Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Ivson Alves

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

TIM LOPES, ASSASSINADO

"Mudanças, Tim, KGB do B e outras", copyright Comunique-se, 30/7/02

"Aproveitando os ventos mudancistas que andam soprando aqui pelo Comunique-se (aliás, gostei do novo leiaute), resolvi fazer um tipo de Coleguinhas diferente, enfocando mais assuntos e com análises mais reduzidas. Vez ou outra, em assuntos que me pareçam precisar de explicações mais longas, eu até usarei o outro jeito, mas vou tentar me ater ao novo estilo, ok? Vamos ver se dá certo.

Caso Tim – Ontem, sábado, dia 29, houve mais outra passeata para lembrar a morte de Tim Lopes, desta vez no Centro da cidade. Claro que é legal não deixar o caso cair no esquecimento tão tipicamente brasileiro e cobrar das autoridades que façam o que têm que fazer: prender Elias Maluco e dar mais segurança à população. Porém, também seria importante não botar de lado o nosso dever de casa, pois até agora não vi nenhuma medida concreta tomada por nós para nos protegermos.

Depois de quase um mês ainda não soube de nenhum esboço sequer de proposta sobre procedimentos mínimos de segurança para a realização de matérias de cunho investigativo. Até agora, a única iniciativa nesta direção foi a promessa de Rosenthal Calmon Alves de criar um centro para ajudar o desenvolvimento do jornalismo investigativo latino-americano nos Estados Unidos. Ótima idéia, mas ainda por demais insuficiente para dar conta do nosso dia-a-dia aqui no Bananão.

Ainda tenho esperança de que esta discussão seja levada, de maneira conseqüente, durante o Fórum Tim Lopes Nunca Mais!, a ser realizado na ABI a partir de 19 de julho. Isso me parece essencial para que garantamos que realmente não haja mais coleguinhas sendo mortos idiotamente e, ao mesmo tempo, cumpramos um de nossos deveres sociais, que é denunciar os erros da sociedade brasileira. Do jeito que está até agora, só houve realmente duas conseqüências práticas da morte do Tim: alguns jornalistas melhoraram sua forma física graças a caminhadas, e a imagem de Elias Maluco diante seu público interno ganhou muitos pontos, para felicidade do seu image mananger.

KGB do B x Santo André – Realmente boa a cobertura da maior parte dos jornais e TVs sobre o caso do pagamento de propinas na prefeitura de Santo André. O caso está sendo tratado com comedimento, até porque prova, prova, ainda não surgiu ainda. Só depoimentos, que até parecem ter substância, mas ainda não contam com aquele cheque, aquela operação financeira, aquela conta de banco que decide o caso, pelo menos até este domingo, dia 30 de junho. A única lamentável exceção ao comedimento da cobertura é a do Estado de São Paulo, mas que não chega a ser surpresa. Afinal, convém lembrar, na década de 80 o mesmo jornal acusou o Conselho Indigenista Missionário de acobertar campos de treinamentos para guerrilha na selva amazônica e procurou envolver o PT com o roubo de um banco em Leme (SP) no qual morreram duas pessoas. Nas duas vezes, nãatilde;o havia provas de nada e o Estadão bancou as acusações assim mesmo, apenas por opção ideológica.

A única restrição que se pode fazer é que o espaço dado ao suposto pagamento de propina tenha sido maior do que o comprovado (há até documento forjado em papel timbrado de CPI por um delegado federal) uso da Polícia Federal como polícia política ao estilo soviético, fato este, aliás, só escrito com todas as letras nos jornais pela Tereza Cruvinel. Mas ainda assim houve manchetes de primeira página a respeito do caso e um boa matéria do JN, que realmente descamascarou a trama ao apresentar o informante da PF dizendo que jamais tinha acusado Lula de qualquer crime. Assim, dado ainda que estamos no Bananão, a cobertura dos dois fatos, no geral, tem sido bem equilibrada.

Ah! E para dar o crédito a quem merece, dado que o jornal é relativamente pouco lido, o caso da versão cabocla do KGB foi levantado pelo José Casado, da Gazeta Mercantil.

