Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > TIM LOPES DESAPARECIDO

Jorge Cecílio

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

TIM LOPES DESAPARECIDO

"Jornalista some em favela", copyright Jornal do Brasil, 4/6/02

"O jornalista da TV Globo Tim Lopes, 50 anos, está desaparecido desde a noite de domingo. Ele foi visto pela última vez quando entrava na Favela Vila Cruzeiro para terminar uma reportagem sobre um baile funk, que seria financiado com o dinheiro do tráfico de drogas e onde haveria exploração sexual de menores. A polícia está investigando a possibilidade de Tim ter sido descoberto e assassinado pelos bandidos da comunidade, uma das mais violentas do Rio.

Ontem pela manhã, policiais da 22? DP (Penha), onde foi registrado o desaparecimento do repórter, foram à favela, controlada pelo traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, um dos chefes do Comando Vermelho (CV). Próximo a uma pequena gruta, foram encontrados restos de um corpo, duas cápsulas de calibre 45, fitas de filme 8 milímetros – diferente do que é usado por microcâmeras – e muito sangue.

O inspetor Daniel Gomes, responsável pelas investigações, vem tratando o caso como desaparecimento. O material encontrado na favela foi encaminhado ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), para que peritos tentem identificar se o sangue é do jornalista. O resultado do exame de DNA com o sangue recolhido no local ficará pronto em uma semana. Para a comparação, o ICCE colherá sangue de algum parente do jornalista. ?Não vamos desistir enquanto não encontrarmos o Tim. Ainda acreditamos que esteja vivo?, disse o fotógrafo Marcos Tristão, amigo do jornalista há mais de 10 anos.

Segundo a emissora, Tim esteve quatro vezes na favela, duas delas com uma microcâmera. No sábado, ele chegou a dormir na Vila Cruzeiro. No domingo, foi deixado pelo motorista de uma cooperativa, Rudman Castro, próximo à entrada da Vila Cruzeiro, por volta das 20h10. Em seu depoimento, Rudman contou que Tim pedira para buscá-lo entre 21h30 e 22h. ?Estive lá e esperei até 0h10. Como o local é perigoso, resolvi ir embora?, contou o motorista. O repórter, segundo ele, vestia uma bermuda jeans e camisa clara de malha.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, Nacif Elias, diz que por enquanto, assim como a polícia, a entidade trata do caso como o de um colega desaparecido. ?Mas independente do desfecho, não se trata apenas de um exemplo de violência contra a nossa profissão. Reflete o clima de insegurança que se vive no Rio e que transmite a sensação de que a cidade pode mergulhar em um clima de guerrilha urbana?.

A coragem de entrar no submundo para denunciar o crime rendeu a Tim Lopes o primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo, em dezembro último. Junto com os repórteres Cristina Guimarães, Tyndaro Menezes e Renata Lyra, ele foi autor da reportagem Feira de drogas, exibida em agosto no Jornal Nacional."

 

"A censura do crime organizado", copyright Jornal do Brasil, 4/6/02

"Em 8 de janeiro, o Jornal do Brasil perguntava: ?Como garantir a liberdade do exercício do jornalismo investigativo num meio onde a exposição dos repórteres é muito grande, a existência do aparato técnico, por menor que seja, é necessária, e que ainda por cima não dispõe de uma cartilha de procedimentos formatada pela experiência desse tipo de jornalismo??

A pergunta vinha a respeito das ameaças que a repórter Cristina Guimarães estaria sofrendo depois que sua série sobre o tráfico de drogas nos morros cariocas – feita em parceria com o repórter Tim Lopes – fora ao ar na televisão. O fato era agravado pelas características do agressor: ?Quem a ameaça são bandidos urbanos comuns. Tornar-se vulnerável a isso é uma gravíssima ameaça à liberdade de imprensa?.

O telejornalismo investigativo pressupõe a existência de um aparato mínimo que o distingue do jornalismo de opinião. É esse tipo de investigação que mudou, de pouco tempo para cá, a face do telejornalismo brasileiro. Ao denunciar – e provar pela imagem e pelo som – atos criminosos a televisão brasileira deu um salto qualitativo. Escapou do oficialismo a que esteve confinada durante quase 40 anos, minimizou relações promiscuas com fontes duvidosas e passou a servir melhor à sociedade.

Repórteres como Tim Lopes acabaram sendo os mais eficazes instrumentos de defesa de uma sociedade carente de qualquer outro tipo de proteção. Jornalistas tornaram-se mais confiáveis que a polícia ou a Justiça. Talvez não devesse ser assim, mas assim o é. Em meio à corrupção deslavada entre os poderosos e a uma autêntica guerra social, alguns jornalistas foram forçados a assumir o papel de heróis que usam as armas legitimas de que dispõem – e que algumas emissoras de televisão, conscientemente, os facilitam. A verdade é que um e outro estão prestando serviços insubstituíveis à cidadania.

