Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Intervenção branca no Timor Leste

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

GAVETA DA MEMÓRIA

Transcrição da polêmica havida entre o escritor Frei Betto e Sérgio Vieira de Mello, no primeiro semestre de 2001, a propósito do papel desempenhado pela missão da ONU no Timor Leste, chefiada por Mello. Matérias originalmente publicadas no jornal O Globo.

Frei Betto (*)

[Copyright O Globo, 16/2/01]

O presidente FH visitou por algumas horas, em janeiro, o Timor Leste, administrado pela ONU através da Untaet. Este organismo para a administração transitória daquele país é presidido pelo diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O panorama timorense, visto de sob a ponte (e não por cima, como nos passa a versão oficial), é bem diferente.

A.M. é brasileira, missionária leiga católica que, por iniciativa da CNBB, encontra-se no Timor Leste, atuando junto à população. Seu relato da situação do país, enviado a mim há dias, vale a pena ser conhecido:

"Toda a ajuda que vem de fora fica nas mãos da Untaet. É uma mina de ouro. Técnicos, tropas, intelectuais e funcionários estrangeiros vêm fazer turismo na ilha, ganhando muito dinheiro. São um luxo os ?palácios? da Untaet, os hotéis, os restaurantes, enquanto o povo continua a morar em barracos e as crianças a dormirem amontoadas em esteiras. Em Laleia, onde vivo, desde pequeninas as crianças carregam água, lenha e muito peso na cabeça. Alimentam-se basicamente de arroz, vivem doentes e não dispõem de medicamentos. A assistência médica é prestada por um ?enfermeiro? da aldeia. As roupas doadas pelo Brasil e por outros países são vendidas nos mercados. Também os medicamentos são vendidos. Quase nada chega à população. O desemprego é geral. Aqui virou cabide de empregos para estrangeiros. A maioria trata os timorenses como ?macacos?. Na estrada, quando passa um
carro da Untaet, os verdadeiros donos da terra, os timorenses, são obrigados a dar passagem. São os ?faraós?, arrogantes e autoritários. Não vêm para servir. Vêm para mandar e ser servidos. Começa a despontar a prostituição, é claro! Eles têm os dólares. O povo passa fome. Em Dili, os meninos de rua começam a ficar rebeldes, a roubar, a formar gangues. Enquanto gastam-se milhões com os ?intrusos?, o povo não tem escolas, hospitais, empregos. O país continua em ruínas. Por trás de tudo, sempre a supremacia político-econômica da globalização, que não tem nenhum interesse em pequenos países livres e independentes. A África e a Ásia foram repartidas entre os grandes.

"Em frente aos palácios da Untaet há centenas de carros com som e ar condicionado, parados, à disposição dos mandões. Em Laleia, não há luz, nem água, nem transporte. Viajamos em ?bis? e ?microlés? abarrotados de gente, em cima e embaixo, nas portas, nas laterais, entre galos, porcos, cabritos, sacos de arroz e vômito, e calor sufocante. Ensino às minhas crianças noções básicas de higiene e cuidados pessoais. Mas elas lavam roupa, tomam banho e bebem a água contaminada da Ribeira, enquanto a tropa gasta fortunas com água mineral e alimentos importados. E ainda os soldados são considerados heróis pelo mundo, porque vieram ?arriscar? a vida no Timor. Quem corre risco de vida são as nossas crianças.

"Outro dia um carro da Untaet atropelou e matou o pequeno Eugênio, um menino de três anos, aqui em Laleia. Nem parou para dar assistência. Jamais será denunciado. Era um funcionário da Untaet. Que diferença faz para eles atropelar e matar uma galinha ou uma criança timorense? Passam em alta velocidade pelas estradas que cortam as aldeias, onde as crianças caminham com água ou lenha na cabeça.

"Quando morre um adulto, colocam uma bandeirinha preta no lugar onde foi atropelado. Quando é criança, uma bandeirinha branca. Outro dia, em viagem, contei mais de 20 bandeirinhas, pretas e brancas.

