Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > INCLUSÃO DIGITAL

Jaime Pinsky

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

LEITURA E EDUCAÇÃO

“Leitura e(é) inclusão social”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

“Não é possível que, a essa altura dos conhecimentos, ainda pairem dúvidas sobre a importância da leitura. Ler não é apenas ter uma relação sensual com o livro, namorar sua capa, verificar o seu papel, apreciar a tipologia, olhá-lo de frente, cheirá-lo, senti-lo, ouvir o som das páginas virando, decifra-lo com requinte, ou com volúpia, devorá-lo todinho. Ler é também se atualizar, aprofundar os conhecimentos, deixar a imaginação voar para lugares possíveis e improváveis, argumentar com interlocutores atentos e inteligentes. Apesar disso, a imagem da pessoa que lê é, frequentemente, a de um chato…

É verdade que, às vezes, somos surpreendidos com excelentes iniciativas, como a campanha que a Rede Globo realiza no intervalo dos jogos de futebol, mas o fato é que ainda estamos longe de ter, em nosso país, uma cultura e ações efetivas que favoreçam os leitores já existentes e, mais do que isso, que estimulem o hábito da leitura em outros. E, no entanto, sabemos que o livro, prioritariamente, mas também os jornais e as revistas, são os melhores instrumentos para aprofundar uma informação, fazendo com que de simples notícia ela se transforme em conhecimento.

Não que outras mídias não sejam importantes. Mas, por sua própria natureza, rádio e tevê se prestam muito mais à transmissão de um dado ligeiro, necessariamente mais superficial e efêmero. Além disso, ao ouvir o rádio ou assistir à tevê, a pessoa será obrigada a receber as informações que outros escolheram para transmitir, sem poder selecionar aquelas pelas quais tem interesse, como pode fazer na leitura de jornais e revistas. Sem falar que, nos telejornais e locuções de rádio, o ritmo da leitura é ditado pelos emissores, e não pelos receptores, que são obrigados a, bovinamente, se adaptar ao ?presto? ou ?adagio? dos locutores e âncoras. Já na leitura de textos escritos, o ritmo é ditado pelo próprio leitor, que, por isso mesmo, reage e interage muito mais com jornais, revistas e livros, desenvolvendo melhor seu espírito crítico.

A questão não é nova e não estou descobrindo a pólvora. Apenas me espanta o descompasso entre o discurso dos programas de governo e o que efetivamente é realizado em favor da leitura. Talvez isso aconteça porque, em última instância, a sociedade deles não exija. E ficamos, salvo as exceções de praxe, com importantes jornais, assim como revistas de informação e cultura, presos a tiragens ridículas, cada vez menores, num país que se jacta de ter cada vez mais gente alfabetizada, mais gente terminando o ensino médio e mais gente matriculada na universidade.

Alguma coisa deve mesmo estar errada quando o movimento editorial só cresce na medida em que se expandem as compras governamentais de livros didáticos do ensino fundamental. E quando obras importantes, que nos anos 70 e 80 tinham tiragens de 5.000 exemplares e, nos anos 90, de 3.000, agora, quando são publicadas, não ganham uma edição superior a míseros mil ou 2.000 exemplares.

Claro que o governo pode colaborar por meio de programas sérios e consistentes de compra de livros de qualidade para bibliotecas públicas. Mas há mais a ser feito: é chegado o momento de somar esforços, envolver e comprometer setores da sociedade que podem e devem fazer muito a favor da leitura. Talvez, juntando os esforços de entidades como a Câmara Brasileira do Livro e a Associação Nacional de Jornais a secretarias de cultura municipais e estaduais, pudesse-se criar uma certificação para os ?amigos da leitura?.

A idéia é simples: os hotéis seriam estimulados a instalar luz de leitura nos quartos, em vez de miseráveis abajures com lâmpadas de 15 Watts, além de manter uma pequena biblioteca à disposição dos hóspedes. Os concessionários de linhas intermunicipais de ônibus, em vez de instalarem aparelhos de televisão, seriam estimulados a manter lâmpadas adequadas de leitura e uma pequena biblioteca com obras adequadas ao percurso, algo que deveria também ocorrer nos trens do metrô. Salas de espera em aeroportos, consultórios e clínicas médicas devem ser convidados a respeitar frequentadores e pacientes, oferecendo cantos silenciosos e bem iluminados, que tornem a espera menos sofrida.

Oferecendo certificados de ?amigos da leitura? aos responsáveis, estaríamos desenvolvendo um papel verdadeiramente educativo. Um segundo passo seria divulgar esses ?amigos?, o que jornais e revistas poderiam fazer para valorizar aqueles que os valorizam.

