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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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PRIMEIRAS EDIçõES >   RIO NA MÍDIA

John Neschling

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

DIREITO DE RESPOSTA

“Alegrias e amarguras de um maestro”, copyright Folha de S. Paulo, 17/10/02

“Após a morte do maestro Eleazar de Carvalho, em 1996, o secretário da Cultura, Marcos Mendonça, convidou-me para dirigir a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Vivendo na Suíça e conhecendo a falta de vontade política reinante no Brasil, nessa área, minha reação inicial foi negativa. Estava à frente de orquestras e de um teatro de ópera europeus e não tinha intenção de voltar. Mário Covas e Marcos Mendonça, todavia, convenceram-me a assumir a reestruturação da Osesp, com a promessa de que seria construída uma sede paradigmática, com boa qualidade tecnológica, respeitando-se a programação artística internacional que eu projetaria.

Comecei a estruturar a ?minha? orquestra, transformando-a, em cinco anos, num exemplo de excelência musical. Estamos prestes a embarcar para nossa primeira turnê norte-americana, em que apresentaremos 20 concertos em 18 cidades. Em 2003, faremos uma excursão idêntica à Europa e, para 2004, está prevista uma turnê pelo Oriente.

Gravamos, até agora, pelo selo sueco BIS, de reconhecido prestígio internacional, cinco CDs, de uma série de 25 que apresentarão ao mundo a música brasileira composta nos últimos três séculos. Tocamos 90 vezes por ano na Sala São Paulo, atingindo diretamente mais de 180 mil ouvintes. Empregamos mais de 300 pessoas. Editamos partituras que ficaram esquecidas nos últimos séculos. Entregamos ao público um Centro de Documentação Musical, com milhares de documentos históricos. Tocamos, neste ano, para milhares de crianças das escolas públicas, em programas educacionais, e atualizamos dezenas de professores de música da rede pública.

Chego diariamente à Sala São Paulo às 8h30 e raramente a deixo antes das 22h. Minha vida é a orquestra. Amargamente, sou obrigado a suportar invejas mesquinhas. Tal exercício fortalece a alma do artista. Porém, ser afrontado por um repórter deste jornal representou inaceitável ofensa, que merece protesto.

Por isso, insurjo-me, indignado, contra a invasão de minha vida pessoal, intromissão devastadora de garantias constitucionais, concernentes à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas. Não posso tolerar, em silêncio -porque incompatível com as leis do regime democrático-, que devassem as minhas contas, bisbilhotando despesas de hotéis e restaurantes frequentados por mim.

Se não bastasse a iniquidade desse procedimento, ele representa leviana exposição de minha pessoa aos azares da insegurança pública. Tampouco posso ficar calado ante as increpações de que mantenho um ?contrato sigiloso? com a Fundação Padre Anchieta e falseei dados sobre os meus ganhos profissionais, que seriam pagos por meio de ?operação triangular?.

As afirmações foram publicadas após sérios protestos dirigidos ao repórter e não são verdadeiras. O contrato não é ?sigiloso?. Consubstancia um acordo de vontades entre uma fundação de direito privado e um artista. O seu conteúdo é do conhecimento do Ministério Público e do Tribunal de Contas. Tampouco falseei dados referentes aos meus ganhos ou recebi vencimentos por meio de ?operação triangular?. Jamais meus vencimentos foram reduzidos ou os recebi em dólar.

O equívoco, quanto à redução de ganhos, deve-se ao fato de que o jornalista não tinha conhecimento integral dos valores que me eram pagos pela Fundação Padre Anchieta. Quanto a receber em dólar, a moeda norte-americana foi utilizada apenas como referencial de valor. A maledicente referência a ?operação triangular?, dando a impressão de negócio escuso, explica-se por eu haver constituído uma empresa para gerir meus interesses profissionais, procedimento usual no meio artístico, sem nenhuma vedação legal ou ética.

A minha consciência determinou que escrevesse este artigo, embora, como qualquer cidadão, não esteja obrigado a revelar o valor dos meus salários, ainda que instado por repórteres, que não são autoridades competentes para formular tais exigências. Mas, em que pese o travo dessas amarguras, continuarei buscando atingir os horizontes mágicos sonhados para nossa grande orquestra. John Neschling, 55, maestro, é diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.”

 

REALITY SHOWS

“SBT e Globo ensaiam novas edições de ?Casa? e ?BBB?”, copyright O Estado de S. Paulo, 20/10/02

“Para quem ainda tem esperança de ser escalado para atrações como Big Brother Brasil e Casa dos Artistas – agora também ao alcance dos anônimos – é bom avisar: vem mais reality show do gênero em 2003. Ainda sem data de estréia prevista, a Globo anuncia para o próximo sábado, dia 26, o encerramento das inscrições para a terceira edição de seu programa, em parceria com a produtora que detém os direitos do formato, a Endemol. No SBT, a idéia de fazer uma quarta edição de Casa, arquivada até duas semanas atrás, foi ressuscitada nos últimos dias.

Para os dois casos, e em especial no que diz respeito ao BBB, convém avisar:

os escalados das edições anteriores são, em sua maioria, frutos da caça realizada pelas próprias emissoras. Ou seja, foi do trabalho dos olheiros da Globo, muito mais que dos milhares de inscritos pela internet, que saiu o elenco do Big Brother 1 e do 2.

