Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Joel Birman e Eugênia Thereza de Andrade

Por lgarcia em 19/09/2001 na edição 139

CASO ABRAVANEL

"Baú de mortos", copyright Folha de S. Paulo, 13/09/01

"Uma das manchetes do ?Jornal do Brasil? na semana retrasada foi bem concisa em sua precisão cirúrgica: ?Nasce uma estrela?. Referia-se assim ao espetáculo-entrevista protagonizado por Patrícia Abravanel, concedido logo que ela retornou ao lar após ter sido libertada pelos seus sequestradores.

Tudo se passou ao vivo, em cores, exibido em todas as emissoras de TV do país, sem cortes. A moça, num tom mais para cômico do que para dramático, destoando bastante daquilo que seria esperado de alguém após uma semana de cativeiro, exibia uma euforia bastante grotesca, digna de qualquer cena picaresca deste rincão brasileiro.

Como em qualquer circo, o público não apenas estava presente, mas aplaudia vivamente as formulações iluminadas de nossa personagem. Essas formulações condensavam os lugares-comuns da religião evangélica com alguns preceitos sociais rastaqueras. Tudo isso num fervoroso estilo messiânico, que evocava as lacrimejantes novelas mexicanas exibidas pelo SBT, bem ao gosto de seu pai, o empresário Sílvio Santos.

Falou então de boca cheia da miséria brasileira e da ausência de responsabilidade dos sequestradores, pobres-diabos desempregados numa sociedade injusta e excludente. Evocou permanentemente Deus para todos os telespectadores, a cada momento de sua pregação pop, como quem nos salvaria finalmente dos infortúnios. Tinha já feito o mesmo para os seus algozes ao longo de sua captura. Acreditava mesmo que tinha sido o bom Deus todo-poderoso, que carrega sempre no seu coração, quem lhe salvara do mau pedaço, sendo resgatada pelos ares milagrosos de seu fervor.

Os sequestradores, ao se acreditar na cantilena, ficaram também estimulados e bastante impressionados pela boa nova da providência evangélica, concedendo, enfim, a liberdade para a jovem heroína e lhe entreabrindo o estrelato pela parca gorjeta de R$ 500 mil.

A cena como um todo parecia ser mesmo uma versão renovada do Baú da Felicidade e do ?Show do Milhão?, comandados pelo seu pai. O Brasil foi transformado pela alocução performática num grande auditório, possibilitado pela exibição do circo eletrônico. A renovação estava centrada na distribuição pela estrela do empacotado discurso evangélico para todos os despossuídos do país, numa versão assistencialista. A jovem estrela, na performance, critica o pai, sugerindo a oferenda de orações gratuitas, em vez das bugigangas ofertadas por Silvio Santos.

Seria preciso agora, com Deus no coração, reinventar outro populismo, oferecer migalhas para todos os ferrados ao sul do Equador. Isso nos redimiria de todas as pragas e desgraças. Saltitante com o seu sorriso contínuo e sempre alvar, o apresentador fez dueto com a filha rebelde, sugerindo pequenas gracinhas; quem sabe não teria sido melhor que os sequestradores a tivessem retido por mais tempo, a filha era muito travessa e lhe criava muitos problemas, dizia Silvio Santos, para delírios dos macacos de auditório.

O pai, triunfante em cena, mostrava todo o seu talento para a performance.

A nova estrela teve um sucesso efêmero, tendo de sair logo de cena de calças curtas. No dia seguinte, foi o pai o sequestrado, na sua própria casa, pelo gesto audacioso do jovem líder da gangue. Teria ficado com inveja da nova estrela, saindo então das coxias e ocupando agora todo o palco? A cena era dele. Afinal, organizara o sequestro nos seus detalhes. Não podia então aceitar que fosse servir de escada para a estreante oportunista. Baleado no traseiro, após ter enviado dois policiais para o outro mundo, o ?herói? entrou triunfante no ?saloon?. Não mascava fumo nem cuspia uísque do Tennessee, mas meteu bronca: não quer papo com os policiais, mesmo os de alto escalão, senão pega, mata e come o benfeitor da felicidade popular com os seus baús de milhões.

