Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > NO LIMITE 2

Ivan Angelo

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

NO LIMITE 2

"O que há por trás desse jogo de televisão", copyright Jornal da Tarde, 1/02/01

"Falávamos, na última terça-feira, das arenas de gladiadores montadas por redes de televisão, aqui e no exterior, e apresentadas ao respeitável público como ‘reality shows’, espetáculos reais, espetáculos da realidade.

Os organizadores reúnem na arena uma dúzia de ‘duros’ precisadíssimos de dinheiro por algum bom motivo pessoal e os põem a se engalfinhar pela grana diante de nossos milhões de olhos. O objetivo do espetáculo é, como nas arenas romanas, eliminar os adversários, mas agora – somos civilizados – a eliminação não é física. No entanto, não dispensa a execração, a humilhação e a rejeição. Senão, qual é a graça? O primeiro eliminado disse ao JT de terça-feira: ‘Sentia todo aquele peso ruim nos ombros, aquela inveja, aquela ganância das pessoas.’ Ora, dizem, a vida é assim. O show da vida. A realidade é essa. É a luta pela vida. A dura realidade. Cai na real, meu.

Em nossa época, temos visto um esforço do pensamento para compreender e, mais do que isso, para captar a realidade. Expressões como ‘em tempo real’ tentam trazer para o campo da realidade até conceitos abstratos como o tempo. A televisão é um dos campos que têm instigado a questão. Discute-se se o recorte da realidade que ela apresenta coincide com a ‘realidade verdadeira’ ou é apenas um ponto de vista. Até mesmo o jornalismo entra nessa discussão. As pessoas que fazem uma novela como Laços de Família acreditam que estão oferecendo ‘realidade’ ao telespectador. A garota de programa que mora com os pais, a filha que toma o namorado da mãe, o marido impotente que é bom sujeito e bom pai, o machão que papa todas, o oportunista que se casa com a milionária e come a empregada, a mãe que esconde da filha quem é seu pai, a garota que só quer infernar a vida dos outros, bandidos que matam pessoas na rua que estão de passagem – isso existe ou não existe na realidade, é ou não é ‘real’?

A televisão bajula o real. Repete seus dados registráveis, exteriores. Cada imagem troca informações com o público, que tem de compreender a sua seqüência e aceitá-la. É tudo muito rápido, não pode haver hesitações. A linguagem realista é a que pode ser mais bem compreendida pela massa. A tevê tem de mostrar objetos familiares para que o público possa, reconhecendo-os, integrar-se, entrar na onda. Deve também lidar com conceitos e valores existentes na coletividade, para que o público possa engajar-se. Esse é o perigo dos ‘reality shows’, sejam novelas ou megagincanas: reproduzem aspectos negativos da sociedade, sem criticá-los no fundo ou na forma.

Como espetáculo de televisão, No Limite 2 é uma repetição do que já vimos na primeira série. Deve alcançar sucesso semelhante, talvez um pouco menor por não ser mais novidade e por ter saído vencedora do primeiro uma concorrente ‘fraca’. Não combina com a idéia popular um fraco vencer.

O programa que iniciou a nova série poderia ter sido mais bem narrado. Zeca Camargo começou excitado demais, até um pouco constrangedor, depois maneirou. Faltaram informações. Por que cinco redes para seis pessoas? Para estimular aconchegos? Sávio foi logo abrindo: ‘Eu e Eliane trocamos carinhos.’ Quem perguntou? A equipe de reportagem? Ou era uma confidência dele? Para quem? E adiante, Eliane justificava: ‘Todo mundo é de carne e osso, acabou rolando, a gente acabou se beijando.’ Quem perguntava? Era a equipe criando climas, apimentando o jogo? Eram os colegas fofocando?

Num determinado momento do primeiro ou do segundo dia, apareceu uma arara comendo uma banana. Que banana era aquela? Roubada de uma das equipes? Os participantes queixavam-se tanto de fome e deixavam a arara comer uma banana? E por que não vimos ninguém reclamar? Será que só o telespectador e o cinegrafista viram? Outro deslize: no momento crucial em que uma equipe estava perdendo o barco da competição, o narrador não chamou a atenção para o detalhe. O momento passou sem nenhuma emoção (problema de edição). Aliás, é emoção que está faltando nessa arena."

