Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Jornal do Brasil

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98

ASPAS

CASO PIMENTA NEVES

"Jornalista tem novos advogados", copyright Jornal do Brasil, 12/9/00

"O ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e o criminalista Arnaldo Malheiros Filho assumiram ontem a defesa do jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, ex-diretor do jornal O Estado de S. Paulo, que matou com dois tiros, em 20 de agosto, a ex-namorada Sandra Gomide. Eles substituem Antônio Cláudio Mariz de Oliveira e Roberto Podval, que abandonaram a defesa alegando interferência excessiva de parentes e amigos.

Contratados pela família do jornalista, Dias e Malheiros estiveram ontem com Pimenta, preso há oito dias em uma cela especial de nove metros quadrados do 77° Distrito Policial, no Centro de São Paulo. O jornalista divide a cela com o vereador cassado por envolvimento com a máfia dos fiscais Vicente Viscome e com o estudante Matheus da Costa Meira, que no ano passado matou três pessoas a tiros no cinema de um shopping da capital.

Ao deixar a delegacia, Dias e Malheiros afirmaram temer pela vida do seu cliente, que, segundo eles, está em ‘estado profundamente depressivo’. Mas descartaram a possibilidade de alegar insanidade mental de Pimenta.

Os novos advogados garantiram que estarão com o jornalista no depoimento marcado para amanhã no Fórum de Ibiúna, cidade onde ocorreu o crime. ‘Vamos acompanhar todo o processo’, disse José Carlos Dias, cujo cliente será interrogado pela juíza da 1ª Vara Criminal, Eduarda Maria Romeiro Correa. O advogado Antonio Carlos Mariz de Oliveira continuará acompanhando o pedido de habeas-corpus que tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo.

A previsão do vice-presidente do tribunal, desembargador Maurílio Gentil Leite – que já havia negado o pedido de liminar que antecipava o hábeas -, é de que o julgamento do habeas-corpus ocorra em 20 dias. De acordo com o ex-ministro, ainda deverá ser julgado pelo Tribunal de Justiça o mérito do pedido de habeas-corpus, que pode levar à transferência de Pimenta Neves da prisão para uma clínica psiquiátrica.

Em 1988, José Carlos Dias atuou na defesa de Jorge Bouchabky, cujos pais foram mortos às vésperas do Natal no duplo assassinato conhecido como o Crime da Rua Cuba, em São Paulo."

"O crime do jornalista que virou notícia", copyright O Globo, 12/9/00

"Um jornalista que vira notícia policial é quase como o padre ateu ou o advogado assassino – como o Leopoldo Heitor, lembram-se? Há algo de apóstata no Pimenta Neves. Muitos jornalistas se sentiram ameaçados, pois o mal é uma virose que pode atingir a todos. Baixou a angústia nas redações: ‘Ele nos enganou! Convivemos com ele, puxamo-lhe o saco, ouvimos suas críticas e ele ali, impostor, tramando sua viagem purificadora para a prisão! Se ele matou, será que eu também posso matar?’. Lembramo-nos que há entre nós e a loucura um fino limite, aprendemos que o sujeito já é assassino muito antes do crime. Ele era elogiado por seu estilo severo, implacável; era um dirigente sério e cheio de princípios. Os paranóicos são, em geral, bons chefes. Vêem tudo, controlam tudo, sempre têm razão. Matam com ‘razões’. Foi frustrante não ver o criminoso debulhado em lágrimas; sua tentativa de suicídio foi simulada, faltou-lhe o desespero da culpa, faltaram-lhe os pulsos sangrando, os gritos de arrependimento. Sua história com Sandra mostra que ele não matou por amor; matou porque ela descumpriu suas ordens, matou para punir a indisciplina de sua subordinada.

Pimenta acabou com a seriedade ‘objetiva’ do jornalismo recente. O diretor de redação ‘pira’ de repente e refaz a edição, colocando o fait divers na primeira página. E mais: Pimenta controlou tudo, desde o homicídio planejado, com balas ocas de melhor impacto, até o teor dos textos que seriam publicados sobre ele. Seu depoimento gravado em câmera oculta mostra-o como que dirigindo uma reunião de pauta no jornal. O crime de Pimenta foi uma verdadeira expedição punitiva – ele queria agravantes, queria se confessar (ele tinha um punhal com cabo de soco-inglês e luvas cirúrgicas… Em que negro ritual usaria as luvas sangrentas?). E mais ainda: creio que Pimenta queria matar e ser condenado; ele precisava desta viagem radical ao inferno da realidade, e não mais sua interpretação jornalística. O paranóico não sente culpa porque mata; mata, porque sente culpa.

