Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Imprensa, pragmatismo e xenofobia

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98

MONITOR DA IMPRENSA

ROMÊNIA

Fabiano Golgo, de Praga

Durante os ataques da Otan à Iugoslávia muita gente se perguntava por que a Romênia – que, pelo menos politicamente, aderiu ao lado americano da guerra – permitia que os sérvios atravessassem a fronteira para comprar gasolina, diesel e gás de cozinha, produtos severamente racionados no país de Milosevic? A resposta deixa ainda mais gente sem entender o caso: culpa da imprensa e dos húngaros.

É preciso lembrar que a Romênia firmou compromisso com a Otan, por intermédio das autoridades políticas, não como reflexo da disposição da população, mas por maniqueísmo de seus líderes. Acontece que o país precisa da ajuda européia e americana, já que sua situação econômica – em frangalhos – não é muito melhor do que nos tempos de Nicolae Ceaucescu. Se não se posicionassem oficialmente ao lado das forças da Otan estariam colocando em sério risco suas intenções de um dia participar da União Européia e de continuarem a receber investimentos (que vêm principalmente da Alemanha).

E por que o povo romeno haveria de apoiar seus vizinhos belicosos? A relação dos sérvios com os romenos não existe além dos naturais contatos e trocas de gente que vive nas regiões fronteiriças, nem de longe influenciando a grande maioria de ambas as populações. Como agravante, os sérvios vêem os romenos do mesmo jeito que vêem qualquer grupo étnico diferente do seu: como seres inferiores, subdesenvolvidos.

Onde entram os húngaros nessa história? A Romênia sofreu muito no século 19 nas mãos dos húngaros, que haviam ficado suficientemente fortes, política e economicamente, ao ponto da Casa dos Habsburgos – donos do império austríaco – ter sido obrigada a dividir seu poder, renomeando-se Império Austro-Húngaro. As populações romenas, eslovacas, rutenianas, voivodinas e parte das sérvias ficaram sob controle húngaro. O problema é que a imprensa romena explora diariamente os resquícios do tradicional ódio surgido na época. Na Europa, e nos Balcãs em especial, o passado é parte do cotidiano contemporâneo de uma maneira que nossa cultura de Novo Mundo (Américas) não entende bem.

Bode expiatório

Mesmo durante os anos sob ditadura comunista, quando a Hungria deveria ser vista como aliada, a imprensa oficial romena fazia largo uso do sensacionalismo anti-húngaro. Quando as tropas do Pacto de Varsóvia (versão soviética da Otan) decidiram invadir a então Tcheco-Eslováquia para pôr fim às reformas liberais batizadas de Primavera de Praga, a Romênia e a então Iugoslávia do marechal Tito se recusaram a fazer parte da força intervencionista tendo como combustível a velha inimizade com os húngaros, que haviam aderido à ação. Antes, em 1956, quando Imre Nagy tentara introduzir suas próprias reformas no duro sistema imposto por Moscou, a Romênia fez questão de dar ampla ajuda aos tanques soviéticos, tendo liderado boa parte da repressão imposta aos húngaros.

A poderosa mulher de Ceaucescu, Elena (ou "mãe da nação", como insistia em ser chamada) escrevia artigos em revistas e jornais atacando os mais variados aspectos da cultura húngara. (Um fato curioso: Elena Ceaucescu era dada a defender teses científicas na imprensa oficial. Copiava artigos inteiros de revistas científicas americanas e britânicas e as assinava, como se fossem suas. Como o país era um dos mais fechados do bloco, a maior parte da população não tinha a menor idéia da origem das tais teorias. Mas o pior era quando ela defendia suas próprias teses, tendo causado, por exemplo, o envenamento de centenas de bebês depois que receitou chá de cabeça de peixe como remédio para cólicas; e cegueira em outros tantos, quando afirmou que conjuntivite deveria ser combatida com uma solução de certas folhas de árvores e que tersol deveria simplesmente ser extirpado com facas esterilizadas. Também surgiu com uma pérola contra a bebedeira: adicionar uma colher de açúcar no álcool a ser consumido.)

Mesmo com o fim do totalitarismo, a imprensa continuou a explorar a disputa contra os vizinhos húngaros. E quem paga o maior preço são os 1 milhão e 600 mil étnicos húngaros que vivem dentro da Romênia (após a Primeira Grande Guerra, o Império Austro-Húngaro foi desmantelado para diminuir o poder dos agressores; a Hungria perdeu quase dois terços de seu território e, com isso, milhões de seus cidadãos, que hoje são parte da Eslováquia, Romênia e Iugoslávia).

Quando, em 1996, foi assinado um tratado entre a Romênia e a Hungria, os jornais romenos produziram manchetes escandalosas condenando o acordo. O tratado dizia que a minoria húngara no país teria direito a educação em sua própria língua, à criação de partidos políticos próprios e respeito aos seus direitos humanos. Surgiu o Uniunea Democrata a Maghiarilor din Romania (UDMR – União Democrática dos Húngaros na Romênia), que passou a fazer parte do Parlamento. A imprensa vive cavando falsos casos de corrupção no partido e pelo menos dois de seus representantes foram acusados de ser homossexuais (o que é proibido na Romênia, punível com até 5 anos de cadeia).

O governo nada faz contra os ataques – praticamente diários – porque sabe que a fórmula de Milosevic funciona: quando a economia vai de mal à pior, nada melhor que um bode expiatório para entreter a revolta da população.

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