Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > SCHWARZNEGGER GOVERNADOR

Inácio Araujo

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

SCHWARZNEGGER GOVERNADOR

“Eleição de ator mostra vida real a reboque da ficção”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“Se a eleição de Arnold Schwarzenegger espanta é em boa parte porque deixa a impressão de que o mundo já não é o que costumava ser. Um atropelo à razão: num dia, o ator interpreta o presidente da República ou algo assim, no dia seguinte ele vira presidente.

A vida real segue a reboque da ficção -sempre seguiu. A novidade de hoje, que Schwarzenegger, 56, personifica, é a perfeita permeabilidade -para não dizer confusão- entre imagem e coisa real. Num dia você encarna no cinema a força, o equilíbrio, a justiça, a inteligência em ação -para ficar com algumas qualidades que ele costuma encarnar. No outro, a imagem que criou se elege governador da Califórnia.

Ok, mas que isso não leve a uma subestimação apressada e ligeira do homem. Não convém esquecer que esse ex-campeão de cultura física é dotado de uma determinação não negligenciável. Tanto que, quando começou a carreira, os produtores de ?Hercules in New York? trocaram seu sobrenome para Strong, de tão difícil que lhes parecia Schwarzenegger.

Isso foi em 1970. Em 1976, seu sobrenome verdadeiro voltou a circular graças a ?Pumping Iron?, documentário sobre esses corpos meio monstruosos construídos em salas de musculação. Mas o nome Schwarzenegger acabou se impondo nos anos 80, primeiro na pessoa de ?Conan, o Bárbaro?, em 82. Foi sorte: Arnold tinha o físico que interessava a John Milius. E o personagem desse belo filme ficou mais famoso do que o ator.

Dois anos depois, outro brucutu -na pessoa do Exterminador do Futuro – fez dele uma superestrela. Mas Arnold não ficou restrito aos papéis de força bruta: esforçou-se, aprendeu a interpretar, fez comédias, adquiriu uma desenvoltura considerável. Tornou-se uma estrela de pleno direito.

Ninguém levou a sério quando lançou sua candidatura a governador. Com razão: trocar os finais seguros de roteiro pelas incertezas do poder parece uma insânia. Talvez seja. Ainda uma vez, contudo, convém lembrar que a contaminação do real pelas imagens hoje atinge graus inacreditáveis.

Não precisamos ir aos EUA. A prefeita de São Paulo fez sua fama na TV, assim como muitos deputados. Aliás, o Judiciário, a Câmara e o Senado dispõem de canais de TV. Todo mundo pode ser artista de TV, desde que seja político. Por que não o contrário?”

“Política se abre à lógica das celebridades”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“Arnold Schwarzenegger entra na política por uma porta inabitual. A porta das celebridades. Há nisso um curioso paradoxo, já que a celebridade é, por definição, uma pessoa de quem não se espera conteúdos sociais ou modelagens administrativas.

A lógica das celebridades é mais tosca. Elas devem produzir pequenos fatos que abasteçam suas próprias imagens e fazê-los circular no mercado do showbiz, da comadrice e das fofocas.

Não precisam necessariamente pensar. Nem entender de finanças públicas, ter idéias sólidas sobre políticas sociais ou situar-se em algum ponto do espectro ideológico. Foi assim com o finado Elvis, é assim com Britney Spears.

Em 1966, um outro ator, Ronald Reagan, foi eleito governador da Califórnia. Mas o paralelo entre ele e Schwarzenegger é imperfeito. Bem menos célebre, Reagan já era a seu modo um ativista conservador. Seguiu a mesma trilha de Walt Disney ou Elia Kazan ao depor voluntariamente na comissão do senador Joseph McCarthy, que caçava na sociedade suspeitos de simpatias pelo comunismo.

Reagan fora antes líder sindical entre os atores, estimulado por sua primeira mulher, a atriz Jane Wyman. E deu uma guinada para a direita, aconselhado pela também atriz Nancy Davis, sua segunda mulher.

Assim, não foi por seu passado em Hollywood que, ao se eleger presidente dos Estados Unidos, em 1980, ele acelerou a corrida armamentista e colocou a então União Soviética na rota da implosão. O então presidente personificava algo mais complexo: uma coalizão formada em torno do Partido Republicano, que poria fim à Guerra Fria e asseguraria a supremacia norte-americana.

