Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Jornalismo de chiqueiro

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

NOTAS DE UM LEITOR

Luiz Weis

Um porco há de ser mais limpo do que uma passagem da matéria "O soldado solitário" (Veja n? 1.827, 5/11/03, pág. 48). Ali se lê que o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, "esperneou feito suíno no abate", ao saber, pela reportagem da edição anterior da revista, ter sido um dos principais alvos da turma da pesada do PT na campanha presidencial, com o vazamento de dossiês incriminadores e uma frustrada tentativa de chantagem. Paulinho era candidato a vice na chapa de Ciro Gomes.

Por sua grosseria e truculência despropositadas ? não há nem sequer um fiapo de informação de que o sindicalista tenha feito uma torpeza com a Veja por causa da revelação e, a rigor, nem teria por que ?, a expressão agride muito mais o leitor do que a própria vítima, tenha ela ou não culpas em cartório.

Nenhum jornal ou revista que afirma respeitar o público tem o direito de expelir um dejeto como esse, na cara de seus desprevenidos leitores, contra quem quer que seja.

Jamais passaria pela cabeça de um editor da Time ou da Newsweek, às quais, nos seus tempos mais megalomaníacos, a cúpula da Veja se referia como "a concorrência", permitir que saísse qualquer coisa do gênero mesmo sobre o americano que matou, confessadamente, 48 mulheres.

Mandando às favas o senso de decoro e os escrúpulos de consciência que ainda pudesse conservar, Veja parece imprimir um novo e degradante significado à palavra jornalismo.

É pouco freqüente na imprensa brasileira notícias do exterior virem acompanhadas, em cima da bucha, por análises de jornalistas também brasileiros.

Menos freqüente ainda é que tenham o fio cortante do comentário de João Batista Natali, da Folha (7/11, página A 9), que ilumina a matéria sobre o palavrório de Bush quanto ao compromisso dos Estados Unidos em fazer do Oriente Médio um oásis de democracia.

Em menos de 80 linhas de coluna, Natali explica por que "Discurso do presidente faz omissões maliciosas", como avisa o título. No caso, a penca de regimes autocráticos ou democracias de pé-quebrado com os quais os Estados Unidos vivem de amores, ignorando os crimes contra os direitos humanos neles cometidos.

"Bush citou pejorativamente Cuba e Coréia do Norte", aponta o texto, "ditaduras comunistas semelhantes à da China, país que Bush, com outras palavras, disse estar no bom caminho, já que a economia de mercado levaria à emergência da democracia política". (Sobre isso, o Estado de S.Paulo publicou em 2/11 um artigo de primeira do comentarista Anatole Kaletsky, do Times de Londres, que rendeu um cético editorial dois dias depois.)

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