Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO PARMALAT

Imprensa brasileira pecou por omissão

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

CASO PARMALAT

Giuliano Ventura (*)

A imprensa brasileira tomou conhecimento do escândalo da Parmalat via agências internacionais de notícias e, até poucos dias, basicamente reproduzia as informações apuradas pelos jornais italianos. No entanto, há um ano e meio o Valor Econômico noticiou indícios de fraude e operações escusas envolvendo a multinacional no Brasil.

Em junho de 2002, a Parmalat Brasil, em seu dever como companhia aberta, publicou um pequeno informe na Gazeta Mercantil comunicando que pretendia vender uma fábrica no Ceará a uma empresa chamada Carital. Na época eu trabalhava como repórter do Valor na cobertura do setor. Estranhei a operação, porque nunca tinha ouvido falar na compradora e fiquei atento pela importância da Parmalat no país. Há tempos Fernando Lopes, hoje editor do jornal, e Raquel Landim, minha antecessora na editoria de Agronegócios, estavam atentos à crise que afetava a companhia italiana e sua pesada reestruturação após uma saga compradora sem precedentes durante a década de 1990.

Parti então em busca de informações na junta comercial, coletei dados nos balanços da filial brasileira e da matriz italiana, telefonei para produtores de leite do Ceará e, para tirar a prova, fui até o endereço da Carital em São Paulo, sempre com a orientação de Fernando. Para encurtar a história (que está completa nos arquivos do Valor com os detalhes da operação), descobri indícios de que a Carital pertencia à própria Parmalat e tinha sede em paraíso fiscal.

A matéria mostrava que havia muita coisa confusa entre as duas. Sem acusações diretas, porque dependia de quebra de sigilo nas Ilhas Virgens Britânicas e nas Antilhas Holandesas para alcançar provas, listei fatos e contradições numa história que cheirava a fraude. A Parmalat informava à bolsa que pretendia vender uma fábrica a uma empresa totalmente desconhecida ? que poderia ser controlada por ela mesma ? ao mesmo tempo em que negociava a venda real dos ativos para seu antigo dono, o empresário cearense Luís Girão.

A reportagem também discorria sobre o cruzamento de empresas offshore que controlavam a Carital e revelava que seu presidente no Brasil, Fábio Diniz Appendino, era nada menos que o representante no país do Parma ? clube de futebol que é de propriedade da família Tanzi, a controladora da Parmalat. A publicação ocorreu no dia 22 de julho de 2002, após o aval de Carlos Eduardo Lins da Silva, diretor-adjunto do Valor. Ganhou chamada de capa e uma suíte dias depois para informar que o Ministério Público de São Paulo investigaria o caso.

Sem pressão da sociedade, dos investidores ou dos produtores de leite, que não ficaram sabendo de nada devido à falta de repercussão da matéria na imprensa, tudo foi esquecido em questão de dias. Justiça e imprensa na Itália também não foram alertadas. As conversas na editoria de que “isso acabaria em Enron” acabaram virando piada. Pouco tempo depois me desliguei do jornal e deixei de cobrir o setor.

O resto da história é hoje bem conhecido. Em depoimento recente à Justiça italiana, Gianfranco Bocchi, um dos contadores da multinacional, afirmou que a matriz enviou “um monte de dinheiro” dos desvios ao Brasil, que deveria ser procurado em duas empresas. Uma delas se chama Carital.

A falta que faz a concorrência de verdade

Mesmo com toda a relevância da Parmalat no cenário nacional (a segunda maior captadora de leite do país), imperou a lógica de não repercutir o furo alheio. Na cobertura de empresas, valeu a regra corrente de ignorar as investigações de outros veículos, em vez de correr atrás de novas informações para seguir com a apuração.

Obviamente este não é um caso isolado nem especial. É apenas um exemplo da falta de competição em reportagens investigativas na imprensa brasileira. Como o assunto está na ordem do dia, talvez seja bom rememorar esses fatos. Lembro que na mesma semana em que minha matéria foi publicada, a revista Veja trouxe denúncias sobre irregularidades na Bombril, controlada pela italiana Cirio e presidida na época por Gianni Grisendi, o italiano que poucos anos antes havia presidido a Parmalat em sua fase compradora. O restante da imprensa brasileira só foi investigar o caso quando as dificuldades da Cirio na Itália foram noticiadas na Europa.

O próprio Valor fez denúncias graves contra uma grande fabricantes de cigarros em 2002, que também foram esquecidas pela concorrência. A revista Carta Capital cansa de publicar reportagens quentes que são ignoradas por suas pares semanais. Parece que pautas assim só viram importantes para todos depois de ter saído algo na Economist.

Na faculdade de Jornalismo estudam-se as grandes coberturas da imprensa americana no Watergate ou nos célebres Papéis do Pentágono, documentos secretos que o governo dos Estados Unidos não queria ver divulgados. Esquece-se que tomaram tal importância porque, além do trabalho de investigação preliminar e coragem para afrontar interesses, os jornalistas foram incentivados pela concorrência construtiva entre os grandes jornais. Quando o Washington Post aparecia com um furo, a ordem no New York Times era correr atrás de novas informações.

A prática da omissão ainda dá margem a fatos peculiares. O presidente da Parmalat Brasil, Ricardo Gonçalves, afirma na última edição de Exame que foi surpreendido pelas notícias de fraude envolvendo a empresa. É, no mínimo, um caso de grande desatenção, visto que desde junho de 2002 sua assessoria de imprensa foi informada de que o Valor investigava as negociações que envolviam a Carital. Não faltaram pedidos de entrevista para que Gonçalves falasse se sabia ou não de algo. Ele preferiu não se pronunciar na época.

É como no célebre dilema entre noticiar ou não as dificuldades pelas quais passa um banco. Se a imprensa esperar até ficar evidente que a instituição vai quebrar, até ela deixar de honrar seus compromissos, corre o risco de ajudar só o banqueiro e seus amigos. Provavelmente, a essa altura, os grandes investidores terão retirado todo o seu dinheiro e os pequenos arcarão com os prejuízos.

Quando histórias que afetam muita gente (e grandes anunciantes) aparecem em algum veículo e a concorrência decide ignorá-las, os maiores prejudicados serão aqueles sem acesso à informação privilegiada. Desta vez, os produtores de leite, que de uma hora para outra ficaram sem recursos nem perspectivas, e os funcionários da Parmalat, que não sabem se terão emprego por muito tempo.

(*) Jornalista

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