"Pintou um clima… …entre dois participantes de No Limite", copyright Veja, 7/02/01

"Assim como aconteceu no primeiro No Limite, relações inter-raciais prometem tornar mais picante a segunda edição do programa, que estreou na Rede Globo no último dia 28. Para quem não se lembra, a gincana televisiva do ano passado teve um momento tenso quando Marcus Werner, um garotão branco da Zona Sul do Rio de Janeiro, chamou de ‘crioulo’ o líder comunitário Paulo César Martins, da favela carioca da Rocinha. No novo No Limite, o clima não é de preconceito, mas de sedução. Tudo porque a produção do programa forneceu apenas cinco redes de dormir para as equipes de seis integrantes. O artifício fez com que pintasse um clima na turma dos Lobos-Guarás. Foi entre Eliane Mara Menezes, de 31 anos, e Sávio Henrique Clemente, de 25. Com 1,84 metro e 86 quilos, ele faz o gênero ‘gigante de ébano’. Eliane e Sávio dormiram agarradinhos e, vira daqui, vira dali, deram umas bicotas. ‘É, acabou rolando’, reconheceu Eliane, um tanto pimpona. Os próximos episódios de No Limite devem trazer mais detalhes sobre o caso. Segundo um funcionário da Globo, o enrosco entre os dois continua a pleno vapor, mas ainda não se transformou num ‘romance mais profundo’. Eles nem teriam usado o suprimento de camisinhas posto à disposição dos participantes. Humm…

Ambos são de Curitiba, onde a história está na ordem do dia. Os jornais Primeira Hora e Folha do Bacachiri publicaram reportagens sobre os agora ilustres filhos da cidade. Sávio, que luta jiu-jítsu, é conhecido em seu pedaço como um dom-juan inveterado, do tipo que fica com uma moça a cada semana. É tão mulherengo que volta e meia se mete em confusão. ‘Localizamos uma gangue que está querendo dar uma surra em Sávio. Esse pessoal não gostou nem um pouco de ele ter dado em cima de uma moça da turma’, diz o diretor da Folha do Bacachiri, Rodrigo Werneck. Eliane, por sua vez, mora com a tia e tem fama de ser certinha. ‘Ela não é namoradeira’, diz sua irmã, Cláudia. Humm…

Lhitts: eliminada por problemas de nutrição?

O primeiro capítulo de No Limite teve audiência média de 34 pontos, dez abaixo do previsto. A Globo espera que episódios como o de Eliane e Sávio atraiam mais público. A festa das celebridades instantâneas, no entanto, já começou. O pernambucano Leon, eliminado logo de cara, avisou que espera convite para posar nu em alguma revista masculina. É impressionante como as pessoas escolhidas pela Globo gostam de mostrar as vergonhas. Será pré-requisito? Nas próximas semanas, deve ser exibido o abandono da concorrente Lhitts, pertencente aos Lobos-Guarás. A equipe médica de No Limite teria recomendado sua exclusão por problemas de nutrição. Humm… Nada grave: se tudo der certo, ela poderá posar nua sob o título ‘A subnutrida mais quente da Chapada’."

"Sem o impacto original", copyright Jornal do Brasil, 30/01/01

"O programa de maior sucesso na TV no ano passado voltou ao ar sem grandes mudanças. É claro que a nova edição de No limite trouxe novidades. Uma troca no local de gravação e provas diferentes eram quesitos tão essenciais quanto os novos integrantes. Mas mesmo que a Chapada dos Guimarães traga mais desafios e tarefas mais atraentes à câmera, fica difícil reproduzir o impacto que as cenas da primeira versão causaram no telespectador, quando a audiência tinha média de 45 pontos. O primeiro episódio do novo No limite teve média de apenas 35 pontos, com pico de 40.

Se a audiência não foi a dos velhos tempos, a repercussão da expulsão dos integrantes dos grupos promete continuar. Pelo menos a Globo vai se esforçar bastante para que isso aconteça. A primeira providência da emissora foi convocar uma entrevista coletiva com o candidato eliminado no episódio de estréia: Leon, ou Leonardo – o codinome foi dado ao participante apenas para distingui-lo de um concorrente homônimo. Leon compareceu à reunião com a imprensa agindo como um novo artista.

Brincou com os jornalistas, fez piadas e insinuações sobre seus ex-colegas e ainda teve tempo de se emocionar. Para Leon, sua eliminação do grupo Lobos Guarás veio por causa de sua autenticidade. ”O anúncio da minha expulsão veio como uma porrada. Não esperava. Eu era verdadeiro e eles não gostavam disso”, contou Leon. O recreador pernambucano falou sobre a fome e o frio que teve que suportar nos quatro dias em que participou do programa. Reclamou também dos insetos, mas destacou a falta de união dos colegas. ”Isso era a pior coisa que tinha lá. Põe isso aí em negrito”, disse aos jornalistas.

O maior alvo de Leon foi Sávio. ”Ele é muito esperto. Fazia falsos elogios a todo mundo. É muito dissimulado”, acusou. E ainda disse que o namoro entre Sávio e a colega Eliane não passou de abraços e beijinho. ”Era impossível fazer algo mais sem a rede balançar”, contou. Leon também falou que as perguntas feitas pela produção induzem os participantes a falarem mal de seus companheiros. Leon falou muito sobre caridade, pensamento positivo e lealdade, terminando a entrevista chorando ao comentar sobre o efeito que a natureza do local teve sobre ele."

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