Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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Jefferson Lima

Por lgarcia em 20/11/2002 na edição 199

ALÔ ALÔ

"Cultura chama Fafy para ser popular", copyright Folha de S. Paulo, 17/11/02

"Na próxima terça-feira, às 20h, a TV Cultura estréia seu primeiro programa de perfil popular, ?Alô Alô?, que será apresentado pela atriz, cantora e imitadora Fafy Siqueira, 48.

Com uma hora de duração e reapresentação aos sábados, o programa, que terá auditório, mistura entrevistas, esquetes cômicos e material enviado de outros Estados, por meio das afiliadas da Rede Pública de TV.

?Toda edição vai trazer matérias curiosas de outros cantos do Brasil. De Santa Catarina, por exemplo, recebemos uma cozinheira que reproduz quadros do Di Cavalcanti, do Portinari e do Da Vinci em cima de lasanhas?, diz Fafy.

Outro quadro abrirá espaço para que convidados exibam habilidades ainda desconhecidas do público. ?Nos seis programas que já gravamos, o Jorge Lafond recitou Fernando Pessoa, o [grupo] Falamansa cantou Bob Marley, e o Nando Reis tocou Wando. Sei que, quando estrearmos, todos os programas de auditório vão copiar essa idéia?, diz ela.

Segundo Fafy, o novo projeto da emissora ?é popular, sim, mas sem baixaria?. ?Não vai ter bunda de fora, pegadinha, ?game? e nem casal se azarando. O povo não é burro. E está aí a TV Cultura abrindo espaço para alcançá-lo.?

Fã de televisão, a atriz é crítica em relação ao humor na programação. ?A piada é a bunda.?"

 

"Auditório também é Cultura", copyright O Estado de S. Paulo, 16/11/02

"Resgatar o tradicional programa de auditório é a missão da comediante Fafy Siqueira na TV Cultura. É ela quem está no comando do novo programa Alô Alô, que a emissora coloca no ar a partir do próximo dia 19, às 20 horas. O show ocupará o horário nobre, às terças, com humor e convidados inusitados. ?Programa de auditório não precisa ter baixarias, dançarinas e pegadinhas?, comenta Fafy, que está empolgada com a sua tarefa. Para o palco ela levará esquetes e quadros variados, além de contar com reportagens de outros Estados do Brasil.

Fafy Siqueira trabalhou no projeto do Alô Alô durante sete meses. Para ela, a oportunidade foi irrecusável. ?Quando o Serginho Groisman saiu do Programa Livre pensei em ir ao SBT?, diz a humorista, que queria ter um programa de auditório com entrevistas. O projeto só não foi para frente porque Fafy recebeu uma proposta boa da Globo: dois quadros no Zorra Total e participação na Escolinha do Professor Raimundo. Aliada a esse fato estava a vontade de Fafy Siqueira de mudar de ares. ?Queria vir a São Paulo para fazer teatro.?

A apresentadora terá uma banda ?muito competente? no palco para acompanhar os cantores convidados. Serão dois músicos por dia. ?E tem de ser músico que canta ao vivo, sem playback?, afirma. ?A minha intenção é deixar os artistas fazerem o que as outras emissoras não deixam.? Sob essa regra, cantores podem improvisar. Nando Reis, por exemplo, interpretou uma canção de Wando. A dupla sertaneja Rick e Renner cantou Djavan.

Essa liberdade, que não vale apenas para os músicos, conquistou Jorge Lafond que declamou Fernando Pessoa durante o programa. ?O programa é uma farra!?, resume Fafy. A humorista acredita que a atração tem como objetivo quebrar o estigma de a TV Cultura ser uma emissora elitista. ?O Alô Alô tem uma ótima qualidade técnica e textos de humor sem palavrões?, fala. ?E só a Cultura para juntar no palco a Carla Perez e a Ana Botafogo. O canal vai puxar o público popular para conhecer outras coisas.? Fafy diz que é uma figura popular e não vai mudar seu trabalho, mas crê que atingirá um público maior. Ela continuará com suas famosas imitações. ?Haverá o Roberto Carlos Siqueira, a Elba Ramalho Siqueira, o Ronald Golias Siqueira…?

Além das atrações musicais e dos esquetes, o programa de Fafy ainda conta com duas entrevistas. ?É mais um bate-papo?, diz. ?Juntamos o Nando Reis com o Júlio Batista (jogador do São Paulo) para conversar e jogar futebol no palco. E o Nando é são-paulino. Foi uma alegria.?

Horário nobre – Fafy quer conquistar o público jovem e o feminino, além das pessoas que não gostam de assistir ao Jornal Nacional, já que sua atração vai ao ar no mesmo horário do noticiário da Globo. Para o diretor de programação da TV Cultura, Walter Silveira, o horário é originalmente do entretenimento. ?Antigamente, o noticiário entrava no ar às 19 horas, a novela, às 20 horas, e os shows, às 21?, analisa Silveira. ?A Rede Globo foi esticando esse horário, o que inviabiliza a audiência nas outras emissoras, já que, quanto mais tarde, menor é o número de aparelhos ligados.?

