Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >   ROMANTISMO & MERCADO

Jim Rutenberg

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

DESREGULAMENTAÇÃO

“Menos donos de mídia, mais opções”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 4/12/2002

“Durante décadas, os defensores dos interesses públicos foram a favor de impor limites no número de jornais, estações de rádio e canais de televisão de que uma só empresa pode ser dona. Eles invocaram imagens do Cidadão Kane ou, pior, do Big Brother, alegando que sem regulamentação estrita umas poucas corporações poderiam deter o controle do discurso político tanto quanto homogeneizar a diversão e o entretenimento e a distribuição das notícias.

Mas os defensores estão agora enfrentando uma questão que é muito mais complicada porque, apesar da consolidação, as escolhas multiplicaram-se exponencialmente em função da tecnologia. Agora, o típico americano pode assistir à BBC News, entre outros canais, na televisão e escolher entre centenas de milhares de sites de informação, do Al Jazeera, baseado no Catar, até The Times of India, em Nova Delhi. Como resultado, os legisladores estão questionando se o medo da dominação da mídia ficou obsoleto.

O impacto da internet e a expansão da televisão a cabo e por satélite serão discutidos no mês que vem, no momento em que a Comissão Federal de Comunicações (CFC) considera acabar com as restrições à propriedade, no que pode ser a maior revisão das leis de comunicação em décadas. A questão também poderá ser levantada se ABC News e CNN chegarem a um acordo de fusão, reduzindo o número de emissoras nacionais independentes de cinco para quatro.

Até janeiro -Aqueles que têm uma opinião sobre a redução nas regras de propriedade têm até o dia 2 de janeiro para entrar com recurso. Os oponentes argumentam que os grandes saltos no número de fontes de informação e entretenimento mascaram uma consolidação da propriedade da mídia – e uma semelhança na programação da televisão e do rádio – que os chefes da CFC preferem ignorar.

Os proponentes da desregulamentação dizem que a média dos lares tem acesso a tanta informação, e em tão diferentes formas, que uma só empresa não teria condições de exercer influência indevida sobre os consumidores. Só esta análise está conduzindo o CFC.

?Quando vejo as mudanças da televisão nos últimos 20 ou 50 anos, enxergo uma explosão constante e crescente em variedade?, diz Michael Powell, diretor da CFC. ?Na chamada era de ouro da televisão americana, havia apenas três emissoras.?”

 

JORNALISMO & LITERATURA

“A crônica como gênero do jornalismo e da literatura”, copyright Folha de S. Paulo, 6/12/2002

“Alunos de curso de comunicação pedem-me uma definição do jornalismo literário e, em complemento, o papel da crônica nesse tipo de jornalismo. Embora não me considere a pessoa indicada para falar sobre o tema, tentarei dar uma resposta coletiva ao que me pedem, com as naturais ressalvas sobre a autoridade (nenhuma) com que me meto nesta praia, que não é a minha.

Para definir o jornalismo literário, vamos começar pelo substantivo, que é jornalismo, deixando o adjetivo para depois. O que é o jornal? É um periódico, uma coisa feita de período em período. Por mais que pareça incrível, Franz Kafka, que nunca foi realmente um jornalista, tem a imagem mais perfeita que conheço sobre o assunto. Ele compara o jornal a um trem que sai todo dia, num determinado horário, vazio ou cheio, e de determinada plataforma, para chegar a outra. Se estiver lotado, tudo bem. Se estiver com lugares vazios, dará prejuízo, porque cada lugar sem passageiro não poderá ser reciclado, usado uma segunda vez.

Em países subdesenvolvidos, espera-se o trem encher, como um lotação, um pau-de-arara. Uma ferrovia civilizada faz o trem cumprir o horário, independentemente de estar cheio ou com lugares vazios.

O jornal é como um trem – dizia Kafka. Tem que sair em determinado dia, ou todos os dias, mas com uma diferença básica em relação aos trens: ele não pode sair vazio. Com assunto ou sem assunto, tem que ocupar todas as suas páginas, seja com anúncios, ilustrações ou textos paralelos, desvinculados de sua função natural, que é a notícia, a informação, o serviço da comunicação propriamente dito.

O veículo-jornal, ao contrário do veículo-trem, não pode sair com lugares não ocupados. E, para encher com alguma dignidade o ângulo morto de cada edição, apelou-se, entre outras coisas, para a crônica, que tem uma tradição paralela na história da comunicação humana.

Nos séculos 16 e 17, a crônica era um gênero-bonde, um gênero-ônibus, onde tudo cabia com o nome de crônica. Qualquer relato levava o nome de crônica, que tem embutido o conceito de tempo (cronos), cobrindo um período, sendo, portanto, um periódico.

Voltemos agora ao jornalismo dito literário. A literatura é, em essência, o oposto do período, do tempo. Ela procura ser intemporal, sem vínculo com a data – nada mais frustrante do que a literatura datada.

Daí a conclusão de que a crônica, como gênero jornalístico ou como gênero literário, é uma contrafação. Os mais radicais poderão considerá-la subjornalismo ou subliteratura. Dirão alguns: há crônicas admiráveis, e a citação de Machado de Assis é obrigatória. E cada um poderá citar um autor ou uma determinada crônica admirável. Mas, se Machado não tivesse escrito os romances finais de sua carreira, seria hoje um João do Rio melhorado, um Humberto de Campos mais consistente.

