Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CORREIO DA MANHÃ

Jornal não pode desertar de sua missão essencial

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

CORREIO DA MANHÃ

"Retire-se da imprensa o dever fundamental de educar e informar, e em vez do jornal se terá uma folha, impressa que desertou de sua função essencial de formar a opinião pública. Esta é a tremenda responsabilidade inerente à própria vida do jornal independente, e , por isso mesmo,capaz de discernir, de assumir atitudes ditadas pelo interesse, público, de falar francamente ao povo e às m as meias palavras e sem as reservas impostas pelas mil e uma contingências do meio ,das conveniências pessoais ou de suas aperturas financeiras."

Esse é, em linhas gerais, o fundamento da tese que o Correio da Manhã apresentou ao I Congresso Latino-Americano de Publicidade, reunido em São Paulo, em novembro de 1961. O texto apresentado pelo Correio da Manhã foi publicado na edição de 9/11/1961 do jornal e é reproduzido abaixo:


A imprensa brasileira vive hoje dias difíceis. Uma conjuntura econômica extremamente delicada a bloqueia por todos os lados, reduzindo-lhe a capacidade empreendedora, modificando-lhe os padrões de trabalho, diminuindo seu poder de penetração.

Mas, aos graves embaraços financeiros, junta-se mal ainda mais profundo: e o da sua divisão em dois campos ideológicos opostos e irreconciliáveis.

Até ontem,o que dividia a imprensa, aqui, como alhures, eram conceitos ou posições políticas ditadas, quase sempre, pelas preferências de grupos ou facções com maior ou menor ressonância na vida nacional. À tarefa de informar e educar, o jornal somava o direito de assumir a atitude política que julgava mais acertada, atendendo, ou pretendendo atender, ás conveniências superiores do interesse público.

Hoje, não é mas assim. O jornal viu-se obrigado a revestir-se de um caráter missionário para defender ou para repelir conceito ou práticas políticas que se entrechocam em um mundo dominado pela luta ideológica que dividiu a terra em dois grupos antagônicos. As quizílias da política interna de outros tempos cederam lugar a esse embate de princípios, luta extremada de filosofias sociais e econômicas que comandam a "guerra fria" de nossos dias, guerra em que não se mobilizam tropas para as batalhas em campo raso porque ela é travada dia e noite, nas redações, por todos os veículos de expressão do pensamento.

A guerra fria

A paz selada em São Francisco constituiu, apenas, a cerimônia simbólica dos termos de uma vitória e de uma derrota. Mas, na própria conferência já renasceram os desentendimentos que muito cedo dividiram o mundo em outros tantos universos ? o mundo ocidental, o mundo soviético, o mundo asiático, o mundo africano ? para não falarmos também do nosso mundo latino americano, cuja debilidade econômica o coloca numa posição subalterna nos debates travados pelo grandes blocos político-ideológicos.

Todos os fatores que, em outros tempos, e principalmente nas duas ultimas guerras, provocaram o desentendimento entre as nações, persistem,agora mas do que nunca, impedindo e comprometendo o equilíbrio político internacional. Mas, ao passo que antigamente a guerra era considerada como uma continuação da diplomacia por outros meios, hoje a arte da diplomacia nada mais é do que simples instrumentos tático da própria arte da guerra.

O que importa reconhecer, entretanto, é que esta e uma guerra de novo tipo, uma "guerra fria ", como simbolicamente a chamam, e na qual, em sua fase inicial, não há tiros ou batalhas em campo aberto, nem bombardeios de cidade indefesas. O avanço assombroso da tecnologia haveria, forçosamente de modificar, também, a própria técnica de matar de destruir e conquistar.

Essa luta teve inicio na esfera econômica, para poder desarticular o mecanismo essencial do poderio militar inimigo. Ela começou com a batalha da propaganda política, com a espionagem com as restrições impostas ao comércio internacional, com a formação de blocos defensivos e "esferas de influência", com as "cruzadas" das ideologias. Eis ai as batalhas que se ferem hoje, em todos os quadrantes da terra, e da Qual participam, consciente ou inconscientemente, todas as nações e todos os indivíduos, porque a todas e a todos afeta com o mesmo terrível impacto.