Silveira vê o Alô Alô como uma alternativa de show para quem dorme mais cedo ou para quem já assistiu aos outros noticiários e não se identifica com o Jornal Nacional. O diretor de Programação não sabe de onde surgiu o rótulo da TV Cultura ser elitista e, por isso, quer quebrar tabus. ?Por que não pode ter Carla Perez na emissora??, pergunta. ?A vulgarização depende da forma com que você mostra a pessoa. Não vamos colocar uma câmera em baixo e filmar a moça rebolando.? Segundo ele, o Alô Alô não vai vender futilidade, buscando mostrar algo inusitado. ?Vamos pegar o lado mais humano e menos conhecido dos artistas?, conta. ?Não há uma popularização da TV Cultura.?

Walter Silveira resume o programa como uma diversão saudável para toda a família, como não se vê mais hoje em dia. ?Um gênero clássico, sem teste de DNA?, fala o diretor, que destaca as matérias feitas em outros Estados como um trunfo. ?As reportagens vão mostrar as particularidades dos diferentes talentos populares regionais – sambistas, repentistas, artistas de rua.? O diretor de Programação também comenta a escolha de Fafy Siqueira para comandar a atração. ?Ela é uma ótima comunicadora?, diz.

Fafy começou sua carreira artística em 1974, como cantora. Em 1985, tornou-se atriz e atuou na novela Hipertensão, de Ivani Ribeiro, na Globo.

Estudou artes cênicas. A última novela em que atuou foi Zazá, de Lauro César Muniz. Intercalou trabalhos em Você Decide e Brava Gente, também globais.

Foi para a extinta Manchete fazer um papel na novela Brida. ?Um mico?, diz a humorista, que já fechou uma cantina em São Paulo para comemorar, ao lado de sua equipe, a estréia de Alô Alô. Para ela, a TV Cultura apostou certo: ?A emissora precisa perder o medo de ser feliz e mostrar a sua cara. O povo precisa dos programas que a TV Cultura tem, mas não divulga.?"

 

CINEMA & TV

"Drácula e uma visão do terror", copyright Jornal do Brasil, 19/11/02

"Um dos melhores filmes exibidos no Festival de Londres, que termina na próxima quinta-feira, chama-se Drácula – Páginas do diário de uma virgem. Ao contrário do que o título sugere, não se trata nem de um filme de terror no sentido estrito nem de uma fantasia erótica. É pelo contrário a transposição cinematográfica de um balé dirigido, no Canadá, por Mark Goddon.

O que há de especialmente notável para o leitor brasileiro, contudo, não é tanto o que o filme mostra, mas as lições que podemos tirar de seu modelo de produção.

Drácula foi encomendado ao diretor canadense Guy Maddin pela CBC (a poderosa rede pública de televisão do Canadá) em conjunto com a associação que rege as redes locais de TV por assinatura. Os produtores pediram a Maddin que simplesmente registrasse a produção do Balé de Winnipeg e fizesse isso de forma tão sofisticada quanto possível, com equipamento de alta definição.

Maddin, um cineasta de 44 anos, conhecido por uma série de curtas-metragens irreverentes e criativos, foi ver o espetáculo e argumentou aos produtores que só conseguia pensar na novela de Bram Stoker em preto e branco e com a leitura ?suja? comum a seu cinema. Foi o que fez. No lugar da altíssima tecnologia do HDTV, lançou mão dos elementos estéticos do cinema mudo: imagens de luminosidade irregular, montagem fragmentada e, como se não bastasse, utilização híbrida – e randômica, segundo o diretor – de vários tipos de suporte diferentes: vídeo, película em 16mm, super16, super 8, ?o que estivesse na frente?. Apresentado em Londres, Drácula mostrou-se um dos momentos mais belos, tocantes e criativos do festival.

O que essa história tem de especial é sua capacidade de sintetizar algumas idéias importantes de como se poderia dar o processo de produção audiovisual não só no Canadá mas também no Brasil. Antes de mais nada, a negociação entre Maddin e os produtores sinaliza para o sentido mais adequado – artística e economicamente falando – dessa relação. Aponta também para a possibilidade de envolvimento de redes abertas e por assinatura no mesmo projeto, desde que ambas tenham personalidades estéticas e jurídicas próprias, diferenciadas porém convergentes. Mostra ainda a submissão do projeto ao ideário artístico de quem vai realizá-lo.

O mais importante, porém, é que o foco permanece sobre a qualidade da programação oferecida ao público. O oposto dessa situação é um quadro onde o produtor quer empurrar para as redes projetos nos quais as redes não estão interessadas – e as redes em si não têm projeto algum voltado para o público. É um afastamento completo entre os mecanismos de produção e sua distribuição. É um quadro onde o produtor sente-se um incômodo, as redes acreditam que ele seja um perfeito idiota e não entendam por que são rejeitadas por um público que elas não entendem e para o qual não dão a mínima bola.

Mecanismos de produção, distribuição do produto audiovisual (em todos os meios) e criação integram o mesmo todo. Um filme relativamente simples mas brilhante como esse Drácula é capaz, como vários outros, de sugerir isso. De terror mesmo é a visão de que isso possa nos parecer tão audacioso e improvável."

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