Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CRISE NO SENADO

Jader não é Dreyfus nem a imprensa é santa

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

CRISE NO SENADO

Lúcio Flávio Pinto

Ao ser pronunciado, desde três anos atrás, o nome de José Osmar Borges sempre era associado ao do senador Jader Barbalho. O meio de ligação era o superintendente da Sudam, José Arthur Guedes Tourinho, colocado no cargo por indicação absolutamente pessoal de Jader. Foi na era de superintendentes que ascenderam graças à catapulta do senador paraense que Borges transfigurou-se em campeão de polêmicos projetos aprovados pela extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, laurel que já passou por outras cabeças não menos bem coroadas no passado, quando Jader nem chegava perto da Sudam sem provocar o escarcéu formado em torno do atual “megafraudador”.

Um político forte quase sempre atrai satélites empresariais para sua órbita, da mesma maneira como empresários poderosos engendraram seus satélites políticos. Os nexos causais é que raramente são estabelecidos. A grande imprensa nacional, trazendo a reboque as instituições oficiais, tem agora a possibilidade de reconstituir os elos entre Jader Barbalho e seus possíveis satélites, ou vice-versa. Esta seria a grande contribuição da mídia para a vida pública nacional.

Como jamais viu-se tanto empenho combinado das principais publicações periódicas do país, mês após mês empenhadas em esquadrinhar todo o território barbalheano de poder, seria a rara oportunidade de responder tanto às dúvidas já formuladas em torno dessas parcerias espúrias como fazer novos questionamentos para chegar às devidas conclusões. Não deixando, pela primeira vez, que restassem restos a pagar, como sempre acabou acontecendo nas blitzkriegs contra Adhemar de Barros, Orestes Quércia ou Paulo Maluf, para ficar apenas em três notórios exemplos, acidentalmente todos paulistas.

Para quem sempre acompanhou mais de perto a carreira política de Jader Barbalho, como o cidadão médio paraense, a enxurrada de matérias jornalísticas despejada a partir de São Paulo e Rio de Janeiro nos últimos 15 meses trouxe pouca novidade. Quase todos os casos que formam essa marginalia, repetidos ad nauseam nos boxes de jornais e revistas, são café requentado.

Não que devam ser ignorados ou encarados como fatos normais, que não são. Devem ser reexaminados e esclarecidos devidamente, o que só agora é possível fazer, dado o desinteresse da grande imprensa nacional pelos assuntos dessa barbalhinália até que o cacique paraense enfrentou o babalorixá baiano, batendo nos calos dos jornalistas que tinham em ACM uma fonte de insiders ou, mais acima na hierarquia, que o tomavam como associado.

Briga de rua

Mesmo que a origem do súbito e frenético interesse da mídia dominante pelas irregularidades do ex-governador seja suspeita, e efetivamente o é, não interessa: deve-se aproveitar a inusitada colaboração para submeter a teste de consistência todas as histórias associadas do ex-ministro com suas sombras (e vice-versa), como José Maria da Costa Mendonça, Jair Bernardino de Souza, Construtora Andrade Gutierrez, José Osmar Borges et caterva.

No entanto, quase todos ? ou mesmo todos ? os crimes estão prescritos. Se estão realmente, a apuração tem um sentido moral. Se não estão, que se acelerem aqueles procedimentos em vias de caducar para dar-lhes efeito prático, tudo conforme as normas legais. Se o que resta é buscar a restituição do dinheiro público ilicitamente desviado, vamos aproveitar o furor midiático para conseguir essa façanha inédita, de que permanecem virgens as Georginas, os Nicolaus, os Estevãos, os Calmons de Sá e outros muito mais votados ? que, aliás, não apenas não devolveram o que foi sacado do erário, como se credenciaram a receber mais.

Os velhos escândalos do Banpará, do governo do Pará, do Mirad ou da Previdência Social, todos com o selo Jader Barbalho, admitem revisões e devem ser revistos para que as falhas do passado sejam supridas e as inovações do presente possam ser acionadas. Já as autênticas novidades, constituídas pelos atos recentes praticados por superintendentes da Sudam (ou a partir deles), que se abrigaram sob as longas asas do presidente licenciado do Senado, estes a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal estão apurando com extrema diligência. Deverão ter conseqüências mais profundas do que meros relatos acadêmicos ou perfunctórios. Talvez até criminosos permaneçam na cadeia e dinheiro volte ao tesouro nacional. Talvez.

Mas essa vasta agenda não deve se restringir a um acerto de contas em torno da presidência do Senado ou do mandato de um senador que se tornou réprobo por haver enfrentado uma besta sagrada do sistema ou não se ter curvado aos ditames de uma manada sagrada de jornalistas, seja os que mandam como os que obedecem, transformados, para fins de anti-Jader Barbalho, em vestais da República. Em tribunais de exceção.

