Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DE VEJA

Intruso, chato e aético

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

LEITURAS DE VEJA

José Antonio Palhano (*)


Dois intelectuais compareceram à festa do boi-bumbá deste ano ? Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura. Ambos lulistas, por sinal. Foram convidados pelo guaraná Kuat, o principal patrocinador do evento. Assistiram aos desfiles no camarote do Kuat Clube, trajando camisetas Kuat e, da mesma forma que as menos intelectualizadas Joana Prado e Samara Filipo, puderam usufruir das comodidades da ilha do Kuat e do iate Kuat. É uma prova de que os intelectuais são bem menos abestalhados do que Lula imagina. Se fossem tão abestalhados assim, pagariam suas viagens do próprio bolso.


As palavrinhas acima são do colunista da Veja Diogo Mainardi, em "A bomba do boi-bumbá", edição de 9/7/03. Indo além da compulsão do autor em atropelar a ética jornalística atacando gratuitamente colegas de profissão (por trás de uma suposta grandeza intelectual para tanto existe apenas ressentimento brabo), causa espécie que tal mania passe tão em branco entre nós, jornalistas, de praxe tão sensíveis a ataques e críticas de outras latitudes.

Não se trata de episódio isolado. A paúra de Mainardi frente a profissionais bem-sucedidos é, pelo jeito, um traço de personalidade. Manifesta-se por surtos. Sua implicância com Zuenir Ventura, por exemplo, é mais antiga do que a referente a Verissimo, conforme segue no texto abaixo. Enviado à época para a Veja, naturalmente não foi publicado:


Zuenir Ventura, com certeza, não é uma unanimidade. Caso ambicionasse sê-lo, buscaria outro ofício que não o de jornalista. Aqui, ralou e tão bem se deu que foi à luta como cronista e escritor. Passando ao largo de qualquer tentação indutora de burrice, logrou conquistar raro e ambicionado pódio, exclusivo daqueles que ousam ter e expor idéias de forma a respeitá-las, integralmente, em sua peculiaríssima natureza de se desdobrar em imensurável diversidade de efeitos e reações tão logo aportem a destinos e ouvidos alheios: a de um homem do seu tempo.

Gente de tal estirpe dispensa, portanto, apresentações. Basta-lhe o patrimônio de milhares de leitores, carinho dos incontáveis amigos e o gratificante e merecedor aconchego dos familiares. Quem não conhece Zuenir Ventura siga em frente que dias melhores virão. Há, porém, quem conheça e não goste. A ponto mesmo de transformar sentimento de foro íntimo, de resto legítimo e inerente à espécie humana, em bestial, pública e recalcada investida.

Caso do coleguinha Diogo Mainardi, aqui mesmo ("Corrente chapa-branca", 22 de janeiro de 2002). Se ninguém é obrigado a gostar de Zuenir Ventura, por que nós, leitores de Veja, haveremos de comprar, feito trouxas, a torpe falsificação segundo a qual o sacrossanto direito de não gostar de fulano ou sicrano pode vir à tona, mesmo que emanada de alma tão sombria e atormentada, na conta de um ataque pessoal, estúpido e injustificável? Só mesmo uma overdose de ressentimento pode estar por trás da crocodilagem de Mainardi, de resto um atentado à ética profissional que, esperemos, tenha afrontado o manual de redação desta revista.

Quem não gosta, ou não curte, um pôr-do-sol em Ipanema só pode estar doente ao inimaginável e de péssimo prognóstico a ponto de agredir covardemente Zuenir Ventura. E quem mais goste e curta crepúsculos e demais manifestações da natureza, tão pródiga e generosa na feitura desta querida Cidade Maravilhosa; que, a despeito de coração do Brasil, cuida à perfeição de rejeitar certos intrusos, desses que, mal anunciam sua chegada, já tratam de desprezar seus encantos na vã tentativa de humilhar e fazer pouco dos nativos que se dão a saudá-la diariamente, oração maior dos que são permanentemente de bem com a vida.

O Rio é efetivamente tão maravilhoso que há muito, magnânimo, já se dispensou de cobrar a sua gente qualquer gesto de gratidão ou coisa que o valha. Cariocas, nascidos ou não, celebram o supremo atributo de ali viver em permanentes, criativas e internacionalmente reconhecidas homenagens à sua terra querida, magnificamente resumidas num jeito exclusivo, mágico e sedutor de falar, cantar e se relacionar. Se somos a pátria da miscigenação, da mistura de raças, o Rio guarda, com toda certeza, uma raça puro-sangue na alegria de viver.

Uma raça que não se avexa em aplaudir um pôr-do-sol, lembrança diária e sagrada de que viver vale a pena, a despeito de forasteiros que tentam miseravelmente desqualificar este mesmo pôr-do-sol pelo fato de se dar por trás da Favela do Vidigal. Inveja dá nisso: preconceito brabo e incurável, vilmente secretado na maior revista semanal do país. Uma raça que, não lhe bastasse o gesto maior de aplaudir o sol que se vai, ainda tem entre os seus alguém que tão fielmente confraterniza e conta a história no jornal. Não é para qualquer Diogo Mainardi, não.

O Rio é estóico, na exata medida em que sua raça também o é, cantando-o, aplaudindo-o e vivendo-o com todas as suas forças. Apenas por isto não sucumbe à sanha dos que, conquistada sua governança, sucessivamente tentam reduzi-lo às suas vontades mesquinhas. O Rio é forte, grande, poderoso. O Rio é encantado, é cidade de Deus, tanto que este escalou o próprio filho para por ele zelar desde suas alturas mais nobres. Merece, pois, que aplaudamos todo dia seu sol, seus mares, seu céu e suas estrelas e seus morros, incluídos os favelados. E que, como bons cariocas que somos ou de quem somos irmãos, sapequemos sonoríssima e irrecorrível vaia em quem tenta agredi-lo falando mal dos seus cronistas.


(*) Médico e jornalista em Campo Grande, MS

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