Schwarzenegger traz um perfil bem mais modesto. Sua imagem pública se confunde amplamente com a de seu principal personagem, o Exterminador, que é mais músculos do que cérebro. Numa sociedade em que academias de musculação pesam mais que saraus literários na constituição do hedonismo, é óbvio que seus admiradores não se preocupem em saber se ele possui uma biblioteca particular ou os gêneros de livros que nela predominam.

Na recente história norte-americana, a política incorporou a lógica das celebridades no início dos anos 60, com John Kennedy. Bill Clinton tangenciaria o mesmo caminho. Mas foram fenômenos isolados. A demanda formulada na direção dos políticos mistura linha justa e consistência. Os factóides servem apenas de enfeite, como a cereja em cima do bolo.

Schwarzenegger candidatou-se sem carregar a responsabilidade pela crise de energia e pelo déficit fiscal na Califórnia. A indústria do entretenimento produz discursos alheios aos problemas gerados pelo establishment local. De certo modo, o eleitor californiano votou no escuro. Pode até ter acertado. Mas terá sido sem querer.”

“Algumas reflexões sobre Arnold, o bárbaro”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“Há algumas vantagens subestimadas na eleição de Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia. Primeira e melhor, ela nos poupa de vê-lo nas telas durante pelo menos três anos. Segunda, acentua o lado ridículo da democracia atual, trocando de vez os canastrões amadores – os políticos que vêm do meio jurídico, das universidades, do mundo dos negócios, etc. – por canastrões profissionais, atores bem-sucedidos, que nunca poderão ser acusados de estarem ?representando um papel?. Antonio Fagundes para presidente do Brasil!

Uma defesa séria de Arnold seria observar que, como se sabe desde a Roma dos Césares, política também é espetáculo e, logo, o bom político é aquele capaz de duas coisas: montar uma boa equipe, por critérios técnicos, e usar o carisma para dizer que algumas coisas estão melhores do que a oposição diz e aquelas que ainda não estão boas em breve estarão. Arnold não terá problemas no segundo quesito, pois conseguiu driblar acusações de ter elogiado Hitler, participado de bacanais e cometido assédio sexual; desconfia-se até mesmo que, como estamos falando da Califórnia, com seus 125 candidatos, entre os quais uma estrela pornô e Larry Flint, tal biografia só reforçou seu carisma.

Quanto à eficiência administrativa, é só evitar um novo apagão e corrigir a rota do déficit fiscal, ou seja, não cometer os erros do antecessor, Gray Davis, que com seu carisma zero cairia mesmo que republicano. Nada impede que Arnold passe no teste; Ronald Reagan, por exemplo, podia ser um tapado, mas fez aquilo que se propôs a fazer como presidente: vencer a Guerra Fria.

E, claro, no estado mais rico do país mais rico, a responsabilidade do governador é proporcionalmente pequena, e nem mesmo o maior fã de Conan supõe que Arnold possa resolver tudo sozinho. Seu governo só vai se dar mal se ele acreditar nisso – ou melhor, se sua equipe o deixar acreditar nisso.

Também não vi comentarem a maravilha desse instrumento democrático, o ?recall?. Já pensou no Brasil? Governos que não evitaram apagões e estouraram o erário poderiam ser destituídos em menos de um ano. O problema é que isso significaria tirar quase todos os presidentes e governadores da nossa história recente: FHCs, Malufs, Itamares, Garotinhos, etc., etc.

Por falar em política do espetáculo, quantos dos políticos brasileiros não fizeram sua carreira graças à mídia? E na maioria dos casos sem a determinação de Arnold, um fisiculturista austríaco e inexpressivo que chegou ao topo da mais americana das indústrias, Hollywood. Garotinho era radialista. ACM, Sarney, Quércia e muitos, muitos outros são donos de TVs, rádios e jornais de sua região. Marta era estrela da TV Globo. Sem Duda Mendonça, Lula continuaria o sindicalista enfezado, em vez do presidente cuja popularidade é ainda maior que a de seu próprio governo. Lula para astro de Hollywood!

Agora a sério: Arnold não é muito diferente dos outros políticos, de lá e daqui; mas o que sua eleição simboliza, mais do que a ?sociedade do espetáculo? ou ?a confusão entre ficção e realidade?, é, para mim, a vitória do mau gosto, da ausência de ironia, da futilidade com que a maioria das pessoas, mesmo nos países onde quase todos os cidadãos têm seus direitos básicos atendidos, encara a vida hoje. É a vitória não da barbárie como encarnada por Arnold em tantos filmes de ação, não da barbárie da violência como defesa de uma forma de ?civilização? por Bushs ou Saddams – mas da barbárie comezinha, da microbarbárie de todo dia, da barbárie que se instalou no lugar das idéias, da barbárie dos descerebrados que perdem tanto tempo diante da TV e do espelho sonhando em ser ricos e famosos graças à aparência ou à lábia. O pior de Arnold não é sua esquisitice, é sua normalidade.