Mas apenas ?diplomar? as pessoas não resolve o problema. Há que dar oportunidade para que elas possam, de fato, ler. O trabalho conjunto de educadores, entidades, empresários e governos é o caminho possível para que a leitura seja reintroduzida como prática cotidiana, e não como atividade eventual, feita por uma certa ?gente diferente? e esquisita, que anda por aí com um livro na mão. Acesso aos bens culturais é condição básica para a democracia. A igualdade de oportunidades passa pelo direito à leitura.”

 

INCLUSÃO DIGITAL

“A ordem é a inclusão”, copyright Jornal do Brasil, 31/12/03

“Hoje em dia, fala-se muito em inclusão social. Mas o que temos observado é que o que o país tem, realmente, é uma enorme exclusão digital. A observação se faz necessária, quando assistimos a diversas iniciativas em torno do uso de modernas tecnologias para melhorar a qualidade de vida da população brasileira, inclusive no setor educacional. Apesar de todos os benefícios que podem levar aos alunos, é preciso ter os pés no chão e trabalhar com a realidade atual, que não é lá muito animadora.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do MEC, em 2002, somente 38% das 15 mil escolas de ensino médio público possuíam acesso à internet (5,7 mil), enquanto na rede privada o número alcançava 78% das 7 mil escolas (5,46 mil). Em relação ao ensino fundamental, os números são: 8% dos 154 mil colégios públicos (12,32 mil) e 47% das 19 mil unidades da rede particular (8,93 mil).

Se formos comparar com os países desenvolvidos, a situação se torna ainda mais desoladora. Segundo os dados que constam no livro Abrindo espaços ? Educação e cultura para a paz, de Marlova Jovchelovitch Noleto, enquanto na Europa um terço da população navega na internet, no Brasil apenas 4% da população têm acesso ao computador, no trabalho ou em locais públicos. Desses, 16% são da classe média, e 4% das classes mais pobres.

Não custa nada lembrar que o governo anterior pretendia instalar 290 mil computadores em 13 mil escolas públicas de ensino médio, em 2002. E para piorar, muitos computadores comprados, sem nenhum planejamento, transformaram-se em sucata, por falta de manutenção.

Uma medida saneadora pode estar nascendo e com grandes chances de inverter este quadro. Trata-se de um parecer aprovado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) que propõe a criação de uma rede de banda larga nas escolas de ensino público ligada ao Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que arrecada 1% da receita bruta das empresas de telecomunicações.

A responsabilidade pela implementação ficaria com o Ministério das Comunicações, que também está implantando 3.300 telecentros em todo o país, utilizando a internet, antenas parabólicas e outros sistemas.

A idéia dos telecentros surgiu em uma das reuniões do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, composto por 12 ministérios e especialistas do setor, além de ser presidido pelo próprio presidente Lula. O programa privilegia as regiões mais carentes, não servidas de rede telefônica nem de TV a cabo, e tem tido o apoio de alguns ministérios, como o da Saúde, da Justiça e da Segurança Alimentar. Também é grande a expectativa do ministro da Educação, Cristovam Buarque, em relação aos benefícios que a internet pode trazer no trabalho de treinamento de professores.

Falar sobre ciência e tecnologia, atualmente, poderia até ser um ?exercício de lembranças do passado?, justamente porque, num certo período, o tema foi para mim um ?exercício de futurologia?. Explico o trocadilho. Em 1968, assumi, de forma pioneira no Brasil, a Secretaria de Ciência e Tecnologia da então cidade-estado Guanabara, e já naquela época a minha preocupação era com o futuro. Tanto que em 1969 criei, logo após o Planetário da Gávea, a Comissão do Ano 2000, com o objetivo de elaborar um estudo sobre as necessidades da cidade nas próximas décadas.

O documento Rio Ano 2000, elaborado em 1970, lista algumas propostas, como integração da educação com o desenvolvimento científico e tecnológico do país e implantação de um sistema progressivo de tecnologia avançada para a educação, já prevendo o uso generalizado do computador e outras tecnologias.

Como se vê, a preocupação com a informatização do ensino e com universalização das oportunidades para todos não é tão nova assim. Mas vale a pena investir para que não fique apenas como mais uma promessa. Só assim será possível acabar com esse verdadeiro apartheid digital que impera no país, aumentando a cada ano o número de excluídos tecnológicos. Se nada for feito o mais rápido possível, logo estaremos liderando mais uma estatística negativa: a do analfabetismo digital.”

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