Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Joaquim Ferreira dos Santos

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

O QUINTO DOS INFERNOS

"Carlota Joaquina no piscinão de Ramos", copyright No (www.no.com.br), 10/1/02

"Vai entender os críticos! Reclamavam em 2001 que a minissérie Os Maias era arrastada demais. Que dava sono. Reclamam agora que O quinto dos infernos, no mesmo horário, é trêfega. Que os peitos da Daniele Winits se comportam serelepes e sem sentido como a baladinha ‘Rain drops keep falling on my head’ tocando a cada cena de briga como em Butch Cassidy. Ô raça!

O quinto dos infernos, de Carlos Lombardi, uma farsa em torno da família real portuguesa fugindo de Napoleão, é o primeiro sinal em 2002 que a Globo está disposta a dar boas gargalhadas e espanar o mofo com inteligência. Mais novidade com tamanho gosto de verão só no piscinão de Ramos.

Onde os críticos, eternamente chocados com o bumbum do Humberto Martins, só vêem a repetição de Uga-Uga há uma Carlota Joaquina travestida de Madame Butterfly ? e falando portunhol! Débora Duarte, a única personagem dramática em cena, ganhou evidentemene o nome da fadista ? é a Amália. Mais divertida só a candidatura do Raul Jungmann.

O clichê evidente seria o samba do crioulo doido. Mas não se vê nada tão engraçado na Sapucaí desde que as escolas de samba optaram por desfiles que reproduzem as célebres matérias pagas da revista Manchete louvando a pujança dos estados brasileiros. O besteirol de época chega à televisão repleto de citações, mas não é preciso perceber que os cabelos encaracolados, o sangue escorrendo dos lábios da Carlota Joaquina menina, remetem de imediato para a estranha Carrie, de Brian de Palma. Para rir basta perceber a chanchada da Carlota Joaquina trintona (Betty Lago) simulando ataque de raiva e jogando jarros, que jamais se quebram, todos já de plástico em 1800, contra as paredes.

O texto de Lombardi, a direção do núcleo de Wolf Maia e a luxuosíssima participação dos atores deixam em todas as cenas algum motivo para uma boa risada. ?Percebi seus olhos percorrerem meu corpo, mas em sua mesa não era aceito? ? diz o camponês Francisco Gomes descrevendo o assédio sexual que sofria da proprietária das terras. O texto é propositalmente pomposo. O ator é o incrível Humberto Borges. Alguns artistas seguem o método do Actor’s Studio de Nova Iorque. Humberto aprendeu tudo com Tarcísio Meira.

O quinto dos infernos optou pelo mais perigoso dos gêneros cômicos, aquele que ri de si próprio. Os peitos da Daniele Winits aparecem boa parte do tempo para fora do vestido, mas são usados no tamanho que lhe deixaram copos e copos de silicone ? uma gag cômica. Eles já foram tão vistos, são tão absurdos, que ninguém se excita mais. Viraram nas mãos de Lombardi o mesmo que os dentes do Fernando Henrique no traço do Aroeira ? uma caricatura engraçada. Por mais loura que seja, por mais que tenha aquele pintinha Marilyn em cima do grande lábio superior, à direita de quem chega, Daniele parece ter entendido rapidamente a brincadeira e está muito bem. Sua personagem é uma pobre coitada que vive sendo estuprada pelo padrasto, um tarado escarrado tirado do Fitzcarraldo do Herzog.

A Globo começa o ano avacalhando com a História do Brasil e com a sua própria cara ? e isso, dentro da maior inteligência, técnica e bom gosto, era tudo que precisava ser feito para chutar de volta o bode de 2002 para cima dos napoleões invasores do Morumbi. Sem essa, por exemplo, de perseguir o baianês escorreito como em Porto dos Milagres. Em O quinto dos infernos fala-se um pouquinho com sotaque português e outro tanto ao gosto do ator. No texto, a mesma coisa. Construções em mesóclices lusas, ao mesmo tempo em que adentra ao gramado global, por duas vezes no primeiro capítulo, o chulo popular para mulher-prostituta-na-luta, duas sílabas.

Depois das sombras que se moviam ao mesmo tempo sôfregas e lentas em Os Maias, depois que a lolita Anita recusou a Sukita e botou fogo rodrigueano na família ? eis que as minisséries voltam supreendentemente na contramão e esculhambam com a pose do horário. A cena de Humberto Borges e Daniele Winits dentro do tonel de uvas, alguma coisa entre o soft-erotismo dos programas de televisão do grupo Playboy e a pornochanchada da Boca do Lixo reescrita pelo olho feminino da Marluce, já pode ser considerada um clássico. Há tantos bumbuns e seios de fora como em Uga-uga. Mas sem lascívia. Dessa vez só provocam os músculos da gargalhada.

