Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

João Mellão Neto

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

SCHWARZNEGGER GOVERNADOR

“?O vencedor leva tudo?”, copyright O Estado de S. Paulo, 10/10/03

“Quando Arnold – é assim que ele é chamado – se lançou candidato a governador da Califórnia, há menos de três meses, eu fui um dos poucos, aqui, no Brasil, que viu com simpatia a sua postulação. Não sou favorável ao recall – o instrumento político que permite ao povo destituir um governante eleito -, ao menos da forma como ele foi praticado, passados apenas 11 meses da eleição do atual governador, Gray Davis. Entendo que tal instituto legal só deveria ser permitido ultrapassada a primeira metade do mandato, quando então já é possível saber se o eleito é eficaz ou não. No mais, o mecanismo é extremamente democrático e eficiente e, se existisse no Brasil, nos teria poupado de inúmeras crises institucionais, no passado.

Schwarzenegger foi eleito com 48,3% dos votos dos californianos.

Legitimidade ele tem de sobra. Não obteve essa maioria à toa nem por falta de alternativas – havia outros 134 concorrentes.

Aqui, no Brasil, muitos torcem o nariz. ?Mas ele é um ator!?, escandalizam-se muitos. ?Não tem experiência política nenhuma!?, alegam outros. ?Só se elegeu porque é uma celebridade?, concorda a maioria. ?E daí??, pergunto eu.

Arnold não é um idiota Os californianos, também não. Ele é formado em Administração de Empresas e Economia, possui uma cultura razoável e é socialmente bem articulado, mantendo bons canais de diálogo com todos os segmentos representativos da comunidade local.

A Califórnia, por sua vez, não é uma sociedade de broncos. É o Estado mais populoso, rico e desenvolvido dos Estados Unidos. Possui a maior renda per capita da nação, o melhor nível educacional e talvez tenha também a maior concentração de QIs do país. É lá que se encontra o Vale do Silício, coração da indústria de informática e o maior centro de inteligência do mundo. A sociedade é a mais complexa e sofisticada dos Estados Unidos e, quem sabe, do planeta. Se fosse uma nação, a Califórnia seria a quinta mais rica do mundo, rivalizando com a França. Dizer que seu povo não sabe votar é subestimá-la demais. Ou superestimar a nossa elite tupiniquim que critica os seus critérios de escolha.

Em que os nossos políticos e candidatos são melhores que os deles? Nós, por aqui, não temos preconceitos na hora de votar. Elegemos um presidente que não tem sequer o curso secundário e, segundo as pesquisas, sete em cada dez brasileiros aprovam o seu desempenho. Para a Prefeitura de São Paulo elegemos uma senhora cuja profissão declarada é sexóloga e boa parte de nós está satisfeita com o seu governo. São Paulo, aliás, a par de ser a maior cidade do Brasil, é também a mais liberal. Já elegemos um prefeito negro, embora a maioria da população não seja negra, e elegemos também uma mulher, solteira, nordestina e radical. Se São Paulo não nutre preconceitos com relação aos seus próprios governantes, por que haveria de censurar os escolhidos de outras plagas?

É cedo para dizer se Arnold fará um bom governo. Mas também é muito prematuro apostar que não fará. O que é que Marta Suplicy e Luiza Erundina entendiam de governo antes de tomar posse? Provavelmente, menos do Arnold conhece os problemas da Califórnia. E Arnold, além de tudo, possui um trunfo cultural inigualável.

Arnold chegou à América com US$ 20 no bolso e, em três décadas, se tornou um milionário, um ator e produtor mundial de primeira grandeza e ainda logrou casar-se com uma das princesas da ?família real? americana (sua mulher, Maria, é uma Kennedy) Para todos os efeitos, Arnold é um winner, o que, para os padrões culturais americanos, significa tudo. Explico.

À diferença de nós, latinos, por quem, segundo Tom Jobim, o sucesso alheio é visto como uma ofensa pessoal, a cultura norte-americana divide os homens entre winners (ganhadores) e loosers (perdedores). Supõe-se que quem tenha nascido para winnner, desde os bancos escolares, será bem-sucedido em toda a sua vida, não importa no que se envolva. Já o looser, coitado, nasceu para perder. Nada do que fizer dará certo. Ser chamado de looser, nos Estados Unidos, é a pior das ofensas possíveis.

Ser reconhecido como um winner é algo que abre todas as portas ao cidadão.

Todos acreditam nele, todos confiam em sua capacidade. Arnold já provou que é um vencedor. E essa aura, mais do que a notoriedade isoladamente, explica em grande parte o fascínio com que conquistou o eleitorado.