Krugman – No blog, já tinha ficado combinado que Paul Krugman era o único colunista econômico capaz de prever os acontecimentos realmente importantes para todo mundo. Cheguei a esta conclusão depois de ver que ele foi o primeiro a dizer que o caso Enron era apenas o início de uma crise no capitalismo dos EUA (depois teve gente que copiou até a comparação dele com o 11 de setembro, mas aí não vale). Agora proponho outro acordo: fica acertado que Krugman também o único a explicar os diversos tipos de falcatruas perpetrados pelas dirigentes de empresas e auditores de maneira a um ser humano comum poder entender.

Aliás, o colunista do New York Times, que é reproduzido aqui no Globo e no Estadão, tem outro mérito que poderia ser copiado aqui. Os leitores dele sabem que Krugman faz ferrenha oposição à política econômica de George W. Bush. Ou seja, o jogo é completamente limpo: quem o lê sempre sabe (e quem lê de vez quando nota logo) que ele tem um viés ao analisar os fatos. O leitor pode concordar ou não com ele. Fica por conta dele, leitor.

Aqui, no entanto, os colunistas econômicos em geral vendem uma ?imparcialidade? que não resiste à menor leitura. Como Krugman, eles têm uma maneira determinada de analisar os assuntos, mas, ao contrário do gringo, nunca deixam isso claro e ainda ficam ofendidos quando alguém observa o fato. Este tipo de atitude faz com que aconteça casos como daqueles colunistas de um jornal carioca que enquanto a política cambial do Plano Real era mantido a ferro e fogo por Gustavo Franco, aplaudiam o sistema com entusiasmo. Foi haver a desvalorização de 99 e Franco cair que os dois colunistas passaram a atacar o populismo cambial com determinação igual àquela com que o defendiam antes.

Idéia – Proponho que o meu vizinho de portal, Eduardo Ribeiro, convide o Rodrigo Paiva, assessor da CBF na campanha do penta, para ser palestrante do Congresso de Comunicação Empresarial do ano que vem. Ex-assessor de imprensa do Ronaldo Fenômeno, ele teria muito a dizer sobre tourear personalidades difíceis como aquelas que existem no esporte, principalmente no futebol. Além disso, Rodrigo faz um sucesso danado entre o mulherio, fato este o que certamente não prejudicaria o número de inscrições…

Mais do mesmo – Mais veneno paranóico? Outras análises tresloucadas? Vaivéns da galera? Informações relevantes de vez em quando? Então assine a Coleguinhas Por Mail, mandando um emeio para cpm@coleguinhas.jor.br."

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"Caminhando e desconversando", copyright Comunique-se, 7/7/02

"Para começar, vou repetir da maneira mais clara que posso a minha posição:

NÃO SOU CONTRA AS PASSEATAS PARA MANTER A PRESSÃO SOBRE AS AUTORIDADES PARA QUE ELAS CAPTUREM OS ASSASSINOS DE TIM LOPES. SÓ QUERO, QUE, PARALELAMENTE, SEJA CRIADO UM MANUAL DE PROCEDIMENTOS EM JORNALISMO INVESTIGATIVO.

As letras maiúsculas fazem parecer que estou gritando? Pois é porque estou gritando…E tomei esta atitude devido a uma clara tentativa de desconversa que, para mim, se confirmou na semana passada com um artigo de um coleguinha no Globo. No texto, o coleguinha defendia a realização de passeatas e a atacava os ?céticos? que não a estariam apoiando incondicionalmente como deveriam.

Quem me lê sabe que nunca defendi nem uma coisa nem outra e também não soube de nenhum colega que tenha defendido essas posições. Então por que este recado tão fora do tom? A única resposta que me ocorreu é que o coleguinha entrou numa de mudar de assunto para não pôr em evidência a necessidade da criação daquele manual citado. E por que isso? Porque, pensando bem, não interessa às empresas ter uma publicação do tipo, conhecida e reconhecida por todos, pois se ocorrer outro caso como o do Tim, poder-se-ia verificar o manual e ver o que não foi cumprido com a necessária diligência e por quem. Além disso, algumas providências que certamente estariam nesse manual – monitoramento constante do repórter, até por meio eletrônico ser fosse o caso, e seguro especial para ele , por exemplo – aumentariam os custos das corporações, que, como você sabe, não gostam de gastar dinheiro com segurança no trabalho.

