Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > RÁDIO FREE EUROPE

Isabela Boscov

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

ENTREVISTA / NIGEL CHAPMAN

“Bom e popular”, copyright Veja, 3/12/03

“O diretor do Serviço Mundial da BBC diz que a qualidade não é inimiga do sucesso,e que a missão da emissora inglesa é trabalhar contra o ódio e a ignorância.

Há mais de um quarto de século na BBC, o inglês Nigel Chapman é o que se chama de prata da casa: começou como estagiário, editou programas jornalísticos, supervisionou programação e, em 1999, se tornou o primeiro diretor da BBC on-line, o braço de internet da megacorporação britânica de comunicações. Fez um trabalho tão bom que provocou uma onda de queixas entre a concorrência privada, temerosa da agilidade da velha estatal. Não que, no caso da BBC, ela surpreenda. A empresa britânica sempre demonstrou ótimo tino tanto para os negócios quanto para conquistar seu público. Ainda hoje, detém a parte do leão da audiência no país: 40% na televisão e 50% no rádio. Essa qualidade custa caro. No exercício de 2001/2002, foram 2,35 bilhões de libras de orçamento. A quantia serve também para financiar um setor que, depois de um período de vacas magras, a BBC voltou a considerar estratégico: o Serviço Mundial. Com transmissões de rádio e websites em 43 idiomas, o serviço cobre todo o planeta ? e, segundo Chapman, seu diretor desde 2000, quer fazê-lo de forma cada vez mais intensa.

Veja ? Em todo o mundo, os canais públicos são associados com programas soporíferos. A BBC, no entanto, é conhecida pela capacidade de inovar. Qual é a fórmula para fazer uma TV estatal relevante e, ao mesmo tempo, divertida?

Chapman ? Um jornalista dos anos 60 disse que a função da BBC é tornar o bom popular, e o popular bom. Trocando em miúdos, é possível atingir as pessoas sem descuidar de ampliar os horizontes delas. Não acredito que baixar o nível até o mínimo denominador comum seja o único caminho para ser mais popular. Isso é ainda mais importante no caso de uma corporação como a BBC, que é financiada pela taxa anual paga por todo domicílio com televisão no Reino Unido. É preciso que, no fim do ano, todo cidadão que desembolsou aquelas 115 libras da licença sinta que tirou proveito do seu dinheiro, seja na televisão, no rádio ou na internet. Por isso também temos vários canais de televisão e emissoras de rádio. Com menos do que isso, não conseguiríamos atender a tantos gostos e interesses diferentes como os que existem entre os 60 milhões de britânicos.

Veja ? Se baixar o nível não é necessariamente a melhor tática para aumentar a audiência, por que algumas televisões privadas insistem nela?

Chapman ? Aqui vou tomar o partido dos canais comerciais: há muita coisa de interessante neles. Muitos dos programas mais vistos e comentados hoje são aqueles que recorrem a formatos incomuns desenvolvidos por canais privados. Por exemplo, o Big Brother. Não importa o que se pense sobre o que acontece dentro do programa, não há dúvida de que o formato dele é inovador e original, e que pode servir para muitos outros conteúdos. No ambiente altamente competitivo de hoje, não há lugar para emissoras públicas que se colocam sobre um pedestal e, lá de cima, jogam pílulas de sabedoria sobre os meros mortais. Esse tempo de deferência às instituições já se foi. Atualmente, o público tem muito mais escolha e não se sente obrigado a ser fiel a ninguém.

Veja ? Qual a posição da BBC em relação aos reality shows?

