Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > NO LIMITE

Joaquim Ferreira dos Santos

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

QUALIDADE NA TV

TV PAGA

"Papai trapalhão", copyright no. (www.no.com.br), 23/02/01

"O que impressiona em Paul Reiser e Jerry Seinfeld é que todas aquelas situações malucas em que eles se metem poderiam ter acontecido, ou já aconteceram, com você. Eles fazem na televisão o chamado homem comum. Nenhuma mulher enlouquece diante deles. Nada, na verdade, parece estar acontecendo com eles. Diante de um anúncio de refrigerante, com todos aqueles jovens correndo, pulando, cheios de garotas agarradas nas costas, qualquer um dos três, jogado num poltrona, sozinho, se perguntaria onde foi que errou: ‘será que estou colocando gelo demais no copo?’

Eis o truque da dupla. Na televisão todos são melhores que o resto da humanidade. Galãs, poderosos, aquela gente de poema célebre, que nunca levou porrada. Paul e Jerry atacam pelo avesso. Fazem aquele sujeito esparramado no sofá com farelo de batata frita na camisa. Não chegam a ser perdedores, mas também não ganharam nada ainda. Estão na luta, contra tudo e contra todos. Telefonam de um orelhão, falam, falam, e depois que desligam e vão saindo, ouvem o telefone tocar. É a telefônica – a piada é de Seinfeld – cobrando mais dinheiro.

Seinfeld vive um solteirão convicto diariamente às 10h30 na Sony, uma série que já deixou de ser gravada há dois anos mas que, reprise após reprise, continua com ótima audiência e vai se tornando um daqueles clássicos para a eternidade, como I Love Lucy, a cara dos 50, ou Baywatch, a cara dos 70, mas todos ainda, e para sempre, no ar. Uma cena típica do humor de Seinfeld, e que você pode encontrar em O Melhor Livro Sobre o Nada (Frente Editora, 158 páginas), há três meses na lista dos mais vendidos, é a do lançamento de novos modelos da Chrysler. Aquelas linhas arrojadas saindo da fábrica, e Seinfeld, homem comum das aflições cotidianas, só consegue ficar pensando: onde eles vão arrumar vaga em Nova Iorque para estacionar todos esses carros? Seinfeld acha que o mundo seria melhor se os engenheiros ocupassem suas mentes geniais não só em matemáticas para desenvolver automóveis, mas também o que fazer com eles depois de parados.

‘É nisso que eles deveriam estar pensando’, escreveu. ‘Não seria ótimo? Você iria para a apresentação de novos modelos de carro e teria lá uma plataforma giratória enorme com nada em cima. ‘Apresentando, da Chrysler, uma vaga.’‘

Paul Reiser faz um diretor de cinema, casado e com um bebê, em ‘Mad About You’, a série (Sony, segunda a sexta, 18h30) em que é ator, autor e produtor. Depois de nove anos no ar, parou de ser gravada. Os fãs brasileiros não parecem se incomodar com as reprises. Junto com Friends, que vai ao ar logo em seguida, ‘Mad About You’ dá à Sony índices de audiência que superam, em alguns dias, os de tevês abertas como a Band. Num dos programas desta semana, Reiser dirigia um making of do making of do Titanic. O diretor James Cameron, em pessoa, se prestou ao mico. Aparece encomendando sanduíches, tirando meleca, coçando a bunda, até que desaba sonolento na cadeira e tem os pés levantados por um faxineiro que varre o estúdio. Foram as cenas, inéditas, exclusivas, que o diretor do making of, um tremendo paspalho, guardou para que Reiser incluísse no seu making of do making of. Naufrágio total. Titanic 2, todos mortos na sala de edição.