"A minha voz não tem importância, a não ser quando faz eco da voz deste povo pequenino, paciente e corajoso, que ousou lutar e vencer. Não podemos permitir que lhe usurpem a vitória, conquistada a preço do sangue de seus filhos. Lutaram por mais de 20 anos, corajosamente. Resistiram a todo tipo de atrocidade. Agora que venceram, não são aptos para administrar o seu país? Isso é piada! Quando estavam sendo massacrados, ninguém achou que precisavam de ajuda. Todos se omitiram. Agora vem muita ajuda de fora. Fazem
crer ao mundo que são nobres e servidores, a serviço da paz e da reconstrução do país. Mentirosos! Mudaram os dominadores e a forma de opressão. Agora é camuflada. Antes era a Indonésia. Agora é uma legião."

A 5 de dezembro [de 2000], em Bruxelas, Xanana Gusmão, presidente do CNRT (Conselho Nacional da Resistência Timorense), cobrou do embaixador Vieira de Mello, da Comissão Européia e do Banco Mundial, presentes à Conferência de Apoio ao Timor Leste, a lenta e exígua ajuda econômica ao país e o demorado processo de timorização das estruturas de governo. Segundo Xanana, "não chega a haver cinco timorenses no Gabinete de Transição, e mesmo estes não têm acesso aos recursos humanos, materiais e financeiros para realizarem as tarefas para as quais foram indigitados". Os timorenses não merecem ser tratados como um povo de classe inferior.

(*) Escritor

 

Sérgio Vieira de Mello (*)

[Copyright em O Globo, 9/4/01]

Frei Betto: o seu artigo "Intervenção Branca no Timor Leste" (O Globo, 16/2/01) é uma vergonha e uma covardia. O fato de o senhor ser um religioso e chamar-se Frei Betto não lhe confere o direito de propagar difamações. Pelo contrário, impõe-lhe o dever de apurar os fatos antes de vilipendiar uma instituição ? a ONU ? sua missão em Timor Leste ? Untaet ? e todo o seu pessoal, a começar pelo subscrito.

Qualquer leitor com bom senso ter-se-á dado conta de que sua fonte ? anônima ? carece de credibilidade. Pois não é ela que nos classifica, militares, policiais e funcionários internacionais, de ladrões, assassinos, racistas e neocolonialistas?

Fiz questão de lhe responder do meu próprio punho ? o que explica a demora ? pois queria dizer-lhe o quanto me chocou sua indignidade. Não me lembro de tê-lo recebido em Díli, e pergunto-lhe com que autoridade reproduz uma carta que deturpa grosseiramente uma realidade que o senhor desconhece. Vou rebater em dez pontos.

Sou, com muito orgulho, funcionário de carreira da ONU, desde que deixei a universidade há 31 anos. Servi ? ou, segundo sua informante, passei deleitáveis férias ? em paraísos turísticos como Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique, Peru, Líbano, Camboja, Bósnia, Ruanda, Kossovo e, desde novembro de 1999, Timor Leste. Fui alto comissário adjunto para os Refugiados e subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários. Deixei meu cargo em Nova York e vim para Díli porque acreditava na causa deste povo sofrido. Aceito, melhor, estimulo, críticas construtivas, mas não admito ataques gratuitos como o seu.

A "missionária leiga católica" A.M. pode ter preocupações legítimas. Num país que foi arrasado, não é fácil reconstruir ou criar novas infra-estruturas, instituições democráticas e um serviço público íntegro após séculos de colonialismo e décadas de ocupação e corrupção. José Ramos-Horta, Prêmio Nobel da Paz e nosso chanceler, compara Timor com a Alemanha e o Japão do pós-Segunda Guerra. Diz que realizamos mais ? respeitadas as proporções ? em Timor, em pouco mais de um ano, do que foi o caso naqueles países, na segunda metade dos 50. E José é um dos nossos críticos mais exigentes.