É bom ler matérias bem apuradas, que confirmam, ampliam ou inovam o contencioso de acusações sobre os ilícitos praticados por Jader Barbalho, apaniguados, protegidos, aderentes e parentes. Mas é triste ver a imprensa deixar de lado todas as normas profissionais para se meter uma briga de rua, num vale-tudo que se parece a rixa de marginais, numa pelada de quintal na qual tudo o que está acima do joelho de cada jogador é canela, um futebol medíocre como esse que nossa seleção outrora canarinha pratica, sob os olhares bovinos de muitos jornalistas, sempre dispostos a condescender.

Estágio da ignorância

Se a imprensa acha que tudo o que já publicou deveria ter sido o suficiente para a destituição de Jader Barbalho da presidência do Senado e a cassação do seu mandato, devia bradar aos céus por providências em candentes editoriais. Mas não editorializar as reportagens, como está sendo feito.

Outro dia, os cosmopolitas apresentadores do Bom dia, Brasil, da TV Globo, desceram de sua fleugma para anatematizar os pares do senador paraense, que não o cassam de pronto, obedecendo à voz de comando do noticiário da emissora, cheio de pontos de exclamação (o que teria feito a alegria de Nélson Rodrigues, indignado com a imparcialidade do novo jornalismo introduzido pelo Jornal do Brasil na década de 50).

JB, aliás, que diante da alegada caradura dos senadores, relutantes em cumprir seu dever cívico de cassar Jader, batizou logo de “ilibados” todos os senadores que se posicionaram contra o presidente escolhido por maioria absoluta no início do ano, como se a assinatura do repórter tivesse a fé do seu ofício, escrivão ad-hoc de uma justiça privada. Jader se transformou em marco moral da grande imprensa, o que serve para dar uma medida desse código utilitário.

Como venceu o unilateral prazo de carência dado pela grande imprensa para o Senado resolver o problema, independentemente do amplo direito de defesa e do contraditório que a Constituição federal (como, de resto, todas as normas de direito) assegura a qualquer cidadão, a imprensa partiu para aquele tipo de luta desesperada que um boxeador trava quando vê a iminência do gongo final e o adversário, mesmo cambaleante e machucado, teima em permanecer em pé. Esse é o estágio da ignorância.

Tendência e vício

É o que está vivendo a revista Istoé, vítima do seu próprio paroxismo, o pró de antes, quando Quércia era aliado de Jader, e o contra de hoje, quando os interesses dos dois políticos de biografias similares entraram em choque. Flagrada em erro indefensável ao tratar da compra dos castanhais de Marabá, quando Jader era ministro da Reforma Agrária (uma ilegalidade fácil de provar, como o fiz há 13 anos), a revista reagiu de uma das formas mais tristes que já vi em 37 anos de profissão: entregando sua fonte.

Obrigada a publicar cartas que lhe foram remetidas por duas pessoas citadas ou referidas indevidamente na reportagem ? Reginaldo Cunha, tabelião do Cartório Conduru, e Maria Eugênia Barros, ex-funcionária do Incra ?, a revista, sem contestar as retificações feitas por ambos os missivistas, retrucou que as informações vieram de duas fontes: “Um delegado da Polícia Federal e Sílvio Sá”.

O delegado não foi identificado, provavelmente por se ter mantido fiel à revista (mas quem acompanha os fatos não precisa fazer muito esforço para saber de quem se trata). Já o nome de Sílvio Sá foi entregue por ele haver escrito “em jornais locais reportagens desmentindo as informações por ele mesmo prestadas”, absolutamente falsas em relação ao Cartório Conduru, onde trabalhara por tantos anos, até dois meses atrás, e Maria Eugênia, sua amiga.

Sílvio, que é advogado e não jornalista, escreveu um único artigo, publicado em um só jornal, O Liberal. Se eram falsas as informações que deu em confiança à revista, com promessa de anonimato da fonte, eram verdadeiras as considerações que fez em artigo assinado. Se é verdade o que alega, IstoÉ tem motivos para se sentir traída e, a partir daí, romper o compromisso verbal com a fonte.

Mas foi leviana tanto no primeiro momento, quando deu tanta credibilidade a uma única fonte, fazendo-a referência única para informações que deviam ser checadas em um segundo lugar, quanto na triste consumação da farsa, desnudando a fonte de confiança que se tornara subitamente inconfiável. Um espetáculo de péssimo jornalismo, do qual a revista não pôde escapar, na ânsia de cassar Jader Barbalho de qualquer maneira, independentemente dos métodos jornalísticos, dos critérios da verdade e do respeito ao leitor.

Esse exemplo deve servir de parâmetro para a opinião pública. Jader Barbalho deve prestar contas de todos os seus atos e pagar pelos crimes que houver cometido, um a um, tostão a tostão. Mas a instância competente para esse julgamento não é a grande imprensa brasileira, que está se revelando tão desproporcionalmente tendenciosa e viciada. Jader não é Dreyfus, para ter direito às reclamações de injustiçamento que tem feito, mas a imprensa bem que está a merecer um Émile Zola. Já tardio e ainda não visualizável no horizonte.

(*) Jornalista, editor do Jornal Pessoal e da Agenda Amazônica, de Belém (PA); e-mail <jornal@amazon.com.br>

 

    
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