É o mesmo estilo de humor de Seinfeld, Woody Allen, Pedro Cardoso e que agrada às platéias pelo óbvio: todos se identificam. Nada dá certo. Pensam errado. Woody Allen, pequeno, diz que foi ver Branca de Neve e, enquanto os coleguinhas se apaixonavam pela menina, ele caía de amores pela rainha. Seinfeld fica olhando os programas de culinária na televisão e não entende como eles conseguem ter audiência:

‘Não dá para cheirar, não dá para comer, não dá para sentir o gosto. E no final eles mostram a comida para a câmera: ‘Aqui está. Não dá para você comer nem um pedacinho. Obrigado por assistir. Tchau.’‘

As grandes trapalhadas de Paul Reiser surgem do fato de ele e sua mulher na série, Helen Hunt, estarem às voltas com um fato recente, de quatro meses, que regurgita, chora, e exige preocupações antes jamais pensadas, como a responsabilidade de dar um nome que não corra o risco de ser o máximo hoje e se transformar no brega de amanhã. (‘O Enzo de nossos filhos pode virar um Rodolfo do nosso tempo.’) Sobre essas mesmas doces agruras que turbinam o programa de televisão está sendo lançado no Brasil o livro ‘Vida de Bebê’ (Objetiva, 211 páginas), um best-seller em potencial. Por um lado ocupa o espaço dos livros de auto-ajuda do setor (o nome da criança, a ida ao médico, a arte de trocar uma fralda, de dar um banho). Por outro curte-se com a cara dessas novas confusões, tão com a cara do homem comum.

Paul Reiser só lamenta ter perdido, com o nascimento da criança (seu livro é semi-confessional, foi escrito após o nascimento do primeiro filho), a felicidade de uma noite com oito horas seguidinhas de sono. De resto jamais confessa sonhar com bebês descartáveis e não revela qualquer desejo secreto de dar um pontapé na bunda deles, pensamentos que vingam e aliviam qualquer humorista mais pesado. O humor é bom, mas light. Família. Politicamente correto. Seinfeld diz que os pais uma vez o levaram a uma comunidade amish no interior dos Estados Unidos e passaram a usar aquilo como sinônimo de castigo. ‘Você foi malcriado, vá para o quarto. Agora você é um amish. E só saia de lá depois de Ter feito macarrão e criado umas galinhas.’ No máximo Reiser diz que um ursinho do bebê é do tamanho do Marlon Brando. Mas acha natural que, ao entrar num avião, todos levantem o rosto com a mensagem silenciosa de um ‘pelo amor de Deus, sentem em qualquer lugar, menos do meu lado’. Num momento parece que vai escorregar a mão ao criticar a mulher, que estaria fazendo a higiene do saco do menino de um jeito incorreto – ‘O que você está fazendo? Não é assim que lavamos o saco?’ – mas a leveza vence no final, embora a fralda tenha ficado no meio da coxa.

Os doutores Rinaldo Delamare e Benjamin Spock, mestres que pareciam imbatíveis na arte de ensinar pelos livros os pais de primeira viagem, tem um paraconcorrente de peso. Como fazer seu filho arrotar depois da mamada e morrer de rir com isso. Reiser se espanta, por exemplo, com a capacidade orgânica da mulher em transformar, após o parto, o peito, que antes era apenas um parque de diversões, numa loja de suco. De vez em quando o tradutor entra em cena e dá uma abrasileirada nas coisas, como no capítulo ‘Água de bebê, água de bebê camará’, mas a coisa não consegue ficar ridícula por muito tempo. O humor universal de Paul Reiser é eficiente. Embora, no caso do bebê, nada tenha sido mais eficiente para arrancar a primeira gargalhada do que aquela velha e boa assoprada na barriga da fera."

NO LIMITE

"Participantes de ‘No limite II’ sentem efeitos da dura competição", copyright O Globo, 20/02/01

"Antes mesmo de ‘No limite II’ estrear, o apresentador Zeca Camargo avisou que os participantes passariam por provas mais duras do que as do programa do ano passado. Cansados, famintos e expostos a um ambiente inóspito na Chapada dos Ventos, em Mato Grosso, eles já começaram a sentir os efeitos da competição. No episódio de anteontem, que obteve média de 34 pontos com pico de 38 no ibope, houve duas baixas: Lhitts, desclassificada pela direção, e Sônia, eliminada no Portal.

– Os participantes sabiam que seria assim. Não foi nada escondido e eles têm condições de fazer as provas vencendo o cansaço – diz Zeca.

Só que Lhitts Maciel, de 23 anos, chegou ao seu limite. Na primeira tarefa do quarto episódio, a programadora não conseguiu escalar um platô para alcançar o ponto mais alto da Chapada. No meio do caminho, sob um calor de 40 graus, ela desmaiou. Socorrida, recebeu soro e se restabeleceu em cinco horas. Segundo o médico Élson Lemes de Moraes, de plantão na base da produção de ‘No Limite’, a integrante dos Lobos-guarás teve um quadro de insolação.

