Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Joaquim Roriz vs. Correio Braziliense

Por lgarcia em 05/10/1999 na edição 76

“Os números são assustadores. O Distrito Federal e a região do Entorno já apresentam as maiores taxas de crescimento demográfico do país. Os índices transformam Águas Lindas, quase às margens da Barragem do Descoberto — que fornece 60% da água do DF —, na cidade que mais cresce no Brasil. Um ex-distrito, em poucos anos, se tornou um aglomerado urbano de 150 mil pessoas, segundo as últimas pesquisas, sem água tratada, sem esgoto.

O cenário preocupante se repete em outras cidades limítrofes e chega ainda mais perto nas seguidas ocupações de terras públicas da capital brasileira. Os cálculos mais otimistas dão conta de que 12 mil famílias vivem em invasões no Distrito Federal e não se podem esquecer as milhares de pessoas que residem em condomínios irregulares. O problema exige solução rápida e enérgica, antes que a cidade se inviabilize pela falta de uma diretriz séria no combate às invasões. Não é o que se vê hoje.

A política irresponsável de oferecer lotes a pessoas que invadem terra pública, como foi feito pelo governador Joaquim Roriz no último sábado em Santa Maria, cria a ilusão de que se pode vencer pela força. É como se os mais espertos ou mais fortes fossem premiados. É erro grave. Aos poucos, a cidade começa a ser inviabilizada por conta da falta de orientação clara no combate às ocupações irregulares. A invasão da Estrutural não apenas não foi removida para ser instalada a expansão do Setor de Indústrias, como ganhou energia elétrica. Os moradores começam a substituir os barracos de madeirite por construções de alvenaria, desafiando o bem público e seu guardião, o governo. Em sua administração anterior, Roriz retirou favelas do Plano Piloto, criando várias novas cidades para alojar os invasores. O erro foi transformar um bom programa social em política eleitoreira.

O Distrito Federal se depara hoje com problemas graves, como o trânsito (que obriga a construção de várias obras) e a falta d’água, além do evidente esgarçamento dos equipamentos públicos. Com a política de distribuição de lotes e a conseqüente divulgação das doações, o ciclo se perpetua e se agrava o fenômeno migratório dos últimos anos.

Os números dos levantamentos mais recentes — que não apontam grande movimento em direção ao DF — escondem o evidente inchaço das cidades goianas que fazem fronteira com a capital. É para lá que vão os migrantes, mas chegam sonhando com um lote aqui, como mostra a imensa fila formada para obter senha e preencher as fichas do Instituto de Desenvolvimento Habitacional (Idahb). É preciso que o governador Joaquim Roriz assuma a responsabilidade de encaminhar a solução do problema e não se renda à pressão dos invasores. O tempo da retórica acabou.”

“Invasões”, copyright Correio Braziliense, 15/9/99

 

Governador diz que imprensa estimula migração para desestabilizá-lo. Ele acusou o Correio de ser seu adversário

“Irritado com a cobertura que o Correio Braziliense faz da proliferação das invasões de áreas públicas no Distrito Federal, o governador Joaquim Roriz aproveitou a tarde de ontem para criticar o jornal publicamente. ‘Estou definindo um grande desafio: vou ao povo, vou conclamar a sociedade para não ler este jornal que está prejudicando esta cidade’, afirmou, diante de aproximadamente 150 pessoas que foram à sede da Secretaria de Assuntos Fundiários, no Setor de Rádio e TV Sul, para a solenidade que marcou a republicação da lista de 100 pessoas contempladas com lotes no Setor Habitacional Jardim Botânico.

O discurso durou quase meia hora e deixou o governador de voz embargada e suado. O cabelo, normalmente bem penteado, acabou grudado à cabeça. Ele chegou com o texto pronto, mas intercalou o pronunciamento com improvisos contendo os ataques mais contundentes.

A versão preparada com antecedência e distribuída a jornalistas não fazia menção direta ao Correio. Em vez de dizer o nome da publicação, o discurso original continha expressões como ‘um jornal de grande circulação entre nós’. Ao improvisar, Roriz disse o nome Correio seis vezes.

Em alguns trechos, o discurso assemelhou-se a uma declaração de guerra. ‘Eu quero estabelecer um confronto, vou estabelecer a partir de hoje e digo a verdade, porque de mim só sairá a verdade’, exclamou. No final, o governador deixou claro que avalia como sendo um adversário o jornal de maior circulação no Distrito Federal. ‘Estou preparado para o desafio e para o combate, não temo’, declarou. ‘Vou vencer a todos, inclusive, agora, o diário dessa cidade.’

A platéia dividia-se entre funcionários do governo e pessoas contempladas com lotes no Jardim Botânico – selecionadas em uma licitação para venda de terrenos realizada em 1998. Exaltados, assessores aplaudiam o governador a cada ataque ao jornal ou ao governo passado. ‘Tem que colocar fogo no Correio’, gritou um partidário de Roriz durante um dos ataques do político à publicação.

O ataque direto ao jornal ocorreu a partir do momento em que Roriz justificou os programas de distribuição de lotes à população pobre: ‘O drama dessas pessoas me comove profundamente, meu coração dói, porque lá (entre os invasores) poderia ter uma prima minha, lá poderia ter a minha mãe (…). Pode o Correio Braziliense me agredir, podem jornalistas, pode editor do Correio dizer que eu estou invadindo’.

Nesse ponto, Roriz decidiu atacar ‘o editor do Correio’. A edição do jornal é responsabilidade do Diretor de Redação, Ricardo Noblat. ‘Este editor é aquele mesmo, este que escreve aquilo que está prejudicando Brasília, é o mesmo que, no dia da apuração, convidou os petistas para comemorar a vitória. E quando o quadro mudou, ele não conseguiu ficar diante do espectador porque teve uma dor de barriga e se retirou. Este é o homem que escreve e que manda no Correio Braziliense. Eu gostaria que o Correio estivesse aqui.’ No dia mencionado por Roriz, a TV Brasília – associada ao Correio – acompanhou a apuração do segundo turno em tempo real. Noblat foi um dos apresentadores.

O governador sustentou que a cobertura do Correio sobre as invasões, e não ele, é que estimula as ocupações irregulares. ‘Chegaram ao cúmulo de escrever uma grande manchete: ‘Corra que o lote vem aí’ (capa de Cidades de terça-feira, retratando o corre-corre em Santa Maria entre pessoas que buscavam inscrição no programa habitacional). Fretaram ônibus da Bahia, fretaram ônibus do Piauí porque atenderam ao apelo do Correio Braziliense. Vieram para invadir Brasília.’