Para a infelicidade dos desconversadores, porém, dificilmente se poderá escapar da elaboração deste manual. O achamento de parte do corpo de Tim e o seu enterro vai, quase certamente, diminuir a afluência dos jornalistas às passeatas (sem contar que fazer passeata na ZN não é um programa tão fashion quanto na orla…). Além disso, o ?Fórum Tim Lopes, Nunca Mais!?, que a ABI promoverá em breve, terá um dia inteiro par discutir esta questão e todos vão ter que tomar uma posição clara a respeito, e há uma boa chance de se sair já com algo alinhavado de lá.

De qualquer maneira, foi uma boa tentativa de se mudar o rumo da prosa. Se não deu certo, certamente não foi por falta de talento do executor da tarefa.

Adiamento – Por falar no ?Fórum Tim Lopes Nunca Mais?, ele foi adiado para o período entre 5 e 9 de agosto. O local, porém, está mantido: sede da ABI, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro.

Desrespeito e decepção – Não sei quanto a você, mas eu, adolescente morador de Pavuna e metido a ler e estudar, comecei a sonhar com a Barsa quando um daqueles vendedores de porta apareceu lá na Maria Joaquina 636. Fiquei encantado com aquele mundo de informação e com a capa bacanérrima que ele exibia numa amostra. Como a família só tinha o suficiente para botar a comida na mesa, pagar o aluguel e se vestir, minha mãe, mesmo sem jeito diante do meu olhar pidão, teve que recusar a oferta.

Assim, fica fácil entender a minha decepção quando soube que a empresa que edita a enciclopédia decidiu baixar de R$ 800 para R$ 100 o pagamento dos colaboradores, seja qual for o tamanho do texto, que varia entre cinco mil (uma Coleguinhas grande) e 15 mil caracteres. Pagando isso, eles esperam mesmo manter a qualidade editorial da Barsa, que hoje é mais encontrada em CD-ROMs do que naqueles tomos bem impressos?

?Triste mesmo?, dirá você, ?mas o que tem isso com jornalistas e jornalismo??.

Bem, é que muitos colaboradores da Barsa são jornalistas, alguns muito conhecidos e qualificados. E acho que uma das origens da desrespeitosa proposta é o fato de que, até agora, se mantém a liminar acabando com o diploma de jornalista, expedida em fins de 2001. Afinal, para uma profissão em que basta o gajo ou a senhôra ser alfabetizado/a exercê-la (como deixa a entender a liminar), qualquer cem paus está bom de tamanho.

No ar – A partir desta semana a Estrela da Morte (aliás, o Ataque dos Clones é bacaninha, mas inferior a todos os filmes da trilogia original) vai levar ao ar uma série de entrevistas com os presidenciáveis em diversos telejornais, a começar pelo JN. Vamos ver como vai ser, mas a prévia que rolou no ?Bom Dia, Brasil? de sexta-feira não foi nada promissora.

Se alguém passar o vídeo da entrevista com o ex-chanceler Luiz Felipe Lampréia para o Maurício, o levantador titular da seleção de vôlei masculino vai babar de inveja. Foi um tal de levantar a bola para Lampréia cortar em cima do candidato do PT (nunca referido nominalmente, apenas como ?certos candidatos? ou, mais sintomático, ?outros candidatos?) que Maurício se acharia um infanto-juvenil.

Sei não, mas acho que agora que a campanha começou pra valer, o Império vai fazer a borduna cantar no lombo do Lula. Vamos ver.

Mais do mesmo – Mais veneno paranóico? Outras análises tresloucadas? Vaivéns da galera? Informações relevantes de vez em quando? Então assine a Coleguinhas Por Mail, mandando um emeio para cpm@coleguinhas.jor.br."

