Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

João Luiz Rosa

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

INTERNET

"Dólar faz AOL subir os preços das assinaturas", copyright Valor Econômico, 17/10/01

"A pressão do dólar sobre o custo das empresas de internet começa a ter reflexos concretos nos preços do setor. O primeiro sinal vem da AOL Latin America (Aola). Pela primeira vez em dois anos, desde que foi criada, a empresa reajusta suas tarifas. A nova tabela entra em vigor em hoje e vale para os novos assinantes. Para os demais, não há alterações.

O aumento obedece às exigências do mercado, diz Carlos Dan Trostli, presidente da Aola no Brasil. ?Quando uma indústria está crescendo, ela precisa de margem para reinvestimento. Essa margem está sendo corroída pela alta do dólar?, afirma. ?Tenho certeza de que outras companhias vão se mover nessa direção.?

Com as mudanças, o pacote com acesso sem limite de horas e serviço de atendimento on-line incluído vai custar R$ 34,95 por mês. Os assinantes atuais pagam R$ 24,95. Por esse preço, os novos clientes podem optar por um pacote ilimitado, mas sem assistência incluída, paga à parte, por dia, quando for requerida.

De maneira geral, a estratégia das empresas de web têm sido oferecer pacotes com preços diferentes para atender as várias faixas de consumidor. No Universo Online (UOL), estão disponíveis cinco planos. O acesso ilimitado com atendimento e vantagens como disco virtual sai por R$ 35. Sem o apoio on-line, custa R$ 24,95.

No Terra, que oferece três pacotes básicos, o acesso ilimitado com suporte técnico custa R$ 29,90. A Aola também oferece outros pacotes, mais baratos, com limitação de horas.

O reajuste não é a única mudança na AOL. Ontem, a AOL Inc. – um dos sócios da empresa, ao lado do grupo de mídia Cisneros e do banco Itaú – lançou nos Estados Unidos a versão 7.0 de seu programa de navegação. O plano é oferecer uma versão brasileira do software no prazo de seis a oito meses, informa Fernando Figueredo, vice-presidente de comunicações.

Mesmo com as dificuldades da economia internacional e as crises regionais como a de energia, a Aola não reviu suas metas, embora tenha ajustado a operação no mês passado, com a demissão de 8% dos 1,7 mil funcionários na região.

A companhia, cujo prejuízo líquido no segundo trimestre foi de US$ 70,4 milhões – mais que os US$ 46,7 milhões do mesmo período de 2000, mas menos que os US$ 85 milhões do primeiro trimestre deste ano – tem um milhão de clientes. Porém, não revela quanto desse contingente é usuário pagante e quanto está na fase de avaliação gratuita."

 

"Diários são a nova mania dos internautas", copyright Folha de S. Paulo, 21/10/01

"Quer saber o que as mulheres conversam no banheiro? E o que os homens pensam sobre o amor e a solidão? Então, ?blogue-se?.

O neologismo vem de ?blog? -corruptela de weblog (?diário on-line?). São páginas que podem ser criadas na internet sem nenhum conhecimento técnico e atualizadas rapidamente.

Nelas, as pessoas falam de tudo. Mas falam, sobretudo, de si mesmas -rotinas, romances, neuroses, gostos e opiniões sobre o mundo. E, a julgar pelos números, a exposição do privado a uma legião de desconhecidos ganha milhares de adeptos a cada dia.

Hoje, há cerca de 800 mil dessas páginas nos quatros sites mais conhecidos para sua criação. Há um ano, não chegavam a 200 mil.

Muitas são de brasileiros, mas não há estatísticas precisas. Para o país, o único dado disponível é da Weblogger Brasil -que, em um mês, já chega a 4.000 ?blogs?.

Para os ?blogueiros?, o segredo dessa explosão está na liberdade de expressão e nas facilidades técnicas da criação. Para estudiosos do comportamento humano, as páginas são a concretização do futuro pop anunciado por Andy Warhol: nele, todos têm (ou precisam acreditar que podem ter) seus 15 minutos de fama."

***

"Modernidade exige exposição, diz analista", copyright Folha de S. Paulo, 21/10/01

"?Escrevo no ?blog? porque a Cris leu e falou que eu a fiz sorrir quando ela estava de mau humor. Porque o Diogo disse que quase chorou quando leu sobre meu pai e meus irmãos. Escrevo porque quero divertir as pessoas e emocioná-las também?, escreve Ione em um ?post? -nome dado às mensagens enviadas aos ?blogs?.

Na necessidade de ?divertir e emocionar? de Ione está, na opinião de alguns estudiosos das relações humanas, a explicação para a explosão dos ?blogs?.