E emendou: ‘Eis a política dessa gente, mas não importa. Estou acostumado a derrotá-los, estava fora do governo, eu fazia oposição, contra o jornal, e ganhei a eleição. Agora, eu estou no governo para desmascará-lo e trabalhar por esse povo’.

Além de criticar o jornal, Roriz atacou petistas como o presidente regional do partido, Chico Vigilante, e o deputado distrital Wasny de Roure. O momento mais agressivo foi quando ele rotulou como ‘um bando de corruptores’ a direção do Banco de Brasília durante o governo passado.

Casa

Ao invés de lote, casa. O governador Joaquim Roriz disse ontem pela manhã que ‘lote é uma coisa do passado’, ao afirmar que não vai iniciar um processo de distribuição de terrenos a partir da invasão de uma área na cidade de Santa Maria. Mas garantiu: ‘vou dar mesmo residência para quem precisa e tem direito’. O governador afirmou que o problema de Santa Maria já foi resolvido com a retirada dos invasores do local.

Roriz anunciou a apresentação do seu programa habitacional para amanhã, quando se encontrará com o presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Emílio Carazzai, com a finalidade de obter recursos para construção de casas populares. Ele não explicou que os programas desenvolvidos em convênio com a CEF exigem um pagamento por parte do comprador. No lançamento oficial, que foi feito numa solenidade no início do mês de julho, no Memorial JK, a secretária da Habitação, Ivelise Longhi, já esclarecia: ‘financiar ao invés de doar’. Sem dar maiores detalhes e irritado, Roriz acusou a imprensa de estar ‘estimulando a migração com o pressuposto de desestabilizar o governo’.

Orquestração

O vice-governador, Benedito Domingos, também acredita que existe ‘uma orquestração para dar intranqüilidade e prejudicar o andamento do processo normal da política habitacional do governo’, mas preferiu não especular a respeito de quem seria o regente da orquestra.

Domingos, que já tem pronta uma proposta para tentar resolver o problema de quem precisa de moradia e ainda não teve oportunidade de se inscrever na lista do Idhab (Instituto de Desenvolvimento Habitacional de Brasília) e daqueles que vivem na cidade há menos de cinco anos, é enfático ao concordar que ‘não se deve premiar o invasor. Não se deve distribuir para quem invade’.

O vice-governador defendeu o cadastramento de todos os interessados, apesar de gerar expectativas em algumas pessoas. Ele explicou que só a partir de uma listagem é possível fazer qualquer avaliação sobre as necessidades dos invasores. ‘Alguns invadem só para marcar presença. Basta verificar que pela madrugada, a maioria não está nos barracos’, mostrou.

De acordo com a proposta de Domingos, a interiorização seria a melhor a saída para o problema de moradia dos brasilienses. Mas para ser aplicada, precisaria de apoio e da parceria do governo federal e dos prefeitos. ‘A idéia seria criar um projeto-embrião, que serviria de modelo’, adiantou. Segundo o vice-governador, caberia ao GDF oferecer ao invasor a oportunidade de ser transferido para uma cidade próxima, com menos de 10 mil habitantes, onde receberia incentivos como a bolsa-escola e uma ajuda de custo.

A prefeitura entraria com o terreno e o governo federal financiaria a construção da casa própria. Os três governos se uniriam na construção dos equipamentos a serem oferecidos à população (água, energia, saneamento, escolas, postos de saúde, etc). ‘De acordo com um levantamento feito, calculamos que o custo social de uma família gira em torno de R$ 1,3 mil mensais no DF. Numa cidade menor, ele cairia para cerca de R$ 300’, disse Benedito Domingos.”

Copyright Correio Braziliense, 16/9/99

 

“Caiu a máscara de democrata do governador Joaquim Roriz. E não foi ninguém que a retirou. Foi ele mesmo. Estamos, pois, diante de um gesto voluntário do governador. E, é de se imaginar, bastante amadurecido por ele desde que tomou posse no cargo há quase nove meses. Inconformado com a postura independente e crítica que pauta há anos nosso comportamento editorial, o sr. Roriz anunciou que conclamará o povo para que não leia mais o Correio Braziliense. Isso quer dizer: o sr. Roriz gostaria de fechar este jornal.

A irresponsável política fundiária esboçada pelo governador no seu atual mandato, a que este jornal se opõe, está na raiz do gesto que ele agora adota. O sr. Roriz foi eleito em larga medida com o voto das pessoas mais pobres do Distrito Federal. Elas acreditaram em diversas promessas irrealizáveis feitas por ele ao longo da campanha. Uma delas foi a de dar terra a quem não tem. Como se simplesmente oferecer um lote a uma pessoa fosse capaz de resgatá-la do estado de pobreza em que vive.

Não somos contra política alguma que de fato contribua para a elevação social dos mais desamparados. É de uma clareza solar que não somos, nem poderíamos ser. Pelo contrário: cobramos do governo federal, de todos os governos e da própria sociedade iniciativas concretas que diminuam o imenso abismo que separa ricos e pobres neste país. O Brasil exibe um dos mais vergonhosos e injustos perfis de distribuição de renda do mundo. Há que alterá-lo radicalmente se quisermos de fato construir um país moderno.

Também não somos contra ações de filantropia que buscam atender necessidades imediatas daqueles que passam fome ou que vivem ao relento. Tais ações não são capazes, sozinhas, de elevar ninguém de maneira sustentável. Mas são compreensíveis. E algum bem elas de fato promovem. O Correio destaca-se como um dos jornais que mais abrem espaço para divulgar ações meritórias dessa natureza. Contam-se às dezenas, somente neste ano, as reportagens que publicamos a respeito de pessoas ou comunidades que pedem socorro urgente.

Somos, isto sim, e continuaremos sendo contra políticas e ações, governamentais ou não, que nos pareçam inócuas e nocivas. E que, ao seu término, acabam traindo interesses e objetivos eleitoreiros. Além de prejudicarem a sociedade como um todo, incluindo aí os mais pobres. A política de distribuição de lotes do sr. Roriz no governo anterior dele fez mal – muito mal – a Brasília. Porque atraiu para cá levas e levas de migrantes, inchou e degradou muitas cidades do Distrito Federal.

A política de distribuição de lotes que o sr. Roriz pretende desenvolver pelos próximos quatro anos em pouco ou nada difere da anterior. E por isso a combatemos. E continuaremos a combatê-la. As ameaças do governador não nos intimidam. Jamais nos intimidarão. Não temos compromisso com ele. Como não tivemos com o governador que o antecedeu. Como não teremos com o próximo governador. Nosso compromisso é com o bem-estar das pessoas que moram aqui e com o que nos pareça ser o melhor para o futuro do Brasil.