Como não podia deixar de acontecer, a economia internacional teria forçosamente, de adaptar-se à conjuntura da guerra criada pelo, fatores políticos. Desconjuntaram-se, assim, as relações normais da produção, da distribuição, da concorrência e do trabalho. O Estado passou a intervir Diretamente na esfera econômica, não mais como um poder supletivo, mas invadindo amplamente o campo da iniciativa privada, impondo normas de exceção, estabelecendo as condições da concorrência condicionando a produção criando ou aniquilando mercados. O intercâmbio internacional passou a sofrer a influência incoercível dos grandes "blocos econômicos".

A relação clássica entre a oferta e a procura tornou-se em grande parte obsoleta. A competição é feita de acordo com preceitos preestabelecidos de concorrência. de quotas ou de preços, sobretudo de "preços políticos", que não guarda qualquer relação com os custo das produção, porque são ditados em função de interesses estritamente políticos. O "dumping", pecado mortal execrado pelas convenções do comércio internacional de outros tempos e praticado sob a proteção sub-reptícia de novos códigos de intercâmbio.

O resultado e que os países de economia primaria, em estado precário de desenvolvimento, sem uma estrutura política estável, muitos deles lutando a ameaça de graves dissensões internas passaram a sofrer as conseqüências de uma política de esgotamento e de penúria crescentes grandemente responsável por essa onda de falso nacionalismo que varre as coletividades subdesenvolvidas, e, em muitos casos as tem conduzido para as manifestações mais exacerbadas contra o abuso do poder econômico, a ingerência estrangeira em seus negócios e a exploração de minorias racionais.

O papel cívico da imprensa

É diante desse panorama dos complexos fenômenos do mundo contemporâneo que a missão da imprensa moderna raramente tem sido observada. O jornal transformou-se no instrumento mais seguro para a solução dos intrincados problemas da estratégia política, no que ela tem de mais profundo, quando o sentido de sua ação precisa penetrar no recesso dos lares, de sua cultura persuadir os indecisos, esclarecer os mestres, difundir conceitos, formular e responder questões de cuja solução adequada dependem paz social, o progresso material dos povos, próprio comportamento das classes dirigentes .

A informação, o noticiário e o comentário escritos em letras de fôrma passaram para a categoria de projéteis de uma luta ideológica, para a qual o jornal e a arma mais poderosa, aquela que alcança maiores distâncias e a que penetra mais fundo, porque manipula o elemento mais precioso da guerra sem tréguas: a opinião pública .

É no instante crucial em que a imprensa brasileira é mobilizada para esse embate histórico, quando tudo dela se exige, em nome de um dever irrecusável, e esse momento crítico que brotam em seu seio, não apenas as dissensões mas rasteiras, fruto de mil e uma frustrações, difíceis problemas financeiros provocados pela inflação desordenada que corrói os frágeis fundamentos de sua economia.

Se a imprensa fosse uma indústria e pudesse resolver seus problemas de pecúnia segundo as fórmulas pelas quais uma fabrica soluciona suas crises, sua situação não seria muito diversa da que neste momento preocupa as classes produtoras, de um modo geral.

Mas, o jornal não e uma fábrica, nem sua redação, uma oficina. O jornal é o elemento básico de informação e educação das massas e das elites. Jornal é reflexão, freio, prudência, mestre experiente dos destinos dos povos, porta-bandeira de suas reivindicações sociais, expressão inteiriça de sua cultura, o símbolo mas alto de seu espírito independência.

Por isso mesmo seus dividendos não se contam em moedas corrente, nem se escrevem nos títulos de seus balanços. Seus lucros se medem pelas suas vitórias, pelas conquistas sociais que promove, pelo êxito de suas campanhas cívicas, pela elevação incondicional de seus propósitos.

Mas, esse templo de civismo é também uma indústria, todas as características econômicas e contábeis de uma indústria. Sua matéria-prima não é apenas talento e cultura a serviço de uma causa. É também esse mundo de coisas materiais de que dependem a composição, a impressão e a distribuição, do jornal moderno, tão distanciado do artesanato de outros tempos.