Conheci uma louca que estrangulou a outra no sanatório e declarou sorrindo: ‘Nunca me senti tão bem, foi um alivio…’ Este crime mostra que no Brasil há dois tipos de criminosos: os sujos e os limpos. Este crime hediondo do jornalista é, apesar de brutal, um crime ‘limpo’. Não há miséria que o justifique, nem ignorância, nem ‘crack’. É um crime que nos inquieta, desestabiliza. O crime sujo nos conforta – é apenas a prática de desgraçados que reafirmam a lógica do mundo branco. O crime sujo nos exclui, o limpo nos inclui. O crime sujo nos absolve. O limpo nos incrimina. Temos um discreto alívio, diante do horror que só atinge os miseráveis.

Pimenta nos faz mal. Precisamos que ele seja louco de pedra, mas ele não é. Ou então, que ele tivesse algum motivo ‘justo’. Seu advogado, claro, imaginou esta tática: a vítima seria o réu e ele precisava de cuidados psiquiátricos. Sandra seria uma sedutora cruel, uma Carmen e ele um pobre amante carente, privado dos sentidos. Por quê? Teria ele sido possuído pelo espírito de um crioulo assassino, desses que são empilhados em celas coletivas e que não merecem ‘cuidados psiquiátricos’?

Hoje, o pior castigo para um rico é ir em cana junto com os pobres. Tudo… menos o supremo horror de conviver com os assassinos de periferia. Este é o verdadeiro racismo brasileiro: quem rouba 169 milhões vai para cela especial; quem rouba 200 reais vai para a cana dura da ‘boca-do-boi’. Outro dia, numa cela coletiva do Carandiru, Maluf falava numa TV, ao fundo. E o malandro se lamentando: ‘O que dói é ver esse cara lá fora e nós aqui!…’

Algum dia, no futuro, lembraremos desses calabouços indescritíveis como dos navios negreiros – as condições escrotérrimas da vida carcerária viraram um brinde sinistro, um ‘algo mais’ para punir os criminosos. Assim como a crueldade extrema legitimava a escravidão, pela deliberada ‘animalização’ dos negros, o sadismo das prisões sacramenta o nosso desejo de que haja este horrendo abismo entre as classes… De um lado, os TRTs e TJs de mármore e ouro; de outro, as enxovias mais sórdidas.

O jornalista Pimenta Neves não foi para uma prisão comum, onde seria morto pela malandragem que não perdoa matador de mulher. Junto com ele, estão outros, protegidos contra a ética dos criminosos proletários: o vereador Vicente Cascogne e o Matheus, o jovem ‘serial killer’ que saiu da tela e matou o cinema. É uma situação dramática extraordinária : três atores do crime brasileiro – o vereador corrupto, o psicopata copiando a violência do cinema americano e o jornalista que virou notícia. Na cela, Pimenta convive com os dois casos que ele, certamente, noticiou meses atrás, com ‘lead’, ‘linha fina’ e ‘copydesk’. Ele saiu do mundo do ‘Bem’ da redação, onde o senso comum condena os excessos, direto para o mundo real, o inferno huis clos do desespero. O que me fascina nesta co-habitação é o choque dos discursos. É uma espantosa peça de teatro a conversa desses três homens – eu daria tudo para ter uma câmera oculta nesta cela.

Hoje, os jornais parecem boletins de economia, mas Pimenta tirou a chata politica da primeira página e nos brindou com o velho jornalismo das paixões loucas. As notícias antigas pingavam sangue. Eram poéticas, operísticas, pintavam a vida com lágrimas e gritos lancinantes. Lembro-me de uma velha manchete sangrenta e sublime de ‘O Dia’: ‘Rasgou a faca o coração da amante que, ajoelhada, implorava clemência!’ A vida era movida por paixões. Bons tempos…"

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