Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Jornalismo de pilotagem e muita vaidade

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233

TV AÉREA

Paulo Sergio Pires (*)

Venho acompanhando as últimas mudanças no telejornalismo ou jornalismo televisivo, e confesso que tenho ficado chocado. Não bastasse o banho de sangue que encharca as telinhas à tarde, agora há nos vídeos showmen que fazem qualquer coisa para exercitar a vaidade e obter 15 minutos de fama diária.

Num certo programa, um piloto de helicóptero virou repórter aéreo. Além de pilotar habilmente sua máquina de milhões de dólares, fica especulando sobre o que pode ser um atropelamento, um incêndio ou um assalto. Tudo visto de longe, do alto, em nome do espetáculo, do ineditismo ou de outro apelo qualquer do marketing da TV. O problema é a falta de uma vigorosa, precisa e real apuração do fato, como manda o massacrado velho jornalismo. Helicóptero é bom, sim, mas para notícias de trânsito.

Fico imaginando por que os motoristas dos carros de reportagem estão sendo marginalizados. Será que os pilotos são melhores repórteres do que os motoristas porque dão asas à imaginação? Acho que o sindicato dos motoristas deveria entrar com ação na Justiça por discriminação. Mas, de fato, quem sai prejudicado é o telespectador, que nem sabe disso, porque seu momento de diversão, lúdico, foi plenamente suprido, como também ao assistir à partida de futebol. Como o negócio televisivo, contudo, cada vez mais é vender audiência, deixe essa bobagem de ética aos puristas, teóricos e outros chatos, que não sabem o que é ganhar dinheiro. O importante é quantos pontos foram conseguidos e por que preço se poderá vendê-los às agências de publicidade e anunciantes.

Quase todos felizes

O mais lamentável é que nossas entidades de defesa de classe ficam imóveis, e nem reclamam com a associação dos pilotos de helicópteros, que estão tirando o lugar de um profissional habilitado para aquele trabalho aparentemente banal, mas que estudou ética e treinou reportagem por alguns anos antes de alçar vôos mais altos. É claro que nenhum jornalista pilotaria aeronaves sem treinamento e horas de vôos necessários. Mas, para ser jornalista hoje basta ser alfabetizado e ter um charme diferenciado, não é mesmo? O resto que se dane…

Zapeando com o controle remoto, deparo-me com respeitável doutor em Medicina. Oncologista de primeira linha, infectologista de última hora, escritor premiadíssimo de livro-reportagem e agora entrevistador e repórter reluzente na área de saúde. Assistindo atento, observo suas perguntas ao colega de um caso clínico qualquer sobre nódulos. O intrigante é que este profissional, de reconhecida competência médica, finge que não sabe as respostas quando pergunta ao colega entrevistado. E, para ficar com traços verossímeis, chega a rebater, na entrevista, algumas perguntas com mais dúvidas sobre o caso. Como se não entendesse minimamente daquilo, ou como qualquer modesto repórter o faria. A primeira coisa que aprendi na faculdade é que o primeiro compromisso do jornalismo é com a verdade, não é mesmo?

Acho que esses programas parecem mais encenação teatral, obra de semificção, se é que existe isso. Mas o novo modelo "telejornalístico" vigente em vários canais poderá ser o caminho corrente da informação televisionada, em que o importante é a forma, e não o conteúdo. Nesse novo mundo o mais desejável é a distração, não a informação. O interesse se volta para a vaidade do emissor, e não à necessidade real do receptor.

E todos viverão felizes para sempre. Menos os jornalistas, é claro.

(*) Jornalista, publicitário e professor universitário

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