Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Joaquim Ferreira dos Santos

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

HIROSHIMA / JOHN HERSEY

"A melhor reportagem da história", copyright Jornal do Brasil, 21/09/02

"Lead é o jargão que no jornalismo identifica o início da matéria, o bloco com as informações mais importantes. Isto, por exemplo, não é um lead. É um nariz de cera. Uma abertura com os arredores do que se queria dizer. E o que se quer dizer é que o jornalista John Hersey começa Hiroshima como se deve, com um lead clássico: ?No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a Srta. Toshiko Sasaki…?

É o início das 31.347 palavras, quase nenhum adjetivo, do que um grupo de professores e jornalistas elegeu recentemente como a melhor reportagem escrita em todo o século passado na imprensa americana. Não é pouca coisa. Melhor do que o perfil de Gay Talese sobre Sinatra resfriado (quadragésimo terceiro lugar). Melhor do que Norman Mailer subindo com o cérebro corroído pela maconha os degraus do Pentágono (décimo nono). Melhor que Bernstein e Woodward seguindo as pegadas do Garganta Profunda (terceiro).

Poucos meses depois de a bomba atômica, despejada pelo Enola Gay, ter matado 100 mil pessoas, aberto feridas purulentas jamais vistas nos corpos de outras 100 mil e inaugurado a era em que a vida humana passava a ter o mesmo valor das colônias de formigas vermelhas, Hersey sacava do bloco e tomava notas. Por meio da história de seis sobreviventes, reconstruiu o inferno por baixo do cogumelo radioativo. Seu texto, laboriosamente armado sobre a falsa simplicidade da ordem direta, para que as informações brilhassem acima de tudo, é leitura indispensável para profissionais e alunos de Comunicação interessados na técnica de como contar uma história com clareza e estilo. Para o resto da humanidade é um dos mais contundentes monumentos já construídos contra os horrores da guerra.

Ao ser publicado pela primeira vez, em 31 de agosto de 1946, Hiroshima ocupou a edição inteira da revista The New Yorker. O jornalismo nunca mais seria o mesmo. Querem alguns que foi o primeiro texto do que se convencionou chamar de parajornalismo, novo jornalismo, jornalismo literário, literatura de não-ficção, jornalismo de autor – uma dezena de rubricas significando nada. Euclides da Cunha, ao escrever Os sertões, andou perto. Joel Silveira, ao penetrar no casamento dos Matarazzo, também. O primeiro fez um ensaio. O segundo, uma crônica. Eram repórteres envergonhados. Hersey, não.

Como Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe e Joseph Mitchell, papas americanos da matéria, ele aposta tudo, primeiro, na apuração exaustiva e, depois, numa apresentação que pede emprestadas técnicas do texto literário. Não dava mais para explicar a vida num lead curto. Era preciso juntar o concreto dos fatos com o vapor da ficção. E viva a observação pessoal, a atmosfera, a cor da gravata, a valorização de elementos secundários, o calor humano, os números e aquele jeito estranho do entrevistado coçar o pescoço sempre que fala ?honestidade?. Talese radicalizou. Apurava tanto que era capaz de reproduzir o pensamento alheio. Os jornalistas ficavam ainda mais pretensiosos. A reportagem chegava ao estado da arte.

A Companhia das Letras começa pelo caminho certo, com Hiroshima, a coleção Jornalismo Literário. Seguem, nos próximos meses, A sangue frio e Música para camaleões, de Truman Capote, o Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, e – acima de tudo, bíblia maior de todo jornalista formado a partir dos anos 60 – Aos olhos da multidão, de Gay Talese. Cada um deles vale por quatro anos de um curso de jornalismo. O pioneiro John Hersey nasceu na China em 1914 (morreu em 1993), filho de missionários americanos. Cobriu a guerra para a Time e o pós-guerra no Oriente para Life e The New Yorker. Passou 17 dias no Japão entrevistando dezenas de hibakushas, os sobreviventes da bomba em Hiroshima, e outros 50 escrevendo. Sua prosa é tão delicadamente substantiva, sem enfeites e sem frases bombásticas, que qualquer tentativa de lhe extirpar um naco e oferecer como degustação seria frustrante.

