Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > , SEIS ANOS

Jornalismo, cultura e humanismo

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

OI, SEIS ANOS

Carlos Vogt

A Unicamp, criada há 36 anos, nunca teve um curso de graduação em jornalismo. Optou, em 1994, depois de alguns anos de conversas, consultas, idas e vindas, pela implantação de um Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, ligado ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, o Nudecri, que eu havia criado em 1983.

Antes de terminar meu mandato como reitor da Unicamp, em 19 de abril de 1994, organizamos um grande evento na universidade para anunciar o lançamento do Labjor e apontar os objetivos de sua atuação institucional no cenário da imprensa e da mídia brasileiras.

Cerca de um ano antes, tive a oportunidade de me encontrar com Alberto Dines, um dos idealizadores, junto comigo, do Laboratório, em Lisboa, onde, então, ele vivia, desenvolvendo por lá suas atividades profissionais de jornalista e de pesquisador. Jantamos, conversamos, passeamos, sempre com a agradável, simpática e inteligente companhia da jornalista Norma Couri e fomos, em meio a nobres acepipes e bons vinhos da terra, desenhando, com mais clareza e nitidez as idéias do que depois viria a ser o Labjor.

Estávamos ambos convencidos de que o jornalismo brasileiro não necessitava de mais cursos de graduação, mas sim de atividades de extensão e de pós-graduação que, voltadas para profissionais já graduados de diferentes extrações acadêmicas, implantassem no país uma filosofia de ensino do jornalismo mais próxima do modelo anglo-saxão, como uma prática de múltiplas especialidades, ou, se se quiser, uma especialidade de especialidades.

Multidisciplinar por excelência, o ensino de jornalismo supõe, desse modo, não apenas a oferta da variedade de matérias que o campo de sua atividade deve cobrir, mas também um público estudante que, pela diversidade de formação, possa contribuir, de maneira ativa e interativa, para o bom desempenho dos cursos em suas finalidades pedagógicas e profissionais. E isso só se faz, efetivamente, no nível de pós-graduação, quer em cursos de extensão, de especialização ou de pós-graduação acadêmica, stricto sensu.

Daí a decisão de criar, na Unicamp, o Labjor com o perfil de um programa de programas em que a tônica, além do ensino do jornalismo, estivesse voltada para a formação crítica do estudante de pós-graduação, a partir da agregação e da concentração maduras do conhecimento de diferentes áreas e domínios.

Quando deixei, em abril de 1994, no final de meu mandato, a reitoria da Unicamp, assumi a coordenação do Labjor e, em seguida, a direção executiva do Instituto Uniemp ? Fórum Permanente das Relações Universidade-Empresa, sociedade civil, sem fins lucrativos, criado em 1992 e da qual sou um dos fundadores, juntamente com outros colegas reitores de então e com presidentes de várias empresas importantes no país. A menção ao Instituto Uniemp se explica porque sua relação com o Labjor tem sido importante como parceiro institucional no apoio à idealização e à realização técnica de programas e projetos como o Observatório da Imprensa e o Brasil Pensa, relação que permanece institucionalmente ativa mesmo depois que deixei a direção executiva do Instituto, em agosto do ano passado.

O Observatório da Imprensa, depois do permanente sucesso da versão online, ganhou uma versão televisiva que, como sabemos, veio dar maior visibilidade ainda à visão militantemente construtiva que Alberto Dines imprime ao jornalismo brasileiro, ao observá-lo e ao fazer com que ele próprio se observe de maneira sistematicamente crítica e inteligente.

Hoje, a espinha dorsal das atividades de ensino e pesquisa do Labjor é constituída pelo seu programa de jornalismo científico que oferece, na área, um curso de pós-graduação lato sensu, em parceria com outras unidades da Unicamp e fora dela, e que deverá, a partir do próximo ano, ser também oferecido no formato acadêmico de mestrado.

