Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > CASA DOS ARTISTAS

Jornal do Brasil

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

CASA DOS ARTISTAS

"De Gretchen a Narcisa" copyright Jornal do Brasil, 16/12/01

"Vai ser uma noite e tanto. ??A prefeita confirmou presença na casa, ao lado do senador Eduardo Suplicy??, garantiu a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo. Espera-se ver, ao fim do programa, quando todos os convidados encontrarem os participantes, uma grande comoção, com direito a lágrimas tanto de cantores de pagode quanto do dono de uma cadeira no Senado.

É bom lembrar que antes do contato com um dos membros do Legislativo, o programa circulou pelo âmbito do Judiciário. No dia seguinte ao da estréia da produção, a Globo processou o SBT por plágio do Big brother, formato que a emissora comprou da empresa holandesa Endemol. Uma liminar tirou a Casas dos artistas do ar por dois dias, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo liberou a exposição dos então quase famosos, com direito a câmeras exibindo suas imagens 24 horas por dia através da Directv. A Globo ainda tentou um recurso contra a decisão, negado uma semana depois.

Com carta branca da Justiça, sucessivas vitórias sobre o Fantástico – que até então nunca tinha perdido no ibope – e, mais recentemente, sobre o No limite, o SBT já anunciou a segunda versão de Casa dos artistas. Nos bastidores, comenta-se que o programa deve ir ao ar no dia em que a Globo decidir estrear seu Big brother, que terá anônimos como participantes. A casa de Silvio, no entanto, deverá continuar hospedando celebridades. Mesmo assim, não faltam candidatos desconhecidos fazendo campanhas. Gente como o desenhista Yabu ou o humorista Rey Biachi, que bombardeia o Brasil com e-mails implorando por um voto no site do SBT.

Mas o povo quer mesmo é celebridade. Essa gente que sorri para as câmeras de Caras ou revistas mais baratas. Por isso despontam nas enquetes de sites da internet nomes como Gretchen e Jorge Lafond. A coisa pode ficar bem mais divertida, caso uma dos nomes sondados pelo SBT aceite o convite. A socialite Narcisa Tamborindeguy decide esta semana se topa participar da próxima fase do programa. ??Fui procurada por um assessor do SBT, mas acho que só vou se melhorarem o nível dos participantes. Tem que ter um professor, um catedrático, para que conversemos sobre filosofia, assim a gente passa o tempo e fica mais culto??, diz Narcisa. Mas as exigências da moça podem ir por água abaixo diante de uma ameaça que recebeu. ??Minha filha disse que se eu não aceitar, vai ficar sem falar comigo enquanto durar o programa??, revela. A seguir, cenas do próximo capítulo da novela da vida real."

"Vale a pena ver de novo" copyright Jornal do Brasil, 16/12/01

"Logo na primeira semana, as imagens de banhos coletivos – homem com mulher/mulher com mulher – exibidas em Casa dos artistas, deram a dica de que bom comportamento não ia ser a tônica para a lavada que o programa pretendia dar na Globo.

Supla foi eleito o queridinho do público, de Bárbara Paz – com quem passou metade do tempo se agarrando embaixo do edredon, dentro da piscina, na rede, na chuva, na cabana… – e de Silvio Santos. Fez música para subir o ibope e virou herói do programa.

Mais que Supla, o fortão Alexandre Frota foi a revelação do programa. Posou de bad boy, desistiu do jogo, voltou para a Casa com cachê maior que os outros, tomou banho sem sunga, relançou a fita de vídeo em que aparece pelado em uma revista gay, compôs 14 músicas em parceria com Supla e ainda abarrotou os ouvidos dos telespectadores com sua filosofia de academia de musculação (??quem gosta de beleza interior é decorador??). No fim do jogo, o bad boy foi bom e se deu bem.

Vilã do time feminino, Núbia Ólive fumou bastante, trocou luxúria por luxo ao falar dos sete pecados capitais e saiu depois de uma rasteira de Alexandre Frota.

Sexta-feira era dia de festa temática na Casa dos artistas. Teve Anos 70, 1001 e noites, luau, etc. Na primeira, Bárbara tomou uns gorós, tomou coragem e tascou um beijo de língua no Supla. ??Até que enfim??, desabafou depois.

Nem todo mundo é ator no elenco da ??novela da vida real?? – como diz Silvio Santos. Pelo menos não era. Algumas atuações impagáveis: a Marilyn Monroe de Mari – mesmo sem a loura saber falar inglês para dublar, seu maior medo -, a mulher-gato e a Liza Minelli de Bárbara Paz, o Frank Sinatra de Carrieri e a Rogéria de Patrícia Coelho. Isto sem contar a desinibida Nana Gouvêia e a dúbia Núbia Ólive em versões de Frota – de top e minissaia – mais autênticas que as próprias.

