Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DEMISSÃO NO JB

Jogado pela janela

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

DEMISSÃO NO JB

José Inácio Werneck, de Bristol, EUA (*)

Em recente Caixotins, Carlos Brickmann dizia que, com o aparecimento do computador, desapareceu a santa figura do revisor, que evitava uma boa parte das bobagens.

Voltaram-me porém à lembrança pesadelos antigos. Na década de 70 era moda os jornais fotografarem prédios que implodiam. E no mundo da Fórmula-1 os irmãos Fittipaldi haviam lançado o Copersucar, de triste memória. Um dia, no Autódromo de Jacarepaguá, foi dada a partida e todos largaram, menos o Copersucar de Emerson Fittipaldi, que ficou parado na pista.

Juntando as duas coisas, concluí assim minha coluna de esportes naquela tarde: “Está explicado o problema do Copersucar. Ele tem um motor de implosão”.

Mas a santa figura do revisor achou que, por distração, eu fizera uma afirmação absurda, um paradoxo (o que os americanos chamariam um oxymoron). E, piedosamente, corrigiu para “motor de explosão”. É mais ou menos como diz Millôr Fernandes: “No Brasil, quando você quer ser irônico, deve avisar que está usando de ironia”.

Fiquei mal acostumado

Mas mesmo hoje quem escreve está sujeito a minudências que não deveriam ser catadas no texto de um colunista. Na crônica que resultou em minha demissão do Jornal do Brasil, por exemplo, a editoria teve o cuidado de trocar um “dos” por um “de os”, ao mesmo tempo em que deixava passar o já célebre comentário sobre cookies que me valeu a defenestração. Bem sei que antes do infinitivo não se deve usar a contração da preposição com o artigo, na linguagem formal, mas no caso eu transcrevia o e-mail de um leitor, e e-mails, por sua natureza, são coloquiais.

Por coincidência, naquela mesma semana eu trocava de provedor, mas ainda assim amigos e leitores, entre os quais Giulio Sanmartini e Moacir Japiassu, me acharam para manifestar sua indignação com o ocorrido. De Japiassu, guardei o seguinte e-mail: “O amigo não foi inábil, desazado ou desastrado. Imagina-se que um colunista mantenha uma relação de intimidade com seu jornal; pode e deve criticá-lo, ressalvado o desrespeito, é claro. Você não foi desrespeitoso e ponto final. Houve, isto sim, açodamento provocado pelo autoritarismo de uma Direção talvez, agora sim, inábil”.

Hoje penso que poderia ter sido um pouco mais sutil em minha crônica, mesmo porque minha intenção era de colaborar, não de prejudicar. Como recomendava Eça, “sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”. Foi também fundamental para minha demissão o fato de ser eu um colunista de esporte, num país onde jornalistas esportivos são figuras subalternas.

Estou há muitos anos fora do Brasil e certamente não percebi até que ponto tinham chegado os problemas financeiros, a precariedade das redações, de que fala Carlos Brickmann, nem o novo autoritarismo, a que se referiram Sanmartini e Japiassu. Fiquei mal acostumado nos Estados Unidos, onde este mês David Letterman outra vez debochou no ar da incompetência dos executivos da CBS, mais ou menos pelo mesmo motivo que eu apontava em minha coluna: o afugentamento do público. Nos Estados Unidos foram ver se ele tinha razão ao dizer que o rei estava nu e viram que tinha. No Brasil, jogaram-me pela janela.

(*) Jornalista

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