O sr. Roriz demonstra, uma vez mais, que é um político à moda antiga, prisioneiro de um estilo de administrar que pouco a pouco o país vem arquivando. O boicote que prega a este jornal revela o político saudoso dos tempos da censura à imprensa que ele verdadeiramente é. Parece deslocado numa Brasília que hospeda um presidente da República tolerante com todas as manifestações de desacordo com seu governo. Mais do que tolerante: um presidente que combateu o arbítrio e ajudou a restabelecer a democracia entre nós. E que, por isso, compreende que o exercício democrático se alimenta do sadio entrechoque de idéias.

Temos a convicção de que os leitores não esperam outra coisa do Correio que não seja a reafirmação diária de independência editorial. E também a reafirmação da postura serena com a qual já atravessamos tantos momentos delicados da vida deste país. Não perderemos a serenidade diante da provocação do governador. Não deixaremos de examinar com isenção e equilíbrio todos os seus atos, elogiando aqueles que mereçam elogios e criticando os que nos pareçam maléficos.

O sr. Roriz pode perder a compostura se quiser. Nós não a perderemos. Mas que ninguém duvide: não nos acovardaremos jamais.”

“Advertência ao governador”, copyright Correio Braziliense, 16/9/99

 

Não esquecer o crédito KÁCIO/Correio Braziliense

“Um jornal serve para servir. Servir principalmente a uma cidade. Um jornal, se for só papel, serve para cobrir o chão quando pintamos a casa ou embrulhar peixe no mercado. Um jornal, se for só negócio, serve apenas para crescer em lucros, máquinas e construções. Um jornal, se for mero símbolo, tradição e história, serve para discursos pomposos mas ocos de compromisso com a vida. Um jornal-grife funciona só para o marketing ou propaganda de empresa líder de mercados. Mas o que faz um jornal servir é algo além da mercadoria ou da imagem que projeta. Um jornal não tem senhores, domínios, posses ou possessões. Um jornal serve quando não é escravo até do próprio sucesso. Então para que serve um jornal, mesmo? Um jornal serve para publicar o que se fala, refletir o que se publica, aprofundar o que se opina sobre o publicado e ampliar todas as opiniões sobre o dito e o refletido. Um jornal serve para servir ao seu eixo principal de credibilidade: o leitor. Um jornal serve para ir além da notícia quando busca suas reações, seu contexto, bastidores, as circunstâncias que geraram o fato e até avaliar suas conseqüências. Um jornal serve para pensar. E ser pensado por gente livre. Um jornal não é administrado por máquinas servis. Um jornal serve quando desperta atitudes. Quando analisa os atos que sofre mas também é ator nada passivo. Serve quando é veículo dos muitos meios, modos, culturas e linguagens componentes de uma sociedade. Serve e é estimulante e rico quando abriga as contradições e com elas convive. E só estará vivo em intensa atividade se servir aos que o lêem e o sustentam. Um jornal serve quando não teme. Nem o conflito natural das divergências nem o confronto acintoso de quem tenta intimidá-lo. Um jornal serve quando se expõe até a equívocos, mas extrai lições e busca avançar não permitindo que a prudência se confunda com o medo. Um jornal serve como serviço público, que é a definição mais básica de imprensa como instituição. Um jornal serve para reagir, para admitir e apontar erros, para estabelecer as linhas do diálogo com as representações organizadas de uma cidade. Serve também para o indivíduo que não adquiriu voz partidária, sindical ou até mesmo de classe, tal a sua exclusão no convívio social. Um jornal serve para emocionar, dar prazer, informar por inúmeros suportes do fato além do texto, deleitar, entreter, indignar, comover e demonstrar que vive intensamente o seu tempo e a sua região. Um jornal não é só um amontoado de linhas, textos, fotos e traços. Um jornal serve quando se torna fundamental, preciso, precioso, indispensável para o que na verdade o mantém vivo: a credibilidade. Um jornal serve para reconhecer seus talentos e sua vocação maior de compromisso com seu serviço primordial: um jornal serve para servir!”

Editorial publicado na capa, em página inteira. Copyright Correio Braziliense, 16/9/99

 

“Resposta ao sr. Roriz

O jornalismo nos obriga a ser isentos ou pelo menos a perseguir a isenção no relato, interpretação e análise dos acontecimentos. Quando se trata de artigo, porém, o jornalista está obrigado a oferecer sua opinião. Este é um espaço semanal de opinião onde exponho fatos na maioria das vezes, mas onde me permito dizer sempre o que penso a respeito deles.

Fui alvo, na semana passada, de duras críticas do governador Joaquim Roriz, que tentou me atingir até mesmo no plano pessoal. Não tem importância. Os ataques partiram de um homem que me pareceu emocional e mentalmente perturbado. E não é de hoje que ele se parece assim. Importa na verdade o que ele disse sobre o Correio. E, mais grave ainda, o que ele propôs contra o Correio.

O governador propôs o boicote à venda do jornal. E disse, com todas as letras, que estava disposto a ir para o confronto com o Correio, a quem acusou de prejudicar sua administração e, por tabela, o próprio Distrito Federal. Se todos os nossos leitores atendessem ao apelo do governador, este jornal seria obrigado a deixar de circular. Fecharia. Na semana passada, vendeu mais.

Portanto, não exagero ao concluir que o governador tem, ou teve, pelo menos no momento em que pregou o boicote, a clara intenção de quebrar este jornal. Arrependeu-se depois e afirmou que não estava em guerra contra o Correio, mas contra a linha editorial do jornal, que ele imagina definida por mim. Revelou-se, nesse aspecto, um homem pouco informado.

Diretor de Redação, em parte alguma do mundo, define sozinho a linha editorial de um jornal. Ou de qualquer outro veículo de comunicação que se pretenda sério, respeitável e bem-sucedido. Ele pode ajudar a defini-la. Pode influir menos ou mais em sua definição. Mas é só. Também os donos do veículo influem, mas não fixam sozinhos a linha editorial.

Em países democráticos, de economia de mercado, é o consumidor quem dita como deve ser o produto objeto do seu desejo. No caso de um jornal, é o leitor. Pode-se fazer um jornal, distribuí-lo de graça e ganhar dinheiro com ele mesmo sem se levar em conta a opinião do leitor. No caso, o dinheiro se esgotará tão logo o patrocinador do jornal, oculto ou não, não precise mais dele.

