Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Ivson Alves

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

TIM LOPES, ASSASSINADO

"Réquiem para um Clark Kent criado da Mangueira", copyright Comunique-se, 9/6/02

"Tim Lopes está morto. A confirmação veio hoje, dia 9, à tarde, mas desde terça, quarta no máximo (dia 5), todos já sabiam o que lhe acontecera. Conheci o Tim (e quem com mais de que 40 e que ?correu? na rua não conhecia?) e o admirava pela sua história de vida até mais do que pelas matérias que fazia, embora não tivesse intimidade com ele. É em respeito à verdade dos fatos pela qual ele tanto batalhou que não dá pra participar da orquestra montada pelos RPs. E também não dá pra deixar de analisar o que aconteceu para não ficar mal com as pessoas, imperiais ou não. Mas tudo bem: depois de seis anos nesse negócio, não tinha mesmo mais esperança de ganhar concursos de popularidade…

O trabalho – ?Afligir aqueles que vivem no conforto; confortar aqueles que vivem na aflição?. Essa é uma das dezenas de definições de jornalismo que a gente ouve ou lê por aí. Parte do pressuposto que o jornalismo é serviço público, que existe para defender a população contra abusos, em especial dos chamados Três Poderes. Esta maneira de encarar as coisas dá de barato, obviamente, que o Jornalismo é um ?quarto poder?, não previsto por Montesquieu. É a versão dominante por ser a americana, mas não é a única: existe ótimo jornalismo doutrinário – quando não partidário – feito na Europa e até nos Estados Unidos mesmo (Michel Moore está aí para provar).

Aqui, nesta parte singularmente melancólica dos tristes trópicos, o jornalismo, neste raro momento democrático em que vivemos, ergue-se contra em defesa dos oprimidos apenas quando o opressor é o Estado. São muitas – e bem apuradas e bem editadas – matérias sobre os problemas na área de saúde (o hit da virada dos anos 80 para os 90, lembra?) e segurança, mas estranhamente poucas na área de Educação, que praticamente se resume a Provão e estatísticas descontextualizadas. No entanto, ensurdecedor mesmo é o silêncio sobre a opressão das empresas contra seus trabalhadores e consumidores, embora neste caso haja alguns pios no campo dos direitos do consumidor (o que é significativo: a pessoa merece um pouco de consideração como consumidor, mas não como trabalhador). Mas é perfeitamente possível fazer jornalismo, até mesmo econômico, sem parecer uma espécie de house organ de grande circulação externa.

O Império – Boa parte desta perspectiva de como fazer jornalismo no Brasil é fruto da maneira como o Império Global acha que o jornalismo deve ser praticado, em especial quando se trata da Estrela da Morte. Usando com habilidade a sombra do Estado na época a ditadura – como parte essencial de um projeto de modernização conservadora muito bem explicado por René Dreyfus em ?1964: a conquista do Estado? – a Rede Globo se auto-erigiu em mito e porta-voz do país, fazendo falar e calar quem fosse do seu interesse.

O fim da ditadura e a dinâmica de uma sociedade democrática, porém, lançou desafios ao Império, e em especial à Estrela da Morte, que o complexo midiático está tendo dificuldades crescentes em responder a contento. Um dos setores mais atingidos foi exatamente o jornalismo imperial, que na época anterior tinha apenas a função de ser uma espécie porta-voz semi-oficial dos governos militares (como, aliás, foi diversas vezes qualificado pela imprensa estrangeira). Na nova ordem, porém, o lugar do jornalismo das Organizações Globo, e novamente em especial o da Estrela da Morte, demorou a ser encontrado, mas acabou sendo achado durante a década de 90: se tornar porta-voz da sociedade em suas demandas contra o Estado (mas nunca contra o poder econômico do qual as próprias O.G. não só fazem parte, como até têm lugar no alto-comando, com funções de coordenação, como está explicitado por Bernarndo Kucinski em um dos artigos do livro ?Síndrome da Antena Parabólica?).