Foi a ONU que manteve acesa a chama do direito à autodeterminação desde a invasão de Timor pela Indonésia, em dezembro de 1975. Foi o nosso Secretário-Geral quem mediou o acordo de 5 de maio de 1999, que tornou possível o referendo de 30 de agosto de 1999, no qual mais de 78% da população escolheu a independência. Chefio, com humildade, esta missão e assumo todos os seus erros. Tivemos que improvisar e, com escassos recursos, criar um governo num ambiente de desolação. Não venha o senhor nos insultar, comodamente, à distância.

Nossa força militar, integrada por cerca de oito mil homens e mulheres de 32 países (inclusive o respeitadíssimo contingente brasileiro) garante a liberdade e a segurança da população. Debelamos múltiplas tentativas das milícias pró-Indonésia de criar terror a partir de Timor Ocidental. Nossos soldados gozam da confiança da população porque a protegem. Venha apurar o que a população pensa da nossa força militar. Consulte também os pais dos soldados da ONU mortos ou feridos pelas milícias. Se eu tivesse a mesma falta de escrúpulos, citar-lhe-ia uma carta que recebi da mãe de um soldado neozelandês de 20 anos, morto, degolado e amputado por milícias. Mensagem de reconciliação e apoio à nossa tarefa, ao invés da sua.

Estamos formando uma força de defesa timorense justamente para que nossa presença aqui seja tão breve quanto possível. Dissolvemos as forças de guerrilha, Falintil, que lutaram valorosamente contra a ocupação indonésia e estamos treinando o primeiro batalhão do novo exército timorense, com apoio da Austrália e de Portugal. Tão logo estejam adestrados, poderemos retirar as tropas da ONU.

O seu artigo e a carta de A.M. dão a impressão de que somos parasitas, que vivem em palácios luxuosos, e criminosos, que matam impunemente crianças. Saiba que também estamos formando uma polícia timorense, já com 450 formados. A força policial timorense e internacional realiza trabalho admirável, em condições precárias, e é impensável que possa ocorrer um atropelamento, como relata sua fonte, sem que a polícia investigue e encaminhe inquérito ao tribunal competente.

Quando chegamos, encontramos um país em ruínas. Juntamente com o Banco Mundial, o Banco Asiático de Desenvolvimento, o Programa da ONU para o Desenvolvimento e doadores bilaterais, estamos a implementar um programa de reconstrução nos setores da saúde, educação, agricultura, pequenas e médias empresas e infra-estrutura. Partilhamos a frustração da população com a execução vagarosa destes projetos. Se destruir é fácil ? aqui levou alguns dias ? construir um novo funcionalismo público e serviços à população leva
tempo. Não aprendi a fazer milagres, e uma das razões da demora são os mecanismos de controle, cujo propósito é justamente prevenir o que sua fonte afirma ser a norma: corrupção. Só a ignorância de A.M. pode levá-la a semelhante conclusão. Eu próprio criei a função de Inspetor-Geral, cargo preenchido por um timorense. Desafio o senhor ou A.M. a apresentar ao Inspetor-Geral Mariano Lopes provas de suas acusações caluniosas.

Desde julho partilhamos o poder executivo com os timorenses. O Poder Legislativo (Conselho Nacional, presidido por Xanana Gusmão) está inteiramente timorizado, e o Poder Judiciário se encontra nas mãos dos timorenses desde os primórdios da missão.

O título do seu artigo era "Intervenção Branca no Timor Leste". Intervenção, sim! Branca? Há mais asiáticos, africanos e árabes do que europeus nesta missão. Se a palavra tinha um sentido figurado, pior ainda, pois o senhor estaria nos acusando de racismo. Não sirvo à ONU há mais de três décadas para engolir desaforos gratuitos de ninguém.

Aos leitores do Globo peço desculpas pelo tom desta resposta. É fácil malhar quando não se tem conhecimento dos fatos. Frei Betto: encaminhe esta resposta à sua fonte, e diga-lhe que a receberei com atenção e carinho, tão logo ela tenha a cortesia de dirigir-se a mim. É o que faço com qualquer pessoa que me solicita.

(*) Subsecretário-Geral da ONU e Administrador Transitório de Timor Leste.

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