Zapping

Novela que não primou pela coerência, com sua multidão de personagens e suas encheções de lingüiça e merchandising, Mulheres Apaixonadas terminou namorando o absurdo, sob escassos protestos. E não me refiro apenas a cenas de espancamento e tentativas de crime, mas sobretudo ao tratamento ao mesmo tempo machista e moralista de alguns personagens, tratamento que mesmo no Brasil já deveria soar retrógrado. O maior símbolo foi o contraste entre a punição dada a Fred, o rapaz que se envolveu com a professora, e Carlinhos, o que perdeu a virgindade com a empregada negra. Gilberto Freyre, zelai por nós.

O ludopédio

Quando Rivaldo foi para a Itália, imaginei que não fosse se dar bem, porque prende demais a bola e no ?calcio? a marcação é dura e rápida. Quando Kaká também partiu para o Milan, esperei o contrário, porque, apesar de também gostar de arrancadas individuais, ele sabe buscar a tabela e usar a explosão. O que surpreendeu foi que as duas coisas se realizaram rapidamente. E, embora hoje eles devam jogar como titulares no amistoso da seleção brasileira contra a Jamaica, devido à contusão de Ronaldinho (que só se vai dar tão bem no Barcelona quanto seus antecessores brasileiros se fizer mais gols e menos firulas), o fato é que só Parreira ainda não viu que Kaká está pronto para assumir suas responsabilidades.

Matizes do Brasil

Quem mora em São Paulo e vê, por exemplo, o sucesso do mercado de luxo, imagina que há muitos ricos de verdade no Brasil. Não – não mais do que em outros países de renda média semelhante. Mas é importante notar que, quando o IBGE diz que os 10% mais ricos da população têm renda 60 vezes maior que os 10% mais pobres, está falando de pessoas que ganham acima de 20 salários mínimos, a maioria das quais não é exatamente rica e paga muitos impostos ao Estado (tanto que a carga tributária agora passa de 37% do PIB).

A desigualdade social brasileira, em outros termos, é muito mais uma desigualdade regional, a qual se reflete também nas diferenças entre centro e periferia nas grandes capitais. Há províncias onde a mobilidade é quase nenhuma, apesar do suposto clima cordial, e não por acaso a miscigenação da qual tanto nos orgulhamos vem caindo. Como diria Sérgio Buarque Holanda (cujo Raízes do Brasil é de 1936, para ser preciso), são províncias aonde a mentalidade capitalista, liberal, democrática, não chegou de fato.

Por que não me ufano

O governo Lula está parecido com o personagem do novo romance de Chico Buarque, Budapeste. Uma hora fala em húngaro, outra em português. Ou melhor, alguns de seus ministros falam em húngaro, outros em português. Enquanto, por exemplo, o Itamaraty considera a Alca um projeto de ?anexação? do Brasil pelos EUA, Luiz Fernando Furlan e Roberto Rodrigues, com sua origem no mundo real, pregam a negociação firme mas positiva. Enquanto Marina Silva critica os transgênicos e defende o meio ambiente, José de Alencar assina a liberação envergonhada da soja e um grupo de petistas invade reservas ecológicas. E assim por diante, para não falarmos de macroeconomia.

Só que a causa de tanta esquizofrenia está no passado. O PT sempre foi um e agora tenta ser outro. Assim, se Benedita da Silva viaja para encontro luxuoso com evangélicos na Argentina, trata-se de ?erro administrativo? – mas a conta de Motta, Covas e FHC em Cayman era escândalo certeiro. O mesmo quanto à arregimentação de aliados nos partidos fisiológicos e ao escambo de verbas sociais por cargos políticos: o que era imoralidade no passado agora é ?pragmatismo?. O resultado mais grave de tanta indefinição se vê nas reformas. Se a previdenciária passou a ser um ajuste fiscal de médio prazo, a tributária não merece nem o título de arremedo arrecadatório. É esse o PT que tanto falava em mudanças estruturais, em ética e em coerência?

Aforismos sem juízo

Homens têm ciúmes por vontade de ganhar. Mulheres têm ciúmes por medo de perder.”

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