Os homens – Jornalista é bicho arrogante por natureza e sobre isto há consenso até entre os coleguinhas. O posicionamento político do Império e o semi-monopólio da Estrela da Morte, porém, exacerbaram esta característica em seus profissionais jornalistas. É muito conhecida, quase folclórica, a tendência dos ?bozós? (lembram deste personagem do Chico Anísio?) da redação de menosprezar seus colegas de profissão, especialmente os de veículos menos ricos e/ou famosos (ou seja, quase todos) e assessores de imprensa.

Mas a atitude política global levou também à exacerbação de um outro lado da arrogância: a onipotência. Os jornalistas da Globo tendem (tendem, viu? Não quer dizer que acontece com todos todo o tempo, mas que acontece com a esmagadora maioria muitas vezes) a se achar invulnerável a qualquer contratempo, desde ser questionado profissionalmente a levar um tiro de bandido. Dois exemplos desta maneira de ver a profissão:

1.Um amigo, rapaz um tanto chegado a ter o rei na barriga até por conta de seus talento e inteligência inegáveis, me confessou um dia que quase desvia uma caminhonete da Globo do caminho do aeroporto internacional, onde iria fazer uma matéria, para Vigário Geral. Motivo: ouviu pelo rádio do carro que a favela estava sendo invadida pela polícia. A razão era que, experiente, sabia como a polícia entra nestes bairros pobres e queria impedir, com sua presença, que inocentes fossem mortos. Como, apesar de um tanto arrogante, é em essência, além de ótima pessoa, um homem sensato – e tem dois filhos do primeiro casamento para ver crescer – dominou o ímpeto heróico e seguiu em frente.

2. Há pouco, na época em que a bandidagem ficou brincando de tiro ao alvo em delegacias, um chefe imperial teve brilhante idéia: botar uma equipe dentro de uma delegacia (ou posto comunitário) perto de uma favela pra ver se conseguia filmar os bandidos atirando nos policiais. Com algum custo, fizeram-lhe ver que, para cumprir a pauta, a equipe teria que ficar no meio do fogo cruzado, o que seria um tanto perigoso para um repórter que não fosse Clark Kent.

Acredito que foi este ?Complexo de Clark Kent? (nome de um livro que fala desta tendência do jornalista à onipotência) que perdeu Tim. Esta tese é corroborada pelo depoimento de uma amiga dele. Ela me disse que uns dias antes do desaparecimento, tinha lhe dito para tomar cuidado, pois estava indo sozinho para uma matéria muito perigosa. Tim, porém, achava que por ter sido criado na Mangueira, ser mulato, barrigudo e cheio de ginga, se sairia bem dessa maneira como se saíra em outras ocasiões, como na famosa matéria da ? Feira de drogas?.

A pauta – O problema é que a matéria da ?feira? e a do baile funk na Vila Cruzeiro eram substancialmente diferentes. Em primeiro lugar, no caso da feira tinha sido uma inédita e ousada operação. Os bandidos jamais esperaram ser filmados dentro de seus domínios; já no caso do baile funk, eles já tinham aprendido com a experiência (e também com uma outra de um flagra em um ponto em frente à 14? DP, no Leblon). Afinal, bandido também vê jornal da Globo e agora sabia que podia ser vigiado em seu próprio feudo.

Mas havia um perigo ainda maior no caso de Tim. Ele foi um dos que fizeram a matéria da feira, visitando exatamente um dos morros do Complexo do Alemão e, como ganhara um Prêmio Esso, ficou relativamente conhecido, podendo ser manjado com certa facilidade (não haveria dificuldade para os bandidos obterem uma foto dele usando os contatos que têm na Polícia).

Se os responsáveis pelo jornalismo da Globo achavam de suma importância realizar matéria tão arriscada, esta última consideração deveria tê-los feito ver que Tim Lopes era o último repórter da face da Terra a ser considerado para levá-la a cabo. E não importa o que ele dissesse ou argumentasse: não poderia fazer aquela matéria e ponto. Mas mesmo com outro profissional encarregado, o planejamento não poderia ter sido de uma matéria comum, mas uma verdadeira operação de infiltração.

