Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÁRIO COVAS

João Mellão Neto

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

MÁRIO COVAS

"Aplausos", copyright O Estado de S. Paulo, 19/01/01

"Quer a mitologia que os heróis morram jovens. Por martírio ou assassínio; em combate ou pelas próprias mãos, o arquétipo do herói implica sempre seu fim prematuro.

Morreram todos, realmente, cedo? Jamais saberemos. Nas brumas do tempo, a história, mais e mais, vai se fundindo à lenda. Componentes míticos a ela se incorporam. E o que nos chega, ao final, não é mais o feito, em si, mas sim um produto lapidado pela sabedoria coletiva através dos séculos.

Jung, discípulo de Freud, defendia a existência de um ?inconsciente coletivo?. Haveria, nas profundezas da mente humana, alguns traços e padrões comuns a todos nós. Os mitos, assim, são sempre recorrentes. Os fortes, os bravos, nunca chegam à meia-idade. Deixam este mundo no apogeu de seu vigor físico… É compreensível que assim seja: sua última imagem é aquela que se eternizará.

Acreditemos ou não nas teorias de Jung, a verdade é que ainda somos muito influenciados pelo ?mito do herói?. Não nos é fácil atribuir tal condição a um homem vivo. Como também nos é difícil aceitar a idéia de um ?herói? idoso, adoentado, frágil e atemorizado.

Pois este herói existe. Aqui e agora. Nós o ouvimos no rádio, nós o vemos na TV. E nosso grande desafio, agora, é aceitá-lo como tal. Somos maduros, o suficiente, para tanto?

Estou me referindo a Mário Covas. E não tenho nenhum pejo em fazê-lo.

Não é de bom-tom, bem sei, louvar os poderosos. Ao menos não é boa prática jornalística. No resguardo de nossa independência, temos por norma jamais elogiar as autoridades. Mesmo quando é justo e oportuno fazê-lo. Pecamos por omissão: quando as exaltamos, no mais das vezes, o fazemos tarde demais.

Eu me recordo de, anos atrás, ter visto um quadro renascentista que muito me impressionou. Desconheço o autor. A imagem, forte, retratava o grande dilema da condição humana: um cavaleiro joga xadrez com Tanatos – a figura mitológica, de foice e manto negro, que representa a morte. A luta é desigual. Tanatos sempre vence. O desafio do jogador – que somos todos nós – se resume a manejar os seus bispos, torres e cavalos de forma a que a partida se prolongue ao máximo. Um cavaleiro de fibra jamais depõe o seu rei antes do xeque-mate…

Mário Covas, enxadrista habilidoso, vive agora o papel desse cavaleiro.

Algumas peças ainda lhe restam. E ele, teimoso e obstinado, mantém-se firme no tabuleiro.Tanatos bem sabe o quão temível e respeitável é um oponente que acredita naquilo que faz…

Covas, ao menos para mim, está se revelando um herói. Isso porque, acima de tudo, ele é um homem de coragem. E a coragem é uma das quatro virtudes cardeais. Virtude não é dom. Não nascemos com ela. Virtude é uma aptidão adquirida com muito esforço e autodisciplina. A coragem, virtude que é, não nasce conosco. É o resultado de um árduo controle que, pela vida, vamos exercendo sobre o medo, o conformismo, o comodismo e o desânimo. Coragem, diziam os antigos, é ?a força da alma?, é a vontade na forma mais determinada. Não é um saber, mas uma decisão; não é uma mera opinião, é, isto sim, um ato, é uma ação.

Não há por que endeusá-lo. Todos nós, por uma ou outra razão, discordamos de Covas em alguma coisa. Seu governo não é perfeito e perfeito ele também não é. Mas a enfermidade que o acometeu só tem servido para engrandecê-lo.

Ele sofre, resmunga e chora. Comove e se comove. Assume em público suas dores, suas fraquezas e seus temores. O competente David Uip, seu médico, aconselha-o a resguardar-se. Os seus assessores entendem que ele deve preservar sua imagem. Mas ele despreza a opinião de todos. Pouco lhe importa a ?imagem?. Ele se entende como um ?homem público? por excelência. E, como ?homem público?, publicamente se expõe em seu drama. Tudo se desenrola às claras. Não se procura escamotear nada. Ele não se presta a desenvolver nenhum papel que não seja o dele próprio. Mário Covas é assim. Ele sempre foi assim.