Um jornal assim, a serviço de interesses quase sempre inconfessáveis, costuma ter vida curta. E não obtém o respeito da comunidade à qual deveria servir. Serve para enganar parcelas do público. Mas, mesmo essas parcelas, por mais desinformadas que possam ser, acabam descobrindo um dia que um jornal assim, de aluguel, só deve ter um destino: o lixo. Porque é podre o que ele publica.

O governador Joaquim Roriz terá dificuldade de concordar com o que escrevo aqui. Primeiro, porque ele gosta e sempre gostou de jornais de aluguel; segundo, porque não tem muita paciência para ler coisa alguma. Às vezes, nem mesmo presta atenção com antecedência ao que depois é obrigado a ler em público. E por isso avaliza tantas bobagens escritas por fracos assessores.

Foi o que ocorreu, por exemplo, com o discurso lido por ele em solenidade no Sindicato da Construção Civil na última quinta-feira. Transcrevo trechos do discurso, comentando-os em seguida. Deixo de fora as referências a meu nome, citado de forma obsessiva treze vezes ao longo de quinze páginas.”

Mentiras e verdades

1 – O jornal não deu nunca a notícia de que nós ganhamos as eleições passadas. Parece impossível, mas é isso mesmo. Eles conseguiram essa façanha. Não deram uma só linha sobre a minha vitória.

O sr. Roriz foi eleito no dia 25 de outubro. O resultado da eleição foi proclamado depois das 21h. Toda a capa do Correio no dia seguinte foi dedicada à vitória do sr. Roriz. Que ocupou, internamente, pelo menos cinco páginas.

2 – No dia da minha posse, o jornal não deu nada sobre o governador que chegava. Deu, sim, uma página inteira sobre o governador que saía.

Nesse dia o Correio reservou uma página inteira para o noticiário sobre o governador eleito. Manchete da página: ‘Maratona de Roriz começa com alvorada’.

O ex-governador Cristovam Buarque ganhou meia página. A festa da posse foi retratada pelo jornal no dia seguinte em três páginas. E na capa da edição o sr. Roriz apareceu suado carregado nos braços do povo. Título da chamada da capa: ‘Roriz muda o discurso e é aclamado durante a posse’.

3 – Eles começaram desafiando o nosso governo a dar os 28% para o funcionalismo que tínhamos prometido em campanha. Mandamos pagar já no início do governo. E continuamos pagando até hoje.

Foi o sr. Roriz, na noite de sua vitória, quem fez questão de reafirmar a promessa dos 28%. O jornal limitou-se a destacá-la em manchete de primeira página na edição do dia seguinte: ‘’Roriz mantém a promessa de 28% aos servidores’. Ele ganhou a eleição prometendo um reajuste de 28%. Deu um abono de 28%, e não deu para todos os servidores. Abono pode deixar de ser pago a qualquer momento. Reajuste se incorpora ao salário.

4 – Depois eles começaram a abrir espaço para os grupos que dominam sindicatos importantes para a vida da população, como o de professores e dos transportes coletivos. Usaram os sindicatos para pressionar nosso governo, como eles tinham pressionado, com sucesso, o governo anterior.

Jornal existe – salvo, naturalmente, os de aluguel – para publicar tudo que possa interessar aos seus leitores. Ora, se há sindicatos importantes para a vida de uma população, as notícias que eles produzem merecem ser publicadas. Sindicato existe – salvo, naturalmente, os de aluguel – para pressionar patrões. O governo emprega muita gente. E costuma ser mau patrão. Jornal não usa sindicato. Sindicato é que usa jornal.

5 – O jornal deu cobertura à ameaça de greve dos ônibus, lembram-se? (…) A greve fracassou. O jornal virou a artilharia contra o que dessa vez? Contra o crime. Mas o fogo cruzado esbarrou em nosso programa Segurança Sem Tolerância (…) e com uma cidade claramente mais segura. Esse é um sentimento de todos hoje em dia.

Deduz-se do trecho acima três coisas pelo menos: que o sr. Roriz gostaria que o jornal tivesse ignorado, em prejuízo para a sociedade, a ameaça de paralisação de um importante meio de transporte coletivo; que ele acha desnecessária a publicação de notícias sobre atos de violência mesmo quando tais atos só se multiplicam; por fim, que ele habita outra cidade, não a nossa. Porque Brasília se torna a cada dia uma cidade menos segura. E a culpa não cabe só ao governo. Menos ainda a um governo com apenas nove meses de vida. Padece o sr. Roriz do mal que aflige muitos governantes: o autismo político. Ele é um autista.

6 – Desnorteado, (o jornal) voltou à carga contra o trânsito com uma campanha intensa, dando notícia de acidente após acidente. (…) A campanha orquestrada esbarrou na contratação do maior especialista em trânsito no país, o sr. Roberto Scaringella. Scaringella está finalizando um grande plano para nossas cidades chamado Trânsito Inteligente.

Dou de barato que essa passagem do discurso prova, definitivamente, que o sr. Roriz mora em outra cidade, não aqui. E que o grau de autismo dele bateu no teto e remeteu-o de fato para outro mundo. Quem mora em Brasília sabe que este jornal está em campanha pela redução da violência no trânsito desde agosto de 1996. Raro foi o dia em que deixamos de publicar alguma notícia a respeito. O assunto voltou a merecer manchetes de primeira página porque o número de mortes no trânsito só tem aumentado desde a posse do sr. Roriz. Considerar que a contratação de um especialista em trânsito é capaz, por si só, de esvaziar a campanha do Correio, é não entender nada de campanha, menos ainda de trânsito. Torcemos pelo sucesso do sr. Scaringella, da mesma forma como torcemos pelo sucesso do governo Roriz. Ninguém que ame o lugar onde vive e cria seus filhos pode apostar na degradação desse lugar.

7 – Como o filão do trânsito estava esgotado, (o jornal) se agarrou à velha questão das invasões em nossa terra. Primeiro, eles endeusaram e glorificaram um senhor chamado Pedro Barbudo, que estaria liderando invasões. Em seguida, estamparam em manchete: ‘Corram. Os lotes vêm aí’. Uma manchete desse tipo tem algum teor de informação? Ou é clara e cabalmente uma convocação? Uma chamada para as invasões?

