Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > IMPRENSA CATARINENSE

Jornais ainda relutam em admitir erros

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

IMPRENSA CATARINENSE

Monitor de Mídia (*)

Quando o leitor vai à banca comprar um jornal, o que espera encontrar são informações de qualidade, sem erros, sem distorções, sem incorreções. Mas nem sempre é isso o que ocorre. Levando em conta a pressa inerente ao jornalismo, entende-se que alguns deslizes sejam cometidos. Assim como se espera que sejam corrigidos. Buscando analisar a natureza e incidência dos erros nos jornais catarinenses, este Monitor de Mídia acompanhou as edições do Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia durante os meses de agosto e setembro. Além do acompanhamento do período, foi considerado ainda o diagnóstico realizado em 17 de setembro de 2001, que apontava para mesma questão: como os deslizes são tratados nos jornais locais?

Após uma verificação mais apurada das edições, o que se percebeu é que pouca coisa mudou nos últimos dois anos com relação às erratas. Se antes, elas eram escassas, insuficientes e de pouca visibilidade, neste ano, as modificações se deram basicamente sobre o aspecto visual das retificações. Pelo menos em A Notícia. Entretanto, diariamente, poucas menções a erros aparecem nos jornais, como se estes não errassem.

Trocando as bolas

Das 57 edições do Diário Catarinense, 18 apresentavam retificações (31,5%) ? um aumento de 4,5% em relação a 2001. As correções são publicadas na página do "Diário do Leitor", no final da edição, em box intitulado "DC errou". Muitas apresentavam erros significativos de dados. Um exemplo encontra-se na edição do dia 04/08 corrigindo matéria sobre a dívida do Estado publicada dois dias antes. Na correção, lê-se que "os restos a pagar deixados em dezembro de 1998 eram de R$ 808 milhões, e não de R$ 808 bilhões, como foi equivocadamente redigido". Na edição do dia 19/9, o DC trouxe Lauro Junkes como o presidente da Academia Catarinense de Letras ? Carlos Alberto Silveira Lenzi havia sido colocado como representante desta função e a correção não informa quando o erro aconteceu. Mas esse não foi o único cargo informado erroneamente pelo Diário Catarinense. O ex-senador Casildo Maldaner foi considerado presidente do BNDES quando, na verdade, é presidente do BRDE ? dado retificado em 11/9.

Os erros também podem surpreender. É o que deve ter acontecido com o governador em exercício Eduardo Pinho Moreira, ao ler no DC de 17/9 que havia estado na solenidade de inauguração do museu Weg, em Jaraguá do Sul. Na verdade, não estava presente, como foi retificado na edição do dia 18/9. E até chamada de capa teve seus deslizes. Na edição de 26/08, o DC retificou a notícia publicada um dia antes sobre o local do jogo entre Figueirense e Coritiba: "ocorreu no Scarpelli, bairro Estreito, Florianópolis, e não na Ilha, como constou equivocadamente na chamada de capa de ontem".

Além de informações incoerentes, muitos erros só foram apontados dias depois da publicação. Foi o que aconteceu com o conselho da professora da Univali Valéria Ribeiro. Segundo a matéria "Uso de cartão cresce junto com a dívida" da edição de 17/08, ela aconselhava o uso do cartão e do cheque especial para o parcelamento de dívidas. Quando a retificação foi publicada, no dia 26, o leitor descobre que "os cartões de crédito devem ser utilizados como opção de realizar os pagamentos das compras, e jamais para adquiri-las acima do limite de pagamento. E o cheque especial só deve ser usado em extrema necessidade", segundo a própria professora. Além dos nove dias para o jornal apontar o equívoco, percebe-se que houve dificuldade na interpretação das declarações da entrevistada. Esse intervalo de tempo entre o deslize e a sua retificação compromete a funcionalidade da errata, já que o leitor nem sempre se recorda do que leu há tanto tempo nos jornais. Além do mais, o Manual de Ética, Redação e Estilo da Zero Hora ? que se aplica para todos os jornais do Grupo RBS ? estabelece prazos mais curtos para a retificação.

Informações que há muito tempo são tidas como verdadeiras também apresentaram problemas. Assim, nem mesmo acontecimentos históricos saíram ilesos de erros, como aconteceu na edição do dia 26/8, ao informar que o general Figueiredo assumiu a presidência da República em 1983. No dia seguinte, a nova versão: "O correto é que o presidente reassumiu o posto naquela data (…)". Além disso, pessoas presentes nas fotos não foram corretamente identificadas. Um exemplo é o tucano Dado Cherem, ao ser trocado pelo líder da bancada peemedebista Rogério Peninha Mendonça. Erro apontado no dia 11/8, na coluna de Paulo Alceu.