– Quando minha filha voltar para casa (em Brasília), vou avaliar seu estado físico e emocional. Não posso vê-la sofrer sem tomar uma atitude – protesta Maria de Lourdes Maciel, mãe de Lhitts.

O clínico geral Roberto German explica que Lhitts estava desidratada, tinha pouco líquido no organismo para produzir o suor, necessário para resfriar o corpo quando ele é exposto a altas temperaturas:

– O que ela teve foi o estágio inicial do que poderia ser uma tragédia – alerta.

Mas a programadora não foi excluída pela direção do programa, sem direito ao prêmio, por causa do mal-estar. Ela saiu porque desobedeceu o regulamento: não dormiu no acampamento.

– Fiquei em pânico. Não quis ficar sozinha. Passaria a noite no frio e tive medo de voltar a desmaiar – conta.

Depois de participar do banquete exótico (cabeças de galinha ao pequi, farofa de gafanhoto, gafanhoto na calda de quiabo e larvas), Sônia Maria Cerqueira Pinto, de 35 anos, teve um mal súbito. O estômago embrulhou e o corpo enrijeceu. Para seus companheiros dos Araras Vermelhas, parecia uma convulsão. Para o médico Roberto German, a vendedora ambulante pode ter sido vítima de uma crise epilética psicogênica, causada por forte estresse físico e mental.

No dia seguinte ao problema, a caminho do Portal, Sônia e os colegas ainda tiveram de carregar pedras por dois quilômetros, numa prova que valia a imunidade de um dos participantes.

– Acho que o pessoal votou em mim por causa da comida. Na última prova eu não consegui comer – diz Sônia.

Além do calor infernal de dia, das chuvas torrenciais à tarde e dos mosquitos que atacam o dia inteiro, a geografia da Chapada dos Ventos tem debilitado ainda mais os participantes de ‘No limite II’. A maioria das tarefas exige que eles subam e desçam morros. Na prova ‘Segredo do tronco’, Roberta, ex-integrante dos Araras, caiu duas vezes e bateu com a cabeça. Mas não teve maiores conseqüências. O professor Antero, dos Lobos-guarás, que ano passado passou por cirurgia de varizes, também não agüentou as escaladas e acabou deixando o programa com muitas dores na perna e sem fôlego."

"‘No Limite 2’ enfraquece fenômeno ‘reality show’", copyright Folha de S. Paulo, 25/02/01

"Por que o romance entre Sávio e Eliane, participantes do novo ‘No Limite’, rendeu menos comentários que o clima entre Marcus e Pipa, na primeira versão do programa da Globo? Por que a gincana dominical não é mais assunto de dez entre dez rodinhas de amigos na segunda-feira?

A escassa repercussão e a queda de audiência da segunda versão do programa da Globo aliada ao recuo de SBT, Record e Gazeta em produzir ‘reality shows’ indicam que o gênero, tido recentemente como o novo fenômeno da TV, começa a tropeçar no Brasil.

‘No Limite 2’, até agora tem média de 34 pontos de audiência, contra 47 da primeira versão. A direção da Globo anda quebrando a cabeça para tentar explicar a queda e há divergências entre a cúpula, que aponta motivos desencontrados para o problema.

A Folha apurou que a queda foi homogênea entre quase todas as faixas etárias e classes sociais. As classes D e E e a faixa de 10 a 14 anos foram as que mais se mantiveram fiéis à atração da primeira para a segunda versão. Relatórios do Ibope revelam ainda que de ‘No Limite 1’ para ‘No Limite 2’, a porcentagem de aparelhos ligados durante o programa caiu 9 pontos.

A expectativa de que o ibope do sucessor fosse tão alto quanto o do primeiro ‘No Limite’ fez com o que o preço de um anúncio de 30 segundos, que era de R$ 63 mil na primeira versão, fosse elevado para R$ 80 mil na segunda edição. Assim, a queda de audiência vem decepcionando o mercado publicitário.

Parte dos diretores da Rede Globo analisam que o sucesso inferior ao do primeiro ‘reality show’ se deve ao fato de ‘o elenco’ ser pior e a fórmula inicial ter sido repetida. Oficialmente, a Globo nega que a atração esteja enfrentando problemas. ‘A nova versão está entrando no ar meia hora depois (do horário da primeira edição), pois o ‘Fantástico’ ganhou mais um bloco, e começou a ser exibida no horário de verão’, diz Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação.

