Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > UM ANJO CAIU DO CÉU

Ivan Angelo

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV


UM ANJO CAIU DO CÉU

"Perguntas e perplexidades diante da tevê", copyright Jornal da Tarde, 23/01/01

"Pois é, um anjo caiu do céu. Mais uma história de anjo que vem à terra ajudar um protegido. O mundo do céu será também dos protegidos? Qual será o critério? Mais uma história de um homem que tem a oportunidade de voltar da morte para corrigir o que fez de errado. Por que esses anjos de folhetim sempre escolhem tipos relapsos para ajudar? Tanta gente merecendo por aí…

Rock in Rio. Gostei de chamarem aquilo de gororoba. Nas primeiras décadas do rock, os guitarristas colocavam suas guitarras na altura do umbigo, até uns dez centímetros abaixo. Baixaram o nível, agora tocam em cima da genitália.

Um até tirou a roupa e o pirulito ficou atrás do instrumento. Para quem decodifica o que lê, um pingo é letra. O rock virou uma coisa meio masturbatória, virou não?

Interessante a coincidência: no começo e no fim da semana do Rock in Rio, o Fantástico mostrou dinossauros lutando por um espaço e um deles fazia xixi para demarcar seu território. Foi o que os metaleiros fizeram com Carlinhos Brown. De novo, um pingo é letra para quem procura entender. O xixi foi simbolizado pela água. Jogaram garrafas e copos de água no bicho inimigo, marcando o território metaleiro. Os batuqueiros invadiram a praia dos metaleiros. Brown era o ‘stranger’ dos filmes de faroeste, o ET dos filmes de ciência-ficção. Era aquele que vem de outras terras ou de outra galáxia para invadir nosso espaço. Essa cultura está tão entranhada nos humanos que não há missionário bem-intencionado (se é que existem, se é que não são todos braços robóticos de algum processo de colonização) que a mude. Os organizadores do festival agiram como uma ONU da indústria cultural e botaram um israelense no território palestino, ou vice-versa. Não deu certo, jogaram um xixi simbólico nele.

Por que botaram Os Maias no ar depois de Linha Direta? Um investimento vultosíssimo jogado para as horas mortas por causa de um programa barato.

Ora entra às 22 h, ora às 23 h, ora à meia-noite. E depois falam de decepção com os níveis de audiência. Quem, nesse Brasil de trabalhadores, fica acordado depois das 23 h? Qual é o índice de audiência dos programas pós-23 h?

A minissérie Os Maias não estava pronta quando foi ao ar. Será que era impossível adiar por uma semana? Os patrocinadores iriam cair fora por causa de uma semana? Mesmo se houvesse multa, não seria melhor do que estrear sem o espetáculo estar pronto? Bem fizeram os sócios portugueses que adiaram a estréia, em Portugal, para o mês de fevereiro, e explicaram claramente que o adiamento se devia ao atraso da Globo na montagem dos primeiros capítulos.

Queriam a coisa pronta e não o sufoco. Por que, aqui, decidiram pelo sufoco?

A coisa ainda não está bem explicada.

O narrador de Os Maias poderia ajudar um pouco mais o telespectador. Se a série estivesse pronta quando foi posta no ar, um grupo de teste poderia assisti-la e fazer perguntas que o narrador responderia. O que aconteceu com o pai de Maria Monforte? Por que ela não o procurou, em vez de cair na vida?

E a fortuna dele, por que não a amparou? Quem é aquele menino que convive na infância com Carlos da Maia? Quem é aquela menina Teresinha com quem ele brinca de médico? Quem são seus pais? Vizinhos? Parentes? O telespectador sem respostas tende a zapear.

Leio na revista Veja declarações de uma jovem senhora com leucemia e vivendo circunstâncias muito mais dramáticas do que a Camila da novela das nove. Ela diz que há muito mais choro na novela do que na vida real. Que há mais esperança na vida real. Novela é isso mesmo, a exasperação do real, um cutucão na ferida alheia."