Hersey levanta a poeira de urânio sobre o cenário de Hiroshima e mostra, já que não havia câmeras ligadas por baixo do chapéu atômico, o cirurgião Sasaki perdendo o bonde que tomava todo dia, na banalidade de seu cotidiano, e que desta vez, ele só saberia meia hora depois, o teria levado até o epicentro da explosão. Quando o gigantesco flash fotográfico da bomba refletiu no corredor de sua casa, Sasaki agachou-se e ?como só um japonês diria, falou para si mesmo: ?Sasaki, gambare. Coragem!? Então a explosão sacudiu o prédio, os óculos do médico voaram longe.? Assim como João Cabral advertiu os poetas para a inutilidade de perfumar a flor, Hersey percebeu que não deveria colocar nem uma gota a mais de dor na chuva ácida que se seguiu à bomba. Colou nos fatos. ?Dos 156 médicos existentes em Hiroshima, 65 estavam mortos e os restantes se encontravam, na maioria, feridos. Das 1.780 enfermeiras, 1.654 estavam igualmente mortas ou impossibilitadas de agir.? O padre alemão Kleinsorge, outro dos perfilados pela câmera de palavras exatas de Hersey, passa por 20 homens em estado horripilante: ?O rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas. Deviam estar olhando para cima quando a bomba explodiu; talvez pertencessem à defesa antiaérea.?

Quarenta anos depois dessa reportagem, 300 mil exemplares da The New Yorker que desapareceram das bancas em minutos, Hersey voltou a Hiroshima e, ainda afiadíssimo, reencontrou seus personagens. Está no livro também. A cidade aparece reconstruída, mas a costureira Hatsuyo Nakamura costuma desmaiar sem mais nem menos. Surgem pintas hemorrágicas na mão quando o padre Kleinsorge bate palmas para espantar um bando de pardais do caquizeiro – mas a Índia, a Inglaterra, a França e a China, informa Hersey, anunciam que podem detonar bombas de hidrogênio. O terror permanece solto. Ele visita o monumento aos mortos, anota a inscrição ?Descansem em paz, pois o erro não se repetirá?, e, sempre reportando, vai ver como está o pastor Tanimoto, 70 anos. É o final do livro e Hersey, definitivamente, não parece convencido de que escreveu a última grande reportagem de guerra. ?(Tanimoto) Levantava-se diariamente às seis da manhã e passeava durante uma hora com o cachorrinho, Chiko. Estava diminuindo o ritmo. Sua memória, como a do mundo, começava a falhar.?

O bom repórter – e quem viu a Guerra do Golfo, quem viu o 11 de setembro e quem ler nos próximos dias as notícias do Iraque sabe que Hersey acertou – o bom repórter não falha nunca."

"Lição de jornalismo", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 23/09/02

O fim de um mundo começou naquele branco, anunciado pelo clarão da treva triunfante. Na manhã de 6 de agosto de 1945, milhares de habitantes de Hiroshima viram por segundos um horizonte despido de horizontes. Só havia o branco – absoluto, inexcedível, sem paralelos nem referências e, portanto, incomparável. A neve do mais agudo inverno ou o gelo polar, uma antiga peça de linho ou a córnea do assassinado ainda de olhos abertos – coisa alguma podia comparar-se àquilo. No Dia da Criação, o nada foi a escuridão. No momento em que a civilização foi amputada pela explosão da bomba atômica, o nada era o branco.

O que acontecera?, murmuravam sobreviventes perplexos, quase mortos de dor, quase mortos de medo, quase mortos de fato. O que provocara aquela catástrofe de dimensões inverossímeis?, sussurravam agonizantes que tentavam mover-se entre pilhas de cadáveres e multidões de homens tateando partes do corpo subitamente arrancadas ou mulheres deformadas por queimaduras de intensidade imensurável. A maioria morreu sem saber que a cidade de 250 mil habitantes fora a eleita entre os alvos possíveis do primeiro ataque nuclear da História. Nunca ocorrera algo parecido. Nem voltaria a ocorrer.

Na manhã de 7 de agosto, horas depois de desenhada a silhueta monstruosa do cogumelo atômico, a rede radiofônica controlada pelo governo japonês emitiu um comentário sucinto. Atacada por alguns bombardeiros americanos, ?Hiroshima sofreu danos consideráveis. Acredita-se que foi utilizado um novo tipo de bomba?. Também as autoridades a serviço do Imperador pouco sabiam sobre o que se passara na véspera. Souberam logo depois, mas lhes faltou coragem (e sobrou esperteza) para contar ao povo verdades terríveis.