A televisão brasileira usa O quinto dos infernos para comentar como estava ridícula em sua obsessão de ser sacana e, segundo o ibope dos primeiros dias, vai se reencontrar com o público e a inteligência. A história de Carlota Joaquina e D. João é um detalhe. Tudo o que Carlos Lombardi parece respeitar da integridade factual do período foi o que aprendeu através do filme de Carla Camuratti, e por isso tantas coxinhas saindo do bolso do nobre. O que importa é o exercício de um humor raro na televisão. Uma mistura espetacular de gêneros, onde um hino dos musicais da Broadway serve para apresentar os letreiros e, no pique de Maria Louca ordenando que os portugueses passem a andar nus, nada tem a ver com nada. Nonsense de primeira.

No quarto de Carlota Joaquina uma armadura cai de súbito e mostra, pelo traseiro, que lá dentro, da armadura, tem mais um amante nu da ninfo. Já seria uma cena engraçada, porque o espectador quando chegou no quarto só sabia da existência de um outro homem, que saiu pela janela com a aproximação do marido traído. Já seria um bom esquete, mas quando a trilha sonora começa a sublinhar a cena tocando ‘I’ve got you under my skin’, de Cole Porter, aí a coisa passa a ficar não só engraçada como muito inteligente ? e isso, por mais que o Malan apareça no Jornal Nacional explicando a economia brasileira com um novo corte no cabelo, não acontece a toda hora na televisão."

 

"O Quinto dos Infernos tem muitos pecados", copyright Estado de S.Paulo, 13/1/02

"Há setores de criação da Globo que têm muito a aprender dentro de casa, com quem sabe mais. É o caso dos que se metem a fazer comédia. Se fosse um pouco mais esperto, o pessoal envolvido na produção da minissérie O Quinto dos Infernos, que estreou essa semana, iria observar o trabalho do núcleo Guel Arraes, responsável pelas melhores peças do gênero na TV (Auto da Compadecida, A Invenção do Brasil, A Comédia da Vida Privada, só para citar algumas), para não cometer tantos pecados. O primeiro deles é a falta de originalidade. Carla Camurati já fez melhor galhofa com a vinda da família real para o Brasil no filme Carlota Joaquina (que nem é tão bom) e a série A Invenção do Brasil (transformada no longa-metragem Caramuru) interpretou melhor a gênese da cultura brasileira na TV.

Excluindo qualquer juízo de valor em relação à leitura da História do Brasil – o autor Carlos Lombardi deixa claro que se inspirou ?livremente? em alguns livros e, como dono do texto, ele tem o direito de contar sua história como bem quiser -, O Quinto dos Infernos é over até não poder mais.

O excesso começa pela ostensiva exibição de seios, derrières, bíceps e tríceps. Não por acaso, os mais críticos classificaram a minissérie na estréia como uma pornochanchada – gênero do cinema nacional que, nos anos 70, misturava comédia e um erotismo um pouco mais explícito.

A tosca construção dos personagens é capaz de derrubar artistas de incontestável talento: é de doer assistir à maravilhosa Eva Wilma fazendo a caricatura da caricatura de D. Maria, a Louca, ou Cássio Gabus Mendes no papel do parvo d. João VI jovem. É capaz também de piorar quem já não é lá muito bom, como é o caso de Betty Lago, que faz uma Carlota Joaquina histriônica, que não consegue fazer-se entender pelo telespectador por causa ao seu portunhol mal articulado. Ou de Danielle Winnitz que nem em sonho convence como uma virginal donzela. Ou de Humberto Martins (o canastrão que só fala entredentes) sobrecarregado pela responsabilidade de ser o protagonista sem ter os atributos para tal. O ritmo frenético da trama – fugas, disfarces, quedas de telhados e dentro de tonéis de uva – talvez sirva para desviar a atenção do público das fragilidades da minissérie, mas não disfarça a sua breguice. Que trilha musical mais esdrúxula foram arrumar para o herói Chalaça – Rainning Keep Drops on My Head? Seria parte do humor?

Nesse amontoado de equívocos, poucos se salvam. Surpreendentemente uma das melhores interpretações foi a da garotinha Raíssa Medeiros no primeiro capítulo, como a infante Carlota Joaquina. E de Heitor Martinez que, logo a seguir, foi substituído por José Wilker (Marquês de Marialva). Há de ressalvar-se também Pedro Paulo Rangel, como o falido Camargo, pai da bela Branca (Bruna Lombardi), cujo talento supera a ruindade de qualquer trama.

O mais curioso é que a minissérie estreou bem com 37 pontos de média no Ibope (na Grande São Paulo) e se manteve acima dos 30 no capítulo seguinte mesmo tendo ido ao ar uma hora mais tarde. Teve melhor desempenho do que a antecessora (e sofrível) A Presença Anita, de Manoel Carlos, que registrou 30 e 25 pontos de média nos dois primeiros capítulos.

Ainda mais curioso é a desandada que a Globo está dando em um gênero (séries e minisséries) em que sempre se superou, colecionando prêmios a cada edição. Os Maias, A Muralha, Memorial de Maria Moura, Anos Dourados, Anos Rebeldes, Desejo, Hilda Furacão, O Tempo e o Vento são produções que provocam nostalgia no telespectador. Coisa que O Quinto dos Infernos não vai conseguir. Pelo menos entre o público um pouco mais exigente."

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