Ora, quando se considera que as duas únicas fontes legítimas de receita do jornal ? a venda avulsa e a propaganda ? estão condicionadas aos fatores mais aleatórios, facilmente se compreenderá que o equilíbrio financeiro da imprensa é muito mais comum em países de economia estável, onde os elementos de que depende a existência do binômio circulação-propaganda não oscilem com a freqüência nem com a amplitude tão conhecidas em nações ainda em estado incipiente de desenvolvimento industrial.

A crise da imprensa

É o que hoje se verifica no Brasil. A imprensa brasileira debate-se, neste momento, numa crise econômica de profunda conseqüência. Não quer isso dizer que no passado ela tenha sempre vivido sem problemas. Na verdade, nossa imprensa, salvo um punhado de invejada exceção, sempre foi empreendimento de parcos resultados econômicos, auferindo receitas que mal cobriam ? quando cobriam ? despesas sempre crescentes.

Explica-se: até há pouco tempo a quase unanimidade dos jornais brasileiros, e, entre eles, a maioria das grandes folhas cariocas e paulistanas, podia ser apontada como exemplo de puro artesanato intelectual, com todas as suas virtudes, mas também com todos os seus vícios. Mais do que profissão o jornalismo, entre nós, era "bico" ou sacerdócio, quando não uma escada de altos degraus para galgar posições políticas. Nas redações mais respeitáveis, lado a lado dos verdadeiros homens da imprensa ? que sempre os tivemos, e, diga-se de passagem, dos mais insignes ? acotovelavam-se os intrusos os profissionais liberais fracassados, os políticos destronados, os afilhados, que faziam do jornalismo simples pretexto para obtenção de uma carteira de identidade intelectual.

Depois da ultima guerra este panorama se modificou sensivelmente: primeiro porque, passado o conflito, no curto período em que o pais desfrutou de maiores disponibilidades cambias, pôde a imprensa remodelar sua antiga maquinaria; em segundo lugar porque, com a constitucionalização do Brasil, os jornais readquiriram ampla liberdade de movimentos, o que lhes permitiu despertar o interesse adormecido da opinião pública; por último, porque a inflação, a industrialização e a concentração demográfica verificada nas maiores capitais, favoreciam receitas mais vultosas oriundas da propaganda e da venda avulsa, tudo isso, naturalmente, sem falar na contribuição do curso de jornalismo, que já começa a ser valiosa para o aprimoramento do material humano das relações.

Essa transformação foi realizada, em grande parte, graças a posição privilegiada desfrutada pela imprensa, a qual o governo concedia câmbio de custo para todo o material importado, a começar pelo papel e tinta, até as vultosas aquisições de rotativa linotipos e todo o custosa aparelhagem destinada ás oficinas de composição.

Ainda não tinha os grandes órgãos da imprensa nacional concluindo a penosa tarefa de reajustamento de suas economias às novas condições técnicas e financeiras criadas pela busca transformação de suas estruturas industriais, quando a nova lei de tarifas (14/8/1957) lhe cancelou, muito justamente, aliás, a partir de fevereiro de 1958,os valores cambiais sobre os quais repousava sua economia, valores que, em última análise,a imprensa transferia aos seus leitores e anunciantes através da quase estabilização de suas tarifas publicitárias e do preço da venda avulsa.

Certo, a maioria das empresas mais importante do pais já estava reequipada com moderníssimas oficinas e novas instalações.

Mas, não e menos exato que, em regra quase geral, grande parte dessa remodelação fora realizada à custo de empréstimo cujo reembolso se dilatava por largos anos. O pior ? e o mais importante ? é que a brusca amputação da privilegiada situação cambial envolvia o preso do papel importado, matéria-prima que mais ponderavelmente influi sobre os custos de produção do jornal.

Para que se tenha uma idéia do que representou para a economia da imprensa a extinção do câmbio privilegiado, basta alinhar alguns algarismos. A tonelada de papel estrangeiro, basta alinhar alguns algarismos. A tonelada de papel estrangeiro, que em 1957 custava, em média Cr$ 3.800,00, passou a ser adquirida por Cr$ 5.600,00, em fevereiro de 1958, com o novo câmbio de custo: em agosto do mesmo ano subiu para Cr$ 8.300,00; em fevereiro de 1959 avançou para Cr$ 14.090,00 e em agosto para Cr$ 20.000,00.