Este tipo de operação, dizem até os livros de John Le Carré, demanda tempo muito maior do que duas semanas. Não sou especialista, mas usando apenas o bom-senso dá para ver que o planejamento deveria ter previsto o aluguel de um local próximo (se não desse para ser dentro mesmo da favela) para o repórter, de preferência acompanhado por uma mulher (casais são menos suspeitos). Eles ficariam lá por uns dois meses, até fazerem parte da paisagem. Iriam ao baile, mas não todos os fins de semanas, e certamente não no primeiro em que estivessem por lá, o que também ajudaria no ?efeito paisagem?. Depois de terem feito meia dúzia de imagens, e não mais, sairiam um dia, em pleno sol, e jamais voltariam. Infelizmente, optou-se pelo padrão vai-lá-e-não-me-volta-sem-a-matéria e ainda por cima com o Tim.

Reconstituição – Desde o domingo à noite, a comunidade da Vila Cruzeiro sabia que ?o movimento? pegara um ?coruja? repórter da TV Globo, tinha matado o cara a pancada e depois posto o corpo no ?microondas? (um colar de pneus dentro do qual o corpo é posto e que depois é incendiado), lá no alto do morro. A Globo só comunicou à Polícia o sumiço do Tim no fim da manhã de segunda-feira, mesmo sabendo desde domingo que ele não aparecera no ?ponto? às 22 horas, como combinado, e que, portanto, algo de errado tinha ocorrido. Para a redação, a informação chegou ainda mais lentamente, pois os jornalistas só souberam oficialmente do sumiço do colega por email interno divulgado às 18h14 de segunda.

Mas o prêmio Marido Enganado desta história deve ter ficado comigo. É que na terça pela manhã li o Globo de cabo a rabo na van, como sempre faço, mas não vi a notinha publicada (microscópica, segundo quem topou com ela) e só soube do desaparecimento de Tim quando vi a extensa matéria do JB (O Dia também publicou, mas eu não li). Só no dia seguinte o Globo passou a noticiar o desaparecimento de maneira decente, enquanto a Globo começou o noticiário na terça-feira à noite.

RP – Este retardamento (com trocadilho, por favor) não teve influência sobre o destino de Tim, que foi selado no momento em que ele – voltando ao baile, depois de ter dispensado o carro que o fora buscar às 20 horas de domingo – levou uma geral, durante a qual a microcâmera foi encontrada na pochete. Mas foi essencial para que o RP da Globo montasse a estratégia de divulgação do que realmente aconteceu em doses homeopáticas, e orquestrasse a indignação com o desaparecimento para que ela encobrisse o fato de que a segurança do repórter era, antes de qualquer um, de responsabilidade da empresa. Afinal, ele estava trabalhando e é de responsabilidade do patrão zelar o mais que possa pela integridade física de seu funcionário durante a sua jornada.

Acho até que a estratégia de RP pode dar certo, mas, infelizmente, não dá atender àqueles apelos pungentes de união com base do estamos-todos-nesse-barco. Sem dúvida que estamos, mas este navio, como o Titanic, está dividido em várias classes, e tenho consciência de que estou muito mais perto da linha d?água do que aqueles que estão me fazendo o pedido."

 

"Onde está Tim Lopes?", copyright Folha de S. Paulo, 7/06/02

"Vivemos, infelizmente, num país miserável, em que o jornalismo ainda tem de se ocupar de mazelas como a pobreza, o trabalho escravo, a corrupção, o narcotráfico.

Bom seria se vivêssemos todos num pedaço deste planeta em que pudéssemos abrir os jornais ou ligar rádios e televisões e encontrar apenas boas notícias. Teríamos, então, jornalistas exclusivamente dedicados a assuntos nobres, como a prosperidade, a cultura, o lazer, a prestação de serviços.

