Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

João Batista Natali

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

SADDAM CAPTURADO

“Imagens da TV desumanizam ditador deposto”, copyright Folha de S. Paulo, 15/12/03

“Saddam Hussein foi ontem objeto de uma operação de mídia em que os Estados Unidos procuraram e conseguiram desumanizá-lo com invejável competência.

Cabelos longos, sujos e desalinhados e barba crescida, ele surgiu em vídeo divulgado pelo comando militar norte-americano com a aparência de um indigente.

Era uma fera circunstancialmente amansada, examinada por um médico cujas mãos protegidas por luvas de borracha colhiam amostras para um exame de DNA. Numa cena que poderia também -e a ambiguidade é evidente- relacionar-se à higiene pela caça às pulgas ou ao exame dos dentes de um animal.

É lógico que o tratamento recebido sábado à noite por Saddam foi bem menos dolorido que o reservado por seu sanguinário regime a seus próprios prisioneiros. Além disso, ele não apareceu algemado. Não o torturaram ou o fizeram desfilar carnavalescamente pelas ruas de Bagdá.

Mesmo assim, o propósito era o de destroná-lo energicamente no plano simbólico, de modo a tirar dele reminiscências residuais de autoridade, dignidade e respeito.

A imagem se destinava ao consumo interno iraquiano, e com ao menos duas finalidades. Aos partidários da ditadura deposta era um recado de que a resistência à ocupação militar norte-americana estava acéfala. Para as vítimas numerosas da ditadura ou para as lideranças muçulmanas reprimidas era o sinal de que o pós-saddamismo se tornava uma vez por todas irreversível.

E ainda sobrou para o consumo simbólico nos demais países do mundo árabe. Em alguns momentos dos últimos 25 anos, o Saddam agora desarmado procurou e conseguiu se impor como liderança regional. Tentou encarnar a racionalidade do Estado laico diante do islamismo xiita do Irã. Tentou ainda atropelar princípios da ONU e de uma coligação de interesses ao ocupar o Kuait.

Mas, no sábado à noite, o homem que se julgava sucessor de Nabucodonosor parecia uma fera patética, impotente. Bem mais que sua estátua derrubada em abril no centro de Bagdá, a imagem que restará dele será agora a de um médico militar inimigo que o examina como se ele fosse um bicho, ou no máximo um prisioneiro sem vontade própria.”

“Imprensa nacional comovida”, copyright Jornal do Brasil, 15/12/03

“Jornalistas iraquianos comemoraram a notícia da detenção de Saddam Hussein. Estavam na sala de imprensa do QG dos EUA quando o administrador americano do Iraque, Paul Bremer, anunciou, emocionado, a captura de Saddam. Vários não puderam esconder a alegria quando ouviram a confirmação oficial da notícia. A sala explodiu em aplausos e gritos:

– Abaixo Saddam! Fora Saddam! Morte a Saddam! – gritou em árabe várias vezes o grupo de repórteres. Eles tiveram de ser obrigados a se acalmar por militares dos Estados Unidos que também acompanhavam a entrevista.

A comemoração foi ainda maior quando foram exibidas as primeiras imagens de um Saddam maltrapilho, com o cabelo mais comprido e sendo submetido a vários exames com médicos militares americanos, uma visão considerada humilhante por muitos árabes e que remete à aplicação da Convenção de Genebra para prisioneiros de guerra. O termo proíbe a exibição de presos em situações constrangedoras.

Bremer e o general Ricardo Sánchez, chefe das forças no Iraque, foram interrompidos várias vezes por gritos dos jornalistas. A entrevista coletiva terminou com um longo aplauso.

Um desses jornalistas foi Fatah al-Sheikh, que chorou quando assistiu ao vídeo da coletiva.

– Quando vi Saddam de barbas longas e vi como ele parecia um homem derrotado, lembrei-me dos dois anos que passei na cadeia e de como fui torturado de todas a maneiras que se possa imaginar- disse.

Muitos dos jornalistas davam socos no ar e gesticulavam animadamente, mas Sheikh chorava e soluçava.

– Saddam me colocou na prisão porque eu estava publicando um jornal islâmico sem a autorização oficial. Estive preso em 1989 e novamente em 1999. Tive de pagá-los para ser libertado.

Gente da administração também aplaudiu a notícia dada por Bremer. Acalmada a situação, enquanto os jornalistas ocidentais faziam perguntas sobre detalhes da captura, seus colegas iraquianos questionavam sobre o destino do ex-ditador. ?Ele vai encarar a pena de morte??, ?A corte que o julgará será iraquiana?? eram as perguntas mais freqüentes.

Sheikh, membro da maioria xiita perseguida por Saddam, queria que o ex-ditador fosse julgado por iraquianos:

– Eles devem deixar Saddam com a gente.

Muitos jornalistas queriam falar com Sheikh. Um perguntou se morava no subúrbio xiita de Saddam City, um dos mais pobres e violentos em Bagdá. O repórter o cortou, lembrando-o da nova realidade:

– O nome desse lugar agora é Sadr City.”