Chapman ? Já fizemos alguns. Não existem ?nãos? na BBC. Acontece, algumas vezes, de examinarmos uma idéia e acharmos que ela cabe melhor em outros canais. Mas nada é rejeitado por princípio. Nos anos 60, por exemplo, a BBC lançou o grupo cômico Monty Python, o que foi uma aposta arriscada. Se tivéssemos testado o programa antes com grupos de discussão, ele nunca teria ido ao ar. Mas o Monty Python se tornou um sucesso tremendo. Só um pouco do gosto do público pode ser adivinhado. Na maior parte, ele é imprevisível. Muitos dos programas mais impactantes já feitos não teriam saído do papel sem um pouco de audácia por parte de produtores e programadores.

Veja ? O que um sistema estatal de difusão pode oferecer à sociedade que o sistema privado é incapaz de proporcionar?

Chapman ? Um canal comercial de rádio ou televisão obviamente tem de manter um nível alto de audiência para garantir os anúncios que o sustentam ? e tem de conseguir essa audiência dentro de uma certa faixa de público, de maior poder aquisitivo, ou seus anunciantes vão fugir. Já a importância do serviço público está explicada em seu próprio nome: ele existe para oferecer algo para todos na sociedade, sejam ricos ou pobres. É claro que esses dois modelos podem existir lado a lado, em harmonia. Aliás, o ideal é mesmo que eles convivam, já que isso enriquece o leque de opções para o público.

Veja ? O Brasil tem uma população em sua maioria pobre, que depende quase que exclusivamente da televisão para entretenimento e informação. Como um país nessas condições pode ter um sistema público de difusão que seja uma alternativa atraente e ao mesmo tempo cumpra o objetivo de elevar o padrão de qualidade do que se vê?

Chapman ? Essa é uma questão que envolve a legislação do país, os interesses econômicos e mais um mundo de coisas. Se eu tentasse formular uma receita, poderia parecer que estou me metendo, e sem conhecer a história toda, em assuntos que são de foro exclusivo dos brasileiros. Acredito apaixonadamente nos benefícios da televisão pública, e a recomendo com toda a convicção. Mas acho que ela deve fazer parte de um coquetel de sistemas, em que as empresas privadas são também fundamentais. Num ambiente como esse, o sistema público pode ser um ponto de referência importante ? inovando no formato e no conteúdo e estabelecendo um padrão de qualidade, por exemplo. Mas só a população de um país pode decidir se quer ou não aumentar assim o seu cardápio. Isso não é algo que se deve impor.

Veja ? Durante a década de 90, o Serviço Mundial da BBC atravessou um período de baixa. Chegou-se mesmo a pensar em extinguir a transmissão para alguns países, entre eles o Brasil. Qual a raz&atiatilde;o da atual retomada no interesse por esse serviço?

Chapman ? Primeiro, há a questão prática, que é a da verba. Já não somos mais o primo pobre da família BBC. Mais importante, contudo, é que o apetite por notícias internacionais e pela análise desses fatos vem aumentando a passos rápidos. Se o Serviço Mundial da BBC não existisse antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, teríamos de inventá-lo a toque de caixa. Em momentos assim, as pessoas querem uma fonte de informação confiável e imparcial à qual possam recorrer. É preciso deixar claro que o Serviço Mundial não quer competir com as mídias locais. Nunca vamos cobrir o noticiário de São Paulo, por exemplo. O que queremos é oferecer um serviço gratuito, tanto em inglês quanto em português, no qual os ouvintes encontrem uma visão mais ampla dos assuntos mundiais. A intenção é atingir pessoas que tenham influência na formação da opinião pública e nos destinos do país. Quando se consegue isso, já é razão suficiente para manter o serviço. Eu diria ainda que o Serviço Mundial da BBC é particularmente importante em países em que quase não há meios de comunicação em funcionamento. É o caso do Afeganistão, e em certa medida do Iraque.

Veja ? Onde estão os ouvintes da BBC no Brasil?

Chapman ? Durante muito tempo, nosso eleitorado foi a população das zonas rurais, que ouvia o Serviço Mundial em ondas curtas. Esse público ainda existe, mas cada vez mais a BBC chega aos ouvintes brasileiros por intermédio de parcerias com estações de FM. Temos uma, por exemplo, com a rede CBN, que tem alcance nacional. Dois terços da nossa audiência vêm dessas parcerias. Também estamos investindo muito na internet. Nosso site em português do Brasil funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e já é o quinto mais acessado em todo o Serviço Mundial.