Aqui cabem algumas observações. Foi o sr. Roriz, em mandato anterior, quem estimulou invasões de terras com sua política demagógica de distribuir lotes de graça em troca de votos. A eleição dele no ano passado provocou um surto de novas invasões que o atual governo não soube como deter. Ou não quis. O sr. Pedro Barbudo ganhou espaço neste jornal porque liderou recentemente uma gigantesca invasão em Santa Maria. A reportagem que publicamos não o endeusou. Pelo contrário. De resto, o sr. Barbudo é assessor do deputado distrital José Edmar, que, por sua vez, é líder do governo Roriz na Câmara Distrital. Recentemente, o governo Roriz outorgou a medalha de mérito Alvorada a um homem que foi acusado por CPI de grilar terras no Distrito Federal. Nome do homem: Pedro Passos. Ele responde a diversos processos por parcelamento irregular de terras. Está proibido de se ausentar de Brasília sem autorização judicial. O sr. Roriz deve confiar tanto no sr. Passos que já foi avalista dele em um vultoso empréstimo bancário. Data do empréstimo: agosto de 1995. Nome do banco: Bamerindus. Valor do empréstimo: um milhão de dólares. Por último, a manchete que o sr. Roriz deplorou referia-se à abertura de inscrições para contemplar com lotes invasores de terreno em Santa Maria. Havia embaixo da manchete uma fotografia que mostrava dezenas de pessoas correndo para o local das inscrições. O Correio sempre combateu as invasões que tanto mal fizeram à Brasília e tanto bem ao sr. Roriz.

Acusar-nos de patrocinar invasões é sandice.

8 – Quando o Gama ganhou do Palmeiras agora, há poucos dias, a Folha de S. Paulo deu em manchete: ‘Gama joga bem e derrota Palmeiras’. Sabem qual foi a manchete do sr. Noblat? ‘Incrível. Gama vence o Palmeiras’. Enquanto o jornal paulista elogia nosso time, o jornal daqui leva a mão à cabeça e acha um absurdo. Joga nossa auto-estima lá pra baixo.

Julgo-me dispensado de gastar muitas linhas para responder a tamanho disparate e destruir raciocínio tão primário. Temos repórter acompanhando o Gama onde ele quer que jogue. A cor verde já contaminou mais de uma vez nossas capas para celebrar vitórias do Gama. Foi mesmo de surpresa a reação até dos mais fanáticos torcedores do Gama diante da vitória sobre o Palmeiras. Jornal dá notícias, mas serve também para captar sentimentos. É dessa forma que ele estabelece sua identidade com o leitor.

9 – Nós começamos a distribuir, todo mês, uma cesta com 28 quilos de alimentos para 46 mil famílias. O jornal deu a notícia em 12 linhas, na seção Curtas, com o título ‘Cesta enriquecida com rapadura’. Volto a perguntar: isso é jornalismo? É isso que se chama informar ao público?

Permitam-me perguntar: em que planeta, em que constelações vivem assessores e redatores de discursos do sr. Roriz? Vá lá que ele não tenha muito tempo para ler jornais ou que não goste de lê-los. Vá lá ainda que não se sinta tão comprometido assim em dizer a verdade, nada mais do que a verdade. Infelizmente, muitos políticos preferem esgrimir com mentiras. Mas assessores eficientes não podem deixar um governador de Estado, vizinho do presidente da República, se expor dessa forma ao ridículo. O Correio deu páginas inteiras de reportagens ao lançamento do programa em diversas cidades do Distrito Federal. Numa delas, por sinal, o sr. Roriz desembarcou de um helicóptero ao som da música ‘Jesus Cristo, eu estou aqui’. Inesquecível!

Paro por aqui porque penso que já exauri a paciência de vocês com carta tão extensa. Registro, só para concluir, que me preocupam as sucessivas ações do sr. Roriz no sentido de estreitar o espaço das relações e da prática democrática no Distrito Federal, que ele governa. Mal assumiu o governo, ele tentou proibir por meio de decreto o exercício pleno do direito dos cidadãos de se manifestarem publicamente no coração de Brasília. Na semana passada, investiu contra o direito da sociedade à livre informação. Nesse galope, onde poderá chegar?

Oremos e vigiemos para que ele não continue avançando na direção do arbítrio. Amém.”

“Carta ao Leitor Especial”, copyright Correio Braziliense, 19/9/99

 

“‘Acho que o jornalismo se baseia em três pontos: não existe jornalismo sem a devoção fervorosa à verdade factual, sem o exercício do espírito crítico e sem a fiscalização independente do poder. Sem esses três pontos, o jornalismo não tem razão de ser. O Correio honrosamente pratica o jornalismo baseado nesses três pontos, portanto, cumpre o seu dever com os leitores. Como pode existir um ato autoritário desses, que fere frontalmente a idéia da democracia? O governo, se portando dessa maneira desprezível, está ofendendo a própria essência do regime democrático.’

Mino Carta, diretor de redação da revista Carta Capital

‘Não vejo nenhum motivo para o Correio se incomodar com isto, é até uma promoção. Qual a força que este homem tem para induzir o leitor a não ler um jornal porque ele discorda de uma matéria? O problema não é o jornal, é ele. O jornal é muito maior que isto. Passei por situações semelhantes a esta várias vezes, e o jornal não foi prejudicado, antes pelo contrário. O mais importante é a força moral do jornal.’

Ruy Mesquita, diretor-responsável do jornal O Estado de S.Paulo

‘É muito comum no Brasil políticos com dificuldades administrativas e baixos índices de popularidade transferirem para a imprensa suas dificuldades. Eu não estou próximo do governador Roriz nem sou leitor assíduo do Correio, mas a sensação que tenho é que estamos diante de um episódio de um político com problemas transferindo para a imprensa as dificuldades de sua administração. O Correio não faria campanha institucional para prejudicar ninguém. A única campanha que o Correio faria seria em benefício da notícia e da imprensa.’

Nelson Sirotsky, presidente do Grupo RBS

‘A ABI só pode condenar isto. A constituição garante a liberdade de expressão, e a legislação assegura o direito de defesa. Assim, se o governador discordar de alguma matéria, deve procurar o jornal em busca do diálogo. Eu conheço bem o Correio Braziliense e sei que ele seria incapaz de cometer um ato contra o poder público. Não se pode, de maneira alguma, indispor a população contra um órgão de imprensa com a história que tem o Correio. A ABI só tem a lamentar e a aconselhar o governador a rever sua posição.’

Fernando Segismundo, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

‘Acho lamentável chegar a este ponto o confronto entre uma pessoa pública e um veículo de comunicação. Tanto o governo tem que ter espaço para se manifestar publicamente, como achar que deve fazer, quanto o veículo de comunicação tem o direito de fazer críticas. O que não existe hoje no Brasil – e isso é muito difícil – é um lugar onde se possa julgar os desvios de qualquer um dos lados: sociedade, governo e meios de comunicação. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) defende a instalação do Conselho de Comunicação Social em nível federal, distrital e estadual para que ocorra um debate franco com a participação da sociedade.’

