Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > PALPITEIROS DE PLANTÃO

Imprensa, amor e crítica

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

PALPITEIROS DE PLANTÃO

Carlos Henrique Wencland Reiss (*)

Existem alguns episódios no meio jornalístico que me deixam bem irritado. Alguns deles surgem, sem dúvida, quando vejo pessoas falando da imprensa como se discutissem sobre futebol ou qualquer outro assunto que esteja impregnado de senso comum. Falar de mídia transformou-se, infelizmente, em senso comum, e isso é muito engraçado.

Quando estoura uma guerra no mundo, a do Iraque por exemplo, os jornais e as emissoras de televisão logo convidam especialistas em relações internacionais ou política internacional. No futebol, chamam ex-jogadores e ex-árbitros. Mas e quando o assunto principal é a tal “mídia”? O próprio caso da falsa entrevista veiculada pelo programa do Gugu mostra essa deficiência: parece não existir em nossos meios de comunicação uma preocupação mínima no que diz respeito à própria imprensa. Por que convidar um especialista para falar de guerra e não convidar outro para debater o próprio caso do Gugu, ética jornalística ou o raio que o parta? Cansei de ver advogados, médicos, psicólogos, cientistas políticos e tudo mais que possa existir falando sobre algum assunto em alguns desses telejornais. Por que não discutir a própria imprensa?

Com certeza alguém poderia argumentar que já existem publicações e programas especializados nesse tema. O Observatório da Imprensa, transmitido pelo canal TVE do Rio de Janeiro, é um exemplo dessa tentativa. Em Belo Horizonte, temos também algumas boas iniciativas, como o Mídia em Pauta, produzido pelos alunos de Comunicação Social da UFMG, e o programa do jornalista Mozahir Salomão na TV Horizonte. Mas não estou falando disso. Quero discutir o porquê desses debates não ocorrerem nos próprios telejornais convencionais, quando for o caso. Se um filho mata o pai e a mãe a pauladas por algum motivo, é batata. No dia seguinte os jornais estarão recheados de psicólogos, psiquiatras e psicos-não-sei-o-quê. Se os EUA atacam o Iraque, é uma enxurrada de cientistas políticos, analistas militares e especialistas em política internacional. Mas se acontece um grave deslize ético num programa de televisão, não vejo nenhum debate específico. É no mínimo estranho.

O peso do nome de Israel

Outra coisa que me deixa irritado algumas vezes é essa que convencionaram chamar de “mídia judaica”. Não tenho nada contra, muito pelo contrário. Faço até parte dela. O que me faz ficar bem nervoso é essa fixação permanente em defender Israel com unhas e dentes o tempo inteiro, seja lá o que aconteça. Se o primeiro-ministro Sharon comete uma daquelas loucuras insanas que está acostumado a ter e manda destruir algumas casas na Cisjordânia, logo aparecem nessas “mídias judaicas” um trilhão de versões sobre o que aconteceu “na verdade” e blablablá.

Eu adoro Israel. Aliás, eu amo Israel. Tenho uma identidade judaica muito forte, um sentimento sionista talvez mais forte ainda. Passei minha vida num movimento juvenil judaico e sionista; o Habonim Dror. Mas não sou bitolado. Sei enxergar quando Israel faz uma burrada. Aliás, de burrada lá está cheio. Defendo Israel, sim, mas com consciência. Sou a favor da criação de um Estado Palestino, sim, com fronteiras viáveis, sim. O terrorismo é um problema, sim, o Sharon é um louco, sim, o Arafat é um maníaco, também.

Mas o que é terrível não são nem as inúmeras versões que surgem do mesmo fato tentando limpar a cara de Israel. Isso é legítimo, cada um querendo vender seu peixe. É legítimo, é a guerra da propaganda. O pior mesmo é o tal do “anti-semita”. Fico furioso quando escuto que “essa reportagem é anti-semita”, “esse repórter é anti-semita”, “esse jornal é anti-semita”. Parece que existem pessoas que adoram rotular os outros de anti-semita. Para usarmos dessa denominação, é preciso um pouco de cautela. Anti-semitas temos, e aos montes. Na história tivemos uma porção deles: Voltaire, Wagner, Ford, Hitler, Saramago e por aí afora. Revisionistas do Holocausto e skinheads também existem, e uma pilha deles. Mas todo cuidado é pouco ao dizer que uma pessoa ou uma reportagem é anti-semita.

Se a revista Veja faz uma matéria criticando ferozmente o Ariel Sharon e defendendo a causa palestina, podemos acusá-la imediatamente de tudo, menos anti-semita. Pode ser imparcial, política, suja ou sei lá o quê. Mas anti-semita? Talvez seja, talvez não. É preciso uma análise mais cuidadosa para chegar a essa conclusão. Quem sabe cheguemos até a dizer que se trata de uma manifestação anti-semita, mas nunca antes de uma análise minuciosa.

Sabe o que acho que acontece? As pessoas têm medo de criticar Israel pelo risco que existe de serem tachadas de anti-semitas, o que seria nos dias de hoje um desastre para qualquer um. Não se pode emitir nenhuma opinião mais parcial a favor dos palestinos que a mídia judaica destaca, rotula, tacha. Isso me deixa com raiva. Anti-semitismo é hoje mais que um ato politicamente incorreto: é crime, como mostrou o julgamento do Castan. Por isso digo mais uma vez: todo cuidado é pouco.

Existe um jornalista israelense chamado David Bar-Illan, que foi editor-executivo do Jerusalem Post e também colunista e editorialista do jornal. Suas colunas e artigos foram publicados diversas vezes nos EUA, onde acabou dirigindo também um programa de TV a cabo americano. Escreveu o livro Eye on the media (1993), base de sua teoria. Ela se baseia principalmente na forte atitude de alerta quanto aos meios de comunicação. Sugere que temos como obrigação rebater todo tipo de artigo e notas hostis a Israel, além de parte da mídia internacional possuir de antemão certa repulsão contra os israelenses, ou seja, estará constantemente atacando o país.

Não preciso nem dizer que discordo. Quero dizer que, como judeu e agora jornalista, tenho consciência do meu papel dentro da mídia judaica. A imparcialidade e a objetividade, muitas vezes vistas apenas como rituais jornalísticos, são parte deste fazer. Quero, como judeu, poder defender ou criticar Israel quando quiser. Não quero ser pressionado, na mídia judaica, a defender Israel custe o que custar. Quero poder dizer “o povo judeu é maravilhoso” ou “Israel está também atravancando o processo de paz”. Por que não poderia dizer isso? Por que sou judeu? Não me venham com essa. Amo, mas também posso criticar construtivamente o que amo.

(*) Estudante do 8? período de Jornalismo (Comunicação Social) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), editor do jornal FISEMG News, da Federação Israelita do Estado de Minas Gerais.

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