A instrução n 204, da Sumoc, baixada em março deste ano, agravou ainda mais a situação, elevando o preço do papel importado à altura aproximada de Cr$ 52.000,00, na base do câmbio de Cr$ 300,00, mais as despesas de frete, cobradas em separado.

Quando se sabe que a quota de papel, necessário às edições dos principais jornais brasileiros, não ia além de 20% a 25% dos seus custos de produção, e que hoje representa cerca de 45% a 50%, facilmente se compreende a extensão e a gravidade da conjuntura econômico-financeira que hoje assoberba a imprensa nacional, cujos grandes órgãos cariocas e paulistanos gastam uma média de Cr$ 2,5 milhões por dia, e cujas receitas dependem do movimento publicitário na proporção de 75% .

Acrescente-se a essa delicadíssima posição da imprensa o que para ela representou, posteriormente, a decretação de novos níveis salariais, o reajustamento abusivo das tarifas postais e telegráficas, e teremos uma visão panorâmica da crise que estrangula os jornais brasileiros, forçada, ainda, com a mudança da capital federal para Brasília, a uma despesa desproposital para a manutenção dos seus serviços informativos.

Para minorar o impacto dessa completa subversão de valores, a imprensa compreendeu a necessidade de tomar providências urgentes e, em alguns casos, heróicas. A primeira, foi a elevação, por etapas, dos preços da venda avulsa e das assinaturas, de maneira a não provocar o colapso de suas respectivas circulações. A segunda providência foi o encarecimento paulatino das tabelas de publicidade, operação extremamente delicada, por isso mesmo que os aumentos não poderiam ser uniformes para os três grupos interessados ? matutinos, vespertinos e revistas periódicas ? mas precisavam ater-se às condições específicas de cada empresa e de cada órgão, sabido que o preço dos centímetros-coluna é , ou deveria ser, uma resultante da circulação efetiva do veículo, pudesse ela ser aferida por uma instituição como o projetado Instituto Verificador de Circulação, cuja existência, infelizmente, ainda não é uma realidade entre nós.

Outras medidas complementares foram tomadas, com a finalidade de minorar o peso dos prejuízos. Os grandes órgãos reduziram sensivelmente o numero de suas páginas. A matéria redatorial, selecionada com maior cuidado, foi diminuída em extensão. As despesas promocionais sofreram cortes drásticos.

A reação dos leitores e anunciantes não se fez esperar. Em inúmeros casos, a circulação decresceu, Pela aquisição de menor números de jornais por leitor. Por seu turno, a distribuição da propaganda passou a obedecer a criteriosos estudos de circulação, com notória tendência em favor da concentração dos anúncios nos grandes órgãos e sensível redução de centimetragem.

Assim muito embora os orçamentos de propagandas não tenham até experimentado elevações, o fato é que de pronto se estabeleceu uma sensível diferença entre volume da propaganda exigida pela imprensa, para compensar suas despesas, e aquela que passou a ser distribuída pelos grandes anunciantes.

Ora, quando se sabe que a tendência dos preços da propaganda acompanha a elevação geral dos custos de produção industrial, mais claramente se compreende de reajustamentos de profundidade, tanto no que entende com a feitura do jornal, como o que se relaciona com a própria técnica publicitária e, particularmente, com os critérios de média.

Mas, há mais, como ainda há poucos dias argumentava o Conselho Superior da Associação Brasileira de Agências de Propaganda (circular n? 12, de 19/10/1961), depois de historiar os fundamentos da crise que assoberba os veículos, "o que parece incontestável, numa tal conjuntura, é a intima e recíproca dependência entre a imprensa escrita e falada e as agências de propaganda. Se é verdade que o equilíbrio financeiro dos jornais e das emissoras de radio e televisão, guarda estreita relação com o volume de propaganda distribuídas, não e menos certo que a crise econômica desses veículos se refletirá sobre as agências, uma vez que a propaganda será afetada em sua eficiência pela crise que atinge os meios de divulgação", conclui ABAP.

Aqui entremos no âmago do problema.

