Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > TIM LOPES, ASSASSINADO

Jorge Antônio Barros

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

TIM LOPES, ASSASSINADO

"Por que ir às ruas por Tim?, copyright O Globo, 3/7/02

"?Abre tua boca em favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre tua boca, julga retamente? (Provérbios 31:8)

A vida do repórter Tim Lopes foi tão importante para a sua geração que sua morte já deixa um legado, um mês depois de ter chocado a sociedade. A maioria da população pode ainda não se ter dado conta, mas o bárbaro assassinato do jornalista da Globo ? torturado, julgado e covardemente executado por facínoras do tráfico, na favela de Vila Cruzeiro, Penha ? já é um divisor de águas.

A história do jornalismo no Rio será dividida em duas: antes e depois da passagem de Tim Lopes. Um grupo de jornalistas e cidadãos de sua geração está convencido de que a cidade não pode ser mais a mesma depois desse episódio. Por isso, os jornalistas estão se organizando ao mesmo tempo em que descobrem a pólvora: chega de assistir a tudo isso de braços cruzados, como meros espectadores ou diligentes documentaristas. É preciso se unir às vozes abafadas nas esquinas e becos pelo matraquear dos fuzis AR-15.

Os jornalistas começam a discutir a possibilidade de agirem como atores sociais, tentando influenciar os poderes constituídos e a própria sociedade, não mais apenas através da palavra, mas também dos atos e atitudes.

Apesar de serem geralmente céticos, os jornalistas nunca duvidaram da força da palavra. Mas começam a dar sinais da insatisfação de disporem apenas de parte da palavra. Eles começam a acordar de um sonho, no qual acreditavam ser possível circular apenas como privilegiados observadores, esquecendo a necessidade de refletirem sobre sua função social e, conseqüentemente, sobre a responsabilidade dos meios de comunicação para o qual são contratados.

O caso Tim Lopes pôs a todos nós, jornalistas, de frente para o crime, sem a chance sequer de ter um corpo estendido no chão. O de Tim está oficialmente desaparecido, o que nos faz reviver, em pleno regime democrático, o drama dos desaparecidos políticos.

O caso Tim Lopes encurralou jornalistas que acreditavam ser possível fingir que a cidade vai bem, obrigado; que o cinismo é a melhor arma para se defender do temporal diário de notícias ruins. O episódio sacudiu, sobretudo, as redações que apostam no jornalismo investigativo como a vanguarda de uma profissão que deveria ser mais empenhada em trazer à tona fraudes, mentiras e corrupção. Nenhum profissional de imprensa consegue ficar imune à dor de perder um companheiro como Tim Lopes, um exemplo de garra e amor ao ofício, um combatente tratado como delator por traficantes.

A morte de Tim se transforma, então, numa semente em terra fértil, capaz de mobilizar diversas gerações de jornalistas. De testemunhas oculares do terror implantado pelo regime militar a repórteres que cobriram o povo nas ruas, pedindo e, conseguindo, o impeachment de Collor.

É por isso que chegou a hora de os jornalistas irem às ruas para se unirem àqueles que já estão lá há tempos, amordaçados, sem direito a erguer a voz, esperando engrossar o rio de gente, num clamor pelo fim da impunidade.

É por isso que passeata adianta, sim. Que me perdoem os céticos, descrentes e cautelosos. Mas o exercício da cidadania passa pela ocupação sistemática e organizada das ruas. Não podemos entregar de bandeja esse território. O das favelas, aparentemente perdido, também precisa ser resgatado. Não podemos permitir que a polícia se venda ou seja frouxa no combate ao crime organizado.

Quem viveu ou ao menos ouviu falar da emoção de passeatas como a dos cem mil, em 68, no Centro do Rio, sabe que é preciso agir. Quem conhece um pouco de história sabe a força que há em manifestações de rua, sejam organizadas ou não. Marcelo Yuka pode estar certo ao dizer que as passeatas na orla não vão cegar os sabres dos Elias Malucos da vida. É justamente por isso que os jornalistas estão empenhados em multiplicar os protestos contra a violência, como ecos de um grito contra o que foi feito de Tim, o repórter chamado Arcanjo.