Exigindo a presença do governador do Estado, a estrela da vez retirou quem queria lhe roubar a cena sem nenhum pudor, colocando o governante no triste papel de ator coadjuvante da ópera bufa. O governo do Estado, enfim, se rendeu ao espetáculo.

O estrelato audacioso do sequestrador teve um efeito político, pois lhe serviu para não ser morto pela polícia ou na prisão, pelo menos imediatamente -um talismã que lhe protegeria por um tempo. Porém de tudo isso quase nada restou após o fechamento das cortinas. O público se regozijou, entretendo-se como sempre, mas isso é tudo.

O que se destaca é a performance como imperativo categórico de nossa existência social. Busca-se a produção do sucesso a qualquer custo; assim o espaço social se transforma numa cena teatral, na qual se legitimam os oportunistas nos momentos cruciais que se oferecem. A jovem sequestradora tem o nome de Jenifer, como o de uma glamourosa atriz norte-americana de cinema. Reinventam-se as identidades, como se apagam as antigas fronteiras entre os espaços público e privado.

A intimidade vai desaparecendo a olhos vistos na cultura narcísica (Lasch) e na sociedade do espetáculo (Debord), que transformam a dor e a angústia em matérias-primas para a produção da performance. De duração efêmera, é preciso reinventá-la permanentemente para que o espetáculo continue. Como nos disse Marx, n? ?O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte?, a história acontece sempre como tragédia e se repete como farsa. Resta saber, considerando essa genial concepção da repetição, qual foi a tragédia que já aconteceu, para que a cena social seja essa farsa que se repete compulsivamente todos os dias.

Podemos evocar, para sugerir rastros para o cadáver malcheiroso, que, no mesmo dia da atuação espetacular do marginal que fez de Silvio Santos seu refém, a TV mostrou o depósito de corpos de jovens, dormindo, empilhados lado a lado, no chão da Febem.

Quantas pessoas e autoridades solidarizaram-se com essa mortificação em massa em que foi transformado o Brasil? Logo esses jovens estarão mortos, com certeza. Quantos, dentre nós, chorarão esses mortos sem sepultura?

Esse baú de mortos é, cremos, justo o avesso da felicidade performática ofertada pela TV para milhões. (Joel Birman, psicanalista, é professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ e autor de ?Gramáticas do Erotismo? (Civ. Brasileira), entre outras obras. Eugênia Thereza de Andrade é professora de teatro e diretora, atualmente dirige o espetáculo ?Nervos de Deus – Caso Schreber?)."

 

MUDANÇAS NO JB

"JB: no olho do furacão", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 13/09/01

"Foi sintomático. Gustavo Krieger deslocou-se nesta terça-feira (11/9) de Brasília para o Rio de Janeiro, para discutir a questão da transição na sucursal, que acabara de perder seu chefe, Expedito Filho, e dois outros colegas de grande prestígio na comunidade jornalística: Maurício Lima, contratado por Veja, e Valderez Caetano, que foi para O Globo. Não deu tempo. Chegou logo cedo, quando os atentados terroristas já ganhavam contornos de uma crise sem precedentes no mundo, e imediatamente arregaçou as mangas, engajando-se na cobertura do diário carioca, na própria matriz. Não deu sequer atenção ao celular, que permaneceu desligado o dia todo. Mesmo em fase de transição – e que transição – o JB não se fez de rogado e mostrou grande agilidade na cobertura, incluindo a edição extra, com 10 mil exemplares, esgotada em pouco tempo.

Agora sob o comando oficial de Ricardo Boechat, tendo Augusto Nunes na Vice-Presidência Executiva, o JB deverá sofrer mudanças ainda mais profundas nas próximas semanas. A equipe levada por Mario Sergio Conti leva uma desvantagem significativa na sobrevivência dentro do jornal: os altos salários. Os acionistas já informaram que querem diminuir custos e aumentar receita para minizar os prejuízos. Só com a nova equipe – folha de pagamento – o JB estava gastando um adicional de R$ 500 mil. Como uma boa parte já saiu espontaneamente, particularmente das equipes da matriz, no Rio (incluindo o editor-chefe Flávio Pinheiro), e da sucursal de Brasília, os problemas para Boechat e Nunes diminuíram, mas não cessaram. Augusto não fala, mas sabe-se que ele não nutre quaisquer simpatias pelos chamados nomes ligados à pirotecnia editorial e tem também seus homens de confiança, que não são, obviamente, os de Conti.