Elisabeth Costa, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

‘Essa polêmica sobre as invasões vem de longa data e tem uma conotação política. O Correio toma posições firmes, porém verdadeiras. Acho que o governador se pronunciou daquela forma num momento infeliz. Tenho certeza que esse pronunciamento não afetará em nada as impressões que as pessoas têm do jornal. Os leitores têm opinião formada. lamento o fato ocorrido e acredito que o governador e o jornal saberão contornar toda essa situação.’

Antônio Augusto Moraes, presidente da Câmara de Diretores Lojistas do Distrito Federal

‘Toda essa história é lamentável. Tanto de uma parte como de outra. Agressões de ambos os lados – jornal e governo – não vão resolver nada. O momento é de calma e diálogo. Vivemos um momento de grande dificuldade. A economia não vai bem, há desemprego e violência. Temos que procurar soluções. Atrito não vai resolver nada. O governador fala e o jornal rebate. Parece que estamos no século passado.’

Lourival Dantas, presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra)

‘Não satisfeito em atacar os direitos dos trabalhadores, o governador agora agride a imprensa, que leva a verdade à sociedade. O que ele quer é implantar a ditadura em Brasília. Ele governa essa cidade como se fosse uma extensão da fazenda dele em Luziânia (GO). Em nome do sindicato, quero me solidarizar ao Correio por entender que o papel do jornal é esclarecer a opinião pública e não se calar diante das ameaças e arbitrariedades de um governo isolado da sociedade.’

Marcos Pato, diretor do Sindicato dos Professores do Distrito Federal

‘O Correio é umbilicalmente cúmplice do crescimento dessa cidade. É um veículo de comunicação comprometido com a história de Brasília. Atacar o Correio, portanto, é atacar a própria cidade. A atitude do governador tem que ser repudiada. É atitude igual à da ditadura militar, que não queria que a população fosse informada dos fatos. O governador quer que as pessoas não leiam o jornal, não tenham acesso à informação para não questionar. Só quem tem compromisso com a verdade, com a democracia é que não tem medo de quem divulga a verdade.’

José Zunga, presidente da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF)

‘As declarações de Roriz são absurdas. É abuso um governador de estado ter um posicionamento desse. Defendo a imprensa livre, que trata a informação da forma como ela deve ser tratada: com liberdade e isenção. Brasília tem se destacado ultimamente no cenário nacional por posições arbitrárias e anti-democráticas. E o governador tem sido um mau exemplo de um democrata.’

Cícero Rola, vice-presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do DF (Sindser)

‘Um dos pilares da democracia é uma imprensa livre e responsável. Reconheço essas qualidades no Correio. O jornal demonstra isso no momento em que publica, em suas páginas, as críticas a ele próprio, de quem quer que seja. O Correio nasceu na inauguração de Brasília. Além do dever de informar, ele tem a responsabilidade inalienável de defender o que considera interesse da cidade. Uma das coisas que aprendi na vida pública é respeitar a posição da imprensa, mesmo quando ela está contra meus interesses imediatos’.

José Roberto Arruda, senador (PSDB-DF)

‘O governador foi muito infeliz. O Correio sempre prestou grande serviço à cidade. A população seria contra o jornal se ele tivesse omitindo os desmandos do governo. Mas o Correio está sendo correto em denunciar e apurar os fatos. Esse é o papel de qualquer jornal. O que parece é que o governador não se habituou à democracia. Qualquer um que se opõe a ele, ele trata dessa maneira.’

Antônio Agamenom, presidente do Sindicatão da Saúde do DF

‘A política habitacional de Roriz é irresponsável e eleitoreira. O governador pensa nas próximas eleições, mas se esquece das futuras gerações que herdarão uma cidade inviável. As conseqüências do inchaço de Brasília de forma desordenada e caótica são o aumento da criminalidade, da violência, do desemprego, da falta de serviços públicos, que podem levar à ingovernabilidade.’

Rodrigo Rollemberg, deputado distrital (PSB)

‘Entendo tudo isso como uma disputa de opiniões entre o jornal e o governo. E a divergência de idéias é salutar para que a sociedade discuta o assunto. Faço votos de que essa divergência seja apenas de opinião. Brasília vive momentos difíceis e não podemos aceitar que a diferença de idéias se torne briga, pois isso só vai atrapalhar a vida da cidade. O governo também precisa definir mais claramente sua política habitacional. Atualmente essa política está nebulosa’.

Paulo Otávio, deputado federal (PFL-DF)

‘O governador se equivoca ao criticar o Correio. O jornal está correto em ser, 24 horas por dia, o guardião da cidade. Roriz pode ter coração grande, mas se o Estado não tiver pulso firme, daqui a pouco toda a cidade será invadida. É hora de parar com essa visão populista de distribuição de lotes. A postura do jornal é correta. O soberano do Estado é o cidadão e o cidadão quer que o governo aja com a ética da responsabilidade.’

Álvaro Iaccino, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ceilândia

‘Roriz foi o grande favelizador do Distrito Federal. Sempre disse isso. As declarações dele sobre o Correio não tem compromisso com a seriedade. Sobretudo porque partem de alguém com um passado como o dele. Dias atrás, ele próprio prometeu lotes à população. Ele também não pode pedir à população para não ler o maior veículo de comunicação do DF. Se ele faz isso é por que quer que a população se mantenha desinformada.’

Safe Carneiro, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção-DF

‘As atitudes de Roriz são anti-democráticas. São uma atentado à democracia e à liberdade de imprensa. Não podemos concordar com ele de forma alguma. Passamos anos lutando a favor da liberdade de imprensa e contra a censura. Não vai ser um governador que vai conseguir colocar abaixo essas grandes conquistas. Quero conclamar a sociedade do DF a responder Roriz, continuando a comprar o Correio nas bancas ou por meio de assinaturas. E quem não puder comprá-lo que leia o jornal do colega mais próximo.’

Pedro Celso, deputado federal (PT-DF)

‘O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal manifesta apreensão diante das declarações hostis que o governador Joaquim Roriz lançou ontem contra o Correio Braziliense, por entender que podem construir clima de animosidade que põe em risco, até, a integridade física e moral dos profissionais daquele jornal. Lembramos que, após a última eleição para o DF, jornalistas foram agredidos por partidários do candidato eleito. O Sindicato protesta contra a intolerância revelada pelo governador diante de opiniões que divergem e questionam aspectos de sua política, lembrando que lidar com as diferenças é condição básica da democracia.’