Nossa realidade é outra e nossa miséria está exposta de tal forma que não só não temos como ignorá-la como somos obrigados a vivê-la independentemente de nossa formação, origem social ou renda.

Nossas favelas, no Rio e em São Paulo, estão literalmente dominadas pelo narcotráfico. Nelas, os moradores – pessoas trabalhadoras, jovens em idade escolar, idosos cansados- sobrevivem humilhados e subjugados. O narcotráfico, com seus comandos carniceiros incrustados nas comunidades mais pobres e desassistidas, está acabando com as nossas vidas e com a vida dessas cidades.

Essa situação não pode ser escondida, tem de ser mostrada diariamente. E é isso que a imprensa tem obrigação de fazer. Não cabe a ela consertar a sociedade, mas é de sua responsabilidade apontar as feridas. Caso contrário, estará traindo uma de suas funções e contribuindo para o conformismo e para o domínio do terror.

No Rio, os sucessivos governos não têm tido competência para garantir a segurança física de seus cidadãos. Agora, já não existe segurança para o exercício do jornalismo, o que significa, na prática, que a liberdade de expressão neste país está ameaçada e que o poder mudou de lado.

O repórter Tim Lopes está desaparecido desde domingo à noite, quando subiu a uma favela para fazer uma reportagem sobre bailes funk. Tim Lopes não é um repórter qualquer. Ele é o repórter que, ao longo dos últimos 30 anos, não nos permitiu esquecer que vivemos no Brasil, cercados de miséria, racismo e violência. Nós o queremos de volta, vivo."

"Trabalho de risco", copyright Veja, 12/6/02

"No domingo 2, o jornalista da TV Globo Tim Lopes subiu pela quarta vez o morro da Favela Vila Cruzeiro, na Penha, um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Com uma microcâmara escondida na pochete, o repórter tentava colher informações e imagens para uma matéria sobre o baile funk local. Segundo denúncias de moradores, a festa, patrocinada por traficantes da facção Comando Vermelho, seria cenário para a exploração sexual de menores e consumo descarado de drogas. Tim Lopes ficou de encontrar o motorista às 8 da noite nas redondezas. Ele apareceu para dizer que precisava de mais tempo e voltaria duas horas depois. Desde então, Lopes está desaparecido.

Durante toda a semana, policiais procuraram por Lopes na Vila Cruzeiro e em favelas próximas. Sem sucesso. Em telefonemas feitos ao disque-denúncia, testemunhas contaram que um homem havia sido torturado e queimado na favela no domingo, provavelmente o jornalista. ?Temos certeza de que ele sofreu e está morto?, disse a VEJA, na tarde de sexta-feira, o inspetor Daniel Gomes, responsável pelas investigações. Restos de um corpo foram encontrados na entrada de uma pequena gruta na favela, conhecida como ?microondas?, por ser local de desova de corpos. No chão havia fragmentos de fitas de vídeo, que, a princípio, eram incompatíveis com microcâmaras. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está realizando testes de DNA.

Confirmada a morte de Tim Lopes, o crime terá sido o primeiro assassinato no Brasil realizado por traficantes de drogas em represália ao trabalho de um jornalista. Tim Lopes, 51 anos, teve sua carreira marcada por reportagens de denúncias sobre a vida precária dos brasileiros pobres. Sua matéria de maior repercussão recente, ?Feira de drogas?, mostrou o comércio de entorpecentes à luz do dia em três grandes favelas cariocas. No mundo, a morte de profissionais de imprensa costuma ser associada a guerras ou a regimes ditatoriais. Segundo a ONG Repórteres sem Fronteiras, 31 morreram no ano passado. Na Colômbia, dominada pelo tráfico de drogas, quarenta jornalistas foram assassinados entre 1991 e 2001. Se Tim Lopes foi assassinado, como suspeita a polícia, a sombra da Colômbia apareceu nesse campo."

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