Veja ? Do ponto de vista estratégico, o que a BBC e a Inglaterra ganham com o Serviço Mundial?

Chapman ? Acreditamos que fazemos um produto de excelente qualidade, e queremos que as pessoas o consumam. Se, ao fim e ao cabo, as pessoas gostarem da BBC e do que ela representa, ficarem com o inglês um pouquinho melhor por nossa causa e quiserem visitar ou fazer negócios com a Inglaterra, vai ser um prazer. Mas o Serviço Mundial não é, de forma alguma, um braço diplomático do governo inglês. Somos embaixadores de um outro tipo. Nosso interesse é aumentar o entendimento entre as nações, compartilhar idéias, cruzar fronteiras, criar um fluxo de informação que ajude sociedades diferentes a se compreender melhor e, quem sabe, diminuir a ignorância e o ódio. Se a BBC puder fazer algo para evitar que essas tensões piorem, já terá valido a pena manter o Serviço Mundial. Admito que essa ambição, a de tornar o mundo um lugar mais civilizado, é gigantesca. Mas os meios de comunicação podem de fato contribuir para demolir barreiras.

Veja ? O governo do primeiro-ministro Tony Blair tem apoiado os Estados Unidos durante a crise do Iraque, mas a opinião pública britânica nem sempre esteve a seu favor. Qual o papel da BBC, uma corporação estatal, mas de interesse público, em situações como essa?

Chapman ? A BBC, como instituição, não tem um ponto de vista a respeito do Iraque. O trabalho da BBC é fazer bom jornalismo e refletir a diversidade de opiniões sobre o assunto. Temos de ouvir representantes do mundo árabe, dos Estados Unidos, da Europa, da África e de todos que sejam tocados pela crise, e analisar essas visões da forma mais equilibrada possível. A idéia é dar elementos ao público para que ele decida que partido vai tomar, e não tomar essa decisão no lugar dele.

Veja ? Como o senhor avalia a cobertura da Guerra do Iraque pela BBC?

Chapman ? Em retrospecto, eu diria que a BBC e o Serviço Mundial fizeram um ótimo trabalho. Tomamos toda espécie de cautela para refletir os vários pontos de vista envolvidos, e em especial aqueles do mundo árabe. Mas, numa guerra, às vezes é difícil enxergar por entre a neblina dos acontecimentos. Posso citar o caso da suposta insurreição civil contra Saddam Hussein nos arredores da cidade de Basra. No calor do momento, parecia haver ali um levante, que o tempo e uma apuração mais cuidadosa depois desmentiram. Nesses casos, é preciso admitir o erro e ser franco com o público sobre o que não se sabe ? o que, numa guerra, sempre é muito. A meu ver, essa franqueza é o sinal de um sistema de difusão maduro.

Veja ? Como está a credibilidade da BBC no mundo árabe?

Chapman ? É uma pergunta que nos fazemos constantemente. Para começar, o mundo árabe não é homogêneo. Mas há sintomas de que, no geral, o ceticismo em relação às mídias ocidentais aumentou desde a guerra. Talvez isso se deva ao crescimento dramático da televisão de idioma árabe, que proporciona aos cidadãos desses países opções com que eles não contavam até pouco tempo atrás, e com as quais naturalmente se identificam mais. Ainda assim, por causa de sua longa história, o Serviço Árabe da BBC tem algumas das melhores fontes entre todos os veículos mundiais. Muitas figuras-chave do mundo árabe fazem questão de participar de nossos programas, porque elas os vêem como um instrumento capaz de facilitar as relações com o Ocidente. Temos também evidências de que somos vistos como mais confiáveis do que nossos competidores, e por isso as personalidades do mundo árabe nos procuram em momentos de crise. Somos, por assim dizer, o fiel da balança.