O Labjor produz em parceria com a SBPC, com o apoio do CNPq e da Fapesp, a revista eletrônica mensal de jornalismo científico ComCiência <http://www.comciencia.br>; tem, bimestralmente, uma newsletter em versões impressa e online; apóia institucionalmente o Observatório da Imprensa; é parceiro do Canal Futura e do Instituto Uniemp para a realização da nova série, com novo formato, do programa Brasil Pensa, cujo nome deverá também mudar e cujas gravações deverão iniciar-se ainda neste semestre; é o responsável técnico, com sua equipe de jornalistas e jovens cientistas voltados para a divulgação científica, pela produção editorial da revista Ciência & Cultura ? Temas e Tendências, da SBPC e da Imesp, também em sua nova fase, com apoio do CNPq e da Fapesp, e cujo primeiro número, sobre a pauta temática "Violência", será lançado na 54? Reunião Anual da SBPC, em Goiânia, de 7 a 12 de julho deste ano.

O Labjor, juntamente com o Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), também integrante do Nudecri, obteve, em 1997, um importante apoio de fomento do Programa Nacional de Excelência (Pronex), do CNPq, para constituição de um Núcleo de Jornalismo Científico (NJC), o que lhe permitiu a implantação e o desenvolvimento dessas várias atividades com linhas claras de pesquisa em relação ao tema da divulgação cultural, científica e tecnológica no país.

Além do apoio do CNPq, através do Pronex, o Labjor tem contado com o apoio indispensável da Fapesp através de seus diferentes programas, em particular o "Mìdia Ciência, Programa José Reis de Bolsas de Jornalismo Científico", que já concedeu 15 bolsas a estudantes de nosso curso, que, em conseqüência, além de sua produção para a revista ComCiência e, agora, para a revista Ciência & Cultura, produziram ou estão produzindo outros tantos trabalhos de divulgação de projetos e de programas científicos e tecnológicos, no Estado de São Paulo.

Há projetos em andamento. Um deles -
"Comunicação e Sociedade: estudos de impactos da C & T & I na mídia e na imprensa" -
encontra-se em fase final de ajustes técnicos para ser apresentado à Fapesp e terá como produtos, desde logo, um Índice Labjor de Ciência & Tecnologia e Inovação (ILCTI), um banco relacional com quantificação qualificada da presença do tema C & T na imprensa e na mídia, que será posto à disposição da própria imprensa, de pesquisadores e estudiosos e do cidadão em geral, curioso pelos assuntos ligados ao tema, além de vários outros subprodutos que poderão constituir-se em importantes ferramentas no tratamento do complexo e instigante tema das relações entre o conhecimento, a sociedade e os meios de comunicação.

Quanto à crença filosófica que nos guiou e tem guiado ao longo desses anos, penso que não me engano se disser que o Labjor e o Observatório da Imprensa compartilham do mesmo fervor juvenil que o escritor inglês Somerset Maugham tão bem estampou na figura de Larry, americano de origem, personagem principal de O Fio da Navalha (The Razor?s Edge), de 1944, quando, no pequeno studio em que vivia em Paris, ao levar Isabel, também americana de Chicago, sua pretendente e pretendida, para conhecê-lo, tem com ela o seguinte diálogo, cuja tradução faço livremente:


?Você não acha que deveria contar-me o que você tem feito em Paris durante todo esse tempo em que está por aí??

?Tenho lido muito. Oito a dez horas por dia. Tenho assistido a palestras na Sorbone. Acho que li tudo o que é importante em literatura francesa e posso ler em latim, pelo menos a prosa latina, quase tão facilmente quanto leio em francês. Grego, é claro, é mais difícil. Mas tenho um ótimo professor com quem eu costumava estudar três noites por semana antes de sua chegada a Paris?

?E isso leva a quê??

?À aquisição do conhecimento?, ele sorriu.

?Não parece muito prático?.

?Talvez não seja e talvez seja. Mas é muito divertido. Você não imagina a emoção que é ler a Odisséia no original. Você simplesmente se sente como se bastasse ficar na ponta dos pés e estender as mãos para tocar as estrelas?.


Não li e com certeza não virei a ler a Odisséia em grego. Mas acho que continua a ser imprescindível na formação profissional dos jovens, além da competência técnica de sua especialização, formá-los também na experiência integral e humanista de que a cultura é um aprendizado e um ensinamento e de que a ponta dos pés do conhecimento nos põe sempre no limiar da sensação de poder tocar o intangível com as mãos.

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