Kentucky, EUA, o camponês Floyd Collins, entrou na gruta Sand Cave e ficou preso em virtude de um desmoronamento. A instabilidade na gruta impedia que ele fosse retirado sem que houvesse mais desmoronamentos e, então, muitos curiosos começam a chegar ao local. Três dias depois, chega o jornalista Skeets Miller, do Courier Journal, que consegue ter acesso a Collins. O caso repercute em todo o país e mais de 1.200 jornais cobrem o caso. Miller acompanha toda a agonia de Collins, que ficou preso por mais de 18 dias mas não resistiu e morreu. Miller, que escrevia diariamente sobre Collins, ganhou com esta matéria o prêmio Pulitzer, um dos mais importantes prêmios jornalísticos americanos.

Retratado no filme através do jornalista Charles Tatum, este afirma no início: "Se não houver notícia, eu vou lá fora e mordo um cachorro", referência à célebre frase do jornalista americano Charles Anderson Dana (1819-1879): "Quando um cachorro morde uma pessoa, isto não é notícia. Mas quando uma pessoa morde um cachorro, isto é notícia". Ainda no filme, o jornalista Tatum passa a fazer de tudo para que o acidente transforme-se em uma tragédia sensacionalista, unindo-se ao xerife local e à esposa da vítima, para que juntos passem a explorar a situação, sem se importar com o sofrimento do comerciante. Creio que não há muita diferença entre esta conduta e o que assistimos nos telejornais dos fins de tarde e, mais recentemente, no programa Domingo Legal, protagonizado por Augusto (Gugu) Liberato, pelo chefe de jornalismo Wagner Mafezoli (com muitos anos de experiência na área jornalística) e por atores contratados se fazendo passar por integrantes de uma facção criminosa.

Um outro exemplo atual de mito é o jogador de futebol Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Além de ser considerado o melhor jogador de futebol, é considerado o melhor atleta, o mais honesto, superando-se a si mesmo e superando a todos. Tanto é verdade que o próprio "homem" Edson trata o "atleta" Pelé como uma terceira pessoa.

É indiscutível que uma sociedade precisa de mitos, exemplos de vida a serem admirados. Mas o que é discutível nos dias de hoje são os méritos daqueles que se tornam mitos e o que estes têm a "passar" para a sociedade. Quando Xuxa Meneghel, Michael Jackson ou lady Di tornam-se mitos de uma geração, é necessária uma ampla reflexão sobre como a sociedade pensa, age e critica aquilo que ouve, vê e lê. E também como tem sido a conduta ética dos meios de comunicação de massa.

(*) Estudante de Jornalismo da Uninove. E-mail: saxbr@ig.com.br

Referências

Silva, Juremir Machado da. A Miséria do Jornalismo Brasileiro ? As (in)certezas da mídia, 2000, Ed. Vozes.

Lady Vera, Instituto Gutenberg, Setembro-Outubro de 1997, in: http://www.igutenberg.org/vera18.html

Fuser, Igor (org.). A Arte da Reportagem, 1996, Editora Scritta, São Paulo.

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