"Um anjo fino", copyright no. (www.no.com.br), 25/01/01

"Quatro capítulos depois de estreada, a novela das sete da Globo ainda não deu um beijo na boca. Nenhuma das atrizes de Um Anjo Caiu do Céu exibiu até agora, passados 200 minutos no ar, qualquer façanha adquirida recentemente em borracharias, digo, em clínicas de cirurgia sílico-plásticas. É tudo muito diferente de Uga-Uga, a anterior, que já demonstrava seus propósitos desde a onomatopéia lúbrica do título. A Globo resolveu baixar a bola da paixão, digo, do tesão. Está apostando na volta da comédia dramática familiar, se é que você me entende. Pais e filhos em conflito, crianças em busca da mãe, administração do patrimônio comum, casamentos por interesse, a busca da felicidade a partir da solução dos dramas do lar-doce-lar. Se alguém lembrar de Frank Capra, o mestre que tirava humor com mão leve dessas pequenas desordens domésticas, vai receber um e-postal de agradecimento do autor. É onde Antonio Calmon quer chegar.

Você já deve ter esquecido, afinal Uga-uga, uma tremenda bolinha de sabão, estourou, digo, acabou na semana passada. Mas é uma mudança radical de rumo. Ninguém era de ninguém na selva de Uga-uga, e evidentemente todos esses ninguéns, quase todos atores abaixo dos 30 anos, andavam seminus. O Ibope vibrou com a apologia dos solteiros e do descompromisso. Em Um Anjo Caiu do Céu a Globo aposta, pela ordem, a) em atores vestidos; b) os principais na faixa etária acima dos 50; c) debate das alianças familiares; d) humor sem duplo sentido; e) algumas lágrimas. Pode ser apenas uma pista falsa. Um cara que vem com a camiseta ‘Sexo? Tô fora!’, e quando ele passa você vê a continuação da frase nas costas: ‘Tô dentro, tô fora, tô dentro..’ Uma casca de banana para que o Juiz de Menores, Siro Darlan, deixe o estúdio em paz e comemore a volta da compostura – até que nas próximas semanas, quando ninguém estiver olhando, a coisa engrosse. Mas, por enquanto, não parece que os fantasmas de Humberto Borges e Danielle Winits voltarão a arfar no cangote dos espectadores. E – não por causa do moralismo nem qualquer restrição ao bafo quente do amor – Um Anjo que Caiu do Céu está indo bem assim.

A novela conta a história de um fotógrafo brasileiro de fama internacional que roda o mundo denunciando a miséria. Foi o primeiro grande impacto visual da novela. Não, não porque as cenas do fotógrafo tenham se passado em Praga. Mas porque João Medeiros, o tal Sebastião Salgado das sete horas, é vivido por um moderninho Tarcisio Meira incrivelmene remoçado por brincos, piercings, penteados e sabe-se mais o quê inventado pelos estilistas da emissora. Aos 64 anos, no primeiro capítulo, esbanjando charme e o tom certo nas passagens de humor, Tarcísio abordou uma tcheca no balcão de um bar em Praga e, mesmo sabendo da língua apenas a expressão ‘Você é linda’, já na cena seguinte estava abraçado com a moça, quarenta anos a menos que ele, num quarto de hotel. Esse Tarcísio!!! Em 2002, ele faz 40 anos de telenovela. Quem vai levantar a numerália de suas conquistas, quantas mulheres, quantos beijos, quantos casamentos?

Antônio Calmon, o rei das sete, cercou por todos os lados. Ao perseguir um nazista criminoso de guerra num núcleo, ele põe a mão na causa social correta e agrada os que cobram mais consistência ao horário. Ao transitar pelo mundinho da moda em outro núcleo, ele curtirá a modernidade fashion das modelos e pisca o olho para os adolescentes do horário. Ao colocar um anjo como cicerone de João Medeiros, ele belisca o imenso filão esotérico e aperta a mão do pessoal do merchandising. Ao colocar detetives atrás de um menino perdido, ele deixa de sobreaviso o núcleo policial que pode incrementar a trama com tiros e perseguições, ficando em paz com o ibope. Centrando a trama em questões da família, é absolvido pelo departamento jurídico da emissora, que não precisa descansar um pouco depois da confusão com juizado de menores e igreja na novela das oito.

Há muito a Globo não coloca no ar uma novela tão bem amarrada na sua estratégia de venda e tão promissora de prazeres para quem assiste. Na quarta-feira, Daniel Dantas, como o estilista Selmo de Windsor, abriu as portas da mansão decadente em Londres e teve momentos de graça elegante num bate-boca com Cassio Gabus Mendes. Zé Wilker é um galã canalha e Cristiane Torloni, uma perua cretina, os dois prontos para receber no último capítulo a mensagem de que A Felicidade Não se Compra, um outro filme de Frank Capra. A escalação dos atores também parece perfeita para que Um Anjo Caiu do Céu fique em paz com a mídia. Há um rostinho novo, Débora Falabella, que breve receberá um buquê de flores da Playboy e, principalmente, a volta de Patrícia Pillar às novelas. Ela faz um papel sofrido, o da mulher que procura o filho perdido ainda pequeno, mas, definitivamente, o poder, ou o sonho com ele, lhe é afrodisíaco – Patrícia, a namorada do presidenciável Ciro Gomes, está linda. Se tudo der certo, se o nazista for preso, se a criança for encontrada, a família vencer e o ibope explodir, Ciro já tem no sorriso da namorada o outdoor e no título da novela o slogan para a campanha de 2002. O perigo é o Tarcísio concorrer."