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF

‘Não haverá sociedades livres sem imprensa livre. A informação é um bem social, tão importante quanto saúde e educação. A imprensa desempenha papel fundamental de levar à opinião pública as informações necessárias para que cada um de nós exerça sua cidadania. Devemos nos opor a todo e qualquer tipo de pressão que venha tolher a liberdade de informar e de ser informado.’

Francisco Sant‘Anna, vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas – FIJ

 

Jornalistas, empresários e políticos protestam contra as ameaças do governador Joaquim Roriz contra o Correio Braziliense por causa do noticiário sobre as invasões de terra do Distrito Federal

“O discurso do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, desafiando o Correio Braziliense e afirmando que vai conclamar a sociedade para que não leia mais o jornal, foi criticado pela população, jornalistas e autoridades. O editorial do Correio, publicado na edição de ontem sob o título ‘Advertência ao governador’ e que mantém a opinião contrária à indiscriminada distribuição de lotes no Distrito Federal, deve ser incluído nos anais da Câmara dos Deputados, a pedido do deputado federal Pedro Celso (PT-DF), e da Câmara Legislativa, atendendo a solicitação do deputado distrital Rodrigo Rollemberg (PSB). Pedro Celso justificou o pedido afirmando que a tentativa do governador Roriz de censurar a leitura do Correio Braziliense, por recomendação política que faria à sociedade, ‘constitui flagrante desrespeito à liberdade de imprensa e é merecedora de repúdio de todo cidadão que preza e defende as instituições democráticas’. O deputado aproveitou para reiterar seu apoio ao jornal, ‘com firmeza o dever de fiscalizar e divulgar todos os atos dos homens públicos brasileiros’.

Jornalistas de todo o Brasil também criticaram a postura de Joaquim Roriz. Mino Carta, editor da revista CartaCapital, ressaltou que um ato autoritário fere frontalmente a idéia da democracia. ‘O governo, se portando dessa maneira desprezível, está ofendendo a própria essência do regime democrático’, afirmou o jornalista, criador da revista Veja.

Ruy Mesquita, diretor-responsável do jornal O Estado de São Paulo, que sofreu pesada censura na época do regime militar, disse que o jornal é muito maior do que as declarações do governador. ‘O mais importante é a força moral do jornal’, ressaltou. Nelson Sirotsky, presidente do grupo RBS, que edita o maior jornal do Rio Grande do Sul, Zero Hora, diz que a impressão que tem é que ‘estamos diante de um episódio de um político com problemas transferindo para a imprensa as dificuldades de seu governo’. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também criticou a postura do governador. Fernando Segismundo, presidente do Conselho Deliberativo da ABI, diz a que não se pode ‘de maneira nenhuma, indispor a população contra um órgão de imprensa com a história que tem o Correio. A ABI só tem a lamentar e a aconselhar o governador que reveja sua posição’. O Sindidato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal protestou, em nota oficial, contra a intolerância revelada pelo ‘senhor governador diante de opiniões que divergem e questionam aspectos de sua política de governo, lembrando que lidar com as diferenças é condição básica da democracia’. O vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas, Francisco Sant’ana também solidarizou-se com os profissionais do jornal face as pressões e ameaças do governador.”

 

Associação Nacional de Jornais ataca a tentativa de intimidação do governador Joaquim Roriz contra Correio Braziliense

“Repúdio é a palavra que resume o sentimento das dezenas de manifestações de solidariedade que chegaram ao Correio ontem, condenando o ataque feito pelo governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, ao jornalista Ricardo Noblat, diretor de Redação. Roriz afirmou que Noblat estaria ‘utilizando o Correio como arma para tentar trazer descrédito ao nosso governo’, em um discurso que fez representantes do Sindicato da Construção Civil do DF (Sinduscon), na noite de quinta-feira.

A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) reagiu às declarações do governador com firmeza. Assinada pelo vice-presidente Renato Simões, responsável pelo Comitê de Liberdade Expressão, a nota ataca ‘a tentativa de intimidação de um órgão de comunicação, além, de inócua num regime democrático, fere a liberdade de imprensa garantida pela Constituição Federal’.

Segundo o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Reginaldo de Castro, ‘a intolerância não convive com a democracia. Apenas se consolida nos regimes totalitários. No Brasil, felizmente, a ditadura foi definitivamente banida’.’

‘É difícil acreditar que depois da luta contra a intolerância fardada, você teria que enfrentar um dia a intolerância civil’, disse o presidente da Federação dos Trabalhadores no Comércio do DF, José Neves Filho. Segundo o presidente, Noblat ‘tem os requisitos básicos para o exercício do jornalismo: a fervorosa devoção pela verdade factual, o livre exercício crítico e a fiscalização independente do poder em qualquer dos segmentos’.

Além das entidades, os políticos reagiram com indignação às palavras do governador. ‘Ao pregar boicote ao Correio, o governador Roriz demonstra, de maneira inequívoca, que não suporta a convivência com uma imprensa livre, com a liberdade de opinião, com a crítica responsável e esclarecedora. Com essa atitude, além de revelar-se um político intolerante, parece faltar ao senhor governador bom senso e equilíbrio necessários para bem governar e administrar seus próprios equívocos’, disse o deputado distrital Wasny de Roure (PT).

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Geraldo Magela, fez um discurso onde ressaltou a história: ‘o Correio Braziliense nada mais fez do que estampar em suas páginas as declarações do governador. Não inventou nada, não omitiu nada, não acrescentou nada. O que fez foi informar a população… Atacar a instituição Correio Braziliense, que confunde a sua história com a do país, especialmente com a do Distrito Federal, e o editor do jornal, que foi o responsável pela sua modernização editorial, é atacar a liberdade de imprensa e a democracia. Talvez o governador quisesse que o Correio estivesse a serviço do seu governo, a serviço da sua política’.

De acordo com o deputado federal Agnelo Queiroz (PCdoB), ‘o governador chegou às raias da loucura e fez um insulto à inteligência do brasiliense, partiu para o desespero’ ao conclamar a população a não ler o Correio. ‘Tal gesto demonstra o seu despreparo em governar a Capital da República’, completou. O deputado distrital Paulo Tadeu (PT) lamentou o que chamou de ‘postura anti-democrática’ do governador. ‘Isso comprova a linha ditatorial que vem sendo adotada pelo seu governo, em prejuízo do bem público, das instituições e da democracia’, afirmou.