Namorada do pagodeiro Vavá, Mari Alexandre chorou, retocou a raiz do cabelo louro, chorou, imitou Marilyn Monroe, chorou, retocou a raiz do cabelo louro, imitou Marilyn Monroe e… chegou à final.

Em sete semanas, todo mundo teve direito a um ataque de pelanca. Alexandre Frota chamou Mari Alexandre de pata – e ela chorou. Bárbara brigou com Mari – que chorou de novo. Supla se estranhou com Taiguara quando ele tentou encarnar o personagem negro-da-periferia. Bárbara encostou Supla na parede para conversar sobre o relacionamento. Matheus Carrieri – além de pedir a Taiguara para deixar o ??espelhinho para fazer o baratinho?? – ficou irritado com Patrícia Coelho, berrou, gritou, xingou, quebrou cadeira e acabou eliminado pelo público.

Por pouco não foi preciso legendar as gírias de Casa dos artistas. Bárbara Paz ??pagou pau?? por estar muito apaixonada por Supla. A ??chapa esquentou?? entre Patrícia Coelho e Matheus Carrieri. Todo mundo tinha, ??tipo assim??, uma ??parada para resolver??, ??tá ligado, bróder!??.

Conhecida como ex-namorada do ex-MTV Marcos Mion, Patrícia Coelho começou chocha até que deu vazão à tara por Alexandre Frota. Fez bolo para ele, fez massagem no pé dele, lavou a roupa dele e, com ele, em um clima de mão naquilo e aquilo na mão embaixo do edredon, teve seus minutos de fama como a ??escravinha do Frotinha??.

Mestre de cerimônias do programa aos domingos, Silvio Santos mostrou que é o dono da casa. Fez dobradinhas com Supla, garantiu boas piadas com o pôster de um supostamente avantajado Alexandre Frota, arrancou confissões indiscretas dos participantes eliminados e ainda bolou estratégias de concorrência no ar, exibindo comerciais junto com o Fantástico, da Globo."

"Atores de ?Casa? foram ótimos personagens de si próprios" copyright Folha de S. Paulo, 14/12/01

"?Vamos tentar mudar de assunto? foi a frase mais dita na última semana. Impossível. Minutos depois, voltava-se a falar de ?Casa dos Artistas?. Porque, quando tudo parecia cair no marasmo típico de fim de novela, a chapa esquentou, meu ?bródi?.

Na segunda-feira, Alexandre Frota e Patrícia Coelho fizeram gestos inconfundíveis sob o edredom, ao som da versão de ?My Way? de Sex Pistols, depois de 40 capítulos em que os dois embaçaram. Na terça, Supla chorou pela primeira vez na ?Casa?.

Se o coração do teatro é o personagem, e a alma é o ator (Stanislavsky), o SBT teve muita sorte na primeira edição de seu ?reality show?: seus atores foram ótimos personagens de si próprios.

Supla vencerá a gincana. O herói em busca da verdade e da justiça, como Hamlet, aquele que foi atormentado pelo fantasma do pai e pelos novos caminhos da mãe, será coroado por ter se mantido fiel a seus princípios.

Frota, esta máquina procriadora movida a açaí, humanizou-se no final. A mistura de Lady Macbeth com Caliban, o bruto de ?A Tempestade?, deu o tempero shakespeariano ao programa com suas intrigas e seduções. Sua figura é muito polêmica para vencer.

Patrícia correu por fora e se revelou tarde demais. Todos gostavam dela. Frágil e carente, era uma Julieta sem o seu Romeu.

Bárbara Paz talvez merecesse o prêmio. Seu passado trágico angariaria votos. Sempre rindo e chorando, intransigente, errou no final: como uma megera indomada, cobrou do herói uma transparência difícil de ser conquistada. E Mari só chorava…

Será que há realidade no ?reality show?, em que uma penca de câmeras grava tudo? Um: quem se importa? Dois: alguém sabe o que é ser real, diante de alunos, de amigos ou da própria imagem refletida no espelho?

Se a trama lembrou Shakespeare, a montagem, o ritmo, por vezes, lembrou o teatro de Peter Brook, cujo gesto mínimo é superdimensionado, e em cuja lentidão está a essência da busca pelo sentido da existência humana.

A dificuldade de verbalização dos personagens criou diálogos presos ao caos, como em Bergman, porque assim caminha a humanidade: alguém sabe expor com clareza aquilo que sente?

Ironicamente, ?Casa dos Artistas? é uma lição de dramaturgia. Ou a prova cabal do desgaste e das limitações do gênero. O buraco de fechadura do SBT conquistou o brasileiro, especialmente pelo debate sobre ética e privacidade.

No Brasil das ocas, senzalas, praias, favelas e cortiços, em que o povo se toca, exibe-se com naturalidade, não faz sentido estabelecer limites para a privacidade, faz?"

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