?Essa necessidade de se contar ao outro é uma característica da modernidade e de suas grandes cidades?, diz o psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha e autor de ?Crônicas do Individualismo Cotidiano?.

?Nos centros urbanos, nossa identidade social depende do olhar dos outros, da forma como eles nos percebem e nos reconhecem. Não importa onde nascemos nem em que família. Então, precisamos atrair a atenção do outro para garantir a nossa identidade. Por isso vamos ao cabeleireiro, fazemos tatuagens, usamos roupas bonitas e contamos nossas vidas em ?blogs??, continua ele.

Para o psicanalista, porém, a ?aparente autenticidade? empregada aos ?blogs? -alguns com até mil visitas diárias- faz deles instrumentos mais fiéis de interação na modernidade do que a visita ao cabeleireiro, por exemplo. Pois a espontaneidade, diz, é um dos ideais perseguidos nessa era.

?Eles [os ?blogs?? são escritos para carregar a marca da autenticidade, da ausência de máscara. E, na modernidade, quanto mais somos capazes de mostrar nossas vísceras, mais somos reconhecidos como sujeitos?, conclui.

Consenso não há. Muitos acham enriquecedora a experiência on-line. Outros vêem por trás dela, predominantemente, a demonstração da necessidade de uma terapia real. Mas classificar os ?blogs? como forma de resistência ao isolamento e à falta de identidade típicos das urbes parece ser a visão mais recorrente entre as pessoas que se dedicam a estudar as relações interpessoais.

?As pessoas têm prazer em falar delas mesmas. Se não puderem falar delas por uma semana, ficam sem assunto. Como a paranóia urbana do tempo e da insegurança as afastou, elas procuram um novo canal?, afirma o psicoterapeuta José Carlos Zeppellini, que narra um caso de um paciente que comprou um gravador para falar com ele mesmo.

Nostalgia do exibicionismo

?Eu sou extremamente vaidoso. Quando as pessoas escrevem elogiando meu ?blog?, fico muito satisfeito?, diz Miguel, 23.

A exposição de Miguel é, na prática, o que os especialistas definem na teoria como uma espécie de nostalgia do exibicionismo.

?Todos têm o impulso de mostrar sua intimidade, pois o bebê cresce se expondo, sendo exposto e sendo comentado por todos?, diz o psicanalista Luiz Tenório Lima, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

?Então, vivemos uma certa nostalgia desse exibicionismo, o que entra em choque com a nossa necessidade de privacidade urbana. Os velhos diários também eram escritos para que alguém lesse, mas aí havia uma ameaça real à privacidade. A internet resolveu essa contradição, pois a pessoa se expõe de forma calculada -o quanto quiser e sem se responsabilizar pela presença do outro.?

Por um lado, a ?exposição calculada? -e eventualmente anônima- dá mais liberdade ao autor, acentuando a catarse e fazendo dos ?blogs? verdadeiros ?divãs on-line?, diz Zeppellini. Por outro, permite que se acredite na intimidade sem que ela de fato exista, na visão do sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Unicamp.

A tese de Zeppellini encontra respaldo no estudo do francês Philippe Lejeune, professor de literatura da Universidade de Paris.

Publicado no começo deste ano, o estudo -o mais amplo até agora sobre o recente fenômeno dos ?blogs? (eles surgiram em 1999 nos EUA)- afirma que a maioria dos ?blogueiros? franceses fizeram suas páginas logo após um momento de forte depressão, para ?botar o lixo para fora?. Viram seus problemas desestigmatizados ao perceber que casos semelhantes ocorriam com os outros.

?Eu faço meu ?blog? para falar o que eu quero. Se alguém quiser ler, ótimo. Se não quiser, não tem problema?, diz o estudante de cinema Frederico, 18.

Falar para alguém sem rosto, sem que importe quem leia, evidencia, para o psicanalista Jorge Forbes, que a busca de identidade está centrada não na comunicação com o outro, mas na interação com a própria língua.

?A passagem da industrialização para a globalização destruiu os ideais comuns, e o mundo ficou ?desbussolado?. Na euforia depressiva, as pessoas sentem necessidade de escrever -ou seja, firmar um novo contrato com a língua, o mais forte instrumento de identificação do ser humano como humano. E quando o ser humano se reinventa, isso, como toda a invenção, só faz sentido, só existe, se é conhecido pelo outro, independentemente de quem seja esse outro.?

Onde criar um ?blog?: com instruções em português (weblogger.com.br); em inglês (blogger.com.br; xanga.com; citizenx.com; opendiary.com)"

    
    

                     

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