Em defesa do jornal

‘A ANJ — Associação Nacional de Jornais, entidade que reúne 12 diários de todo o país, vem a público manifestar seu repúdio pela atitude do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, objetivando o cerceamento da liberdade de imprensa, através de ameaças públicas contra o Correio Braziliense, de Brasília, feitas nos dias 15 e 16 de setembro corrente. Demonstrando evidente incompreensão do papel da imprensa de informar e opinar livremente, o governador reagiu à matéria do jornal, julgando-a contrária à política do governo local de distribuição de lotes urbanos, afirmando que ‘quero estabelecer o confronto’ e convocando a população a não ler o Correio Braziliense. A tentativa de intimidação de um órgão de comunicação, além de inócua para um regime democrático, fere a liberdade de imprensa garantida pela Constituição Federal do Brasil. A ANJ acredita que o governador deva buscar na sua própria administração a solução realista e construtiva dos problemas e não no ataque à imprensa, que apenas cumpre o seu dever de informar, analisar e opinar livremente, em tema de interesse público’.

Renato Simões – Vice-presidente da ANJ, responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão e Deusdedith Aquino, diretor do Comitê de Liberdade de Expressão.”

Copyright Correio Braziliense, 20/9/99

 

“Diga-se o que se quiser do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz. Que é um homem meio bronco, por exemplo, ou que é um político de princípios arcaicos, ou ainda que seu estilo de governar parece mais adequado aos grotões do país do que a uma cidade como Brasília, concebida pelo traço futurista de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Não importa. De Roriz não se tirará o mérito, de vez por outra, surpreender o país com idéias ou atitudes extravagantes. Darei notícia da mais recente neste artigo. Antes julgo ser necessário apresentar melhor o personagem.

Roriz é aquele governante que na primeira metade dos anos 90 ajudou a inchar Brasília a pretexto de remover favelas que começavam a proliferar no espaço nobre da cidade. Ele, de fato, tirou os pobres das vizinhanças dos ricos e nem por isso ganhou a simpatia dos ricos. Ganhou a dos pobres, naturalmente. Deu-lhes lotes, atraiu para a capital da República milhares de novos candidatos a um pedaço de terra, e pôde criar assim um formidável mercado futuro de votos. O suficiente para pavimentar seu caminho de volta ao poder nas eleições do ano passado.

Relatório recente do Departamento de Estado americano adverte os cidadãos daquele país para cidades onde a violência urbana está em franca progressão. Brasília é citada ali. E a Brasília do relatório não é apenas aquela das cidades satélites que incharam em torno do Plano Piloto tombado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Satélites como Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, por exemplo, há muito deixaram de ser apêndices da Brasília oficial. São hoje populosas cidades. Abrigam mais de um terço dos habitantes do Distrito Federal.

Brasília dos roubos de casas e de carros – que se multiplicam a uma velocidade espantosa – dos seqüestros-relâmpago à luz do dia para a retirada de dinheiro em caixas automáticos, de estupros e assassinatos que engordam cada vez mais as estatísticas oficiais. Essa Brasília do relatório do governo americano, sim, é aquela originalmente imaginada para permanecer imune neste fim de século às cruéis mazelas das metrópoles. Doce sonho! Se ele não acabou de todo, perdeu definitivamente o tom cor-de-rosa.

Na conta de Roriz, pessoa jurídica, governante, não cabe debitar como parcela única a frustração do sonho de Brasília. O sonho, por si só, nasceu torto. Cidade alguma pode ser preservado para o resto da vida sob uma redoma. Seria uma maquete, jamais uma cidade. Na conta da pessoa física de Roriz, aí sim, faz sentido pendurar parcela razoável da frustração do sonho. Porque nenhum outro político nesta cidade destacou-se tanto quanto ele na caça ao voto barato dos miseráveis. Mesmo que par isso fosse necessário atraí-los de outras regiões do país.

Nada mais compreensível, pois, que o retorno de Roriz ao governo de Brasília reacendesse a esperança de terra de graça para a imensa legião dos sem-terra e sem-teto. Não seria preciso, sequer, que ele pronunciasse a palavra mágica ‘lote’ para que seus eleitores tivessem a certeza de que ganhariam lotes. Para vencer, Roriz prometeu o que podia e principalmente o que não podia dar. E liberou assessores, aliados próximos e distantes para garantirem que as invasões de terrenos não seriam mais reprimidas com o emprego da polícia. Como o governador Cristóvam Buarque chegou a fazer.

Deu no que deu: na eleição de Roriz, embora por uma margem estreita de votos, e no surto de invasões de terrenos que assola Brasília desde as vésperas da posse dele. Algumas das invasões foram removidas por pressão do Correio Braziliense, que denunciou sistematicamente o mal que elas fazem às cidades, embora façam bem ao governador. Porque ampliam seu bornal de votos. A maioria das novas invasões fincou raízes. Foram levantados 6 mil barracos em terras públicas nos últimos nove meses.

Na semana passada, finalmente, Roriz decidiu reagir – não contra as invasões, e sim contra o jornal. Aproveitou uma solenidade pública para pregar o boicote à compra do Correio. Advertiu que está disposto a ir para o confronto aberto com o jornal. Aumentou os gastos com publicidade oficial, disfarçada ou não, em dois outros jornais locais, ambos subservientes às suas vontades. Estuda a hipótese de proibir anúncios do governo no Correio. E deu ordens expressas para que seus auxiliares dificultem o trabalho dos repórteres do jornal. Já vi esse tipo de filme antes. Quase sempre o bandido morre no fim.

O ato de declaração de guerra de Roriz contra o Correio Braziliense foi promovido – ironia das ironias – na semana em que o presidente da República sancionou projeto mudando a data em que sempre se comemorou no Brasil o Dia da Imprensa. A data anterior marcava a inauguração da imprensa entre nós pouco depois da chegada ao Rio de Janeiro do rei Dom João VI, de Portugal. A imprensa aqui nasceu para servir ao poder. A nova data coincide com a impressão em 1º de junho de 1808 do primeiro exemplar do Correio Braziliense. Fundado em Londres pelo gaúcho exilado Hipólito José da Costa, o Correio foi o primeiro jornal brasileiro sem censura.

Era despachado para o Rio de Janeiro. Defendia a independência do Brasil, a abolição da escravatura e a transferência da capital para algum ponto central do país que ainda era colônia. Circulou até dezembro de 1822. Assis Chateaubriand resgatou o nome do jornal de Hipólito José da Costa para batizar o Correio Braziliense que circula em Brasília desde o dia da inauguração da cidade. Penso que Roriz, com seu ato de hostilidade ao Correio, buscou ao seu modo rude associar-se à homenagem do presidente da República a uma imprensa livre, independente e sem medo dos poderosos. Façamos por merecer a homenagem. (Diretor de Redação do Correio Braziliense)”

“Ameaça à liberdade”, copyright Jornal do Brasil, 20/9/99

 

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