Veja ? Desde meados do ano, quando se descobriu que os Estados Unidos e a Inglaterra tinham evidências antes do início da guerra de que o Iraque não possuía armas de extermínio em massa, uma crise se avolumou. Não só o governo Blair reagiu com contrariedade como o especialista em armas biológicas David Kelly, que era o informante da BBC, suicidou-se ? e muitos atribuem esse ato à pressão implacável da mídia. Além disso, há acusações de que os relatos de Kelly foram ?turbinados? para parecer mais dramáticos. Como o senhor vê a atuação da BBC em meio a essa polêmica?

Chapman ? Não podemos comentar em detalhe o caso Kelly, porque o relatório do juiz que está à frente do inquérito só deve chegar ao domínio público depois do Natal. Mas eu diria que, a longo prazo, a importância desse episódio é que ele demonstra na prática como, e até que ponto, uma organização pública pode, sim, se manter independente do governo e do Estado. Quero crer que esses acontecimentos jogam uma luz favorável sobre o modo de vida britânico, que permite que uma investigação de extrema sensibilidade como essa se desenrole diante dos olhos do público.

Veja ? Do que o senhor mais se orgulha nos 81 anos de história da BBC?

Chapman ? Primeiro, do fato de que a BBC foi testemunha, em nome do público, de todos os grandes eventos que ocorreram nesse período, da coroação de Elizabeth II ao primeiro pouso na Lua e à Guerra do Iraque. Depois, de termos sido pioneiros em todos os tipos de programação, e de termos atingido a excelência em todos eles. Nossos teledramas, por exemplo, são fantásticos, e reconhecidos como tal em todo o mundo. E também me orgulho de nossa agilidade. A maior parte das empresas de comunicação tardou a reconhecer a importância da internet e acabou perdendo o bonde. Nós nos lançamos cedo nesse desafio, e acho que causamos uma boa impressão.”

 

RÁDIO FREE EUROPE

“Rádio Free Europe Corta Emissões na Europa de Leste”, copyright Público, 30/11/03

“A Rádio Free Europe/Rádio Liberty, financiada pelos Estados Unidos, vai deixar de emitir para sete repúblicas europeias ex-comunistas no final deste ano. As emissões para a Bulgária, Croácia, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia e Eslováquia terminam a 31 de dezembro, anunciou ontem a porta-voz da rádio Sonia Winter. O objectivo é concentrar esforços nas regiões problemáticas do Médio Oriente e Ásia.

A decisão foi tomada na sequência de uma directiva da Casa Branca e do Broadcasting Board of Governors, que gere a estação, que determinou o encerramento das operações para os países que se estão a preparar para entrar na NATO e na União Europeia. ?Nos últimos seis anos, a RFE/RL expandiu-se rapidamente na Eurasia e no Sudoeste Asiático. É agora altura para nos focalizarmos nestas áreas problemáticas?, afirmou o presidente da estação, Thomas A. Dine, num comunicado.

A Rádio Free Europe ou Rádio Liberty (Liberdade), como também é conhecida, transmite actualmente em 34 línguas. Na Europa, continuará a emitir para a Bósnia, Kosovo, Macedónia, Moldávia, Sérvia-Montenegro e Ucrânia. Trata-se de uma entidade não-lucrativa que recebe fundos do governo norte-americano. Foi lançada em 1949 para divulgar informação pró-ocidental para os países encerrados pela Cortina de Ferro e para promover valores e instituições democráticas. A estação mudou a sua sede de Munique, na Alemanha, para Praga, em 1995, no seguimento do colapso do comunismo seis anos antes. A Rádio Free Europe começou a transmitir para o Irão e Iraque em 1998, e no ano passado reactivou as emissões para o Afeganistão como parte da campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo.”

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