Afogando em números

Em A Notícia, das 56 edições analisadas, 15 continham retificações (26,7%) ? incidência maior do que os 20% verificados dois anos atrás. Por não possuir um espaço definido para as correções, o jornal tem a possibilidade de retificar o erro na editoria em que foi cometido. Essas correções aparecem em pequenos boxes em tons de cinza, destacando-se na página por contraste. Com relação à natureza destes erros, a maior parte relaciona-se à troca de nomes e números. É o que se percebe na edição de 3/8: "A maior rede privada de farmácias de Santa Catarina é o Sesi, com 80 lojas, e não a Drogaria Catarinense (…)". E, mais adiante: "As cem demissões na indústria naval ocorreram no estaleiro Premolnavi e não no Detroit (…)". Por vezes pequenos, em outras nem tanto. Alguns deslizes podem modificar ? e muito ? a interpretação das informações por parte do leitor. Dois casos merecem ser apontados. O primeiro é a correção feita no dia 15/8 onde se descobre que a ampliação da reserva de Duque de Caxias vai afetar 400 famílias de agricultores e não 400 mil como havia sido publicado no dia anterior. O segundo trata do título da reportagem "Fogo destrói 50 hectares de mata em Blumenau" que no dia 25/9 foi corrigido. "O incêndio atingiu 50 mil metros quadrados" é o que traz a correção. Um número bem distante dos 50 hectares, ou seja, dos 500 mil metros quadrados a que o título se refere.

Em 26/8, AN traz a correção: "Ao contrário do divulgado na página A5 de ontem, o ex-presidente Getúlio Vargas suicidou-se no dia 24 de agosto de 1954 e não no dia 29. Ivete Vargas não era irmã de Getúlio, mas sua sobrinha-neta". O caso mostra que até dados históricos são passíveis de erros nas redações locais. Mas engana-se o leitor que acreditar que esses deslizes ocorrem apenas nos textos internos, uma vez que são mais difíceis de identificar. Há erros também em legendas. Dois destes foram esclarecidos no dia 30/08, página C3. A correção traz que "Ao contrário do que informa a legenda na capa do Anexo de 27/8/2003, não foi o primeiro show que Paralamas do Sucesso fez na Capital após o acidente de Herbert Vianna. A banda esteve no X Music em 20 de junho". E no mesmo box: "Não é Mozart e sim Beethoven que aparece na imagem da arte ?A música ao longo da história?, publicada na capa de 25/8/2003". E os erros na capa não ficaram restritos à do "Anexo", caderno de cultura e artes do jornal. No dia 19/9, foi possível ler que "Diferentemente do que foi veiculado no texto da manchete ?Queda dos juros devolve otimismo à economia?, na capa da edição de ontem, a taxa básica foi reduzida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para 20%, e não para 22%". As colunas também não escaparam das correções. Na coluna "Canal Aberto", assinada por Cláudio Prisco, na edição de 20/9, lemos que "O colunista cometeu um deslize ao registrar que o PT da Grande Florianópolis elegeu a senadora Ideli Salvatti, mas nenhum deputado federal, por isso que Jorge Boeira estaria entrando na região. Na verdade, o deputado Mauro Passos é o legítimo representante do pedaço". Há ainda retificações que não esclarecem o leitor. É o que se percebeu em 12/9, quando o jornal publica que "na matéria sobre os reflexos do 11 de setembro (…) equivocadamente foi colocado o cargo de Walter Marx como diretor da Ultramar", mas não há definição do cargo que realmente ocupa. Correção relativa à publicidade ocorreu apenas uma vez no período analisado e com uma estrutura diferenciada das já citadas. Foi no dia 16/9, página A6: "No anúncio da empresa Casas da Água (domingo), publicado neste jornal (…) onde se lê ?Freezer Vertical Electrolux, com o preço total de R$ 576,10?, deve ser lido ?Freezer Vertical Electrolux, com preço total de 756,10".

Sem padrão de correção

Ao contrário do que ocorreu em seus concorrentes, no Jornal de Santa Catarina, a maior parte das correções refere-se à publicidade. Das 48 edições analisadas, apenas cinco possuem algum tipo de retificação, sendo que destas três tratam de erros ocorridos em anúncios. Assim, surpreende o índice de 10,42% que representa o número de edições com retificações, principalmente quando se compara com os 23% contabilizados em 2001. As erratas do Santa que se referem a informações que foram dadas em matérias encontram-se nos dias 26/8 e 11/9. No primeiro, na página 6B, a correção explica que a tabela de classificação da série B do Campeonato Brasileiro daquela edição é a correta ? já que outra, com erros, havia sido publicada no dia anterior. A segunda, na página 8A, traz que "A proprietária da Agência Portal dos Noivos é Ivanilde de Souza, e não Daniela Ziegler, como foi publicado na reportagem A moda agora é casar em setembro (…). A identificação destes erros pode ter partido de fora da redação, conforme se percebe no detalhe da informação comprometida. Pergunta-se: será que o jornal teve apenas estes dois erros de informação em dois meses ou muitos acabaram passando despercebidos?

Monitoradas 161 edições dos três principais jornais, o que se constata é que as retificações ainda carecem de mais atenção por parte das redações. As erratas ainda são raras nos jornais; quando são publicadas dificilmente conseguem corrigir os deslizes; e mesmo quando saem nas páginas dos diários, não é fácil enxergá-las em meio ao mosaico de textos, fotos e anúncios. Precisão e correção são dois pilares do jornalismo. Ignorá-los é produzir um noticiário inconsistente e que pode ver sua credibilidade atingida. Por uma questão de ética e por uma questão de qualidade, os jornais deveriam atentar mais para isso. Até para não perderem mercado…

(*) Projeto de acompanhamento e crítica da imprensa catarinense produzido por alunos e professores do curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) <
http://www.cehcom.univali.br/monitordemidia
>. Coordenação do professor Rogério Christofoletti

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