Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > HEADLINE NEWS

Irmãzinha da CNN chega à puberdade

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

HEADLINE NEWS

Arnaldo Dines, de Nova York

A filosofia de Ted Turner ao criar a CNN (Cable News Network), em 1980, nos Estados Unidos, era fazer da notícia a atração suprema da programação de uma rede de televisão ? 24 horas por dia, 7 dias por semana. Mas, devido ao alto custo associado à produção das matérias necessárias para saciar o apetite voraz da rede, ele se viu obrigado a ampliar a proposta inicial com a introdução de uma rede paralela, denominada Headline News.

A idéia era capitalizar ao máximo o potencial de faturamento da produção, mediante uma reciclagem da edição do conteúdo e do formato de exibição. Enquanto a CNN exibia matérias mais longas e investigativas em uma programação relativamente contínua, a Headline News optava por uma seqüência de matérias curtas, em uma rotação de programas completos a cada 30 minutos. Com o correr dos anos, a proposta da CNN foi premiada com uma maior penetração pública e exportada (com modificações) para o mercado internacional, em detrimento da Headline News, abandonada às moscas em função de uma audiência irrisória nos Estados Unidos.

Essa parceria prosseguiu virtualmente inalterada até 6 de agosto deste ano, quando a Headline News foi re-introduzida ao público norte-americano com uma embalagem nova. E a definição de embalagem caracteriza perfeitamente a cirurgia plástica que a mamãe AOL Time Warner deu de presente para a sua filhinha ? um facelift que esconde as rugas, mas que nada faz pela saúde jornalística da rede.

Existe inclusive uma forte compatibilidade estilística com uma irmãzinha famosa, a revista Time, que também vem sofrendo as conseqüências de uma sanitização intelectual capaz de levar o seu falecido fundador, Henry R. Luce, a rolar no caixão. Esta ligação é solidificada pela recente promoção de Walter Isaacson para o comando geral da CNN: como ex-diretor editorial da Time, foi justamente ele quem iniciou o processo de popularização, ou melhor, de "peoplerização" da publicação ? em uma referência à crescente semelhança da Time com uma outra irmã, a revista People, dedicada à cobertura de celebridades. Esta filosofia de homogeneização jornalística parece ser o novo mantra inspirador para os diversos veículos de informação pertencentes ao grupo AOL Time Warner, baseados principalmente no modelo estabelecido pela própria AOL na internet.

Creme dental

No caso da nova Headline News, as palavras-chave são excesso e superficialidade, tanto de informação como de apresentação. Para começar, o incauto telespectador que sintonizar o canal vai encontrar a metade inferior da tela de sua televisão invadida por gráficos, incluindo a temperatura nas principais cidades, resultados esportivos, índices financeiros e um desfile incessante de informações supérfluas ? como os aniversariantes famosos do dia. Na parte superior da tela, o telespectador é obrigado a dividir o que ainda resta de sua atenção entre as imagens dos âncoras e das matérias no lado direito, enquanto que no lado esquerdo aparecem mais gráficos, sejam estes relacionados ao assunto da matéria apresentada ou com chamadas para os próximos blocos.

O resultado dessa abundância de informação em cima do pobre telespectador é uma sensação de claustrofobia digna do canal financeiro da Bloomberg, o campeão mundial de gráficos por centímetro quadrado de tela. A diferença é que no caso da Bloomberg os gráficos são diretamente relacionados à própria essência da cobertura financeira, enquanto que na Headline News a intenção parece ser um disfarce para o vácuo jornalístico da programação.

No pouco espaço da tela reservado para os âncoras, sempre em pares mistos, a intenção dos produtores da Headline News parece ser o abandono da entonação séria, associada aos noticiários nacionais, e a adoção da informalidade e do bate-papo que caracterizam os noticiários dos canais locais na maior parte das cidades americanas. É uma tentativa de abrandar qualquer teor negativo das notícias por meio de um ataque frontal de sorrisos joviais, que estariam bem mais em conta em um anúncio de pasta dental.

Queda de audiência

O maior indício desta uniformização colegial foi a escolha de Andrea Thompson para a posição de uma das âncoras principais durante o horário nobre da rede, das 18 às 21 horas. Ex-atriz de um seriado de televisão, NYPD-Blue, sua única experiência com jornalismo foram 10 meses como repórter em uma pequena estação no estado do Novo México. Por outro lado, sua experiência dramática no filme Manhattan Gigolo (1986) foi amplamente debatida na imprensa, resultando na aprovação radical do público masculino para fotos do filme, disseminadas na internet, nas quais a atriz mostra seus fartos atributos físicos.

Não que a falta de experiência de Andrea tenha muita relevância, já que tanto ela como os outros âncoras se limitam a recitar manchetes rápidas escritas por um pelotão de produtores anônimos, baseados em despachos da CNN e de agências de notícias. A falta de profundidade se reflete principalmente na cobertura internacional, reduzida a um segmento chamado de Global Minute, com, literalmente, 1 minuto de duração. Mesmo perante um evento internacional extraordinário, como a explosão de uma bomba em Jerusalém em 9 de agosto, a Headline News só quebrou o molde com meros 15 segundos extras de cobertura no início da rotação do programa. Mas poucas horas após a explosão, a notícia já havia sido exilada de volta ao gueto do minuto global. Se estendida à própria CNN, essa tendência pode significar um sinal de perigo para a sobrevivência profissional dos mais de mil funcionários que a rede mantém em 42 sucursais internacionais.

Em termos de receptividade pública para as mudanças, a audiência média da Headline News na sua primeira semana foi de 154 mil residências, um aumento de 25% em relação ao mesmo período no ano passado. E mesmo considerando uma inflação natural da audiência em função da curiosidade do telespectador pela novidade, assim como uma semana de grandes manchetes, os números são positivos o suficiente para abrir a possibilidade de o formato ser eventualmente aplicado na própria CNN, que sofre uma erosão de audiência frente aos canais da FoxNews e MSNBC.

 

    
                      
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