Contudo não podemos ignorar que foi nos jornais, aqui e em outros países, que, para ocupar lugares vazios, os editores procuravam autores de textos exclusivamente literários, sem compromisso com o período, com a data. Em jornal, Manuel Antônio de Almeida publicou as ?Memórias de um Sargento de Milícias?. Em jornal, saiu ?O Guarani?, de José de Alencar. Grosso modo, o folhetim, mesmo com sua carga pejorativa, seria o padrão do jornalismo literário, o passageiro disponível que ocuparia o lugar de uma notícia, de uma informação, de um serviço.

Antes da existência dos jornais, a comunicação era feita por arautos ou mesmo por camadas de fumaça, à maneira dos índios, ou por sinais luminosos. Não corria o risco de ser confundida com a literatura. Quando os sinais foram codificados em palavras compostas por letras, a aproximação com a literatura tornou-se inevitável. Mas a notícia, base do jornal, é como a anedota em que Guimarães Rosa a comparava ao fósforo que se acende, brilha um instante e se apaga. Torna-se inútil como um fósforo queimado. Não funciona uma segunda vez.

Comprometido com a notícia, com o fato do dia, o jornal abriu espaços para a comercialização, que o sustenta industrialmente, e para os passageiros robotizados que podem ocupar os lugares vazios de cada edição. Surgiram então as colunas, os ?potins?, os ?faits divers?, as charges e, naturalmente, as crônicas, que são a expressão mais visível do jornalismo dito literário. Daí que os cronistas, mesmo os bem-sucedidos, são vistos como subprodutos, autores de circunstância que, mais cedo ou mais tarde, ficarão datados.

Resumindo a ópera: pode-se concluir que não há jornalismo literário. Há jornalismo e há literatura. Funcionam por meio de sinais ou símbolos, que são as palavras compostas por letras, mas nem todas as letras formam necessariamente aquilo que se compreende como literatura.

Há jornalistas que dominam a técnica e a composição do texto. Mas são eles, exatamente, que se tornam cada vez melhores à medida que deixam de ser literários.”

 

ROMANTISMO & MERCADO

“A aura que não morre”, copyright Jornal do Brasil, 4/12/2002

“A última edição da revista Forbes Brasil dedicou a seção de frases ao jornalismo. Algumas das citações são explosivas, como, por exemplo, a do chanceler Bismark: ?O jornalista é um homem que errou de profissão?. Outras são menos cáusticas, mas também depreciam o ofício. Não faltou sequer a frase preferida de meu pai, que gostava de citá-la no francês do autor, Jules Janin: ?Le journalisme mène à tout – à condition d?en sortir? (O jornalismo leva a tudo – com a condição de se sair dele).

Dando os primeiros passos na profissão, não entendia o motivo de tanto ceticismo. Na verdade, a atividade de meu pai e de meus tios Odylo e José era o sonho de minha infância. Lembro-me bem da forte emoção que senti ao pisar, aos oito anos de idade, na antiga sede do JB, levado pelas mãos do velho Álvaro. Depois de visitar a redação, descemos à oficina e um linotipista compôs meu nome completo no chumbo. Fiquei extasiado e guardei a pequena forma por muitos anos numa caixa de pequenas recordações. Não esqueço também do primeiro desfile de escola de samba (depois, uma paixão) que assisti da sacada do JB em 1959. Baianas a girar na Rio Branco lotada, cordão de isolamento e cavalos a conter a multidão. Uma beleza.

Estava escrito que eu seria jornalista. No Pedro II, um professor de matemática, se não me falha a memória Jayme Litvak, tentou desviar-me do bom caminho quando lhe disse que iria seguir os passos de minha família: ou seja, estudar Direito e dedicar-me ao jornalismo. ?A profissão do futuro é economista. Não perca seu tempo?, previu. Mais tarde, um amigo de infância deu novo conselho: ?Faça o exame da OAB que eu lhe consigo um lugar num escritório de advocacia?. Não dei ouvidos a nenhum dos dois. Mas dou o braço a torcer: os economistas ganharam enorme importância a partir dos anos 70 e os advogados, perseguidos nos anos de chumbo, voltaram a ser valorizados após a volta da democracia.

E o jornalismo? Bismark tinha razão? Foi um erro? Leva a tudo desde que se saiba a hora de abandoná-lo? De minha parte, realizei o sonho de menino e não tenho do que reclamar. Mas venho de uma época romântica em que as faculdades não formavam jornalistas aos milhares. Pertenço a um tempo em que as redações eram suficientes para acolher os novatos. Os poucos focas eram recebidos com brincadeiras e em geral encontravam um colega disposto a orientar e corrigir seus primeiros textos. Se dessem para o riscado, iam em frente; do contrário a passagem pela redação tinha breve duração. Na verdade, a maioria sabia o que queria e seguia na carreira.

A profissão, hoje, mudou muito. O romantismo ficou no meio da estrada. Ninguém mais recomenda a leitura de Ilusões Perdidas, pois a ascensão e a queda de Lucien de Rubempré nada têm a ver com o profissionalismo atual. Os grandes repórteres e suas aventuras heróicas persistem apenas na memória dos redatores de cabelos brancos. Tim Lopes inspirou-se neles, mas não está mais entre nós. Admiro, porém, a terrível batalha dos jovens para obter um emprego nas grandes redações. O mercado é estreito, um verdadeiro funil, e só vencem os mais obstinados. São eles que mantêm viva a aura do jornalismo.”

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