?The winner takes all?, costumam dizer os norte-americanos. Ou seja, o vencedor leva tudo. Não há prêmios de consolação, nem sequer complacência para com os perdedores.

Quem pode julgá-los? A sua cultura de winners e loosers, por mais implacável e impiedosa que seja, forjou a sociedade mais próspera e a nação mais poderosa do planeta. Nós, que nos acostumamos a nos apiedar dos perdedores, criando sempre compensações para eles, não conseguimos sequer nos aproximar dos seus padrões de excelência em todas as áreas.

Arnold, o winner, é o novo governador da Califórnia. Se a cultura americana estiver correta, ele será um vencedor na política também. (João Mellão Neto é jornalista E-mail: j.mellao@uol.com.br Site: www.mellao.com.br Fax: 3845-1794)”

“Schwarzenegger vence com 48,3%”, copyright O Estado de S. Paulo, 9/10/03

“Num referendo histórico, os eleitores da Califórnia destituiram na terça-feira o governador democrata, Gray Davis e, simultamente, elegeram para seu lugar o ator republicano Arnold Schwarzenegger, que venceu, segundo dados oficiais, com 48,3% dos votos.

O ?sim? que afastou Davis, responsabilizado pela grave crise econômica do Estado – o maior, mais populoso e mais rico dos Estados Unidos – obteve 55% dos votos. Cerca de 45% dos eleitores queriam que ele permanecesse no cargo.

O resultado, divulgado pela Secretaria de Estado da Califórnia, é apontado como um grande revés para o Partido Democrata, que apresentara como candidato o vice-governador Cruz Bustamente, antevendo a derrota de Davis, reeleito governador a menos de um ano. Bustamente ficou em segundo lugar, com 32% dos votos.

O republicano conservador Tom McClintock obteve o terceiro com 13,3%. O verde Peter Camejo veio a seguir, com 2,8%. Concorreram 135 candidatos. Dos 15,3 milhões de eleitores inscritos, votaram cerca de 7,8 milhões.

Duas perguntas básicas caracterizaram o referendo:

– Você quer destituir o governador Grey Davis? Disseram ?sim? 4,27 milhões.

_- Se optou pelo ?sim?, que candidato você escolheria para substituí-lo?

Votaram em Schwarzenegger 3,5 milhões.

Reconhecendo a derrota e, aparentemente, aliviado, Davis pediu a seus assessores e secretários de Estado democratas que colaborem com a nova administração, a fim de fazer a transição o menos traumática possível.

Embora eleito, Schwarzenegger só poderá prestar juramento como novo governador da Califórnia depois que a Comissão Eleitoral concluir a apuração – milhares de votos estão chegando pelo correio – e divulgar os resultados oficiais.

A comissão tem prazo até 15 de novembro para encerrar a tarefa. A posse se dará num dos dez dias seguintes. Dizendo que fará de tudo para bem representar a todo mundo, Schwarzenegger já iniciou ontem a preparação da posse de seu governo, nomeando o republicano David Dreier, considerado um político de larga experiência, para chefiar a equipe de transição.

?Quero ser o governador do povo?, repetia Schwarzenegger – que não tem a menor experiência política e poucas vezes votou na vida – ao receber felicitações ou até mesmo manifestações de pessimismo de colegas de Hollywood, como Clint Eastwood e Sylvester Stallone.

?Boa sorte?, desejou a ele Eastwood. ?Certamente, vai ser muito interessante. Agora, começa o pesadelo.? Já Stalone expressou descrédito: ?O que ocorre agora me parece desastroso. Sempre tenho dito que ser político é uma profissão como ser doutor ou ator. Os atores devem atuar.? (Associated Press e Reuters)”

***

“Ele chegou aos EUA em 1968 com US$ 20”, copyright O Estado de S. Paulo, 11/10/03

“Arnold Schwarzenegger, austríaco de nascimento e filho de um policial, tem um currículo intenso e surpreendente: de simples fisiculturista a um dos atores de Hollywood mais bem pagos do mundo e governador da Califórnia, o mais rico Estado americano, cuja economia é superior à da França. Ele nasceu em 1947 na cidade de Graz. E iniciou a carreira em 1967, elegendo-se Mister Universo, com apenas 20 anos, o mais jovem da história do concurso.

Emigrou para os EUA em 1968 com ?apenas US$ 20? no bolso. Formou-se em administração de empresas e economia. E, em 1983, adotou a cidadania americana.

