Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > PÚBLICO

Joaquim Fidalgo

Por lgarcia em 13/06/2001 na edição 125

PÚBLICO

"Uns mais ?iguais? que outros", copyright Público, de Lisboa, Portugal, 10/6/01

"As palavras adquirem significados diversos conforme o contexto em que são usadas. Interpretar uma condenação judicial como ?severa? pode ter a ver com a pena atribuída mas pode também ter a ver com o caso concreto em julgamento. As pessoas devem ser iguais perante a lei, mas não o são do mesmo modo para os jornais.

Uma crítica ?revoltada? foi dirigida ao provedor pelo leitor João Seabra a propósito de ?distinções interclassistas, sociais e até morais? que, diz, por vezes lê no PÚBLICO. E dá o exemplo de um trabalho publicado recentemente a propósito da condenação, em Paris, do ex-ministro Roland Dumas, num muito divulgado processo de corrupção. O título e o texto consideravam que tinha havido uma ?severa condenação?. Mas, lendo a peça, João Seabra constata que ?são apenas seis meses [de ‘prisão firme’] mais uns pózinhos?.

Comenta o leitor: ?Não é a primeira vez que no PÚBLICO se fazem distinções sociais, pois se estivéssemos a falar de um desconhecido que apanhasse 10 ou 15 anos [de prisão], ou não haveria qualquer espécie de adjectivação – ‘severo’ é um adjectivo – ou, uma vez que se escrevia após a condenação do tribunal, dir-se-ia ‘ o criminoso foi condenado a…’. (…) Mas como estamos a falar de ministros, ex-ministros, etc., tudo parece normal.? Postas assim as coisas, acrescenta, ?até vale a pena? ser corrupto, uma vez que a tal ?severidade? não vai além de ?seis meses e uma multa?.

O caso particular enuncia, no fundo, a questão mais geral de saber até que ponto os jornais redigem os textos em função das pessoas concretas que protagonizam as notícias. E se devem ou não fazê-lo, e em que termos. Ao contrário do que poderia parecer numa visão imediatista, a resposta não é tão simples como isso. Há distinções e distinções.

Solicitado a comentar as alegadas ?distinções sociais? de notícias do tipo da de Roland Dumas, o director do PÚBLICO nota a importância de situar o texto (e as palavras) no seu contexto específico. ?Quando se usa ali o termo ‘severo’, não se está a colocar a tónica no facto de ser uma pena de prisão de apenas seis meses, mas no facto de o condenado ser uma figura importantíssima de França, ex-ministro e ex-presidente do Conselho Constitucional?, diz José Manuel Fernandes. Condenações de gente deste estatuto, mesmo quando sob suspeita fortíssima de corrupção, ?são raras em França, como são raras em Portugal ou em qualquer lado?, sublinha o director do PÚBLICO. Assim, em sua opinião, o facto de haver uma condenação a pena de prisão efectiva já é, só por si, uma ?assinalável demonstração? de severidade.

?Claro que, se compararmos estas sentenças com outras sentenças de gente menos conhecida e a propósito de crimes de outro tipo, seis meses de prisão não parece nada severo. Mas a comparação, insisto, tem que ser feita com situações semelhantes ou paralelas?, conclui, no que se nos afigura uma explicação razoável.

Quer isto dizer que a apreciação jornalística é diferente de pessoa para pessoa? Pois parece que sim. São todas iguais (ou deviam ser…) perante a lei, mas não são todas iguais, de facto, perante os jornais. As responsabilidades especiais das personalidades públicas fazem recair sobre elas atenções particulares, que não têm necessariamente a ver com devassa da sua privacidade ou interesse doentio pelos seus quotidianos banais (como é apanágio de tanta página ?social? por aí impressa), mas com a circunstância de, em muitos casos, serem pessoas que interessa conhecer melhor para melhor julgar – o que, para nós, significa eleger, escolher, dar crédito.

Há pessoas que são mais notícia do que outras, e nesse sentido também são diferentes. O que convém é que o sejam por bons motivos.

Uma coisa é discriminar pessoas pelo facto de serem desta ou daquela cor, deste ou daquele sexo, deste ou daquele credo, deste ou daquele bairro, desta ou daquela maneira de vestir. E isso não tem qualquer justificação, mesmo que, como lamenta o leitor João Seabra, ainda continue a ver-se tanto na nossa imprensa. A chamada de atenção ao que o Livro de Estilo do PÚBLICO diz sobre isto nunca será demasiada. Há tanta coisa pequenina que nos escorrega por entre os dedos das rotinas jornalísticas instaladas…

Coisa diferente, todavia, é discriminar pessoas em função das responsabilidades públicas que assumem, do protagonismo que adquirem junto dos cidadãos e do grau de atenção que, por isso, concitam. Mesmo sem entrar nos domínios do sensacionalismo ou da exploração parola do ?fait divers? – que existem, e quanto!, mas não são os que aqui nos trazem -, concordaremos que determinadas matérias só são noticiáveis se se referem a certas personalidades.

Quanta gente é, por exemplo, multada por excesso de velocidade na condução automóvel? E quantas notícias há sobre isso nos jornais, quantos nomes lemos, quantas histórias? Pouquíssimas. E será que, se tivéssemos muitas iguais, todos os dias, elas interessariam os leitores em igual grau, ou cumpririam uma função relevante para a comunidade?

Mas se, amanhã, um conhecido governante, ou um renomado empresário, ou um polícia, tiver de enfrentar a barra do tribunal por uma infracção grave ao código da estrada, é natural que encontre à porta um grupo de jornalistas. E que, no dia seguinte, saia notícia no jornal. E que as pessoas leiam com algum interesse. Nuns casos, porventura, pouco mais do que por curiosidade face um assunto de de mediana importância; noutros, porém, como situação que, pelo seu carácter inédito, pedagógico, exemplar, provoca uma reflexão socialmente pertinente.

Exagera-se neste domínio? É verdade. Passa-se ao lado de excelentes histórias, só porque são ?anónimas?, ao mesmo tempo que se povoam os jornais de coisinhas sem graça ou alcance, só porque falam de gente conhecida (e conhecida também porque os ditos jornais a fizeram conhecida…)? Indubitavelmente. Há que ?levantar o rabo da cadeira? e ir descobrir muito do que por aí se passa e merece ser conhecido? Também.

Mas não esqueçamos as reais dificuldade dos jornais concretos em gerir as contradições que atravessam a sua função: tratar do que é ?importante?, mas torná-lo também ?interessante? (sob pena de que quase ninguém leia); abordar uma grande diversidade de assuntos (para cativar um público plural), mas não ficar apenas pela rama de tudo (para não desiludir os mais exigentes); escrever com rigor, mas não cair em linguagens herméticas que só os especialistas entendam; abordar matérias de que as pessoas estão à espera, para saber mais e melhor, mas surpreendê-las também com outras que nem imaginariam.

São compromissos difíceis, que causam dilemas constantes na elaboração diária de um serviço que cative o maior número possível de leitores de jornais, os informe, os forme, lhes dê ?trabalho?, mas também lhes proporcione prazer. Que os ajude a ver/viver melhor o mundo – ele próprio feito de diversidade e de contradição. E, já agora, de mudança!

Contextos – O significado de uma palavra depende do seu uso em situações concretas

Contradições – Um jornal é sempre uma solução de compromisso entre múltiplos objectivos."

    
    
                     

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