O movimento contra a morte do jornalista começou na Cinelândia, foi à orla, voltou ao Centro e agora caminha em direção à Zona Norte. A próxima etapa é uma passeata na Tijuca, no domingo. Para quem está no poder, passeatas são sempre um incômodo, porque significam a expressão da insatisfação com os poderes. A passeata é o ajuntamento dos mais fracos que podem se tornar fortes.

Não resta dúvida que o Rio é muito mais do que qualquer Zona Sul. Precisamos de uma passeata contra a violência em cada esquina que ainda não tenha sido ocupada por um bandido armado. Ninguém é maluco de propor trégua aos facínoras do tráfico. Eles fazem o que a exclusão social os levou a fazer. Nós buscamos o pacto social que precisa ser resgatado, para fechar ou ao menos reduzir o fluxo da torneira de ?malucos?, refugiados nas favelas. O que não podemos, aos menos os cidadãos de bem, que resistem à apatia desses tempos, é tolerar que os sabres dos insensatos sejam brandidos sem punição.

Porque assim como a polícia enxuga gelo na favela e surge um ?maluco? no lugar de outro, com seu AK-47 ou seu AR-15 niquelado, assim também hão de surgir mais combatentes como Tim Lopes. Com o apoio de uma resistente rede de solidariedade, de uma sociedade realmente organizada e mais consciente de que é preciso ir às ruas para fazer valer a sua voz. Se passeata não adianta nada, ficar em casa de braços cruzados esperando o dia de votar adianta menos ainda."

"Tributo a Tim", copyright Zero Hora 3/7/02

"Tempos difíceis, esses, para o Jornalismo. Violência e intolerância ultrapassando a perversidade tão nefasta dos interesses econômicos e políticos que limitam essa ação… É como se o jornalista da Rede Globo, Tim Lopes, tivesse sido vítima da própria ?ferramenta? de trabalho. Triste ironia das circunstâncias, afinal ele estava lá porque queria, porque amava a profissão e não para apenas cumprir uma pauta.

O Tim sempre foi um ?indignado? de carteirinha. Sorte de quem o teve como colega, companheiro, chefe… O Tim foi, é e será um exemplo a ser seguido, um professor. Entusiasta, desprovido da vaidade que afeta muitos de nós (principalmente os ?da telinha?), Tim sabia incentivar subordinados e ser fiel a superiores hierárquicos. Para ele, de fato, o que importava mesmo era o resultado da matéria, a repercussão, a opinião pública – combustível que gerava a sua energia profissional.

Tim não queria ser conhecido. Não precisava nem era dado ao brilho dos holofotes. Preferia a discrição dos bastidores. Sorte de muitos repórteres que ganhavam das mãos calejadas de Tim, matérias prontas: imagens de flagrantes, informações precisas, roteiro e produção. Bastava gravar uma passagem, botar a cara e voz, e colher os louros no Jornal Nacional. E cadê o Tim, nessa hora? Provavelmente já estava pensando na próxima subida ao morro, na entrada sorrateira na favela, na denúncia, na investigação, na descoberta… Esse era o Tim.

Pena que o Brasil veio a conhecê-lo de fato pela foto exibida pela TV quando do seu desaparecimento. Tudo porque o Tim tinha essa grandeza de preservar a própria imagem, em nome da reportagem. Pena que esse anonimato tão precioso para o jornalista possa ter sido também seu ?calcanhar de Aquiles? na hora derradeira. Obviamente não o reconheceram ?do vídeo?, provavelmente desconfiaram de sua identidade. Enfim, quem sabe?

Perdem as redações. E perderão os futuros jornalistas que não tiverem um Tim em quem se espelhar.