"Horrores e anjos no mundo da tevê", copyright Jornal da Tarde, 25/01/01

"Por que você não desliga a tevê ou muda de canal quando aparece na tela algum material com o qual não concorde moralmente, que desaprove eticamente ou que o desagrade visualmente? Se você acha um absurdo as aberrações que sintonizou por acaso no programa de Sérgio Mallandro, por que as vê por alguns momentos antes de fugir delas? Se o horrorizam as imagens de um adulto barbarizando uma criança, captadas de repente num programa do Ratinho, por que não muda imediatamente de canal e se livra do horror? Esse livre arbítrio é o mais repetido argumento de quem defende uma tevê entregue inteiramente à irresponsabilidade dos produtores. O mecanismo que atrai o público é o mesmo que o faz contemplar horrorizado o morto na rua, o desastre sangrento, o incêndio em que pessoas pulam do prédio. Não quer dizer que ache aquilo bom ou que encontre prazer estético na cena. Esse olhar perverso tem proporcionado aos programas apelativos uma parcela do seu público. Um público relutante, mas computado nos índices de audiência.

Anjos – Na terça-feira, enquanto o menino Caio Blat brincava de anjo na novela das sete, no mesmo horário Cary Grant interpretava um anjo no Telecine Classic. Blat tentava ajudar Tarcísio Meira a voltar à vida para consertar seus desacertos; Grant ajudava o bispo David Niven a fazer algo pelos pobres e a namorar sua própria mulher, Loretta Young. E dizia para Niven: ‘Estamos em todos os lugares, ajudando as pessoas que merecem’. Ele quase apaixona-se por Loretta. Um filme elegante. O título? Um Anjo Caiu do Céu. Sim, o mesmo título da novela. O filme é de 1947 e bem conhecido. O autor da novela cochilou.

Noir? Prossegue, com altos e baixos, a série do cinema noir no Telecine Classic, às 22 h. O de hoje, Acusada, nada tem que ver com o ambiente, personagens e a iluminação que valeram a algumas produções dos anos 40 e 50 o apelido de noir. De novo, Loretta Young.

Quem preferir um filme melhor e atual tem, na mesma hora, no canal Fox, Amistad, de Steven Spielberg. Uma veemente defesa do direito à liberdade e à revolta contra a opressão. Interpretações notáveis de Anthony Hopkins e do negro Daimon Hounsou.

Outro filme que merece uma espiada, hoje, às 21h30: O Resgate do Soldado Ryan, também de Steven Spielberg. Mais uma interpretação elogiada de Tom Hanks, que é, de novo, candidato ao Oscar.

Quem quiser dar uma volta pela vanguarda da arte moderna deve sintonizar Man Ray: O Profeta da Vanguarda, um documentário bem-feito sobre o artista que uniu fotografia e pintura com resultados inovadores. No GNT, ao meio-dia e às 17h30.

Limite – Em quase todos os intervalos de programas da Globo, nos noticiosos da emissora e no Video Show, o telespectador tem uma overdose de chamadas para o novo No Limite. Como sempre, as regras são feitas para tirar dos participantes agressividade, ardis, malícia, oportunismo, egoísmo. Parece algo déjà vu, em outro cenário.Vamos conferir.

Íris – O JT deu ontem uma entrevista com Manoel Carlos, autor de Laços de Família. Um furo, em que o novelista conta o que vai acontecer no final com vários personagens. Manoel Carlos inova, não fica fazendo mistério, como aqueles autores que escrevem dois ou três finais para driblar a imprensa e muitas vezes acabam criando absurdos. Faltando escrever apenas três capítulos, confessa que ainda não sabe que destino dar a Íris. Claro, depois de metê-la em tanta maldade gratuita e inexplicável, ela fica sem saída. O jeito é deixá-la como está, maldosa e só, sem explicação, como começou."

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