Só os insensíveis não percebem a grandeza que há por trás disso. Quem nos dera todos os políticos fossem iguais…

O governador Mário Covas, por causa da evolução negativa de seu quadro clínico, está às vésperas de se submeter a um extremamente penoso e invasivo tratamento hospitalar. Sua agenda, paradoxalmente, está repleta de compromissos… Ele com certeza os cumprirá, ao menos até o dia em que for inadiável a sua internação.

Governador:

Todos nós, paulistas, estamos orando para que o senhor se saia bem. E temos certeza de que o senhor vencerá mais esta.

Mas é importante que o senhor saiba, haja o que houver no futuro, sua biografia já está escrita com letras de ouro em nosso coração.

O senhor se recorda do poema ?Se?, de Rudyard Kipling? Ele se encerra com a seguinte mensagem:

…E, se és capaz de dar, segundo por segundo,/ Aos minutos finais todo o valor e brilho,/ Então tua é a Terra, com tudo o que existe no mundo./ E – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

Boa sorte, governador. O senhor, mais do que ninguém, a merece! (João Mellão Neto é jornalista)"

"De túmulos, covas e políticos", copyright Pensata (www.folha.com.br/pensata), 17/01/01

"Lembro-me como se fosse hoje de uma noite em 1985, quando minha mãe me tirou da cama para que fosse assistir a TV. Tancredo Neves acabara de morrer, era o que dizia o então porta-voz Antonio Britto, e a nação entrava em luto, depois de quarenta dia de vigílias, rezas, velas e muita esperança. O primeiro democrata a ascender ao posto máximo da nação depois de quase 21 anos de ditadura era fulminado por uma diverticulite, que o ceifou antes que assumisse o cargo.

Minha mãe, se não me engano, chorava. E eu, com certeza, chorava. Entendia menos de política àquela época do que entendo agora, e o único impacto que a ditadura teve sobre os meus poucos oito anos de vida foi proibir-me de ver alguns filmes. Mas, institivamente, vendo os choros e velas, sabendo do que se passara nas Diretas-Já, sentia um certo apego ao Tancredo; um facho de esperança numa terra de canalhas. E, por isso, acho, chorei junto.

Lembro-me disso agora porque acabo de saber que o câncer do governador Mário Covas atingiu sua medula. E, mesmo sem saber muito de medicina, dá pra se depreender que uma metástase que atinge o sistema nervoso não deixa muitas esperanças de sobrevivência. Uma vez mais, me emociono.

Me emociono porque Mário Covas é um dos poucos homens desse país dedicados ao serviço público e ao povo que o elege repetidamente. É um dos poucos a abarcar o sentido tradicional, grego, do homem público: defensor da polis e seus habitantes, comprometido com os mais altos preceitos morais, desapegado ao dinheiro, cargos e retóricas vazias, determinado a engrandecer o espírito humano e cônscio de que o serviço público, longe de ser um ninho de burocratas, corruptos e preguiçosos, é, sim, o ofício mais alto e mais nobre que um homem pode prestar a sua população e seu país. Mário Covas é assim, sempre foi.

Sua merecida fama de turrão e ranzinza é fruto desse comprometimento inabalável com a causa pública e seu respeito por ela. Só pode flanar e divertir-se com as mazelas de uma população tão carente e sofrida quem está nesse barco a passeio, e Covas não é desses.

Não escrevo aqui obituário, que Covas está muito ativo e, tomara, assim continuará por muito tempo. Mas, se os corvos que pousaram em sua sorte resolverem de lá não decolar, há que se registrar a ternura e a esperança geradas por Covas nessa caatinga infestada de abutres. Covas alça o espírito brasileiro e, se não por mais nada, já por isso merece um pagamento imensurável. Vai, Aquiles, segue a tua batalha. Estamos todos contigo."

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