Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > TELEJORNALISMO

Jornalismo confirmatório, ô, praga!

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

TELEJORNALISMO

Paulo José Cunha (*)

Num pé e noutro, ligeirinho como quem furta: qual a diferença entre telejornalismo e teledramadurgia? Resposta mais rápida do que imediatamente: na teledramaturgia a gente sai com um script e volta com uma gravação. E no telejornalismo a gente sai para uma gravação e volta com um script. Uau! Quando repito para os alunos a frase que inventei pra facilitar a compreensão da diferença básica entre os dois gêneros tenho sempre em mente a velha história da foca (repórter novata, no jargão das redações) que, no primeiro dia de trabalho, saiu para cobrir a eleição de um grêmio estudantil mas voltou dizendo que não tinha matéria porque haviam roubado a urna… Ou seja, não trouxe o script. Ao mesmo tempo, lembro de diretores geniais como Fellini que, ao sentir que o improviso ficava melhor que o texto do roteiro, mandavam copiar o improviso.

Até aqui, tudo bem? Então, corta para a semana passada. Entrada de shopping center de Brasília, 8 da noite. Este repórter (dublê de professor) encaminha-se celeremente para ver se pega aberta a confeitaria para, assim, acrescentar vergonhosos gramas à barriga já um tanto oblonga, quando se depara com uma jovem repórter de tevê arrastando experimentado cinegrafista e um sonolento pau-de-luz (profissional que hoje atende pelo pouco criativo título de "auxiliar").

"? Há quanto tempo, cara! Tudo bem? Estão indo fazer que matéria? ? Tamos indo fazer uma ?cascata? sobre essas variações do dólar. Aliás, Paulo, você bem que podia ajudar a gente, pois vez por outra precisa comprar fitas de vídeo importadas, câmeras, esses troços, e o dólar influencia, né? ? Á vontade, minha fome espera, no que puder ser útil, estou às ordens. ? Pois deixa eu te apresentar, essa aqui é a repórter… ? Prazer, Fulaninha. ? Prazer, Paulo José. ? Pois é, Paulo, me encomendaram uma materinha rápida mostrando que a oscilação do dólar não mexe muito com a vida das pessoas, a não ser quando elas precisam viajar, essas coisas, sabe? ? Sei, mas peraí, menina. Se você for me entrevistar eu vou ter de dizer que mexe sim, tanto positiva quanto negativamente. Quer um exemplo? Ainda outro dia um amigo precisou de um dinheiro urgente e me propôs a venda de alguns dólares. Vendeu-me pela cotação do paralelo no dia. Logo depois, o dólar disparou a subir e, com isso, já ganhei um bom dinheiro com a compra. Agora, o lado negativo. Estou precisando comprar uma câmera semiprofissional dessas novas, digitais. O diabo é que a engenhoca é importada e, com o dólar nas alturas, não está dando pra encarar. Vou ter de esperar a poeira baixar um pouco. ? Então, obrigada, até logo, fica para outra vez. Vamos, gente, senão o shopping fecha. ? Tchau, até mais. Não vai querer gravar nada? ? Não, não é necessário. Eu gravo com outras pessoas lá dentro do shopping."

E picaram a mula. Não entendi nada. A menos que essa minha cara de terrorista da Al Qaida tenha assustado a moça, talvez a explicação esteja no fato de que eu cometi a heresia de ficar contra a pauta que ela havia recebido. Como explicar ao exigente editor que o primeiro entrevistado tinha dado uma entrevista desmentindo a proposta original?

A prova do fim do mundo

Custou mas consegui fazer um nariz-de-cera maior do que aquele do outro dia, foi ou não foi? Tudo para comentar a mania que virou praga tanto em jornal como em tevê de repórter sair com a pauta fechada, com a missão de apenas confirmar uma hipótese, e não de ir atrás da tal de realidade. Até porque a realidade, como a vida, é desigual, e às vezes não interessa muito, por não ser cheia de nuances e não ter as doses industriais de maniqueísmo de fácil assimilação que os editores andam atrás para injetar em seus (tele)jornais. O senador Pedro Simon comentava outro dia comigo que a praga chegou a ponto de repórter entrevistá-lo e, depois de gastar seus preciosos minutos organizando idéias e construindo argumentos, no dia seguinte sair publicada matéria sobre o tema somente com as opiniões contrárias à sua.

É o tal de "jornalismo confirmatório", jornalismo da pauta fechada na redação, que impõe ao repórter a ingrata tarefa de enquadrar a realidade à hipótese do editor. Ora, não interessava à mocinha alguém que, como eu, desmentisse a pauta. Para ela, interessava apenas quem lhe dissesse: "Variação do dólar não influi em nada, só quando a gente viaja." Como eu não ia dizer isso, melhor não me entrevistar, né não?

Dessa forma, cada vez mais as coisas andam se invertendo. É o fim dos tempos, como ouvi outro dia da boca de um pregador solitário, ali na rodoviária. Repórteres saindo pra fazer matéria com o script fechado e roteiristas de cinema se danando a improvisar no set de filmagem são a prova definitiva de que o mundo está mesmo pra se acabar.

(*) Jornalista, pesquisador, professor de Telejornalismo, diretor do Centro de Produção de Cinema e Televisão da Universidade de Brasília. Este artigo é parte do projeto acadêmico "Telejornalismo em Close", coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <pjcunha@unb.br>

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