A exibição de cenas fortes, como o vômito do participante Dáda após tentar ingerir um gafanhoto e a convulsão de Sônia, ambas exibidas na edição da semana passada, não são, de acordo com a Globo, tentativas de alavancar o ibope da atração. ‘No Limite’ se caracteriza por cenas fortes. Tais imagens não foram ao ar na primeira versão simplesmente porque não aconteceram’, diz Erlanger.

A Globo diz que ainda não há data definida para uma terceira edição do programa. Outras redes já começam a ver os ‘reality shows’ com desconfiança. ‘Durante a exibição do primeiro ‘No Limite’, concluímos que a fórmula se extinguiria, porque nos programas futuros só mudaria o cenário’, diz Fábio Furiatti, diretor do ‘Programa do Ratinho’, que, no ano passado, cogitava criar uma atração do gênero para o SBT.

Tanto o SBT como a Record estiveram próximas de assinar contratos com a produtora holandesa Endemol (detentora dos direitos do ‘reality show’ ‘Big Brother’), mas recuaram. Outro que voltou atrás foi Homero Salles, sócio de Gugu Liberato na produtora GBM.

‘Queríamos fazer um programa dentro de um ônibus. Em cada cidade que o veículo passasse, um participante seria eliminado. Apresentei o projeto para SBT e a Record, mas elas acharam caro. Outra idéia, que iria ao ar na Gazeta, era filmar o cotidiano de habitantes vivendo em uma casa de vidro. Quando a Globo fez o ‘Sufoco’, que era igual, desistimos.’

Outro ‘reality show’ que decepcionou foi ‘Sufoco’. Criado por José Bonifácio de Oliveira, o Boninho, e exibido no ‘Domingão do Faustão’, a atração teve resposta de público fraca. A Globo não conseguiu vender cotas de patrocínio dos dois últimos episódios da primeira fase do quadro e cancelou sua segunda etapa. ‘Sufoco’ fazia parte do ‘Domingão’. Se o programa vai bem ou vai mal, leva junto os seus quadros’ diz Boninho.

Para Rogério Gallo, diretor de criação da Bandeirantes, ‘o gênero de ‘reality show’ precisa se renovar, mas ainda tem vida’. Gallo anuncia mudanças para aumentar a audiência do ‘Território Livre’, misto de ‘game’ e ‘reality show’, da Band, cujo ibope não consegue ultrapassar a média de 1 ponto. E as mudanças revelam seu objetivo: diminuir a carga de ‘reality show’ da atração para tentar aumentar a audiência. ‘Vamos aumentar a participação de Sabrina (apresentadora da atração) e dos telespectadores’, diz o diretor."

"Nos EUA, greve na TV dá força ao gênero", copyright Folha de S. Paulo, 25/02/01

"A euforia inicial pode até ter passado, mas uma greve de roteiristas de TV, que pode ser deflagrada em maio, deve ajudar a sobrevida dos ‘reality shows’. ‘Não só essas atrações, mas as que não dependem de roteiristas, como ‘games’, e ‘talk shows’, ganharão força’, diz à Folha Bruce Johansen, presidente da Natpe (National Association of Television Program Executives), que promove a mais importante feira anual de TV no mundo.

Johansen crê que o gênero ainda não se esgotou. ‘O segundo ‘Survivor’ não alcançou o mesmo êxito do anterior, mas está com boa audiência.’

No Brasil, o primeiro ‘Survivor’ estréia no Multishow dia 8 de março, às 21h30. O canal tem a opção de comprar o ‘Survivor 2’, mas, para Wilson Cunha, diretor de entretenimento da Globosat, esse formato tem vida curta. ‘Competições perderão força. ‘Reality show’ é uma nova dramaturgia, mas deve buscar outros modelos, como o de ‘Tempation Island’.’ A atração citada por ele chega ao Brasil amanhã, na Fox, às 23h. É uma gincana entre casais que testa a fidelidade dos envolvidos. Não há premiados."

"Televisão vive inventando moda", copyright Folha de S. Paulo, 25/02/01

"Ainda é cedo para saber se a onda de ‘reality shows’ que vem assolando a TV brasileira é passageira ou veio para ficar. Ao longo de seus 50 anos, a televisão assistiu a diversas ‘modas’, algumas não tão passageiras.