Nada de bandeiras a meio mastro nem tarjas pretas. O luto que o Tim merece é a indignação, nossa repulsa ao que e a quem ceifou sua vida. O luto que o Tim merece é a cobrança das nossas ?autoridades?, a investigação sobre seu destino, a punição dos responsáveis. O luto que o Tim merece é a coragem para não deixar o jornalismo morrer sentado nas cadeiras das redações, diante de computadores ligados à facilidade da Internet.

O luto que o Tim merece é nossa ação. O luto que o tim merece é que cada um de nós, jornalistas, botemos uma pochete na cintura com uma microcâmera e um microfone sem fio e encaremos a subida aos morros. O luto que o Tim merece é a nossa certeza de que vale a pena lutar pela verdade escondida nos fatos.

A família dele, certamente, saberá suportar melhor a dor se souber que a morte de Tim não foi em vão, pois sua história será para sempre um legado. E ele, lá do céu (é pro céu que vão os heróis) terá motivos para se orgulhar de nós, discípulos de um jornalista que apurava as informações, tim tim por tim tim…

(*) Repórter da Rede Globo."

"Tim Lopes: um mês sem pistas de ?Elias Maluco?", copyright Estado de S.Paulo, 2/7/02

"Há 30 dias, o jornalista da TV Globo Tim Lopes despareceu no Complexo do Alemão, zona norte, aonde fora fazer imagens sobre um baile funk com shows de sexo explícito com menores e venda e consumo de drogas.

Bandidos confirmaram à polícia a morte do repórter, cujos objetos pessoais foram encontrados, queimados, numa cova rasa no alto da Favela da Grota.

Mas, até hoje, os restos mortais não foram encontrados e o principal acusado do crime, o traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, continua em liberdade. Mesmo diante da repercussão internacional – o caso foi contado até pelo New York Times, a polícia não conseguiu achar nem o corpo nem o culpado.

O inspetor Daniel Gomes, da 22.? Delegacia Policial (Penha), que investiga o crime, disse que o resultado do exame de DNA nos mais de 50 fragmentos de ossos encontrados durante as escavações no cemitério clandestino no morro pode sair a qualquer momento. A conclusão de um exame divulgado no dia 21 de junho, que levou 15 dias para ficar pronto, afastou a hipótese de um corpo achado ser do jornalista.

?O exame é científico, demora. Enquanto não sai o resultado, estamos trabalhando para colher as provas necessárias para concluir o inquérito?, disse Gomes.

O chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, já disse que o prazo do inquérito que apura a morte do jornalista, que termina no dia 6, deverá ser prorrogado, caso o exame de DNA constate que os fragmentos não eram dele.

Para Teixeira, o crime já está esclarecido, porque já se sabe quem o cometeu e há provas materiais.

Desde a morte de Lopes, a polícia recebeu 500 denúncias sobre o paradeiro de Elias Maluco, mas todas as operações de busca ao bandido foram frustradas.

Quatro dos oito indiciados no crime estão presos. Eles contaram à polícia que Lopes foi retirado da Favela da Vila Cruzeiro e levado para o alto da Favela da Grota num carro. Antes de morrer, com um golpe de espada, ele levou um tiro no joelho e teve as pernas cortadas, segundo os criminosos. O corpo foi colocado num tonel, ao qual foi ateado fogo.

Reunião – Ontem, a comissão de jornalistas que acompanha o caso Tim Lopes se reuniu mais uma vez e propôs a realização de um seminário com colegas latino-americanos para discutir os riscos do jornalismo investigativo.

Eles criticam a lentidão da polícia para prender Elias Maluco e seus comparsas. A categoria convocou a população do Rio para mais uma manifestação em memória de Lopes, no domingo. Depois da orla da zona sul e o centro, a passeata tomará desta vez as ruas da Tijuca, na zona norte.

Ao meio-dia de hoje, será realizado ato ecumênico em homenagem ao repórter no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro. Foram convidados para a cerimônia representantes de várias religiões. O presidente da ABI, Fernando Segismundo, disse que o ato é um protesto contra a demora na prisão dos assassinos de Tim Lopes."

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