Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ASPAS

Indro Montanelli, 1909 – 2001

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

MEM?RIA


A morte de Indro Montanelli, um dos mais respeitados jornalistas da Itália, colocou a reunião do G-8 em Gênova em segundo lugar na mídia, afirma John Francis Lane [The Guardian, 24/7/01]. Montanelli, que morreu no dia 22/7 aos 92 anos, após uma operação de câncer na próstata, havia ditado seu próprio necrológio, publicado na primeira página do Corriere della Sera, jornal para o qual escreveu, entre idas e vindas, desde 1937.

Após obter graduação em Direito na Itália, e em Ciências Políticas na Sorbonne, Montanelli começou sua carreira jornalística em 1934. Trabalhou como repórter no Paris Soir, e enquanto serviu como voluntário nas tropas italianas escreveu reportagens de guerra que, mais tarde, foram a base do primeiro de seus 40 livros.

Foi testemunha dos principais eventos do século 20: estava em Dantzig quando Hitler rejeitou o ultimato da Inglaterra e da França em setembro de 1939; nas ruas de Budapeste em 1956 quando os tanques soviéticos avançaram; em 1977 levou um tiro nas pernas dos terroristas das Brigadas Vermelhas. Considerava-se um anarquista conservador. A princípio, sentiu-se atraído pelo fascismo, mas voltou-se contra Mussolini quando as conquistas coloniais começaram. Em 1973, acusando o editor Piero Ottone de tendências esquerdistas, deixou o Corriere. Seu ódio aos comunistas era aprovado pelo futuro magnata da mídia Silvio Berlusconi, que apoiou o lançamento da revista Il Giornale, fundada por Montanelli. Foi editor da publicação até 1994, quando rompeu com Berlusconi por criticar sua entrada na política. Após breve período num jornal independente que faliu, retornou ao Corriere.

O jornalista pediu que não fizessem nenhuma cerimônia cívica ou religiosa em sua homenagem, e que suas cinzas fossem colocadas numa urna sobre o túmulo de sua mãe em Fucecchio, a pequena cidade toscana onde nasceu.

 

ASPAS

"Um exemplo de independência", copyright O Estado de S. Paulo, 29/7/01

"A morte de um jornalista pode comover um país inteiro? Pode, se esse jornalista for como Indro Montanelli, uma espécie de Barbosa Lima Sobrinho italiano, que acompanhou o século, entrevistou as personalidades mais importantes do período, escreveu livros e romances, manteve por décadas uma coluna diária em um dos mais importantes jornais do país, o Corriere della Sera, e tinha um programa semanal na televisão. Montanelli morreu domingo passado, em Milão, com 92 anos extraordinariamente bem vividos.

Vinha de um tempo em que o exercício do jornalismo podia ser uma espécie de aventura física. Cobriu a guerra na Abissínia e esteva na Guerra Civil espanhola. Entrevistou Hitler, De Gaulle, Churchill e Golda Meir. Foi fascista convicto na juventude, mas depois de ver as barbaridades cometidas pelo Exército italiano na África rompeu com o regime. A independência lhe saiu cara, e quase cara demais. Foi parar na prisão. Condenado à morte, escapou por pouco do fuzilamento. Compreensivelmente deixou de ser fascista, mas não migrou para o extremo oposto. Converteu-se a um liberalismo de feição independente. E independente se conservou ao longo da vida. Quando o atual primeiro-ministro italiano ganhou as eleições, observou: ?Berlusconi mente com uma convicção que chega a ser comovente.? Essa sinceridade, expressa em estilo sóbrio, límpido, fazia da sua coluna, La Stanza di Montanelli, uma das seções mais lidas do Corriere.

Há um Montanelli que foi praticamente ignorado nos necrológios: o romancista, que, das suas primeiras experiências com a relatividade da política, tirou um livro notável, Il Generale Della Rovere, adaptado para o cinema por Roberto Rosselini, o pai do neo-realismo italiano. O filme fez sucesso de público e crítica e venceu em 1959 o Festival de Cinema de Veneza. No Brasil chamou-se De Crápula a Herói.

