Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Jornais na Banda B: conflito de interesses

Por Alberto Dines em 20/07/1997 na edição 26



Todo respeito aos jornalistas. Todo ceticismo às empresas jornalísticas. E, sobretudo, ao atual sistema mediático. Este é um refrão conceitual que este OBSERVATÓRIO repetirá sempre, em todos os casos.

A presença das maiores empresas jornalísticas brasileiras na disputa pela telefonia celular configura um inequívoco, inquestionável e clássico caso de conflito de interesses e uma grave distorção da função social da imprensa.

Se fosse o caso de uma única empresa, o problema ficaria circunscrito à esfera singular da sua imagem e credibilidade. Que os demais veículos poderiam fiscalizar. Mas aqui trata-se de um fenômeno plural, irregularidade sistêmica e institucional, porque envolve o conjunto da grande imprensa, num país cuja desgraça maior é a concentração.

Se os maiores grupos jornalísticos brasileiros estiverem comprometidos com a telefonia celular, em tese, a sociedade brasileira ficará vulnerável, porque os utilizadores destes serviços não poderão contar com a proteção da imprensa, envolvida numa atividade-meio esquecida dos seus atributos primais e constitucionais. Restará à cidadania recorrer ao Ministério Público, já chamado de Quarto Poder, justamente porque a imprensa – no seu conjunto – está perdendo a sua condição de intangibilidade.

Pior: se no país existissem instâncias de discussão – como o Conselho de Comunicação Social – o caso poderia ser ventilado abertamente e assim estariam criados os antídotos naturais e orgânicos para evitar desvios maiores através da oxigenação do debate.

Mas a entidade encarregada de zelar pela credibilidade da imprensa diária – a ANJ – por razões imanentes à sua criação e funcionamento não tem condições de exercer nenhum papel crítico. Razão pela qual contrata consultores do exterior, totalmente descomprometidos com a realidade nacional, para discutir ética, como se este conflito de interesses não fosse um problema fulcral.

O fato de um veículo – no caso, O Globo – comportar-se com elegância e transparência, não escamoteando dos seus leitores a sua entrada numa outra área de interesses, não invalida nem muito menos justifica o perigoso processo de diversificação que está comprometendo a atividade-fim das maiores empresas jornalísticas brasileiras.

E quando alguém do seu alto escalão classifica como “desinformação” a tentativa sadia e legítima de suscitar um debate sanitário em torno do assunto, fica evidente que ainda estamos longe dos padrões mínimos de participação exigidos pelas sociedades pluralistas.

Este OBSERVATÓRIO não entra no mérito das privatizações, nem na falência do serviço público de telefonia, muito menos na benfazeja entrada de investimentos externos. Esta discussão sobre a entrada de empresas jornalísticas em setores não-jornalísticos, por enquanto téorica, pode tornar-se premente dentro de um ou dois anos.

Sugerimos àqueles que só agora estão entrando no assunto consultar o que publicamos anteriormente (Veja a relação das matérias abaixo)

Sugerimos àqueles desejosos de aprofundar a discussão que mandem entrevistar dirigentes do The New York Times, Washington Post, The Independent, The Guardian, Le Monde e El País sobre suas normas empresariais no que toca à diversificação. Se preferirem, façam uma vídeo conferência – estamos às ordens.

Até lá, dentro do escopo que gerou a criação deste OBSERVATÓRIO, continuaremos atentos e atuantes. Com a mesma urbanidade e firmeza dos nossos críticos.

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