Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O FÓRUM DE BOVÉ

João Mellão Neto

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

O FÓRUM DE BOVÉ

"Tempo perdido!", copyright O Estado de S. Paulo, 2/02/01

"Sem freios, direção ou faróis, à velocidade de 3.600 segundos por hora, vou avançando, angustiado, rumo a um destino que desconheço. Só sei que esta estrada é perigosa: morre gente a todo o momento e ninguém está livre de acidentar-se em seu percurso. Não há, por aqui, nem retorno nem acostamento. E a sinalização, dizem, já foi das melhores. Não bastasse isso, o pedágio é escorchante: gasto com ele quase todos os meus rendimentos.

Paciência. Como se diz, isso é a vida…

O meu consolo é saber que não estou sozinho nesta estrada. Já a minha aflição é perceber que alguns outros dirigem muito pior.

O ser humano, por alguma disfunção do processo evolucionista, é o único animal capaz de pensamentos abstratos. É uma aptidão ambígua. De um lado lhe permite controlar parte da Natureza. Mas, de outro, acaba por levá-lo a alienar-se demais. Não consta que moluscos ou urubus, por exemplo, padeçam de angústias existenciais. Neste aspecto são biologicamente mais aptos. Nós não! Passamos a vida insatisfeitos com a vida… E acreditamos, sempre, poder trocá-la por uma melhor.

?Um outro mundo é possível!?, proclamavam os idealizadores do Fórum Social Mundial. Não foi à toa que despertaram a curiosidade da mídia internacional.

Com chamariz deste calibre é até covardia. Se mudar de vida já é uma proposta atraente, imagine-se então poder mudar de mundo! Confesso que eu mesmo – cético por natureza – deixei-me enlevar pelo canto das sereias do Rio Guaíba… Acompanhei com enorme interesse, dia após dia, tudo o que ocorreu no ?Fórum?. Minha conclusão: um outro mundo é possível sim. Desde que, para ele, não convidem o pessoal de Porto Alegre.

Um outro mundo, para ser possível, não pode conviver com o problema da fome e da exclusão. Para eliminar a primeira, a agricultura tem de ser mais produtiva, incorporando avanços tecnológicos obtidos por pesquisas. Para mitigar a segunda é preciso que os países pobres possam comercializar os seus produtos agrícolas (é a única mercadoria que produzem…) com os países ricos, participando, assim, dos benefícios da globalização.

Em um outro mundo, portanto, não há lugar para tipos sinistros como o monsieur Bové que, além de ser um agressivo defensor do protecionismo agrícola europeu, ainda se apraz em destruir lavouras experimentais e não demonstra o menor respeito pelas leis dos países mais pobres que o recepcionam. José Bové, paradoxalmente, foi aclamado pelo público como a grande ?estrela? do encontro de Porto Alegre. Um intelectual de esquerda – fossem outras as circunstâncias – classificaria tal reação como fruto do ?deslumbramento típico dos povos colonizados?…

Um outro mundo, para ser possível, só pode erigir-se através da solidariedade. Quer no campo econômico, quer no político, ou mesmo no militar, o fato é que os países ricos nada têm a temer com relação aos países pobres. Um pacto de solidariedade pressupõe o respeito mútuo e um debate franco, aberto e objetivo.

Em um outro mundo, portanto, não há lugar para os populistas e os bravateiros que, em nome do fórum gaúcho, enxovalharam os interlocutores do fórum suíço. Indivíduos assim são extremamente perniciosos: satisfazem os seus interesses pessoais, o de arrancar aplausos, sacrificando o interesse de todos – o de estabelecer canais de diálogo. Georges Soros, goste-se dele ou não, era um canal privilegiado. Conhece, como ninguém, os problemas dos países em desenvolvimento, possui propostas concretas para atenuá-los e – o que é fundamental – sua palavra é acatada entre seus pares. Os bravos insurgentes dos Pampas preferiram tachá-lo de hipócrita e ?infanticida?.

Resultado: apoteose do lado de cá, fim de conversa do lado de lá… É possível um ?outro mundo? assim?

Todas estas ponderações, bem sei, já foram mais bem explicitadas pelo eloqüente editorial do Estado do dia 31 de janeiro. O ?Fórum Social?, por sua vez, não é mais assunto de jornal, visto que se encerrou na última terça-feira. Mas não podia deixar de registrar o meu inconformismo. Não tenho culpa se meu artigo só sai na sexta…

Passei uma semana inteira folheando jornais e consultando a Internet. Não me parece admissível que milhares de pessoas tenham se deslocado de mais de uma centena de países, para participar de várias dezenas de painéis, e não se ter logrado a confecção de um único documento conclusivo.

A não ser que, por trás do pomposo e chamativo nome de ?Fórum Social Mundial?, tudo não passou de um evento turístico. Ou, pior, de uma ribalta internacional para a louvação do ?Tchê?, do PT, do ?Bovê? e do MST…

?Um outro mundo é possível!? – Alô, Procon, isto aí está soando como mais um caso de propaganda enganosa.

Mas fica no ar a pergunta: será que é possível um outro mundo? Eu, de minha parte, não descarto a possibilidade. Só que, da próxima vez, vou tratar de discuti-la em um congresso de ufologia. (João Mellão Neto é jornalista)"

"O Fórum Social Mundial e a mídia brasileira", copyright Correio da Cidadania, ed. 229

"O Fórum Social Mundial recebeu da mídia brasileira uma cobertura muito parecida com a que em geral é destinada aos partidos de esquerda, sindicatos e grupos ou movimentos que se opõem à política econômica do governo federal. A partir dessas semelhanças, é possível entender um pouco melhor como funciona e, principalmente, para que(m) funciona a imprensa nacional.