Em 1946, um ano depois do primeiro ato da tragédia que se desdobraria por incontáveis episódios de alta dramaticidade, o repórter americano John Hersey, da revista The New Yorker, chegou a Hiroshima para reproduzir o mais medonho dos dias. Dispunha de informações relevantes. Conhecia em minúcias o poder destrutivo do que a rádio japonesa chamara vagamente de ?novo tipo de bomba?. E tratou de conferir as conseqüências da explosão nuclear em Hiroshima.

Pelo menos 100 mil habitantes da cidade haviam morrido no momento do clarão e nas horas seguintes. Uma convergência de fatores provocou o massacre, mas um grupo de cientistas conseguiu chegar a cálculos aceitáveis. Quase 25% das vítimas sucumbiu às queimaduras, outros 20% aos efeitos da radiação. E 50% dos mortos não resistiram a ferimentos diversos. Dos 90 mil edifícios que existiram até ouvir-se o ronco do Enola Gay, nome do avião que carregou a bomba, mais de 62 mil viraram escombros, outros 6 mil acusaram avarias irreparáveis.

Com tais informações e algumas entrevistas bem pinçadas, Hersey teria feito um bom trabalho. Mas ele decidira recorrer a fórmulas tão singelas quanto eficazes, como costumam ser as regras do bom jornalismo. Em vez de percorrer a enganosa estrada principal, Hersey preferiu atalhos. Foi mais longe que qualquer outro, e é improvável que, no trato do tema, seja um dia superado.

Primeiro, localizou seis sobreviventes – quatro homens, entre os quais um religioso alemão, e duas mulheres. Depois, induziu-os a contar rigorosamente tudo o que viram, fizeram, pensaram, sofreram. Enfim, conjugou os depoimentos das seis testemunhas, cujos caminhos se cruzaram com freqüência naquele universo pelo avesso. E escreveu a melhor de todas as reportagens.

O texto, primeiro a ocupar todas as páginas da edição da revista, é a prova acabada de que a grande reportagem é substantiva. Os adjetivos são raros: sempre exatos, só aparecem quando indispensáveis. Nenhuma concessão ao jornalismo oficialista, nenhuma pesquisa, nenhuma declaração descartável. É especialmente exemplar o trecho em que Hersey descreve a mudança no comportamento do jovem médico às voltas com centenas de vítimas. No começo, ele procura examinar cada caso. Exausto, segue providenciando curativos sem preliminares seletivas. O médico parece ter-se transformado em robô. E o que se vê é um genuíno ser humano tentando apagar o fogo do inferno.

Em 1986, de volta a Hiroshima, Hersey investigou o que havia sido a vida de seus personagens nos 40 anos anteriores. É o epílogo perfeito da reportagem. O livro editado pela Companhia das Letras tornou-se um capítulo luminoso da história da imprensa, como reafirma o excelente posfácio de Matinas Suzuki Jr. E mais não digo, para não retardar o mergulho nas páginas de ?Hiroshima?.

"A arte de descrever o que parecia indescritível", copyright O Estado de S. Paulo, 22/09/02

"Aquela que é considerada a mais importante reportagem do século 20 – ou pelo menos assim foi eleita em enquete feita em 1999 pela New York University – não é um ?furo?. Não traz propriamente um fato desconhecido nem é a denúncia de algum escândalo de corrupção. Na verdade, Hiroshima, de John Hersey, lançada finalmente em livro no Brasil (Companhia das Letras, 172 págs., R$ 26), não exigiu de seu autor nenhuma intrepidez investigativa, nenhuma fonte secreta. Exigiu apenas boa formação moral e cultural, bons ouvidos e bom texto. Seu ?gancho?? Uma efeméride nada comemorativa: o primeiro aniversário da explosão da bomba atômica sobre Hiroshima.

Hersey, que morreu na Flórida em 1993, teve uma vida intensa: nasceu na China em 1914, aos 11 anos se mudou para os EUA, estudou em Cambridge e Yale, foi correspondente internacional das revistas Time e Life, ganhou um Pulitzer pelo romance A Bell for Adano (sobre a ocupação de uma cidadezinha italiana pelos americanos na Segunda Guerra; filmado por Henry King com Gene Tierney). Quando a revista The New Yorker, então com os lendários Harold Ross e William Shawn no comando, o chamou para uma viagem a Hiroshima que mostrasse ao público americano os efeitos da bomba na cidade, Hersey, 32 anos, tinha a combinação de fôlego e experiência necessária para encontrar o melhor meio de contar a história em mais de 30 mil palavras (o equivalente, no livro, a 90 páginas).