Uma das mais memoráveis foi a dos festivais de música. Nos anos 60, todo canal que se prezasse tinha de ter o seu: Record, Tupi, Excelsior, Globo, nenhum deixou de investir na fórmula que, principalmente com o crescimento do mercado fonográfico, foi se desgastando.

Outras ‘modas’ perderam a força, mas continuam marcando presença na TV, caso dos ‘talk shows’, que tiveram um boom nos anos 80, das pegadinhas, ainda presentes nos programas de auditório, e dos ‘game shows’, que ressurgiram após vários anos -como o bem-sucedido ‘Show do Milhão’, do SBT.

Até as novelas, quem diria, já foram consideradas ‘passageiras’. ‘Nos anos 60, quando as tramas começaram a fazer sucesso, muitos diziam que a fórmula iria se desgastar rápido. Mas elas são sucesso até hoje’, diz Ricardo Xavier, o Rixa, roteirista do ‘Vídeo Show’ e autor do ‘Almanaque da TV’."

"Apelação sem limite", copyright O Estado de S. Paulo, 24/02/01

"A disputa pela audiência está cada vez mais acirrada e os últimos resquícios de respeito ao ser humano escoam pelo ralo da programação televisiva. Às voltas com a concorrência do grotesco Topa Tudo por Dinheiro, do SBT, a Rede Globo chegou à conclusão de que as carnificinas promovidas por Charles Bronson e a chanchada do Sai de Baixo não surtiam mais efeito. A saída foi importar a fórmula dos reality shows, que vem dando certo na TV norte-americana – como se fazer sucesso no país dos Rambos mirins representasse mérito. A versão nacional, o No Limite, foi bem recebida no ano passado e agora, em sua segunda edição, a funesta gincana voltou ainda mais radical.

No último domingo, os participantes foram compelidos a comer galinha crua com crista e tudo, gafanhoto e, de sobremesa, lagartas vivas. O anfitrião Zeca Camargo vigiava, olhar atento, sobrancelhas franzidas, para ver se os aspirantes a um dia posarem nus raspavam o prato. Teve um que vomitou e só faltou replay em slow motion. Tadinho do Silvio Santos com suas câmeras escondidas: ficou na poeira…

O apetite do público por esta roda-viva de flagelos, que mostra que a Noite dos Desesperados ainda é uma criança, merece ser analisado. Há muito tempo que a senha para aparecer na TV sem ser artista, político ou esportista é fazer papel ridículo, mas nunca a fama efêmera custou tão caro. E o preço pago não pára de subir, assim como a audiência desse spa dos horrores.

No mesmo programa, um espetáculo inesperado: no meio da noite, uma das participantes, faminta, cansada e estressada, teve um princípio de convulsão.

Tudo documentado pelas câmeras supersensíveis (sensibilidade ali, só da câmera) que registram tudo até na escuridão. Graças a elas, o Brasil pode ver a moça se contorcendo, com o abdome duro, achando que morreria. Ela foi socorrida pelos médicos, claro, depois que o cinegrafista fez seu trabalho.

E o telespectador lá, salivando a morte iminente em seu tubo de imagem. A morte e o sofrimento alheios estão tão banalizados que agora não bastam as rajadas de metralhadora dos filmes de ficção nem mesmo os telejornais repletos de crimes hediondos. Tem de ser real, uma dose mais forte. E o que virá daqui a alguns anos? Talvez só seu próprio haraquiri na sala de estar satisfaça o telespectador.

Mas, voltando à selva: outra concorrente, Lilith, que já tinha dado um bônus inesperado aos milhões de voyeurs, confessando sua homossexualidade a um companheiro de infortúnio, não agüentou a barra e caiu dura quando subia uma montanha por ordem do general Camargo. Foi para o posto médico e acabou desclassificada por não ter dormido no acampamento. É o regulamento, nem prêmio de consolação levou.

Gozado mesmo foi ver Zeca Camargo, o algoz que corre o risco de ser linchado pelos competidores tal seu cinismo, olhando com expressão preocupada para a menina estirada na maca. Devia estar, no íntimo, com medo de um processo por homicídio culposo.