Ignorar

Em primeiro lugar, não deve causar espanto que um evento do porte do Fórum Social Mundial tenha sido solenemente ignorado pela maioria dos órgãos de comunicação até praticamente a véspera de seu início. É assim mesmo que funciona.

Basta lembrar a ?surpresa? que foi a vitória do PT nas últimas eleições municipais, no ano passado. Ora, a notícia apenas chegou ?atrasada? às redações: semanas antes do pleito, as pesquisas de intenção de voto já indicavam que o partido teria uma boa performance eleitoral. O jornais e revistas poderiam ter ?comprado? a pauta e noticiado com antecedência que o PT estava prestes a experimentar o maior salto de sua história. Só que não é assim que funciona.

Noticiar a organização de um evento como o Fórum Social Mundial ou a probabilidade da vitória de uma agremiação de esquerda nas urnas é o tipo da pauta considerada ?jornalismo partidário? nas redações brasileiras. Isto já está tão enraizado que até mesmo alguns bons jornalistas, nessas horas, confundem o dever de informar com uma suposta badalação dos adversários políticos do(s) dono(s) da empresa para o qual trabalham. Na dúvida, preferem omitir informações importantes a publicá-las, quando não são explicitamente orientados a ?esquecer? os fatos.

Só assim é possível entender que um evento reunindo, em uma cidade brasileira, centenas de personalidades de todos os continentes do planeta tenha recebido tão pouco destaque da imprensa nacional. A verdade é que, uma semana antes do seu início, o Fórum foi muito melhor noticiado pela mídia estrangeira do que pelos órgãos de comunicação do país-sede do evento.

Intrigar

Examinando o escasso material que saiu na imprensa brasileira sobre o Fórum Social Mundial nas últimas semanas, é possível notar uma segunda semelhança com o tratamento que a mídia nativa usualmente dispensa aos partidos de esquerda e demais organismos de oposição ao neoliberalismo tupiniquim. Grande parte das matérias centrou foco nas desavenças entre o PDT – leia-se, Leonel Brizola – e os organizadores do Fórum.

O fato de Brizola, dirigente da Internacional Socialista que é, ter questionado a ?exclusão? do PDT da organização do Fórum sem dúvida merece ser registrado. O problema é que a nota digna de registro virou manchete e foi exaustivamente explorada com o intuito de ?piorar o clima? do evento. Na verdade, o que merecia ir para as manchetes era o conteúdo programático do Fórum e o contexto de sua realização em Porto Alegre, no Brasil, em contraposição ao Fórum de Davos, na Suíça.

Mesmo pensando na desavença entre Brizola e o Fórum isoladamente, a imprensa brasileira agiu mal. Preferiu dar destaque às bravatas do ex-governador (?quem financiou o evento? etc etc), perdendo assim a oportunidade de ir ao âmago da questão: as motivações do presidente nacional do PDT para criticar o Fórum e o significado político dos ataques. Uma pauta que, se bem feita, serviria para melhor esclarecer o público sobre as diferenças entre o líder trabalhista e os organizadores do Fórum.

Estereotipar e ridicularizar

Outro procedimento típico da mídia em relação aos que insistem em não apoiar a cartilha neoliberal é, sempre que possível, estereotipá-los. São os dinossauros, os jurássicos, enfim, os defensores de um modo de vida de um tempo que já passou. Além dos adjetivos, a imprensa tem por hábito ridicularizar qualquer iniciativa dessa gente. Foi assim, por exemplo, com o Tribunal da Dívida Externa. É sempre assim nas coberturas de congressos internos dos partidos de esquerda – sobretudo do PT – e em praticamente todas as pautas relacionadas ao MST. Está aí a fotomontagem da revista Veja com João Pedro Stédile transformado em James Bond, que não me deixa mentir.

Da mesma maneira, dentre as personalidades inscritas para participar do Fórum Social Mundial, a imprensa brasileira achou por bem destacar José Bové. Evidentemente, não pelo enorme apoio que vem conseguindo na Europa, mas pelo fato de ser o ?inimigo do Mc’Donalds?, uma espécie de novo Asterix, o Gaulês .

É muito provável que os jornais, revistas e emissoras de rádio e TV lutem para conseguir as imagens e as entrevistas mais ?excêntricas? possíveis durante o Fórum. A idéia é apresentar os participantes como um grupo de malucos inconformados com o curso inexorável da história.

Tudo somado, a cobertura do Fórum Social Mundial até aqui mostra que os profissionais sérios da imprensa brasileira terão grandes dificuldades para informar corretamente o público. De um lado, o assunto causa calafrios aos donos dos grandes órgãos de comunicação, que preferem tratar o evento como um espetáculo grotesco, patrocinado por lunáticos. Em segundo lugar, Porto Alegre vai competir com Davos, onde estarão reunidos os poucos biliardários que escreveram a cartilha neoliberal e comandam a desafinada orquestra da globalização.

Comparar a forma com que as notícias de Porto Alegre e Davos serão editadas pelos grandes jornais, revistas e emissoras de TV não vai deixar de ser um bom exercício mental. Melhor ainda será poder ler, lado a lado, as palavras dos colunistas ditos independentes sobre os dois Fóruns."

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