O meio que encontrou foi a costura de perfis de seis sobreviventes, que lhe narraram o que tinham vivido naquele 6 de agosto de 1945 e depois. Com isso, deu maior grau de realismo à matéria – que obviamente não poderia ser ?objetiva?, leia-se relatorial -, mas foi hábil o suficiente para não cair em pieguice ou sensacionalismo. E essa foi a força que o texto obteve em comparação com os outros. Os 300 mil exemplares da New Yorker, pela única vez totalmente dedicada a um assunto (exceto pelas páginas do roteiro cultural), se esgotaram rapidamente. Os americanos e o mundo conheceram detalhes que as imagens e os demais artigos não tinham mostrado, ao menos não daquele modo.

Hersey passou 17 dias entrevistando seus personagens e outros habitantes de Hiroshima. Trabalhou mais de um mês na matéria que, com os diversos ajustes pedidos pelos editores, foi publicada na edição de 31 de agosto de 1946. Mas o que tinha a oferecer já estava em sua cabeça desde o dia 12 de junho, quando deixou o Japão de volta para os EUA. Eram as descrições:

?Preocupado com sua família e com sua igreja, o reverendo Tanimoto correu para casa, tomando o caminho mais curto, a via Koi. Era a única pessoa que se dirigia para a cidade e no trajeto encontrou centenas e centenas de fugitivos, todos feridos. Alguns tinham as sobrancelhas queimadas e pedaços de pele soltos, pendendo da face e das mãos. Outros, zonzos de dor, erguiam os braços, como se carregassem alguma coisa com as duas mãos. Alguns vomitavam, sem parar de andar. Muitos estavam nus ou envoltos em farrapos.

Em alguns corpos despidos as queimaduras acompanhavam o contorno das camisetas e suspensórios e, na pele de algumas mulheres, o das flores dos quimonos (o branco repeliu o calor da bomba, enquanto as roupas escuras o absorveram e o conduziram para a pele). Muitos feridos apoiavam parentes que se achavam em condições piores. Quase todos caminhavam de cabeça baixa, olhando para a frente, em silêncio, absolutamente inexpressivos.?

Quem já visitou o memorial de Hiroshima viu na entrada um documentário que mostra a acuidade da descrição de Hersey. A bomba explodiu às 8h15 da manhã e lançou um clarão que varreu a cidade carbonizando tudo feito um vento de fogo. Em meio à destruição, os sobreviventes – metade da população de 200 mil habitantes – vagaram como zumbis, sem saber onde encontrar ajuda para tratar de suas queimaduras e fraturas; muitos perderam membros ou os olhos.

Hersey mostra as dificuldades do sr. Tanimoto para cuidar de tantas pessoas e levá-las através do rio para os locais de atendimento:

?O reverendo se lembrou das grandes queimaduras que tinha visto durante o dia: amarelas a princípio, depois vermelhas e intumescidas, com a pele solta, e, à noite, supuradas e fétidas. Com a montante da maré a haste de bambu se tornara curta demais, e ele teve de usá-la como remo na maior parte da travessia. Chegando ao lado oposto, carregou os corpos viscosos ribanceira acima. E repetia para si mesmo: ?São seres humanos?. Precisou fazer três viagens para transportá-los até a barranca.?

Claro, com histórias como essa, ao repórter esperto só cabe deixar fluir.

Mas, como se lê, Hersey escolhe o que descrever e, se o faz de forma direta, sem perorações, não deixa de apostar nos adjetivos e no ritmo subjetivo. Por isso sua reportagem resiste à releitura tanto tempo depois (com o auxílio de um capítulo escrito 40 anos mais tarde para o livro, em que mostra a Hiroshima jovial e reconstruída de hoje) e ganhou o qualificativo de ?jornalismo literário?, o nome da série que a Companhia das Letras inicia.

Jornalismo literário não é nada mais que jornalismo bem apurado e bem escrito, com bem mais espaço que o normal – grande jornalismo, em suma."

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