Se as relações entre a imprensa e seus anunciantes se mantiverem exclusivamente condicionadas aos fatores que costumam nortear as relações entre as empresas de comércio, neste caso, da falência que hoje ameaça o jornal brasileiro, apenas escapará um punhado de órgãos de economia mais estável, capazes de resistir à fúria do vendaval que vai desenganando todas as esperanças de sobrevivência média e da pequena imprensa. Essa derrocada seria fatal também à estabilidade da democracia em nossa terra, cujo povo correria o risco de viver sob o guante de opinião pré-fabricadas, veiculadas por uma imprensa impossibilitada de transmitir opiniões próprias, com perfeito sentido de sua responsabilidade perante a nação.

A imprensa e a questão social

O grande problema brasileiro reside na questão social, engendrada pela nossa antiquada estrutura agrária, pela inflação que devora as economias da classe média, proletarizando-a, e diminuindo todos os dias os salários reais; pelo paternalismo e pelo policialismo, que confundem questões sociais e comunismo.

A questão social brasileira, como em grande parte, questão social latino-americana, exige solução imediata, mesmo porque essa solução é possível sem revoluções.

O dever da imprensa independente consiste em apressar essa solução ? tarefa imensa ? para a qual precisa mobilizar todas as forças viva da nação, hoje desiludida de seus lideres políticos, sem confiança nos condutores de sua economia e quase desesperançada de melhores dias.

Exata e grande missão imposta em nossos dias a imprensa livre: restabelecer no Brasil o binômio autoridade-confiança, debatendo-se ela, embora, com uma crise interna da qual os aspectos financeiros se revestem de extraordinária relevância, porque para assumir as atitudes que o momento reclama imperiosamente, a imprensa precisa desfrutar de irrestrita independência de opinião.

A imprensa e as agências de propaganda

Essas considerações nos conduzem à compreensão do verdadeiro papel e da irrecusável responsabilidade das agencias de propaganda para o êxito da patriótica tarefa reservada à imprensa.

A esta altura, aos aspectos puramente comerciais da propaganda, como negócio, devem juntar-se sem que para isso precisem ceder lugar, fatores de ordem superior, porque o que está em jogo é a sobrevivência da imprensa livre em nosso pais, da verdadeira imprensa, que não submete as injunções políticas ou econômicas e cujo esmagamento significaria a liquidação da própria nacionalidade, ao correr do martelo dos que a pretendem leiloar.

O homem de empresa, preocupado com seus complexos problemas, assoberbados pela crise econômico-financeira, que se alastra, nem sempre compreende o que para ele próprio significa a obra missionária do jornal nestes dias difíceis. Daí a missão educativa das agencias, tanto mais delicada quanto precisa ser formulada no plano elevado dos postulados cívicos, tão facilmente confundidos ou misturados com os interesses subalternos da política, na sua acepção mais egoísta e pessoal.

Ao emitir tais conceitos perante tão ilustre assembléia, o Correio da Manhã não tem outro propósito que o de procurar estabelecer entre a classe publicitária latino-americana e a imprensa deste continente uma aliança muito mais estreita do que aquela que até aqui selou seus destinos interdependentes. Porque retire-se da imprensa o dever fundamental de educar e de informar e em vez do jornal se terá uma folha impressa que desertou de sua função essencial de formar a opinião pública. Esta é a tremenda responsabilidade inerente à própria vida do jornal, do jornal independente, e, por isso mesmo, capaz de discernir, de assumir as atitudes ditadas pelo interesse público, de falar francamente ao povo e às elites, sem as meias palavras e sem as reservas impostas pelas mil e uma contingências do meio, das conveniências pessoais ou de suas aperturas financeiras.

Some-se a esse espírito de liberdade, o sentido de responsabilidade editorial que deve estar presente em cada linha impressa, e ter-se-á, em toda a sua grandeza, esse quarto poder tutelar dos postulados democráticos, sem cuja existência nenhuma nação jamais pode realizar os desígnios de seu povo.

Os acontecimentos dos últimos anos e a conjuntura social, política e econômica de nossos paises exigem de nós alguma coisa mais do que a preocupação cotidiana de solucionar nossos problemas.

É que passando a viver em um mundo onde ninguém se salvará isoladamente. Ou nos damos as mãos e juntos enfrentamos decisivamente, o inimigo comum, e só assim o venceremos, ou afundaremos coletivamente, porque da luta econômica e política passaremos à luta de classes, capaz, como acredita Toynbee, de desagregar irremediavelmente as sociedades contemporâneas.

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