Comenta-se que ele gostaria muito de ter novamente ao seu lado Aluizio Maranhão, seu adjunto em Época, mas isso é apenas especulação, uma vez que Maranhão continua na revista, aguardando as definições para a sucessão do próprio Augusto. Krieger, em Brasília, também é uma aposta. A dúvida é se Krieger resistirá ao assédio que vem sofrendo da concorrência para deixar o JB. Nesta altura, pouco sobra para a sucursal SP, a única praticamente intocada por Conti. Como não mexeu e ela continuou franzina, sem chefe de Redação (desde a saída de José Roberto Nassar, semanas atrás), não há grandes temores, porque qualquer mexida que se faça certamente será para melhor. Com dois detalhes: o jornal precisa melhorar sua presença no maior estado da Nação, e hoje o homem que o comanda já foi chefe desta mesma sucursal, bons anos atrás."

 

"Boechat & Conti, irmãos de idéias", copyright Comunique-se, 13/09/01

"Ricardo Boechat nunca editara um jornal e não chefiava uma redação desde 1987 (sucursal do Estadão no Rio), mas já está mostrando no Jornal do Brasil que não é bobo: a foto publicada no terceiro clichê da edição de quarta-feira (12/9) merece ser destacada entre todas as primeiras páginas dos grandes jornais brasileiros.

E essa foto ilustra as idéias de Boechat sobre o caminho editorial a seguir e que, em linhas gerais, segue a proposta iniciada por seu antecessor no comando do aquário, Mário Sérgio Conti. A desolação do ?day after? na área em que se erguiam, orgulhosas, as duas torres do World Trade Center, é ilustração perfeita da ênfase que ele pretende dar à análise, à explicação e à opinião, fugindo à simples apresentação dos fatos.

?O Jornal do Brasil quer ser um jornal que fale à inteligência dos leitores? – disse Boechat ao Comunique-se. ?A idéia não é nova e vem sendo discutida em redações e escolas de jornalismo de todo o mundo. Mas Boechat é quem se dispõe a botar o guiso no gato aqui no Brasil.

?Não há saída possível para o JB fora dessa proposta? – disse Boechat. ?Numa era de crescente velocidade da informação, esse é também o caminho para fugir à homogeneidade, à mesmice dos jornais, repetindo o que a maioria dos leitores já sabe. Mesmo na política, podemos e devemos ser diferentes. Veja o que aconteceu na vitória dos governistas na convenção do PMDB. Demos um artigo opiniático de nosso chefe de sucursal em Brasília, Gustavo Krieger, enquanto Folha, Estado e Globo praticamente se repetiram dizendo ?Sai Maguito, governistas vencem?, o que todo leitor com interesse em política já sabia desde a véspera.?

Boechat afirma que isso permite ao JB não se preocupar com número de páginas. ?Do tamanho que ele possa ser, será um jornal para ser lido e pensado. Acho que podemos ter uma linguagem mais elaborada, uma titulação mais informal, mais carioca e mais intelectual.?

O engraçado é que o JB saiu nesta quinta-feira (13/9) com a manchete ?Americanos exigem vingança?, praticamente igual à do Extra (?Americanos exigem vingança imediata?), jornal popular que as Organizações Globo lançaram para enfrentar O Dia e, provavelmente, com o intuito de atingir um público não ?menos inteligente?, mas certamente ?menos exigente?.

Mário Sérgio Conti não se criou em redação de jornal, mas sim de revista, sendo, por isso, mais natural e fácil a aplicação de idéias ?revisteiras? em um jornal diário. Boechat, ao contrário, ganhou experiência e fama como colunista, preocupado sempre com o ?furo?, a revelação do fato em notícia curta, rápida. Mas, pelo menos até agora, vem mostrando fé absoluta e competência num modelo editorial, sobre o qual existe muita conversa, muita reflexão, mas nenhum sucesso claro. Seguramente não precisaremos esperar muito para sentir o julgamento dos leitores."

    
    
                     
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