“Mídia americana trava guerra de audiência em torno de Saddam”, copyright Último Segundo (http://ultimosegundo.ig.com.br), 15/12/03

“Os meios de comunicação dos Estados Unidos travam uma dura disputa para mostrar à opinião pública todas as facetas do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, assim como as conseqüências de sua detenção na luta antiterrorista.

As cadeias de televisão ABC, CBS, CNN, Fox e NBC se esmeraram na cobertura da captura de Hussein e seu futuro julgamento, conscientes de que os americanos têm Internet e um sem-fim de outras opções para informar-se.

Os índices de audiência ajudam a estabelecer os preços cobrados pela publicidade e essa realidade econômica aumenta as pressões para que a mídia apresente as notícias com rapidez e da forma mais atraente possível, lançando mão de especialistas e correspondentes.

A CNN insiste em que foi a primeira, na madrugada do domingo, a levar ao ar imagens de um Saddam Hussein barbudo e desalinhado.

Hussein, retirado pouco antes de seu esconderijo perto de Tikrit e antes de ser barbeado, dava mais a aparência de um mendigo que a do ditador que governou no Iraque durante 24 anos.

Nic Robertson, um correspondente da CNN, inclusive recriou hoje a captura de Hussein, metendo-se no buraco sujo no qual foi achado o ex-presidente do Iraque.

Hussein, de 66 anos, ?parecia um desses patéticos alcoólatras urbanos que montam seus lares nos becos com caixas de papelão?, comentou Tom Shales, colunista do Washington Post, ao referir-se às imagens divulgadas pelo Pentágono.

Ao retransmitir dezenas de vezes as imagens do ditador derrotado, a televisão americana parecia unir-se às celebrações do Governo do presidente George W. Bush.

Os apresentadores ?editorializavam? o fato, repetindo adjetivos como ?patético?, ?humilhado? e em mais de uma ocasião perguntando-se por que não se suicidou em vez de deixar-se capturar ?como um rato?.

Atônitos a princípio pela notícia, a mídia abandonou momentaneamente as críticas à falta de provas sobre as armas de destruição em massa que o Governo dos Estados Unidos insiste em atribuir ao antigo regime do Iraque, ao lento ritmo da reconstrução desse país e ao incessante número de baixas militares dos aliados.

Ainda assim, a cadeia Fox, conhecida por suas posturas ultraconservadoras, continua fazendo as vezes de uma televisão estatal, recorrendo a especialistas que mostram uma imagem mais positiva do Governo e de seus esforços no Iraque.

Os principais jornais do país, em papel e na Internet, não deixaram nenhum ângulo a explorar.

Os jornais dedicam grande número de análises sobre os detalhes da captura, o debate sobre o julgamento de Hussein e as repercussões deste ?momento histórico? na política internacional, nas eleições americanas de 2004 e até em Wall Street.

Os jornais, que deram à notícia com 24 horas de atraso, tentam agora recuperar o tempo perdido.

?Acho que a quantidade e qualidade da cobertura foram muito boas. Os meios de comunicação agiram com muita cautela e responsabilidade, analisando todas as repercussões de um fato importante como este?, disse à EFE Alex Jones, diretor do Centro Shorenstein, da Universidade de Harvard, especializado em análise da imprensa.

No entanto, outro especialista considera que os jornalistas abandonaram sua obrigação de mostrar-se céticos.

?A primeira coisa que deveriam se perguntar é se de fato trata-se de Hussein?, disse à EFE Kathleen Hall Jamieson, diretora do Centro de Política Pública de Annenberg, da Universidade de Pensilvânia.

?Pode ser que seja o verdadeiro Hussein, mas os jornalistas se deixaram levar pelo que disse o Governo?, disse.”

***

“Saddam substitui Jesus no último minuto na capa da ?Time?”, copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 15/12/03

“Em cima da hora, Saddam Hussein desbancou Jesus Cristo da capa da revista ?Time? desta semana, que já está nas bancas, o que também foi feito, às pressas, pela concorrente ?Newsweek?, após o anúncio da captura do ex-presidente iraquiano.

Depois de tomar conhecimento da notícia no domingo, 12 horas após iniciar a impressão de sua última edição, a direção da Time Magazine decidiu mudar sua capa e pôr a imagem de Saddam no lugar da de Jesus Cristo. Nessa hora, pelo menos 30% da tiragem semanal da revista, cerca de quatro milhões de exemplares, já estavam impressos.

Esta foi a primeira vez que a ?Time? fez esta alteração desde o bombardeio das instalações militares americanas no Líbano em 1983.

?Vi a coletiva de imprensa e a foto de Saddam e pensei: ‘temos de pôr esta foto na capa’. Era uma fotografia extraordinária?, explicou o editor-chefe da publicação, Jim Kelly.

A revista ?Newsweek? utilizou as mesmas palavras da concorrente (?We got him?) e a mesma foto na capa, mas neste caso a troca foi por um personagem bem menos ilustre – Howard Dean, o pré-candidato democrata favorito para disputar a Casa Branca com George W. Bush nas eleições de 2004.”

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