Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > CAPTURA DE SADDAM

Imprensa, manipulação e patriotismo

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

CAPTURA DE SADDAM

Carlos Eduardo Pestana Magalhes (*)

O jornalista americano Thomas L. Friedman, do New York Times, parece estar nas nuvens, de felicidade, pela captura do ditador Saddam Hussein pelos militares ianques. O seu êxtase é tal que no texto “A hora da verdade” (O Estado de S. Paulo, pág. A 18, 18/12/03) ele tece grandes elogios aos “estadistas” Bush e Blair e desanca com o presidente francês Jacques Chirac. Ele não aceita a posição de Chirac de perdoar as dívidas do Iraque com a França, logo depois da captura de Saddam. Considera um oportunismo de marca maior até porque “Bush e Blair exageravam a verdade a fim de arriscar as próprias carreiras políticas para livrar-se de um ditador realmente terrível. E Chirac exagerava a verdade para promover a própria carreira política, protegendo um ditador realmente terrível”. O maniqueísmo simplista de Friedman elegeu dois mocinhos ? Bush e Blair ? e dois bandidos ? Saddam e Chirac. Incrível, não?

“A História também registrará que, enquanto os EUA e a Grã-Bretanha optaram por ser os acusadores de Saddam, a França escolheu ser seu advogado de defesa”. Então é assim. Os mocinhos são os promotores, os acusadores, e quem potencialmente venha a defender Saddam, no seu julgamento ? qual deles na verdade, o Histórico ou o dos Homens? ? acaba sendo um mau elemento, uma espécie de bandido. Má notícia para os advogados.

Além disso, Friedman, como é de seu costume, dá orientações ? afinal, ele é jornalista ou consultor político? ? de como resolver o problema do Iraque ocupado. “Não é só por causa da sombra de Saddam que a política iraquiana não tomou forma até agora. É também porque cada um dos grandes blocos ? os curdos, os sunitas e os xiitas ? vem impondo exigências maximalistas para o que acredita ser seu lugar merecido na formação e na administração de um novo Iraque… Arriscando as próprias carreiras políticas, George W. Bush e Tony Blair deram aos iraquianos, de fato, a dádiva da liberdade”.

Farsa eleitoral

Brincadeiras à parte, é impressionante como esta visão distorcida e infantil da invasão do Iraque permeia com facilidade certos círculos intelectuais e jornalísticos dos EUA. Além de continuar distorcendo os fatos, a mídia americana, inclusive o NYT que tantos insistem que se trata de um jornal “sério e imparcial” na questão do Iraque, continua manipulando e falseando as informações, tudo em nome de um patriotismo, também, infantil e perigoso. Os “EUA acima de tudo” lembra muito o lema usado na Alemanha nazista “Deutsch uber alle” (Alemanha acima de tudo).

Outro comportamento usual desses “analistas e jornalistas” é o uso abusivo e constante da História para justificar as ações políticas e militares do imperialismo americano no Iraque ou em qualquer parte do globo. Um bom exemplo é o próprio Saddam Hussein. O ditador iraquiano é sempre apresentado como uma besta humana, sanguinário, torturador, assassino etc. É o mal personificado. As “explicações e análises” focam somente a pessoa e suas
ações em determinado momento histórico e pronto. Seria como uma operação cirúrgica, onde o campo de ação do cirurgião é delimitado e bem marcado para que ele possa extirpar o tumor.

A História não é uma cirurgia. Ela é um processo com inúmeras variáveis se contrapondo, que formam um todo maior. Há determinações, mas elas estão interligadas nas próprias contradições que a História humana carrega. A escolha do método de análise da história é, também, uma escolha ideológica. Ao se privilegiar atores ? personalidades, líderes, dirigentes etc ? em detrimento das contradições entre grupos e classes, do contínuo processo histórico, delimita-se, isola-se determinado acontecimento de todo processo e com isso manipula-se os acontecimentos históricos. Foi assim que todos ditadores fizeram, desde um Josef Stálin, passando por Hitler e tantos outros que pululam a história da humanidade. Apesar de os EUA serem formalmente uma democracia liberal e de terem “eleito o presidente” Bush ? na verdade, a eleição de Bush foi uma farsa que tem sido
denunciada constantemente ?, essa maneira de escrever e analisar a história é muito comum no país.

Valores em baixa

O que une os EUA aos países totalitários do passado e do presente é a postura de conquistador, imperialista, de dominação que predomina na política externa ianque desde a guerra com a Espanha, no final do século 19. Esse conflito rendeu ao governo americano os territórios de Cuba e Porto Rico, no Caribe, e Filipinas e Guam, no Pacífico. Em maior ou menor grau, esse tem sido o foco maior da ação ianque no mundo. Constantes guerras de dominação e ocupação, sob as mais variadas justificativas, sendo que a mais utilizada tem sido a “defesa dos interesses americanos e a salvaguarda da democracia”. Há um projeto de EUA grande, único no mundo, forte, inexpugnável, um pouco parecido com os mil anos do terceiro Reich, anunciados pela camarilha nazista que tomou de assalto, vale dizer, também por eleição, o Reichstag (parlamento) alemão, durante a República de Waimar. Não é uma comparação histórica, apenas uma lembrança.

No caso da invasão do Iraque, quase nunca são citado os reais motivos que levaram a essa intervenção e ocupação político-militar. Friedman não foge à regra. Para ele, a ação americana é meritória ao levar a “democracia americana” para os atrasados muçulmanos árabes. Tal qual o movimento de catequização dos jesuítas nas Américas, que pretendiam expandir a religião católica pelo Novo Mundo. E sob essa justificativa, aconteceu de fato, a
dominação colonial dos países europeus sobre as novas terras conquistadas. Além de ser uma postura etnocêntrica [etno+centrismo ? Tendência do homem para menosprezar sociedades ou povos, cujos costumes divergem dos da sua própria sociedade ou povo. Disposição habitual de julgar povos ou grupos estrangeiros pelos padrões e práticas de sua própria cultura ou grupo étnico], ela tenta disfarçar, ideologicamente, os objetivos imperialistas dos EUA, independentemente dos governantes ou do partido político (democrata ou republicano) que está no poder.

O uso deliberado da mídia na manipulação das informações, no mundo de hoje, não tem sido mais privilégio dos regimes políticos totalitários. Já é possível esse tipo de manejo da informação em qualquer tipo de Estado. Valores como ética, responsabilidade social e equilíbrio na imprensa estão cada vez mais em baixa. O controle político-econômico-militar da informação tem sido a tônica nos países. E os EUA de hoje, com Bush e CIA, têm sido o melhor exemplo dessa nova prática.

(*) Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem