Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Joaquim Fidalgo

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

PÚBLICO

"Virar de Página", copyright Público, 30/9/01

"Chegam hoje ao fim os dois anos durante os quais exerci a função de provedor do leitor do Público. Ao longo de quase cem semanas, procurei trazer a este espaço – um espaço de análise e de reflexão, um espaço de diálogo entre o jornal e os seus leitores ? questões mais ou menos polémicas que me fizeram chegar ou que eu julguei pertinentes, fosse para uma melhor compreensão da actividade jornalística, fosse para tentar corrigir, aperfeiçoar, melhorar o serviço que aqui se presta à comunidade.

Escrevi, quando assumi o cargo, que entendia esta função como ?uma ponte com dois sentidos? e que, portanto, ela procurava ter alguma utilidade tanto para fora de portas como para o interior da redacção. Se o propósito foi, num e noutro caso, mais ou menos conseguido, não me cabe a mim avaliar. Mais do que fazer balanço, aproveitaria este último texto para comentar três vectores que me parecem relevantes.

1. Ouvir os leitores, mas ouvi-los mesmo (percebendo melhor como lêem o ?seu? jornal, o que pensam, que importância relativa atribuem a quê, que dúvidas têm, que expectativas alimentam), foi a minha primeira prioridade, e que se revelou tão necessária como gratificante. Invoca-se frequentemente o nome do leitor em vão, prestando-se-lhe menos atenção do que se diz, quando não menorizando os seus pontos de vista. Não é que ele tenha sempre razão ? mas muitas vezes tem. Não é que ele seja sempre justo nas críticas que faz ? mas muitas vezes é.

Mais do que ?o leitor?, idealizado como entidade abstracta, importa que um jornal conheça os leitores concretos que tem e deseja manter (e alargar …), percebendo o que entre eles há de comum e o que há de diverso, de modo a não os defraudar ou a não os deixar confundidos sobre as opções editoriais que vão sendo tomadas. A contratualização (seja explícita, seja implícita nas práticas diariamente observáveis) entre um determinado jornal e o seu público é um processo dinâmico, constantemente actualizado, e em que ambas as partes interagem, desde logo explicando-se e ouvindo-se, para poderem ir-se identificando mais.

Um provedor não tem o monopólio do diálogo com os leitores. O certo é que tantos ainda se queixam de como é difícil ?chegar? ao Público, questionar um serviço e obter uma simples resposta, mandar um ?e-mail? e ver que ele foi lido por alguém, escrever um texto e saber se será ou não publicado…

A ?instância de recurso? que é (também) o provedor procurou contribuir para que se abrissem mais as portas e as janelas da casa. Alguns progressos foram feitos, e mais se farão com certeza. Do lado de cá, mas também daí: atentos como são, os leitores do Público podiam interpelar o provedor ainda mais do que fizeram.

2. Explicar como funciona um jornal por dentro e que constrangimentos limitam a actividade dos jornalistas não é, necessariamente, desculpar os seus erros. Pelo contrário: é dar aos leitores todo o conhecimento possível de como estas teias se tecem, para que eles possam depois, já sabedores, ser certeiros na crítica e firmes na exigência.

Estando mais familiarizado com os processos, um leitor já não se contenta com respostas do género ?é fácil falar quando se está de fora… se você soubesse como estas coisas funcionam…? e que por vezes são alibis meio corporativos para não nos questionarmos a nós próprios ou às nossas indeclináveis responsabilidades. Há constrangimentos práticos no jornalismo, sim, mas não podemos ser apenas seus indefesos e conformados reféns.

Algumas críticas me foram feitas por, aqui e ali, parecer mais ?defensor dos jornalistas? do que ?defensor dos leitores?. Decerto com a sua razão: sou o primeiro a reconhecer as insuficiências do meu trabalho. Mas o propósito não foi nunca (nem parece que deva sê-lo) ?defender? estes ou aqueles. Foi, sim, defender, com serenidade, a transparência de processos, a clareza de critérios, o rigor de avaliação das críticas (sem demagogias fáceis nem crispações desnecessárias) e, acima de tudo, a busca incessante da qualidade que o Público promete a quem o lê.

Fazer juízos definitivos sobre a bondade de tal ou tal comportamento profissional e ético não constitui tarefa fácil, sobretudo pelo que está em causa nestes domínios tão pouco ?normativizáveis?. Cada caso é um caso, cada pessoa uma pessoa. Assim, cada juízo é sobretudo uma opinião, uma argumentação. Mais do que ?julgar?, um provedor deve talvez fornecer, a quem o lê, todos os elementos necessários, todos os matizes, e mesmo as dúvidas, para que cada um pense também por sua cabeça. Nada de muito diferente, afinal, do que o tipo de jornalismo de que o Público se reclama.

3. E o que fica, então, em termos de eficácia? Serve este esforço para algo que se veja, traduz-se em abertura, em mudança, em aperfeiçoamento do jornal? Ou não passa de um espaço de desabafo e de catarse, que nos alivia as consciências, nos retoca a imagem, nos dá um ?intervalo? de crítica e auto-crítica – para que tudo, depois, continue na mesma?

Das recomendações aqui feitas – sempre alicerçadas no Livro de Estilo por que se rege o Público (e que, mesmo datado, ainda aponta os valores essenciais que norteiam este projecto editorial, merecendo ser francamente mais conhecido e mais consultado cá pela casa) -, algumas foram seguidas pelos responsáveis do jornal, outras não. E nem sempre por discordância: as rotinas instaladas, aliadas a um quotidiano sempre tão cheio de variadíssimas pressões, falam por vezes mais forte. É uma atenção constante que se requer, uma insistência, um lembrar e relembrar, para que as falhas se vão atenuando.

Julgo poder dizer, não obstante, que grande parte das críticas veiculadas pela coluna do provedor não caiu em saco roto. Muitas provocaram debate interno (e polémica, claro…), ajudando a pensar, recordando o que se sabe mas volta e meia se esquece. O espaço plural que é este jornal, no domínio da opinião publicada, é-o também no interior da redacção, onde a auto-crítica se faz com frequência e com frontalidade. E ainda bem, que de auto-suficiências arrogantes andamos nós cheios.

Se para isto contribuem as análises e opiniões de um provedor – seja o que agora termina funções, seja o que lhe sucederá -, já o cargo terá a sua utilidade para os leitores. Porque é em nome deles, e colocando-se no ponto de vista deles, que o faz. Embora não seja uma ilha: o esforço para melhorar um jornal e para estimular uma relação dinâmica e criativa com quem o lê (permitindo que o leia com maior espírito crítico e melhor compreensão dos meandros da informação) compõe-se de variadas peças. O provedor é apenas uma delas, com as suas virtualidades e com as suas limitações. O que se deseja é que as segundas não ofusquem as primeiras…

Duas palavras finais: obrigado aos jornalistas pela sua cooperação e disponibilidade, e obrigado aos leitores pela sua atenção, pela sua insatisfação, pelas suas críticas. Foi com elas que pude fazer este trabalho. É com elas que o PÚBLICO só tem a ganhar.

UMA FRASE

?A deontologia não é uma massa inerte de receitas passadas; ela é sobretudo a elucidação permanente das escolhas presentes.? [Jorge Wemans, Público, 1/3/98]"

    
    
                     

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