 

"Um mês sem Tim Lopes", copyright Comunique-se, 2/7/02

"?É incompreensível?. Essa foi a definição de Nacif Elias, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, da atuação das autoridades e da polícia do Rio no caso Tim Lopes. Nesta terça-feira (02/07), fez um mês que o repórter da TV Globo foi assassinado e, até agora, seu corpo não foi encontrado. ?A gente quer ver um trabalho mais eficiente?, completou.

Com a faixa ?Onde está Tim Lopes?? ao fundo, representantes da ABI, sindicato e políticos sentaram-se juntos à mesa do auditório da associação, localizado no 9? andar do prédio na Rua Araújo Porto Alegre, no Centro do Rio. Eles participaram de um ato ecumênico, que reuniu o padre Ricardo Resende, o bispo Sérgio Franco de Oliveira, o pastor José Roberto, entre outros

Fernando Segismundo (foto ao lado), presidente da ABI, enfatizou o que havia dito o colega Elias: ?Achamos que as autoridades não fizeram aquilo que é por nós desejado: encontrar o corpo de nosso colega e prender e punir os responsáveis pelo crime?.

?Eles foram tão cruéis que cortaram o Tim em pedacinhos. Mas o que eles não sabem é que cada pedaço vai se tornar uma semente?, disse a viúva Alessandra Wagner.

Os religiosos elaboraram uma celebração litúrgica em homenagem a Tim Lopes. Ao final, todos deram as mãos, rezaram e cantaram o hino nacional.

Ainda esta semana, o sindicato vai procurar a Secretaria de Segurança Pública, a fim de cobrar mais empenho nas buscas pelo corpo de Tim Lopes.

Na próxima sexta-feira (05/07), jornalistas vão se reunir no sindicato para falar sobre um encontro que pretendem promover entre o final de julho e início de agosto. Segundo Elias, o evento vai reunir jornalistas investigativos latino-americanos. Eles vão debater a falta de segurança e discutir a qualidade do jornalismo feito hoje. O resultado do encontro será um livro, que deve funcionar como uma espécie de dossiê.

Cerca de 100 policiais participaram nesta terça de uma operação na favela Vila Cruzeiro, na Penha, onde Tim Lopes investigava denúncias sobre um baile funk local. Eles tentam prender os assassinos do repórter.

O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal e entidades representativas de várias categorias de trabalhadores vão realizar ato público em frente ao Supremo Tribunal Federal, no próximo domingo (07/07). A concentração acontece às 10h, no Quiosque do Atleta, no Parque da Cidade."

 

"ANJ divulga nota em homenagem a repórter", copyright O Estado de S. Paulo, 6/7/02

"A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou uma nota, intitulada Dívida com a Sociedade, sobre o caso Tim Lopes. Leia trechos:

?A ANJ está presente às homenagens que serão agora prestadas à memória do repórter Tim Lopes. E assume o compromisso de não permitir que o doloroso episódio se encerre com o sepultamento do companheiro vilmente executado.

Nem mesmo com a captura de seus assassinos.

O Estado tem uma dívida com a sociedade e com os jornalistas que a servem, muitas vezes arriscando a vida, como ficou tragicamente demonstrado. E só a pagará enfrentando o crime organizado com uma eficiência muitas vezes prometida e quase sempre rapidamente esquecida, com raras exceções em alguns pontos e em alguns momentos.

Falhas históricas dos procedimentos jurídicos deram a liberdade ao chefe dos assassinos de Tim Lopes. A patética inadequação dos organismos incumbidos de defender a sociedade permitiu e permite o estabelecimento das organizações criminosas. Vivemos um momento crítico, mas, de forma alguma, despido de esperança. Mas não esqueceremos que Tim Lopes foi assassinado quando investigava uma atividade criminosa que as autoridades não tinham o direito de ignorar.

A ANJ assume o compromisso de participar da guerra pela ordem, pela paz e pela vida. E o fará da forma que lhe é natural e própria: levando à sociedade um fiel retrato da realidade. Custe o que custar.?"

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