O caso da repórter Cristina, alertava o JB, mostra a urgência de se encontrar respostas ao desafio de poder enfrentar os inimigos da população pela mera exposição de seus atos. A suspeita de que tenha acontecido um crime é um golpe contra o dever que a imprensa tem de manter o público informado.

Acossada, a imprensa combativa pode tender a recuar. Não bastasse a censura prévia do judiciário a que recentemente se tornou sujeita, ela passa a sofrer também a censura prévia da bandidagem.

Transformado em terra de ninguém, o Rio vê enfraquecida sua última instância de defesa contra os criminosos. E o telejornalismo combativo corre o sério risco de ceder lugar ao antigo servilismo aos poderosos – talvez ao crime organizado, que é de fato quem detém o poder."

"Traficantes podem ter executado repórter no Rio", copyright O Estado de S. Paulo, 4/6/02

"A polícia do Rio está investigando o desaparecimento do repórter da Rede Globo Tim Lopes, que está sumido desde a noite de domingo, quando foi à Favela Vila do Cruzeiro, na Penha, zona norte, levantar dados para uma reportagem sobre bailes funk promovidos por traficantes. Policiais que foram ao morro ontem à tarde acharam fragmentos de ossos carbonizados que podem ser do jornalista, de 51 anos. O resultado do exame de DNA que vai identificar a ossada deve sair em uma semana.

Segundo o delegado da 22.? Delegacia (Vila da Penha), Sérgio Falante, caso seja confirmado que os ossos são de Lopes, o crime pode ter sido cometido por vingança, já que o jornalista produziu matérias sobre a venda de drogas na Favela da Grota, 1 das 12 comunidades do Complexo do Alemão.

O complexo fica perto da Vila do Cruzeiro. As duas comunidades são dominadas pelo traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, ligado ao Comando Vermelho (CV). Elias é um dos dez bandidos mais procurados do Estado.

A Globo informou ao delegado que o produtor foi deixado no domingo por um motorista da emissora na Avenida Nossa Senhora da Penha, a cerca de 300 metros de um dos acessos à Vila do Cruzeiro. Ele seria apanhado pelo carro às 20 horas, mas teria resolvido ficar mais tempo e pedido para o motorista voltar às 22 horas. O jornalista, porém, não apareceu no horário combinado.

A empresa informou ainda que Lopes esteve na favela por quatro vezes, duas sem microcâmeras e duas com o aparelho – a últimas delas no dia de seu desaparecimento. O sumiço do produtor foi notificado oficialmente ontem pela Globo à polícia.

Fita – No alto do morro, onde existe uma caverna, os policiais encontraram pequenos pedaços de ossos queimados, que foram encaminhados ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Segundo a Globo, ao lado dos ossos havia fragmentos de fita de 8 milímetros, que, de acordo com a emissora, não é usada em microcâmeras.

O delegado disse que, como o caso é de grande repercussão, o resultado do exame de DNA poderá sair em uma semana. Por enquanto, para o policial, nada indica que os ossos sejam de Lopes. A Secretaria de Segurança Pública informou que só vai se pronunciar depois do resultado do teste.

Perto da caverna foram encontradas também marcas recentes de sangue e de tiros. PMs que atuam na favela e acompanharam os policiais civis disseram que os traficantes têm o hábito de torturar e matar seus inimigos usando a técnica do ?microondas?, na qual a vítima é colocada em pneus, que depois são queimados.

Segundo a emissora, Lopes – descrito como ?um de seus jornalistas mais premiados? – fora à Vila do Cruzeiro investigar a denúncia de que drogas e sexo explícito estariam fazendo parte dos bailes funk na favela. Os eventos seriam promovidos por traficantes, suspeitos de aliciar meninas. A nota informa que ?os traficantes armavam um parque de diversões próximo à entrada da favela para atrair crianças e evitar que policiais entrassem atirando.?

Prêmio – A série de três reportagens produzida por Lopes, intitulada Feira de Drogas e exibida em agosto no Jornal Nacional, recebeu o Prêmio Esso Especial de Telejornalismo. As imagens, gravadas com uma câmera escondida, mostravam jovens oferecendo livremente haxixe, maconha e cocaína a quem passava por uma movimentada rua da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, à luz do dia.

Os preços dos entorpecentes eram anunciados aos gritos e havia até fila de compradores. As reportagens mostravam ainda crianças consumindo maconha na rua e bandidos com idades estimadas entre 12 e 20 anos armados com fuzis e pistolas. A PM ocupou o complexo após a exibição da série."

 

"Repórter desaparece", copyright O Globo, 3/6/02

"O repórter da TV Globo Tim Lopes está desaparecido desde anteontem, quando foi visto por volta das 20h na Vila Cruzeiro, favela localizada na Penha. Tim estava produzindo uma série de reportagens sobre bailes funk em bairros do subúrbio do Rio."

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