Desta vez, a Globo não aceitará inscrições on-line. Disposta a absorver mais gente entre os candidatos voluntários, a emissora colocou em seu endereço na internet (redeglobo.com.br/bbb) uma longa ficha de inscrição, com regulamento do programa, mais 64 perguntas (!) e a encomenda: envie a resposta e os termos assinados, com fita VHS com imagens suas. O endereço segue anexo.

A realização de várias edições de Big Brother em mais de 18 países, pelo mundo todo, também favorece as precauções para a seleção. Entre os itens do regulamento, estão o veto a parentes de funcionários das Organizações Globo (Cida, da 2.? edição, é casada com um primo de um diretor da emissora) e estrangeiros em situação irregular no País (como aconteceu na 1.? edição, com Serginho). No questionário, o candidato terá de responder se já foi acusado de cometer algum crime, se já se envolveu em processos judiciais e como costuma descarregar sua raiva. Em Portugal, um candidato deu um chute à Van Dame numa outra participante.

No SBT, independentemente do suspense que sempre cercou a produção da Casa dos Artistas, Silvio Santos ainda não anunciou suas pretensões para a próxima edição. Pelo histórico da emissora nesse tema, é certo que o patrão aguardará as definições da Globo para acertar o passo de seu programa. O cenário está intacto, sem maiores alterações, desde o fim de Casa 3. À época, a proposta era produzir uma quarta edição,só com anônimos.

Na rota dos reality shows, o SBT encerra no próximo domingo, dia 28, a Ilha da Sedução – ?um programa de R$ 12 milhões?, como alardeou a emissora em sua estréia – sem perspectivas de produzir uma segunda edição do formato. Feito em parceria com a Fox, o Ilha rendeu 14 pontos de média à audiência do SBT, nos dois domingos passados. Considerando que o programa vai ao ar na faixa das 23 horas, não é nada mau. Mas, em comparação com os áureos dias de Casa dos Artistas, que ultrapassou 50 pontos no último episódio da 1.? edição, o ibope do Ilha é bem modesto.”

 

RIO NA MÍDIA

“Tumulto em Botafogo”, copyright Jornal do Brasil, 22/10/02

“A selva em que se transformou a Zona Sul do Rio durante todo o domingo oferece bons subsídios para a avaliação dos critérios de utilização do espaço público. Na cidade e bem além dela.

O espaço de lazer é um dos mais importantes bens públicos e à população deve ser garantido o direito de desfrutá-lo. A essa população devem ser garantidas muitas outras coisas, como o direito de locomoção, o que aliás é preceito constitucional. O que se viu no domingo fere um e outro; o espaço público não foi utilizado para o desfrute, mas para o horror do cidadão; e por várias horas a população do Rio foi simplesmente impedida de se locomover.

Não seria difícil prever o resultado disso: milhares de pessoas irritadas, ônibus depredados, bem público devastado. Durante toda a tarde e até de madrugada, a orla de Botafogo transformou-se em terra arrasada, com reflexos em Copacabana, Ipanema, Lagoa e Flamengo.

A pretexto de se realizar um show gratuito de pagode, encorajou-se o vandalismo e transtornou-se a vida de grande parte da população. É um preço muito alto por tão pouco. Mas o que está em jogo não são as causas circunstanciais do tumulto levianamente fabricado em toda a Zona Sul: o que conta verdadeiramente é o conceito que a tomada do espaço público abriga.

O que aconteceu domingo em Botafogo já aconteceu outras vezes e vai continuar a acontecer enquanto não forem estabelecidos de modo claro os limites da utilização de espaços públicos e de que maneira as empresas e os governos podem estabelecer parcerias que tragam entretenimento ao povo, não medo e horror

A população do Rio já é refém da bandidagem. Não faz sentido que seja também das instituições. São os bandidos que obrigam os cidadãos de bem a cercarem suas casas, a não saírem às ruas, a temerem o contato com o próximo. No Rio, mais do que na maioria das cidades do mundo, os governos têm hoje a obrigação quase profilática de dar ao povo uma sensação mínima de segurança, até para manter seu equilíbrio emocional; não de conduzi-lo a armadilhas, a impressão exata deixada a todos os que no domingo tentaram transitar da Zona Sul em direção ao Centro. Isso implica ações coordenadas, mas sobretudo bom senso e respeito ao povo. Dizer que o tumulto se deu porque fez sol e muita gente foi ao show tem um indisfarçável sabor de chacota com uma gente que paga seus impostos e tem o direito de ser respeitada.

O espaço público não é apenas o das praças. É também, e sobretudo, o que vem pelo ar. O espaço por onde transitam os sinais eletrônicos que educam e influenciam o povo. Se lhe vendemos tanta bobagem, o que ele vai fazer é processar essa informação e devolvê-la na mesma medida. Se invadimos o seu espaço, não podemos exigir que ele respeite o espaço dos outros.

Estamos invadindo não apenas a praça, mas o espaço eletrônico do povo de maneira perversa, colocando no ar tudo aquilo de que ele não precisa e tratando-o como idiota. Estamos sendo desrespeitosos demais com a população brasileira. Invadindo seu espaço ou impregnando-o com banalidades que ela não merece – e que devolve na mesma medida. O tumulto de Botafogo é brincadeira de criança perto do tumulto que diariamente a mídia eletrônica provoca na cabeça das pessoas.”

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