Suas primeiras experiências no cinema datam de 1970, quando trabalhou no filme Hércules Vai a Nova York. Seis anos depois, recebeu o prêmio Globo de Ouro, como ator revelação. Mas só ficou internacionalmente conhecido a partir de 1982 no papel de Conan, o Bárbaro. O passo definitivo como astro de Hollywood veio dois anos depois, na forma de um andróide assassino em O Exterminador do Futuro. Outra produção de sucesso, Predador, foi filmada em 1987. O Exterminador do Futuro 3, lançado este ano, já arrecadou US$ 44 milhões.

Schwarzenegger, já republicano, casou-se em 1986 com a apresentadora de TV Maria Shriver, sobrinha do assassinado presidente John F. Kennedy. Pai de quatro filhos, ele foi nomeado em 1990 diretor do conselho nacional de esportes pelo então presidente George Bush, pai do atual. Um ano depois, inaugurou em Nova York a rede de restaurantes Planet Hollywood, com os colegas Sylvester Stallone e Bruce Willis. Investidor do mercado imobiliário, sua fortuna é estimada em US$ 200 milhões. Em 1999, participou da campanha política de George W. Bush e não escondia sua pretensão de ingressar na política. Ontem, Schwarzenegger anunciou que não fará filmes durante o mandato. (AP e DPA)”

“O Risco Schwarzenegger”, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“Foi a vitória do espetáculo sobre a política. Com extrema desenvoltura, Arnold Schwarzenegger saiu da campanha publicitária de lançamento de ?O Exterminador do Futuro 3?, na qual se empenhava meses atrás, para ingressar na promoção de sua própria candidatura ao governo da Califórnia. Vitorioso, segue os passos de Ronald Reagan, a quem supera em fama conquistada como ator, deixando as telas para comandar o mais populoso e rico dos Estados norte-americanos. Imagem, realidade e ficção entrelaçaram-se como nunca nesse pleito em que Hollywood e a cultura de massa mostraram o seu cacife.

Há um mecanismo curioso no que diz respeito a celebridades que postulam cargos públicos. Parte da mídia californiana tratou a candidatura de Schwarzenegger de forma crítica. Não obstante, ao cobri-la já acabava, de certa forma, por endossá-la e glamorizá-la. Celebridades, uma vez vencidas as resistências iniciais, tendem a desenvolver maior imunidade a críticas do que políticos.

É razoável acreditar que um candidato tradicional teria mais dificuldades para passar incólume pelas acusações de assédio sexual e de simpatia por Hitler que recaíram sobre o ator no final da campanha. Schwarzenegger, contudo, parece não ter sofrido abalos nem mesmo diante do eleitorado feminino, normalmente mais sensível a esse tipo de propaganda negativa.

Os atributos de celebridade, no entanto, não deverão ajudá-lo tanto a partir de agora. A Califórnia enfrenta sérias dificuldades econômicas. Foi um déficit de US$ 38 bilhões que ajudou a derrubar o governador Gray Davis no processo de ?recall?. Esse rombo não desaparecerá com efeitos especiais -o que poderá fazer com que Schwarzenegger se veja compelido a rever a promessa de não aumentar impostos. Além disso, o futuro governador, que é republicano, terá de lidar com um Legislativo majoritariamente democrata, quase sempre contrário a cortes de despesas. Para agravar um pouco mais o quadro, os californianos criaram, nos anos recentes, algumas dificuldades extras. Seguindo a tradição de ?democracia direta? do Estado, aprovaram uma série de vinculações orçamentárias e pacotes de ajuda financeira que amarram ainda mais as mãos dos administradores.

Não há dúvida de que os eleitores compraram um risco ao eleger um ator sem experiência política. Se o seu governo, no entanto, será ou não um filme explosivo só o futuro dirá.”

***

“Stallone diz que política não é algo para atores”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“O ator Sylvester Stallone afirmou que os atores ?não entendem muito de política?, atividade que ele qualifica como uma profissão de qualificação específica.

Ele criticou indiretamente Arnold Schwarzenegger em declarações ao jornal mexicano ?Milenio?. Stallone está no México para o lançamento de um filme, ?Spy Kids 3-D?. Segundo ele, ?interpretar um papel e fazer política nem sempre são compatíveis?.

A seu ver, ?os eleitores decidem pela popularidade, que talvez não seja o melhor critério para identificar um bom político?.

Intérprete do personagem Rambo, Stallone disse ?que apenas com o tempo? será possível avaliar a gestão de seu colega como governador da Califórnia.”

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“Jornal crítico a Schwarzenegger perde leitores”, copyright Folha de S. Paulo, 11/10/03

Em protesto contra as acusações de assédio sexual publicadas pelo ?Los Angeles Times? contra o governador eleito da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, mais de mil assinantes já haviam cancelado a assinatura do jornal até o último dia 4.”

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