Não existe companheirismo em No Limite. Quem pensou que as pessoas iam se ajudar na hora do sufoco não se conhece a fundo. Quando a fome aperta, é cada um por si e quem não agüenta a barra das competições é encarado como um peso morto (ou quase morto). Mesmo os pretensos aliados de hoje são os adversários de amanhã e os candidatos mais fortes acabam com as mesmas chances de eliminação que têm os mais fracos, pois podem complicar a vida dos outros no futuro.

No Limite é o retrato da era do individualismo, do egoísmo, da busca desesperada por um lugar à sombra, por algum dinheiro no bolso, pela segurança que cada vez menos gente consegue obter trabalhando honestamente.

"Padrão global é apenas um velho quadro na parede", copyright O Estado de S. Paulo, 24/02/01

"Depois do Show da Vida, o show de horrores. Se alguém achava que o máximo do mau gosto da Globo tinha sido servir sushi no corpo de uma mulher nua, naquele quadro apresentado tempos atrás no Domingão do Faustão, o programa No Limite encarregou-se, no domingo, de provar que o limite é mais embaixo.

Numa das etapas, os competidores foram obrigados a comer pele de cabeça de galinha, gafanhotos e lagartas vivas. ‘Tem de mastigar até a crista da cabeça da galinha! Ainda tem um pouco de crista, coma tudo!’, insistia Zeca Camargo, que esqueceu de disfarçar um certo prazer. Uma roupa de couro preto, cinta liga e chicote na mão cairiam como uma luva no apresentador.

Ao contrário do Ronaldinho na Copa do Mundo, os competidores não amarelaram.

Exceto uma, todos encararam os componentes do bizarro cardápio oferecido pelo maitre Zeca Camargo. Só faltou Zé do Caixão como garçom.

Tentando dourar a pílula, o apresentador dizia que os gafanhotos e lagartas eram considerados iguarias finas neste ou naquele país exótico. Mas houve quem `devolvesse’ ao vivo e em cores, na cara do telespectador, tudo o que havia acabado de mastigar e engolir.

Ao pobre competidor, não há o que fazer. Basta lembrar que, semanas atrás, na versão anterior do programa, os concorrentes haviam sido obrigados a comer olhos de cabra. São R$ 300 mil em disputa, sem falar em todos os sacrifícios feitos até aquele momento. A família e os amigos estão lá, do outro lado da câmera, apostando nele. É muita coisa para jogar fora. ‘- Dá mais uma lagarta aí!’

Mas é preciso reconhecer que, comparado aos gafanhotos e lagartas vivas que os atuais candidatos à fama e ao dinheiro foram obrigados a engolir, olhos de cabra da versão anterior não parecem tão maus. A concorrente Pipa, daquela versão, chegou a declarar que sensação de mastigar olho de cabra é semelhante à de morder um tomatinho cereja. Bleargh! O velho padrão global de qualidade é hoje apenas um velho quadro na parede.

Quem assistiu ao filme Vivos, do diretor Frank Marshall, baseado na história real dos sobreviventes de um avião que caiu na Cordilheira dos Andes, sabe que o instinto de sobrevivência do ser humano é realmente capaz de qualquer coisa. Topa até mesmo um rodízio de carne humana. Mas mesmo nessa condição-limite, há quem prefira a dignidade. Nos Andes, pelo menos quatro pessoas morreram de fome por recusar gente desfiada ou moqueca de gente.

Sadismo – Há um certo sadismo no telespectador que fica vidrado, vendo essas cenas. Não seria o mesmo espectador que, no antigo programa de Luciano Huck, na Bandeirantes, ficava torcendo para a Tiazinha depilar o cueca de plantão? Ou torce para que se desloque a parte de cima do biquíni da menina da banheira do Gugu? Ou espera que o ator do Topa Tudo por Dinheiro apanhe outra vez?

Público para barbaridades sempre existe. Se a banheira do Gugu não desse ibope, já teria saído do ar há muito tempo. Esses não podem reclamar de levar uma vomitada na cara. Mas e o desavisado que havia acabado de chegar de um cineminha, pediu uma pizza e estava comendo tranqüilamente diante da TV? A TV entra na casa das pessoas sem pedir licença e justamente por isso deve ter um mínimo de ética."

Volta ao índice

Qualidade na TV – próximo texto

Qualidade na TV – texto anterior

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem