Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > porto dos milagres

Joaquim Ferreira dos Santos

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

QUALIDADE NA TV


porto dos milagres

"Bem querência, meu rei", copyright No. (no.com.br), 9/02/01

"Imagine esse diálogo em sotaque baianês:

– Eu lhe amo demais – diz o campeão mundial de boxe Popó. – Ôxi, se lhe amo.

– Eu lhe amo demais também – , responde Sheila Carvalho, a morena do tchan. Ela, no

entanto, está com pressa e pede o fim da chaleiração. – Mas agora se avie, Popó, que eu quero comprar uns breguetes no Mercado Modelo.

– Ôxi, mulher, isso me dá uma arrelia – , embirra Popô, insaciável por mais um pouco de sexo. – Não deu nem para tirar o estampo.

O diálogo evidentemente é fictício, embora as revistas de fofoca de vez em quando insistam num romance do lutador e a bailarina. Não importa. Os personagens são de somenos. Troque-os pelo ACM, pense em Maria Bethânia. O importante é que as palavras entre os travessões estão tiradas quase que literalmente da boca dos personagens de Porto dos Milagres, a nova novela das oito da Globo, de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares. Os autores querem que este seja um papo entre baianos, meu rei. Você não precisa ter ido ao complexo turístico da Costa do Sauípe recentemente. Basta ter visto com que palavreado o Carlinhos Brown se esquivou das garrafinhas. Esse baianês, se existiu, foi antes do trio elétrico e da dança do tapa na cara. Inventou-se uma língua. Não é de época, não cabe nem nos personagens folclorizados de Jorge Amado, em que a novela se inspirou. E se uma novela começa assim, se logo em seguida põe Arlete Sales com uma enorme rosa de filó preto nos peitos gritando, arrogante, que ‘Quem não me conhece não existe’; se uma novela começa com todos esses piparotes de loucura verbal, é caso de ficar de olho – vem coisa boa por aí.

Os ruídos da sonoplastia lembram Roque Santeiro, a voz de Gal Costa na abertura remete para Gabriela. Não tem problema. Há um coronel pedófilo, prostitutas de boa índole, pescadores viris, e não vai demorar muito surge de algum cantinho do vídeo o inevitável padre preto, como o de Pedra sobre Pedra. Está no ar, com todos seus personagens e cacoetes, um dos mais bem formatados gêneros da telenovela brasileira: a adaptação de romance regional. Parece nordeste brasileiro, mas quero que chova cem dias e as borboletas amarelas me persigam por outros tantos se não for de Macondo aquele castelo mourisco no meio da praça. O clima é delirante. Dali, um contrabandista rege o populacho de Porto dos Milagres como se fosse um bicheiro do subúrbio carioca. A mesma mão que dá tapinha nas costas e é generosa nas gorjetas, esfaqueia e é cruel na exploração dos pescadores. Os vilões da história terão o estilo cordial do bonachão e criminoso, tão Brasil! não é mesmo?, Castor de Andrade.

Os impacientes dirão que já viram tudo isso em oito horas passadas, mas esses são os mesmos incapazes de notar que o biquíni de 2001 é totalmente diferente do de 2000, assim como não perceberão jamais que o Marcelinho está batendo falta com a curva da bola abrindo para a direita e fechando para dentro das redes, e não mais ao contrário como fazia ali por 99. O diabo novamente nos detalhes. Pequenas variações sobre o mesmo tema, mas assim como no biquíni e na cobrança de faltas, Porto dos Milagres está fazendo o jogo com muito bom gosto, estilo e, principalmente, humor, algo que faltou à bem sucedida Laços de Família. No primeiro capítulo, uma dupla foge da polícia com as passadas sonorizadas, num efeito espetacular, por castanholas e passadas do flamenco. Finda a correria, aparece uma feiticeira – atenção para o detalhe maluco – portuguesa, de sotaque pesadíssimo, para, em cima de um caldeirão fumegante, recitar, como um coro de teatro grego, o que será o centro de toda a trama: o fugitivo da polícia, Felix (Antonio Fagundes), vai voltar para a Bahia, matar o irmão gêmeo (o contrabandista Bartolomeu, também vivido por Fagundes) e se apossar do seu reinado (o castelo mourisco).

No segundo capítulo, Aguinaldo e Ricardo já esquerdizaram a cena e colocaram os pescadores sendo vítimas – haviam pescado demais, dizia o comprador, por isso o preço tinha que ser mais baixo – da lei da oferta e da procura. Para arrumar o sustento dos seus, os infelizes ajudam no contrabando. Os contrastes sociais do país vão ser denunciados, faz parte também do estilo da dupla, filhos diletos de Dias Gomes. Mas, calma, não zapeie. Sem discurso, sem bandeira vermelha subliminar na vela de um pesqueiro. O tom é sutilmente debochado com os poderosos. A histérica Augusta Eugênia Proença de Assunção (Arlete Sales) passeia de Mercedes por ruas modestas e se sente tão ofendida por aquela pobreza que se protege com roupas européias, fechadas. Ridícula em seu nojo, vai ser através dela que a dupla de autores desovará seus bordões. ‘Filho é como urticária’, disse Augusta Eugênia Proença de Assunção no primeiro capítulo. ‘Qualquer uma tem.’ Seria má querência, para usar a língua corrente em Porto dos Milagres, lembrar da Viúva Porcina. São clichês de um gênero, como a virada da bateria na Mocidade, e impressionam mais pela qualidade com que são aprimorados em cada reencenação. Merecem, pelo contrário, ser chaleirados."

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