O papel principal é interpretado por Vittorio De Sica. Ele faz o general Della Rovere do título original. Ou melhor, interpreta o impostor que se faz passar por um herói da resistência, morto em 1943. Os alemães planejam substituir o partisan morto por um farsante, para utilizá-lo como informante junto à resistência. De Sica é Emmanuel Bertone, um escroque cheio de charme e nenhum dinheiro no bolso, que aceita a missão. O encanto do filme resulta do jogo duplo encenado por Bertone. Ora parece um sedutor interesseiro, ora um patriota convicto. Traindo, torna-se enfim um herói verdadeiro. A história de Montanelli, levada ao cinema com simplicidade e rigor por Rosselini, é uma daquelas belas reflexões sobre a natureza do heroísmo e da covardia em situações-limites. Mote que também foi desenvolvido por Borges no conto Tema do Traidor e do Herói, filmado por Bernardo Bertolucci.

Montanelli gostava de história e de política. Publicou muito em jornais, mas também escreveu livros. Segundo seus críticos, as obras mais interessantes seriam sua História de Roma e História da Grécia. Culto, universalista, independente, era lógico que exprimisse, em sua Stanza, um certo desencanto com o século novo – justamente o século em que a política parece chafurdar num infindável mar de lama (e não apenas no Brasil), e o recurso à história, como fonte de ensinamento possível, é tido como cada vez mais démodé.

Em entrevista publicada no Estado no ano passado, Montanelli constatava que os grandes debates ideológicos haviam acabado. Dizia então: ?No decorrer do século que está terminando, existiram linhas de demarcação bem nítidas. Tudo o que se passou em matéria de política foi determinado em relação ao marxismo. A favor ou contra o marxismo. Desde a queda do marxismo não há mais debate ideológico, nem na França, nem na Grã-Bretanha, nem na Alemanha.

E, na Itália, esquerda e direita constituem uma espécie de pântano no qual os debates ocorrem apenas em torno de questões de poder. Falar de direita ou de esquerda não tem mais o menor sentido.?

Será? Em todo caso, Montanelli via com clareza que a política não era mais conduzida segundo linhas de força ideológicas, mas de acordo com os preceitos do marketing e da publicidade, o que configura um fenômeno absolutamente universal. Tendo a política passado às mãos dos profissionais de marketing, não espanta que Silvio Berlusconi tenha se tornado o homem mais poderoso da Itália. O premier parecia a Montanelli um símbolo perfeito da época: ?Acho que a sociedade atual exacerba o que há de pior no homem: o arrivismo, o culto do poder e do dinheiro. Hoje o que é o êxito? É tornar-se rico e poderoso. O fascínio exercido por Berlusconi sobre os italianos é explicado assim: ele partiu do nada e conseguiu tornar-se rico e poderoso.?

O ex-fascista Montanelli, condenado à morte por Mussolini, também não foi poupado, décadas depois, pela extrema-esquerda. Nos anos 70, foi metralhado nas pernas por membros das Brigadas Vermelhas. Não se deu por achado e visitou os agressores na prisão. Vale a pena reproduzir seu depoimento sobre esse fato inusitado: ?Fui visitá-los na prisão, falei com eles, demos um aperto de mãos na saída, ajudei-os financeiramente. Quando a guerra acaba, entre ex-adversários, há um aperto de mãos. Na lógica dos terroristas de esquerda seu gesto foi, se é que posso dizer assim, normal. Perguntei-lhes também quais eram os valores, as idéias que supostamente personifiquei e pelas quais quiseram me punir. Perplexos, começaram a rir em vez de me responder. Jamais confirmaram quem os enviara para me matar. Jamais se arrependeram. E acho isso muito bonito. Odeio os arrependidos?."

    
    
              

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