Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PÚBLICO

Joaquim Fidalgo

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

PÚBLICO

,
copyright Público, 29/7/01

"Para além dos grandes temas, das manchetes, dos ?dossiers? ambiciosos, das histórias de primeira página, um jornal faz-se também de muitas pequeninas coisas. E se algo (tanto…) aprendeu o Provedor nestes quase dois anos que leva de função, foi que os leitores estão bem mais atentos a essas pequenas coisas do que se pensaria: uma palavra incorrecta, um horário errado, uma troca de nomes, uma informação enganadora sobre um qualquer serviço, uma disparidade de critérios entre secções, uma frase ?despreocupada? no meio de um textinho breve… Atentos, exigentes, críticos leitores – como convém, e como os jornalistas cá da casa sempre dizem que os querem.

Não é que se atribua importância excessiva às ?coisinhas?: muitas vezes são os próprios autores do reparo que o relativizam, sabendo que se trata de um pormenor, uma distracção, um lapso involuntário. Mas não gostam. Sobretudo, não aceitam falhas dessas num jornal como o Público, que cultiva uma imagem de rigor, de exigência profissional, de controlo de qualidade em todos os espaços, desde a manchete mais nobre à informaçãozinha mais corriqueira. Criar expectativas elevadas tem esse ónus: é-se lido à lupa e, compreensivelmente, menos desculpado do que outros. Como há tempos desabafava um leitor (que cito de memória), depois de criticar um erro menor: ?Bem sei que isto, em si, não é relevante, mas põe-me logo mal disposto para o resto da leitura… Prezo tanto o MEU jornal que não lhe aceito descuidos.?

Pois foi no meio de um textinho simples e descontraído, como são as prosas do suplemento estival ?Meia Praia? – adequadamente, aliás, dado o produto em causa, pois para matéria pesada já nos chegam as realidades reportadas nas demais páginas do jornal… – que o leitor António Carvalho encontrou uma expressão, a seu ver, inadmissível.

Recordando tempos idos, falava o jornalista (no caso, Fernando Correia de Oliveira – F.C.O, na assinatura abreviada que usou) da imprescindível ?licença militar? para que um homem pudesse deslocar-se ao estrangeiro, quando lhe saiu uma referência global à ?corrupta e inepta Guarda Fiscal?. Comenta António Carvalho: ?Com que direito ou com que provas F.C.O. utiliza os termos ?corrupto? e ?inepto? para com uma instituição do Estado recentemente extinta, que existiu durante larguíssimas dezenas de anos? (…) Seria possível eu escrever no jornal que F.C.O. é corrupto ou inepto? Não, pois o director do jornal não mo permitiria sem apresentar provas?. E conclui o leitor: ?Em todas as profissões há maus elementos. Na Guarda Fiscal ou no jornalismo. Mas isso não dá a ninguém o direito de usar o poder que lhe é facultado de insultar em público toda uma classe, milhares de homens e mulheres?.

Há aqui, de facto, um problema de generalização que esqueceu regras básicas do texto jornalístico, qualquer que ele seja. O jornalista, Fernando Correia de Oliveira, é, de resto, o primeiro a reconhecê-lo e a assumir a falta: ?Penso que o leitor tem alguma razão, quando tomo a parte pelo todo?. Sobre a Guarda Fiscal, lembra que a decisão de a extinguir teve também a ver com o facto de ?a sua imagem junto da opinião pública [estar] demasiado degradada (por escândalos sucessivos de corrupção, como foram os casos, já em democracia, de redes de contrabando de electrodomésticos ou de tabaco)?. Foi a partir desse adquirido que fez a dita referência, embora sem o propósito de insultar todos e cada um dos membros da corporação.

Que esta imagem global se foi impondo, e não por acaso, é verdade. Mas não é menos verdade que, apresentado o quadro como foi naquele texto, todo o antigo guarda fiscal levou pela mesma medida, fosse inepto ou competente, fosse corrupto ou exemplarmente íntegro (que de uns e de outros houve, com certeza). Qualquer generalização se arrisca a ser abusiva, e portanto injusta, sendo que, neste caso, ajuda a perpetuar um ?carimbo? negativo – mesmo com algum fundamento em realidades conhecidas – num corpo policial particular.

O jornalista sugere, entretanto, que se está perante um texto opinativo, como são praticamente todos os do suplemento ?Meia Praia?. Daí a decisão, correcta segundo as regras do Público (o suplemento também ?é? Público…), de que todos sejam assinados. Mas nem isso resolve o problema, pois uma opinião num jornal deve ser, como aponta o leitor, minimamente fundamentada, para não se tornar afirmação gratuita, ou quiçá insultuosa. E quanto a insultos, ainda que não intencionais, mesmo os pequenos são grandes se nos tocam a pele…

Tem, pois, razão o leitor – e regista-se o ?mea culpa? do jornalista.

Já não é caso para ?mea culpa? do jornal o tratamento gráfico dado, esta semana, ao incêndio num lar de idosos em Viana do Castelo, de que resultaram três mortos e muitos feridos. As primeiras páginas de quase todos os jornais do dia seguinte apresentavam fotografias que, salvo melhor opinião, constituíam uma chocante exposição pública de pessoas fragilizadas, e que nem por terem sido vítimas de uma tragédia perderam o direito à privacidade – e à dignidade. De um ponto de vista informativo, que justificação podia haver para nos mostrarem, perfeitamente identificáveis, pessoas quase nuas, indefesas, doentes, de fraldas, com a dor estampada na face, enquanto eram retiradas pelas janelas?…

Permitam-me, por isso, que enalteça a opção do Público de escolher para a sua primeira página (edição Porto) uma fotografia que, retratando eloquentemente (embora de modo indirecto, criativo, sensível) toda a dimensão da tragédia, não precisou de chocar os leitores com imagens cruas da intimidade de qualquer dos idosos apanhados no desastre. Preservou a sua dignidade, respeitou-os a eles e aos seus familiares, respeitou-nos a todos. Para isso contribuiu o jornalista, que teve preocupações éticas enquanto esteve no terreno, e contribuíram os editores ou directores a quem coube escolher aquela foto – quando podiam ter escolhido outra. E a ?outra?, a avaliar pela maioria dos jornais, é o que está a dar… Mas há quem não vá por aí.

Um pequeno cuidado, um pequeno gesto, uma breve pausa para pensar… e da soma dos ?pormenores? se vão também fazendo as coisas grandes.

P.S. O Provedor estará de férias durante o mês de Agosto, pelo que esta coluna semanal só regressa em setembro. Entretanto, como o jornal continua a sair todos os dias, os leitores podem ir enviando as suas críticas, comentários ou questões, que a todos se procurará dar resposta no retomar do trabalho. Boas férias!

Rigor – Uma crítica generalizadora arrisca-se sempre a ser injusta para alguns.

Dignidade – A que propósito pôr a nu, no jornal, as vítimas indefesas de uma tragédia?"

    
    
                     

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